Decreto “Ad Gentes” Sobre a atividade missionária da Igreja – Parte 1

Paulo Bispo, Servo dos
Servos de Deus, juntamente com os Padres Conciliares, para perpétua memória do
acontecimento: Decreto sobre a Atividade missionária da Igreja

[Proêmio]

1. Enviada por Deus as
nações para ser “o sacramento universal da salvação”¹, esforça-se a Igreja por
anunciar o Evangelho a todos os homens. Fá-lo a partir das exigências íntimas
da própria catolicidade e em obediência a ordem de seu Fundador. ² Os próprios
Apóstolos, nos quais esta fundada a Igreja, seguindo os vestígios de Cristo,
“pregaram o verbo da verdade e geraram Igrejas”. ³ É dever de seus sucessores
perenizar esta obra, para que a “palavra 
de Deus corra e seja glorificada” 
(2 Tess 3,1) e seja por toda a terra anunciado e instaurado o Reino de
Deus.

 

¹ Conc. Vat. II, Const.
Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, 48: AAS 57 (1965), p. 53.

² Cf. Mc 16,15

³ S. Agostinho, Enarr, in
Ps. 44,23 (PL 36,508; CChr 38,510).

Na presente situação que
condiciona de maneira nova a humanidade, a Igreja, sal da terra e luz do
mundo4, é chamada com mais instância a salvar e renovar toda criatura, para que
tudo seja restaurado em Cristo, e n’Ele os homens constituam uma só família e
um só povo de Deus.

4 Cf. Mt 5,13-14.

Eis por que este Santo
Sínodo, enquanto agradece a Deus pelos preclaros feitos realizados graças a
generosa aplicação de toda a Igreja, deseja delinear  os princípios da atividade missionária e
reunir as forças de todos os fiéis, para que o povo de Deus, avançando pela
estreita via da cruz, por toda parte difunda o Reino de Cristo que domina e
contempla os séculos5, e prepare os caminhos para a Sua chegada.

5 Cf. Ecli 36,19.

CAPÍTULO I: OS PRINCÍPIOS
DOUTRINAIS

[Desígnio do Pai]

2. A Igreja peregrina é por sua natureza missionária.
Pois ela se origina da missão do Filho e da missão do Espírito Santo, segundo o
desígnio de Deus Pai.6

6 Cf. Conc. Vat. II, Const.
Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, 1: AAS 57 (1965), pp. 5-6.

Este desígnio provém do
“amor fontal” ou da caridade de Deus Pai, que é Princípio sem Princípio e do
qual é gerado o Filho e pelo Filho procede o Espírito Santo. Por nímia
misericórdia e bondade Sua criou-nos livremente e além disso chamou-nos
gratuitamente a comunhão de Sua vida e de Sua glória. Generosamente difundiu do
universo, tornar-se-á “tudo em todas as coisas” (1 Cor 15,28), procurando ao
mesmo tempo Sua glória e nossa beatitude. Prouve a Deus chamar os homens não só
individualmente, sem qualquer conexão mutua, a participação de Sua vida, mas
constituí-los num só povo, no qual Seus filhos, antes dispersos, se
congregassem num corpo.7

7 Cf. Jo 11,52.

[Missão do Filho]

3. Este universal plano
divino em prol da salvação do gênero humano não se realiza apenas dum modo
quase secreto no interior dos homens ou por iniciativas, mesmo que sejam
religiosas, nas quais de muitos modos eles procuram a Deus, mesmo as
apalpadelas, para ver se O encontram, apesar de não se achar longe de todos nós
(cf. At 17,27). Pois tais iniciativas devem ser iluminadas e sanadas, embora
por benigna disposição da providência divina possam alguma vez ser consideradas
como pedagogia para o Deus verdadeiro ou como preparação evangélica.8 Para
estabelecer a paz ou comunhão com Ele e a fraterna sociedade entre os homens pecadores,
Deus decretou também entrar na história humana de modo novo e definitivo. Para
isso enviou o Filho em nossa carne, a fim de por Ele livrar os homens do poder
das trevas e de Satanás9 e n’Ele reconciliar Consigo o mundo.10 A Ele, por Quem
também fez o mundo¹¹, constituiu herdeiro de todas as coisas, para n’Ele
restaurar tudo.¹²

8 Cf. S. Ireneu, Adv. Haer.
III,18,1: “Existindo junto a Deus o Verbo, por quem tudo foi feito e que sempre
estivera presente ao gênero humano…”: PG 7,932. Id IV, 6,7: “Desde o início
assistindo o Filho a Sua criatura, revela o Pai a todos a quem o Pai quer, e
quando e como o quer”: ib. 990; cf. IV. 20,6 e 7 (ib. 1037); Demonstratio n.
34: Patr. Or., XII. 773. Sources Chrét., 62, Paris 1958, p. 87; Clemente Alex.,
Protrept., 112,1: GCE Clemens I 79; Strom. VI 6,44,1: GCS Clemens II 453;
13.106,3 e 4: ibid. 485. Quanto à própria doutrina cf. Pio XII; Radiomensagem
de 31-12-1952: Conc. Vat. II. Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, 16:
AAS 57 (1965), p. 20.

9 Cf. Col. 1,13: At 10,38.

10 Cf. 2 Cor 5,19.

¹¹ Cf. Heb 1,2; Jo 1,3 e 10;
1 Cor 8,6; Col 1,16.

¹² Cf. Ef 1,10.

Jesus Cristo foi enviado ao
mundo como verdadeiro mediador entre Deus e os homens. Sendo Deus, n’Ele habita
corporalmente toda a plenitude da divindade (Col 2,9). Segundo a natureza
humana o novo Adão, cheio de graça e de verdade (Jo 1,14), é feito chefe da
nova humanidade. Com o fim de tornar os homens participantes da natureza divina
o Filho de Deus fez-se verdadeiro homem. Mais. Ele que era rico tornou-se pobre
por nós, para que por Sua pobreza nos enriquecessemos.¹³ O Filho do Homem não
veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em redenção por muitos,
isto é, por todos.14 Os Santos Padres proclamam constantemente que não foi
sanado o que não foi assumido por Cristo.15 Ora, Ele assumiu toda a natureza
humana tal qual se encontra em nós, míseros e pobres, exceto o pecado.16
Cristo, santificado pelo Pai e por Ele enviado ao mundo (cf. Jo 10,36), disse
de Si mesmo: “O Espírito do Senhor esta sobre mim, eis por que me ungiu,
enviou-me a evangelizar os pobres, curar os contritos de coração, pregar aos
cativos a libertação e aos cegos restituir a vista” (Lc 4,18); e outra vez:
“Veio o Filho do Homem procurar e salvar o que se perdera” (Lc 19,10)

¹³ Cf. 2 Cor 8,9.

14 Cf. Mc 10,45.

15 Cf. S. Atanásio, Ep. A
Epícteto, 7: PG 26,1060; S. Cirilo de Jer., Catech., 4,9: PG 33,465; Mário
Vitorino, Adv. Arium, 3,3: PL 8,1101; S. Basílio, Epist. 261,2. PG 32,969; S.
Gregório Naz., Epist. 101: PG 37.181; S. Greg. Niss., Antirrheticus Adv.
Apolin., 17: PG 45,1156; S. Ambrósio, Epist. 48,5: PL 16.1153: S. Agostinho, In
Ioan. Ev tr. XXIII,6: PL 35,1585; CCHr 36,236: além disso manifesta assim que o
Espírito Santo nos não remiu, visto que não se encarnou: De Agone Christ., S.
Fulgêncio, Epist. 17,3,5: PL 65, 454; Ad Trasimundum, III,21: PL 65,284: a
tristeza e o temor.

16 Cf. Heb 4,15; 9,28.

É aquilo que o Senhor uma
vez pregou e n’Ele se efetuou, pela salvação do gênero humano, deve ser
proclamado e disseminado até os confins da terra17 a começar por Jerusalém.18
Pois o que uma vez foi realizado pela salvação de todos deve pelo tempo em fora
alcançar seu efeito em todos.

17 Cf. At 1,8.

18 Cf. Lc 24,47.

[Missão do Espírito Santo]

4. Para completar esta obra
Cristo enviou o Espírito Santo da parte do Pai, a fim de que interiormente
operasse sua obra salutífera e propagasse a Igreja. Não há dúvida de que o
Espírito Santo já operava no mundo antes da glorificação de Cristo.19 Mas foi
no dia de Pentecostes que Ele desceu sobre os discípulos para permanecer
eternamente com eles20; que a Igreja foi publicamente manifestada ante a
multidão; que pela pregação se iniciou a difusão do Evangelho entre as nações;
que enfim foi prefigurada a união dos povos na catolicidade da fé mediante a
Igreja da Nova Aliança que fala todas as línguas, compreende e abraça na
caridade todos os idiomas e assim supera a dispersão de Babel.²¹ Como pela
descida do Espírito Santo sobre a Virgem Maria fora concedido Cristo e como
pelo mesmo Espírito descendo sobre Cristo em oração Ele fora
impelido a realização do ministério ²², assim em Pentecostes começaram os “atos
dos Apóstolos”. E o próprio Senhor Jesus, antes de livremente dar Sua vida pelo
mundo, de tal modo coordenou o ministério apostólico e prometeu o envio do
Espírito Santo que ambos sempre e em toda parte estivessem unidos na realização
da redenção. ²³ Para todos os tempos o Espírito Santo “unifica a Igreja na
comunhão e no ministério, dotando-a com vários dons hierárquicos e
carismáticos”.24 Vivifica as instituições eclesiásticas como se fosse sua alma.
25 Instila no coração dos fiéis o mesmo espírito missionário, pelo qual era
movido Cristo. Por vezes previne mesmo visivelmente a ação apostólica.26 E de
vários modos sem cessar a acompanha e dirige.27     

19 Foi o Espírito Santo que
falou pelos profetas: Simb Constantinopol. Denz-Schoenmetzer, 150; S. Leão
Magno, Sermo 76: PL 54, 405-406: “Quando no dia de Pentecostes o Espírito Santo
encheu os discípulos do Senhor, não foi o começo da dádiva, mas acréscimo da
liberalidade: pois também os patriarcas e os profetas, os sacerdotes e todos os
santos que existiram nos tempos antigos foram fortalecidos com a santificação
do mesmo Espírito… embora não tivesse sido a mesma a medida das dádivas”. Também
o Sermo 77,1: PL 54, 412; Leão XIII, Enc. Divinum illud: AAS 1897,650-651.
Também S. João Crisóstomo, embora insista na novidade da missão do Espírito
Santo no dia de Pentecostes: In Eph. C. 4, Hom. 10,1: PG 62,75.

20 Cf. Jo 14,16.

²¹ De Babel e de Pentecostes
falam muitas vezes os SS. Padres: Orígenes, in Genesium, c. 1: PG 12,112; S.
Gregório Naz., Oratio, 41-16: PG 36,449; S. João Crisóst., Hom. 2 in Pentec., 2: PG 50,467; In
Act Apost.: PG 60,44; S. Agostinho, Enn. in Ps. 54,11: PL 36,636. CCHR. 39,664
s; Sermo 271: PL 38, 1245; S. Cirilo de Alex., Giaphyra in Genesium II: PG
69,79; S. Gregório Magno, Hom. in Evang., Lib. 11, Hom. 30,4: PL 76,1222; S.
Beda, In Hexaem., lib. III: PL 91,125. Veja-se além disso a imagem no átrio da
Basílica de S. Marcos, de Veneza. A Igreja fala todas as línguas, e assim reúne
a todos na catolicidade da fé: S. Agostinho, Sermões 266,267,268.269: PL
38,1225-1237; Sermão 175,3: PL 38.946; S. João Crisóst., In Ep. I ad Cor., Hom.
35 PG 61,296; S. Cirilo Alex., Fragm. In Act: PG 74,758; S. Fulgêncio, Sermão
8,2-3: PL 65,743-744. Sobre Pentecostes como consagração dos Apóstolos para a
missão, cf. J. A. Cramer, Catena in Acta SS. Apostolorum, Oxford 1838, p. 24
s.   

²² Cf. Lc 3,22; 4,1; At
10,38.

²³ Cf. Jo c. 14-17; Paulo VI,
Discurso pronunciado no Concílio no dia 14-9-1964: AAS 56 (1964), 807..

24 Cf. Conc. Vat. II, Const.
Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, 4: AAS 57 (1965), p. 7.

25 S. Agostinho, Sermão
267,4 (PL 38,1231): “Faz o Espírito Santo em toda a Igreja o que faz a alma em
todos os membros do corpo”. Cf. Conc. Vat. II, Const; Dogm. Sobre a Igreja
Lumen Gentium, 7 ( com a nota 8 ): AAS 57 (1965), p.11.

26 Cf. At 10,44-47; 11, 15;
15,8.

27 Cf. At 4,8; 5,32.
8.26.29.39; 9,31; 10; 11,24; 28; 13,2.4.9; 16.6-7; 20,22-23; 21,11 etc.

[Igreja Enviada por Cristo]

5. O Senhor Jesus desde o
início “chamou a Si os que Ele quis, e fez que os doze estivessem com Ele para
enviá-los a pregar” (Mc 3,13).28 Assim foram os Apóstolos os germes do novo
Israel e ao mesmo tempo a origem da sagrada hierarquia. Depois que por Sua
morte e ressurreição completou em Si os mistérios de nossa Salvação e da
renovação universal, o Senhor obteve todo o poder29 no céu e na terra. Antes de
ser assumido ao céu30 fundou Sua Igreja como o sacramento da salvação. Como Ele
mesmo fora enviado pelo Pai³¹ enviou os apóstolos a todo o mundo,
mandando-lhes: “Ide, pois, fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os
em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo
quanto vos mandei”  (Mt 28,19s). “Ide por
todo o mundo, e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado
será salvo, mas quem não será condenado” (Mc 16,15s). Daí o dever que cabe a
Igreja de propagar a fé e a salvação de Cristo. Isto em virtude do expresso mandato
transmitido pelos Apóstolos ao Colégio dos Bispos, assistidos pelos
Presbíteros, junto com o Sucessor de Pedro e Sumo Pastor da Igreja; e ainda em
virtude da vida que Cristo infunde em Seus membros. “Por Ele o corpo todo pelo
serviço de cada membro se organiza e se mantém firme e a cada órgão vem
assinada a sua função peculiar; e destarte vai o corpo crescendo até chegar ao
desenvolvimento completo pela caridade” 
(cf. Ef 4,16). Obediente ao mandato de Cristo e movida pela graça e
caridade do Espírito Santo, a Igreja cumpre sua missão quando em ato pleno se
faz presente a todos os homens ou povos, a fim de levá-los a fé, a liberdade e
a paz de Cristo, pelo exemplo da vida, pela pregação, pelos sacramentos e
demais meios da graça. E assim se lhes abre um caminho desimpedido e seguro a
plena participação do mistério de Cristo. 

 

28 Cf. ainda Mt 10,1-42.

29 Cf. Mt 28,18.

30 Cf. At 1,4-8.

³¹ Cf. Jo 20,21.

Esta missão no decurso da
história continua e desdobra a missão do próprio Cristo, enviado a evangelização
os pobres. Eis por que a Igreja impelida pelo Espírito de Cristo deve trilhar a
mesma senda de Cristo, isto é, o caminho da pobreza, da obediência, do serviço
e da imolação de si até a morte, da qual saiu vencedor por Sua ressurreição.
Pois assim na esperança caminharam todos os Apóstolos, e por suas muitas
tribulações e paixões completaram o que falta aos sofrimentos de Cristo por Seu
Corpo, a Igreja. ³² Muitas vezes foi também semente o sangue dos cristãos. ³³

³² Cf. Col 1,24

³³ Tertuliano, Apologeticum,
50,13: PL 1,534; CChr 1,171.

[Atividade Missionária]

6. Esta obrigação deve ser
cumprida pela Ordem dos Bispos presidida pelo Sucessor de Pedro, orando e
cooperando toda a Igreja. É uma só e a mesma em toda parte e em qualquer
situação, apesar de exercida diversamente conforme as circunstâncias. Por isso
as diferenças que se devem reconhecer nesta atividade da Igreja não se deduzem
da íntima natureza da mesma missão, mas das condições em que ela se exerce.

Dependem essas condições ou
da Igreja ou também dos povos, das sociedades ou dos homens aos quais se dirige
a missão. Embora de per si possua a totalidade ou plenitude dos meios de
salvação, a Igreja nem sempre nem logo aplica ou pode aplicá-los todos. Mas no
esforço de efetivar o desígnio divino percebe um paulatino progresso. E as
vezes mesmo após início promissor deve chorar um recuo ou então estaciona num
estado de semiplenitude e insuficiência. Quanto aos homens, sociedades e povos,
apenas gradualmente os atinge e penetra, e assim os assume na plenitude
católica. Por sua vez os atos próprios ou meios aptos devem combinar com
qualquer situação ou estado.

Chamam-se comumente
“missões” as iniciativas especiais dos arautos do Evangelho que, enviados pela
Igreja, vão pelo mundo todo realizando o múnus de pregar o Evangelho e de
fundar a própria Igreja entre os povos ou sociedades que ainda não crêem em Cristo. São realizadas
pela atividade missionária e em geral exercidas em certos territórios
reconhecidos pela Santa Sé. O fim próprio dessa atividade missionária é a
evangelização e a fundação da Igreja nos povos ou sociedades onde ainda não
está radicada.34 Deste modo de semente que é a palavra de Deus, por todo o
mundo surgem as Igrejas particulares autóctones, devidamente organizadas, enriquecidas
também de forças próprias e de maturidade. E dotadas de suficiente hierarquia
própria unida ao povo fiel, e de meios aptos para uma vivência plenamente
cristã, as novas Igrejas colaborem para o bem de toda a Igreja. O principal
meio dessa fundação é a pregação do Evangelho de Jesus Cristo. Com o fim de
anunciá-lo o Senhor enviou seus discípulos a todo o mundo, para que os homens
renascidos pela palavra de Deus35 fossem agregados a Igreja mediante o batismo.
Corpo do Verbo Encarnado, ela se nutre e vive da palavra de Deus e do pão
eucarístico.36

34 Já S. Tomás de Aquino
fala no múnus apostólico de implantar a Igreja: cf. Sent. Lib 1, dist. 16, q. 1, a. 2 ad 2 e ad 4; a. 3
sol.; Suma Teol., la, q. 43, a.7
ad 6; la ilae, q. 106, a.
4 ad 4. Cf. Bento XV, Maximum illud, 30-11-1919: AAS 11 (1919), 445 e 453; Pio
XI, Rerum Ecclesiae, 28-2-1926: AAS 18 (1926), 74; Pio XII, 30-4-1939, aos
Diretores OO.PP.MM.; id., 24-6-1944, aos Diretores OO.PP.MM.: 36 (1944), 210;
outra vez em AAS 42 (1950), 727, e 43 (1951), 508; Id., 29-6-1948, ao clero
indigena: AAS 40 (1948), 374; Id., Evangelii Praecones, 2-6-1951: AAS 43
(1951), 507; Id., Fidei Donum, 15-1-1957: AAS 49 (1957), 236. João XXIII,
Princeps Pastorum, 28-11-1959: AAS 51 (1959), 835; Paulo VI, Hom. 18-10-1964:
AAS 55 (1964), 911. – Tanto os Ss. Pontífices como os Padres e Escolásticos
muitas vezes falam na expansão da Igreja: S. Tom. Aqu., Comm. In Matt., 16,28;
Leão XIII, Enc. Sancta Dei Civitas: AAS 13 (1880), 241; Bento XV, Enc Maximum
illud: AAS 19 (1919), 442; Pio XI, Enc. Rerum Ecclesiae: AAS 18 (1926), 65.

35 Cf. 1 Ped 1, 23.

36 Cf. At 2,42.

Nessa atividade missionária
da Igreja interferem por vezes várias situações: a do início ou da fundação, a
da novidade ou da juventude. Nem mesmo depois disso cessa a ação missionária da
Igreja, pois cabe as Igrejas particulares já constituídas o dever de
prossegui-la e de pregar o Evangelho a todos os que ainda se achem fora.

Ademais, por motivos
diversos as sociedades entre as quais vive a Igreja não poucas vezes sofrem
mudanças radicais, podendo assim surgir condições totalmente novas. Deve então
a Igreja ponderar se essas condições exigem de novo sua ação missionária. Além
disso podem ocorrer circunstâncias que não possibilitam por algum tempo a
proclamação direta e imediata da mensagem evangélica. Nesse caso, com
paciência, prudência e ao mesmo tempo grande confiança, os missionários ao
menos podem e devem testemunhar a caridade e beneficiência de Cristo, e assim
preparar os caminhos ao Senhor e torna-lo de algum modo presente.

Assim é evidente que a
atividade missionária decorre da própria natureza da Igreja. Ela propaga sua fé
salvífica. Expande e aperfeiçoa sua unidade católica. Apóia-se em sua
apostolicidade. Manifesta o sentimento colegial da Hierarquia. Testemunha,
difunde e promove sua santidade. Desta forma a atividade missionária entre as
nações se distingue da ação pastoral exercida entre os fiéis e das iniciativas
empreendidas para restaurar a unidade dos cristãos. Ambas, porém, estão
intimamente ligadas ao esforço missionário da Igreja.37 Com efeito, a divisão
dos cristãos prejudica a sagrada causa da pregação do Evangelho a toda
criatura38, e a muitos impede o acesso a fé. Por exigência intrínseca da missão
todos os batizados são chamados a se reunir num só rebanho. Assim diante dos
povos poderão testemunhar unânimemente a Cristo seu Senhor. Ainda que não
possam plenamente testemunhar uma só fé, convém sejam ao menos animados de
mútua estima e caridade.  

37 É claro que nesta noção
da atividade missionária se incluem também aquelas regiões da América Latina
nas quais falta a hierarquia própria ou a madurez da vida cristã ou a
suficiente pregação do Evangelho. Mas não depende do Concílio, se de fato são
reconhecidos pela Santa Sé como missionárias. Por isso quanto à relação entre o
conceito de atividade missionária e certos territórios, adrede se diz que esta
atividade “em geral” (plerunque) se exerce em certos territórios reconhecidos
pela Santa Sé.

38 Conc. Vat. II, Decr.
Sobre o Ecumenismo Unitatis redintegratio, 1: AAS 57 (1965), p. 90.

[Razões e Necessidade da
Atividade Missionária]

7. O motivo dessa atividade
missionária está na vontade de Deus, que “quer que todos os homens sejam salvos
e venham ao conhecimento da verdade. Porque um é Deus, um também o mediador
entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, que se entregou para redenção de
todos” (1 Tim 2,4-5). “É necessário que pela pregação da Igreja todos O
reconheçam e a Ele se convertam e pelo Batismo sejam incorporados n’Ele e na
Igreja, seu Corpo. Cristo mesmo por sua vez “inculcando com palavras expressas
a necessidade da fé e do batismo39, ao mesmo tempo confirmou a necessidade da
Igreja, na qual os homens entram pelo batismo como por uma porta. Por isso não
podem salvar-se aqueles que, sabendo que a Igreja Católica foi fundada por Deus
através de Jesus Cristo como instituição necessária, apesar disto não quiserem
nela entrar ou nela preservar”.40 Deus pode por caminhos d’Ele conhecidos levar
a fé os homens que sem culpa própria ignoram o Evangelho. Pois sem a fé é
impossível agradar-lhe.41 Mesmo assim cabe a Igreja o dever42 e também o
direito sagrado de evangelizar. Por isso a atividade missionária hoje como
sempre conserva integra sua força e necessidade.

39 Cf. Mc 16,16; Jo 3,5.

40 Cf. Conc. Vat. II, Const.
Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, 14: AAS 57 (1965), p. 18.

41 Cf. Jo 7,17; 8,30 e 44;
8,50; 17,1.

Por ela o Corpo Místico de
Cristo sem cessar reúne e coordena as forças para seu próprio aumento.42 A
caridade impele os membros da Igreja a prosseguirem nesta obra. É neste amor
que amam a Deus e desejam comungar com todos os homens nos bens espirituais da
vida presente e futura.

Enfim por esta atividade
missionária Deus é plenamente glorificado e os homens se beneficiam consciente
e plenamente de Sua obra salutar, realizada em Cristo. Assim se
cumpre o plano de Deus, a que Cristo se submeteu em amorosa docilidade para a
glória do Pai. Este O enviou44 para do gênero humano todo formar o único Povo
de Deus, reuni-lo no único corpo de Cristo e coedificá-lo no único templo do
Espírito Santo. Tudo isto redunda em fraterna concórdia, anelo íntimo de todos
os homens. Desta forma chegara a plena realização o desígnio do Criador, que
fez o homem a Sua imagem e semelhança, quando todos que participam da natureza
humana, regenerados em Cristo pelo Espírito Santo, contemplando com os mesmos
sentimentos a glória de Deus, puderem dizer: “Pai Nosso”.45

44 Cf. Jo 7,18; 8,30 e 44;
8,50; 17,1.

45 Sobre esta sintética
idéia veja a doutrina de S. Ireneu sobre a Recapitulação. Cf. também Hipólito.
De Antichristo, 3: “Querendo a todos e a todos desejando salvar, querendo
assegurar todos os filhos de Deus, e todos os santos chamando a um só homem
perfeito…: PG 10,732; GCS Hippolyt 1 2, p. 6; Benedictiones Iacob, 7: T. U.,
38,1, lin. 4ss. Origenes, In Ioann. Tom. I, n. 16: “Então os que chegarem a
Deus, conhece-l’O-ão por um único ato, guiados por aquele Verbo que esta junto
a Deus. Assim todos os filhos serão acuradamente instruídos no conhecimento do Pai,
como agora só o Filho O conhece: PG 14,49; GCS Orig. IV, 20; S. Agostinho, De
sermone Domini in monte, I, 41; “Amemos o que conosco pode ser levado aqueles
reinos onde ninguém diz: Meu Pai, mas todos ao único Deus: Pai nosso”: PL 34,
1250; S. Cirilo Alex., In Ioann I: “Estamos todos em Cristo e n”Ele revive toda
comunidade humana. E por isso é que é também chamado o último Adão (…) Habitou
entre nós aquele que por natureza é Filho e Deus; e por isso clamamos em seu Espírito: Abba,
Pai! E o Verbo habita em todos num só templo, i, é, aquele que assumiu por nós
e de nós, para que tendo a todos consigo, todos num só corpo, como diz Paulo,
reconciliasse com o Pai”: PG 73, 161-164.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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