De professor universitário a monge beneditino

O padre
Cantera explica sua missão no Vale dos Caídos, Espanha

MADRI, segunda-feira, 24 de
janeiro de 2011 (ZENIT.org)
– Santiago Cantera estava feliz dando aula na Universidade San Pablo-CEU, de
Madri. Pensava em se casar, mas notava por dentro um chamado à entrega absoluta
a Deus. E aderiu à vida monástica. Hoje ele é historiador, pesquisador,
professor e porta-voz da comunidade beneditina da abadia da Santa Cruz do Vale
dos Caídos, fundada nos anos 50 do século XX, com monges vindos da abadia de
São Domingos de Silos.

A página da abadia
testemunha os trabalhos do padre Santiago: http://www.valledeloscaidos.es/abadia.

O monge beneditino responde
a ZENIT não só sobre a sua vocação, mas também sobre o que o rodeia, o tão
discutido memorial do Vale dos Caídos, em São Lourenço do
Escorial, Madri, a 9,5
quilômetros do mosteiro homônimo, na serra de
Guadarrama.

-O que um jovem como
você está fazendo num lugar destes?

P. Santiago Cantera: Eu
entrei no mosteiro aos trinta anos, quando era professor na Universidade San
Pablo-CEU, de Madri. Estava feliz dando aula, feliz com os colegas e na relação
com os alunos. Tinha tudo o que eu podia desejar e estava pensando em me casar,
porque o casamento e os filhos me atraíam muito. Estava aberto para essa
vocação do casamento; tinha namorada.

Mas desde pequeno eu tinha
percebido uma atração muito grande pela vida monástica. Isso foi sempre latente
no meu coração. Naquela altura eu tinha tudo o que podia desejar
profissionalmente, mas também tinha uma sede imensa de Deus, que o mundo lá
fora não me deixava saciar. Eu notava no meu espírito o chamado de Deus, a
vocação à vida monástica, a uma entrega absoluta a Ele.

Por um lado eu resistia,
porque aquilo implicava renunciar a muita coisa que eu gostava e que eu tinha
conseguido, além de projetos para o futuro, como formar uma família. Mas junto
com essa resistência, tinha em mim um desejo misterioso de escutar aquela voz
interior e aquilo me fazia continuar procurando. Eu me retirava para pequenas
temporadas em algum mosteiro. Até que me orientei mais para a cartuxa e fiz uma
experiência. Um sacerdote me recomendou exercícios espirituais: fiz o mês
inaciano e a graça divina me  iluminou. 

Aí começou o trecho final
para esta abadia. Na vida beneditina no Vale dos Caídos eu encontrava a
possibilidade de combinar uma vida monástica contemplativa com um certo
apostolado na basílica, e através da escrita. ou em qualquer âmbito que a
obediência pudesse me indicar.

-Você é doutor em História. Qual é a
sua especialidade? Está pesquisando? 

P. Santiago
Cantera: Estudei Geografia e História na Universidade Complutense de Madri
e me doutorei em
História Medieval.

A tese tratou da ordem da
cartuxa na Espanha dos séculos XV e XVI: é lógico que o tema aumentou o meu
amor por essa ordem e pela vida monástica em geral, e realmente a minha linha
habitual de pesquisa foi nesse rumo.

Fui professor na
Universidade San Pablo-CEU, e também tinha dado algumas aulas como bolsista na
Complutense, além de colaborar num projeto de pesquisa na Real Academia de
História sobre o reinado de Henrique IV de Castela.

Depois trabalhei em várias
outras vertentes e me abri para as áreas do pensamento e do ensaio, ligado
especialmente à Teologia da História e à Filosofia e História das Civilizações,
assim como à Mariologia.

A última pesquisa que eu
terminei recentemente é sobre o conceito de Espanha no Reino Visigodo de
Toledo.

– Vale da Nava, de
Cuelgamuros, dos Caídos. De qual nome você gosta mais?

P. Santiago Cantera: A
Nava, mais do que o vale, é o ponto em que a cruz está assentada e onde a
basílica foi escavada.

O nome original do vale é
Cuelgamuros, que tem várias hipóteses para essa etimologia. É um nome bonito e
faz parte da história e da geografia do lugar.

Mas eu também gosto muito
do nome “Vale dos Caídos”, porque nele repousam os restos de quase 34.000
caídos de ambos lados na guerra civil, segundo os registros (mas muito
possivelmente são entre 50.000 e 70.000). Todos que caíram se enfrentando agora
estão irmanados aqui, da perspectiva da eternidade.

É uma pena que algumas
pessoas prefiram hoje continuar envolvidas em vinganças do passado e não
queiram entender o sentido da reconciliação, que só pode ser alcançada sob os
braços redentores da cruz. Às vezes, coloquialmente, dizemos simplesmente “o
vale”.

-Isso é muito mais do
que um cemitério da guerra ou um museu da memória. Você pode resumir qual é a
missão dos monges beneditinos neste lugar?

P. Santiago Cantera: A
missão essencial dos monges é louvar constantemente a Deus através da oração e
do trabalho, em nome de toda a Igreja e de todos os homens. Além disso, nós
temos neste lugar uma tarefa particular, que é orar pelas almas de todos os
caídos da nossa guerra de 1936-39, tanto os sepultados aqui como nas outras
partes da Espanha, e interceder perante Deus para que Ele derrame sobre a
Espanha a paz e a prosperidade.

Para isso, nós tínhamos
assumido também um papel importante na direção do Centro de Estudos Sociais,
que lamentavelmente foi extinto.

Por
Nieves San Martín

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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