“Cura entre gerações”

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”

D. Estevão Bettencourt, osb

Nº 394 – Ano: 1995 – p. 131

 O livro de Robert DeGrandis supõe que pecados
cometidos e traumas sofridos por pessoas já falecidas estejam atualmente
influenciando a vida dos respectivos descendentes; haveria uma hereditariedade
de males morais e desgraças, que se dissiparia mediante a oração de cura
interior.  Supõe também que haja maldições de antepassados desgraçando a
vida de pessoas existentes na Terra.  Haveria outrossim objetos portadores
de infelicidades …, objetos que atrairiam maus espíritos…

Respondemos que a presumida hereditariedade no plano moral
não existe; cada ser humano  responde por sua conduta pessoal e não pela
de seus ancestrais; cf. Ez 18,2-32; Jr 31, 29s.  Também não existem
objetos contagiados e contagiantes por efeito de maus espíritos; a desgraça e o
pecado não se transmitem por “micróbios ou bactérias
espirituais”.  São Paulo, em 1Cor 8, refere-se a um caso paralelo ao
que consideramos: os cristãos de Corinto que tinham consciência fraca, não
queriam comer carne que tivesse sido oferecida aos ídolos em templo pagão,
porque a julgavam contaminada, veículo de comunhão com os demônios; o Apóstolo
dissipou esta concepção, dizendo que os ídolos nada são (cf. 1Cor 8,4); por
isto não contaminam os objetos a eles oferecidos.

 

Em suma, o livro de R. DeGrandis professa teorias pouco
fundamentadas na doutrina católica, podendo até confundir-se com teses do
espiritismo.

Está circulando em ambientes católicos um livro que tem
suscitado dúvidas e mal-entendidos.  Traz o título “Cura entre
Gerações”1 e deve-se à autoria de Robert DeGrandis, membro da Associação
Nacional de Terapeutas dos Estados Unidos e dedicado ministro da “cura
interior” ou da cura de males espirituais mediante a oração inspirada pelo
Espírito Santo.

O autor cita e segue freqüentemente a linha de pensamento e
ação do Dr. Kenneth McAll, cirurgião e psiquiatra inglês, que escreveu Healing
the Family Tree (Curando a Árvore da Família), “livro capaz de transformar
vidas”.  (p. 3).

Visto que a obra é realmente inovadora, merecerá atenção nas
páginas subseqüentes.

 

1.      OS TRAÇOS PRINCIPAIS DO
LIVRO

1.        Antes do mais,
pergunta-se: que significa “cura entre gerações” ?

Para Roberto DeGrandis e seus seguidores, muitos dos males
que as pessoas hoje em dia padecem, são herança recebida de gerações passadas
(pais, avós, bisavós …).  Por isto, para curar estes males, é preciso
curar a respectiva fonte, isto é, a falha ou a deficiência ainda existente nas
almas dos falecidos.  O Espírito Santo revela aos carismáticos o tipo de
causa que provoca a desgraça das pessoas na Terra.  Após esta revelação, o
cristão carismático faz a prece correspondente para sanar o(a) falecido(a) 
e assim libertar os que sofrem de má herança neste mundo.  São palavras de
Robert DeGrandis:

“O cirurgião e psiquiatra inglês Dr. Kenneth McAll
abriu meus olhos para alguns modos de cura … Ensinou-me a procurar fontes
além dos vivos, para explicar alguns problemas dos vivos.  Mas, enquanto
ele toma um além, e fala de cura dos mortos através das orações dos vivos, não
pretendo focalizar este aspecto.  Orações pelos mortos são, porém, parte
de nossa tradição católica, e creio que este é um campo importante para estudo
… Neste livro falamos da cura dos vivos através de orações pelos
mortos.  Referimo-nos à cura de certos problemas físicos, mentais,
emocionais e espirituais que não têm tratamento” (pp. 17s).

 

“Equipes de oração, usando os dons carismáticos,
descobriram, em meus ancestrais, uma variedade de espíritos e adoração do
culto, assassinato e todo tipo de negatividade que se possa imaginar.  Em
minha família, é longa a historia de brutalidade e de tratar sem amor as
pessoas.  Muitos traços ancestrais de desamor refletiram-se, de certo
modo, em minha própria natureza.  O Senhor tem querido tocar essas áreas
com seu amor e trazer a cura para que eu não aja sob a negatividade não
resolvida de eras passadas.

Quanto perdoo esses antepassados, cortando os laços com seus
pecados, e visualizando-os na presença de Jesus, sinto ser curado.  O
fruto dessa cura é evidente em minha crescente capacidade de relacionar-se com
as pessoas de modo mais solícito e amoroso””(p. 20).

O autor se detém no relato de outros exemplos típicos :

“Tome, por exemplo, uma mulher hipotética, Henriqueta,
que tem um profundo medo irracional de homens.  Esse medo pode estar
ligado a um trauma não resolvido da bisavó, a quem um homem fez realmente
mal.  Isto abre algumas interessantes possibilidades na cura
interior” (p. 17).

“Em 1979, eu estava fazendo cura interior numa senhora
negra.  Ela e suas irmãs tinham um problema sempre que saíam a lugares
públicos.  Homens gravitavam em torno delas, mais do que se poderia
normalmente esperar.  Elas eram todas boas católicas, bastante simpáticas,
mas exerciam uma atração sobre os homens mais do que o normal.

Em oração com ela, tive uma visão do que pensei ser um navio
negreiro.  Porque ela era uma líder madura, e compreendia o processo da
cura interior, continuei em profundidade: “Você está vendo alguma
coisa?”, perguntei.  Respondeu: “Estou vendo um navio
negreiro”.  Quando começou a descrever o que estava acontecendo, eu
também o estava vendo em minha mente.  Podia dizer, pelo estilo do navio e
dos trajes, que estávamos vendo os dias da escravidão.

A senhora descreveu uma mulher, que sentia ser sua
antepassada.  Eu a vi simultaneamente em visão.  Usava um lenço
vermelho em volta da cabeça e era, claramente, muito promíscua.

Imaginamos se a promiscuidade não teria passado abaixo, de
geração em geração.  Consideramos a possibilidade de que a inexplicável
atenção masculina fosse um efeito residual da atividade de sua ancestral
promíscua” (P. 21).

2.               
Mais: segundo R. DeGrandis, pode haver também objetos impregnados de maldição
(como se a maldição fosse um micróbio ou um vírus);  têm que ser jogados
fora.  Tais objetos constituem uma realidade que o livro designa como
“o oculto”.  Eis um caso típico:

“Às vezes, quando estamos fazendo libertação, há
bloqueio devido a um amuleto.  Tive um caso, em certa cidade, em que um
homem tinha uma ardência em sua boca.  Ele tinha estado na Clínica Mayo,
na Universidade de Alabama e na Clínica Lahey em Boston, e nenhuma delas pôde
retirar a ardência de sua boca.  Pus a mão sobre ele, e a primeira palavra
que o Espírito Santo me deu em diagnóstico, foi “oculto”. 
Perguntei-lhe se tinha ido a um curandeiro ou adivinho.  Disse que sim, de
modo que rezei e lhe pedi que renunciasse a ter buscado auxílio em uma fonte
oculta.

Não houve alívio depois que ele fez a renúncia, de forma que
rezei um pouco mais. A próxima ampliação do diagnóstico do Espírito Santo foi:
“amuleto”.  Perguntei-lhe se a pessoa a quem tinha ido lhe dera
alguma coisa.  Disse que recebera um amuleto.  Perguntado se estava
disposto a jogá-lo fora, disse que sim.  Sua esposa o fez.  Rezei de
novo, e a ardência desapareceu.  Isto foi há algum tempo, e a última vez
que o vi,  a ardência não tinha voltado” (p. 45).

Mais outra história exemplar:

“Lembro-me de ter estado numa cidade, onde pessoas
estavam ouvindo vozes à noite.  Pediram-nos que abençoássemos a
casa.  Fizemo-lo, lançando água benta em todos os quartos.  Acredito
que isto tenha resolvido a dificuldade.  Como norma, dever-se-iam procurar
na casa objetos do oculto, e então os donos renunciariam a eles e
queimá-los-iam.  Pedimos a todas as pessoas presentes que renunciassem ao
envolvimento com o oculto.  Amarramos o mal e o expulsamos, numa oração de
libertação normal.  Tenta-se obter a identidade da pessoa que assombra a
casa, e oferece-se por ela o Santo Sacrifício da Missa.  A Eucaristia é
oferecida, quer se saiba, quer não se saiba o nome da pessoa.  Os
moradores então entregam-se ao Senhor Jesus Cristo” (p. 117)

3.               
Segundo o mesmo autor, a desgraça atual pode decorrer também de uma palavra de
maldição proferida por antepassados em desabono das gerações futuras.  São
dizeres de Robert DeGrandis:

“As maldições são outra área servidão que o Espírito
Santo revela com freqüência.  A maioria das pessoas que fazem cura
interior, identificou maldições, muitas vezes de gerações passadas.  Por
exemplo, na parte sul dos Estados Unidos, maldições de vudu são especialmente
freqüentes.  Há efeitos físicos dessas maldições.  Assim como o
Espírito do Senhor pode tocas as pessoas e libertá-las física, psicologicamente
etc., o espírito maligno pode também ligar pessoas na época da maldição e em
futuras gerações.  A quebra das cadeias dessas maldições e a aplicação da
luz e amor do Senhor as libertará na maioria dos casos, desde que não haja
outras formas de “feitiço”.

 

O Dr. McAll conta o caso e uma alcóolatra de 45 anos de
idade, que destruiu totalmente a vida da família com seu vício.  Sua mãe
estava profundamente envolvida com o espiritismo e tentando contar seu falecido
marido.  O Dr. McAll soube que a excessiva bebida da mulher estava ligada
com a maldição de mãe sobre ela, por recusar-se a assinar alguns documentos
legais sem os ler primeiro.  Ele quebrou a maldição sobre ela, ela parou
de beber, e sua vida familiar foi restaurada.  Quebramos uma maldição
orando como segue: “Em nome de Jesus e por sua autoridade, eu venho contra
esta maldição (etc.). Invoco o Preciosíssimo Sangue de Jesus e quebro esta maldição
sobre minha família ou pessoa, no nome de Jesus” .  Esta oração e,
com freqüência, dita três vezes para quebrar a maldição porque, em rebelião
contra a Santíssima Trindade, as maldições são, freqüentemente, pronunciadas
três vezes quando feitas.  É também importante que as pessoas compreendam
porque devem não dar novamente poder à maldição”  (pp. 44s).

4.  É interessante notar a oração que DeGrandis profere
e recomenda aos leitores para afastar os maus agouros ou as desgraças: 

“Coloco-me
na presença de Jesus Cristo, e submeto-me ao seu Senhorio. 
“Revisto-me da armadura de Deus para poder resistir às táticas do
demônio” (Ef 6, 10-11).  Ocupo o meu terreno, “com o cinturão da
verdade em torno da cintura, e a justiça por couraça…” (Ef 6,14). 
Empunho o “escudo da fé” para “extinguir os dardos inflamados do
maligno …”  (Ef 6,16).  Aceito “a salvação de Deus como
meu capacete, e recebo a Palavra de Deus do Espírito, para usá-la como espada”
(Ef 6,17).

No nome de Jesus
Cristo crucificado, morto e ressuscitado, amarro todos os espíritos do ar, da
atmosfera, da água, do fogo, do vento, da terra, de debaixo da terra e do mundo
inferior.  Amarro também a influência de qualquer alma perdida ou caída,
que possa estar presente, e todos os emissários do quartel-general demoníaco,
ou todo círculo de bruxas, magos e feiticeiros ou adoradores de Satanás, que
possam estar presentes de algum modo sobrenatural.  Clamo o sangue de
Jesus sobre o ar e a atmosfera, a água, o fogo, o vento, a terra e seus frutos
à nossa volta, a região abaixo da terra e o mundo inferior.

No nome de Jesus
Cristo, proíbo todos os adversários mencionados de comunicarem-se com outros ou
se ajudarem de alguma forma, ou comunicarem-se comigo, ou fazerem qualquer
coisa senão o que eu mando em nome de Jesus.

No nome de Jesus
Cristo, eu selo este lugar e todos os presentes e suas famílias e associados, e
seus lugares e posses e fontes de suprimento, no sangue de Jesus. (Repetir três
vezes).

No nome de Jesus
Cristo, proíbo quaisquer espíritos perdidos, círculos de feiticeiras ou
feiticeiros, grupos ou emissários satânicos ou qualquer de seus associados,
subordinados ou superiores, de prejudicar ou tirar vingança de mim, minha
família e meus associados, ou causar mal ou dano a qualquer coisa que tenhamos.

 

        No nome de Jesus
Cristo, e pelos merecimentos de seu Preciosíssimo sangue, quebro e dissolvo
toda maldição, malefício, selo, encantamento, feitiço, laço, tentação,
armadilha, instrumento, mentira, pedra de tropeço, obstáculo, ilusão, engano,
diversão ou distração, corrente espiritual ou influência espiritual, e também
qualquer doença de corpo, alma ou espírito lançados sobre nós, ou sobre este
lugar, ou sobre algumas pessoas, lugares e coisas mencionadas, por qualquer
agente, ou lançada sobre nós por nossos próprios enganos ou pecados. (Repetir
três vezes).

Agora coloco a
cruz de Jesus Cristo entre mim e todas as gerações de minha árvore
genealógica.  Digo, no nome de Jesus Cristo, que não haverá direta
comunicação entre as gerações.  Toda comunicação será filtrada no
Preciosíssimo Sangue do Senhor Jesus Cristo” (pp. 9s).4. Em suma, o livro inteiro de R. DeGrandis versa sobre a concepção de que existem
forças ocultas derivadas de artimanhas, trabalhos ou também de pecados dos
antepassados que causam a infelicidade dos viventes deste planeta.  Pelo
que se depreende da oração publicada às páginas 9 e 10 do livro, o autor parece
acreditar na eficácia de feitiços, amuletos, bentinhos, bruxarias,
encantamentos, despachos, etc. – Daí a surpresa de muitos leitores católicos…
Daí também a pergunta:

2. QUE DIZER ?

Proporemos cinco observações:

2.1.  Hereditariedade de males morais e físicos

1.Não se pode dizer que os pecados de familiares falecidos são punidos por Deus
nos respectivos descendentes.  O pecado é de responsabilidade estritamente
pessoal: cada qual responde a Deus por seu comportamento próprio.  É o que
os Profetas do Antigo Testamento ensinaram muito enfaticamente, contradizendo à
tese de que Deus castiga filhos e netos por causa das faltas dos antepassados:

 Jr 31,29s:  “Nesses dias já não se dirá:
“Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos se embotaram”. 
Mas cada um morrerá por sua própria falta.  Todo homem que tenha comido
uvas verdes, terá seus dentes embotados”. Cf. Ez 18, 2-32.

2.Por isto também não se deve dizer que o pecado se transmite como uma doença
física se transmite; não se diga que alguém é hoje libertino(a) em matéria
sexual porque sua avó foi tal.  Existem micróbios e bactérias que
transmitem doenças corporais, sim; mas não existem micróbios que transmitam
doenças do espírito ou do comportamento.

3. Pelo menos motivo não se pode dizer que os traumas, os choques ou os males
sofridos pelos ancestrais perduram no além, como se as almas dos defuntos
continuassem a sofrer as emoções e os sentimentos que sofriam na terra, podendo
ser curadas desses traumas pelas orações de seus descendentes.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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