Conversando sobre os Evangelhos e São Paulo

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 491 – Ano 2003 – p. 237

A Redação de PR tem recebido diversas questões relativas a passagens difíceis da Escritura. Eis as respectivas respostas:

1. “Àquele que tem será dado em abundância; àquele que não tem, será tirado até mesmo o que tem” (Mt 25, 29; Lc 19, 26).

Estes dizeres do Senhor estão inseridos na parábola dos talentos ou das minas. Examinaremos o seu pano de fundo.

Um dos servidores do patrão recebe um talento e, em vez de negociar para fazê-lo render, enterra-o ou guarda-o num lenço. Quando o patrão volta e lhe pede contas, o servidor entrega “honestamente” o dinheiro recebido sem o ter roubado ou perdido. Todavia o senhor se irrita, pois o dinheiro é um bem móvel, que não pode ficar parado; manda então tirar aquilo que tem, para o dar àquele que já tem dez talentos: “Àquele que tem, será dado; àquele que não tem, será tirado até mesmo o que tem” (Lc 19, 26). Que significa tão estranha afirmação?

– Na verdade, todos receberam de Deus alguns talentos, dos quais o primeiro é certamente o tempo; é, sim, no tempo, que sadios ou doentes, ricos ou pobres, preparamos a vida eterna. Muitos, no fim da vida, gostariam de ter mais um pouco de tempo para consertar o que nela tenha havido de falho. Pois bem, há os que possuem talentos e vivem como quem os possui, utilizando-os; produzem boas obras, em conseqüência das quais crescem em perfeição espiritual segundo uma progressão geométrica (2, 4, 8, 16, 32, 64…); dizem os mestres que à vida espiritual também se aplica a lei da Física: “A matéria atrai a matéria na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado das distâncias”; o que quer dizer: quanto mais alguém se aproxima de Deus por sua fidelidade ao Senhor, tanto mais é atraído por Ele; o difícil é o começar; uma vez; porém vencidas as resistências iniciais, o caminhar é cada vez mais acelerado.

Há também aqueles que têm talentos, mas vivem como se não os tivessem; deixam-nos inertes, “enterrados”. São comparáveis a pessoas que têm um braço engessado; este não é amputado, mas, com o tempo, é atrofiado e inutilizado. Paralelamente quem leva uma vida superficial e leviana, arrisca-se a perder o estado de graça, caindo em pecado grave, pois se torna insensível à voz de Deus¹. Na vida espiritual, não é possível estacionar, como dizia S. Bernardo: ou progredimos, reformulando constantemente nossos propósitos, ou recuamos; a vida espiritual é simbolizada pelo dinheiro, que ou cresce ou decresce, principalmente em nossos tempos.

É de notar que o Senhor pode permitir que pessoas tíbias caiam gravemente ou percam a graça santificante, pois o susto que isto provoca tem levado muitos cristãos a uma tomada de consciência e um recomeço mais fervoroso. A Providência Divina não falta àqueles que pecam mortalmente, pois lhes dá a ocasião de tirar proveito de suas faltas.

2. No Pai-Nosso “dívidas” ou “ofensas”

Até decênios atrás rezava-se no Pai-Nosso “Perdoai-nos as nossas dívidas assim como nos perdoamos aos nossos devedores”. A Igreja porém, substituiu “dívidas” por “ofensas”, não terá derrogado à Palavra de Deus? Não terá alterado o texto sagrado?

– Respondemos que há duas versões do Pai-Nosso no Novo Testamento: a de Mt 6, 9-13 e a de Lc 11, 2-4. Ora Mateus usa a palavra apheilemata (dívidas), de fundo semita, ao passo que Lucas utiliza o vocábulo hamartias (pecados), mais compreensível ao homem ocidental. Daí a troca efetuada pelos Bispos do Brasil. Em nada foi alterada a Palavra de Deus; é tão legítimo dizer “ofensas” quanto “dívidas”.

3. O silêncio imposto após as curas

Jesus manda que não proclamem os milagres que ele realiza; cf. Mt 8, 4; 9, 3; Mc 1, 34. Ora este silêncio parece contraditar a intenção de proclamar a Boa Nova que animava Jesus.

– Respondemos que a imposição do silêncio em tais casos era uma medida de prudência, pois Jesus queria evitar que o tomassem por Messias num sentido meramente humano ou nacionalista; o povo de Israel posto sob jugo estrangeiro aguardava um Messias que o libertasse dos dominadores e lhe disse bem-estar material. O mal-entendido por parte dos que acompanhavam Jesus ocorreu em Jo 6, 5 (após multiplicação dos pães quiseram aclamar Jesus como Rei).

Jesus foi-se revelando aos poucos e morreu condenado precisamente porque se declarou Filho de Deus e Messias; cf. Mc 14, 62s.

4. “Amei Jacó e odiei Esaú” (Rm 9, 13s, citando Ml 1, 2s)

Como pode Deus odiar alguém? Não estaria em contradição com o que se lê em Sb 11, 23: “Tu  amas tudo o que criaste, não te aborreces com coisa alguma do que fizeste”.

– Respondemos concordando com o amigo. Trata-se de um expressionismo da linguagem semita. Esta, sendo pobre de vocábulos, não tinha as partículas comparativas mais e menos; a comparação se fazia mediante a justaposição dos termos contrastantes, assim o binômio “amar-odiar” significa “amar mais, amar menos”, o binômio “muitos-poucos” significa “maior número, menor número” (cf. Mt 22, 14).

Deus é livre e soberanos as distribuir os seus dons; Ele nada deve a ninguém.

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¹ isto não quer dizer que os dons não utilizados por uma pessoa tíbia sejam transferidos para pessoas fervorosas, pois ninguém ganha coisa alguma pelo fato de que seu irmão perde algo.
 

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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