Contra santos antigos – EB

Revista:
“PERGUNTE E RESPONDEREMOS”

D. Estevão
Bettencourt, Osb

Nº 505, Ano
2004, p. 327

Em síntese: Tem-se levantado uma
campanha contra Santos antigos, não canonizados oficialmente pela Igreja. Esta
reconhece que muitas “estórias” de Santos antigos não merecem crédito; ela o
declara sem que seu magistério seja afetado, pois nunca houve definição
dogmática a respeito de tais Santos.

Tem-se
movido calorosa campanha contra a historicidade de Santos antigos, não
canonizados oficialmente. A Igreja reconhece o caráter lendário de muitas
“estórias” de Santos sem que isto afete o seu magistério, pois nunca houve
definição dogmática a respeito de tais Santos.

Atendendo a
essa problemática, nas páginas subseqüentes proporemos, em primeiro lugar, o
que é a “canonização” de um Santo; a seguir, veremos qual a atitude que a
Igreja vai hoje em dia tomando diante do culto de alguns Santos.

1.
“Santificação” ou canonização?

1. A
santidade é a perfeição do amor a Deus e aos homens a que chegam muitos
cristãos justos. Consiste, pois, em uma realidade interior.

Muitas
vezes essa realidade interior se manifesta por atos heróicos de virtude ou pela
realização de portentos. Os cristãos e as autoridades da Igreja então têm
movido para declarar tal ou tal pessoa “santa”; ela é “canonizada”, ou seja,
inserida no “cânon” ou “catálogo” dos Santos.

“Santificação”
é termo que não convém aplicar no caso; designa o lento processo de “tornar-se
santo” por que passam as almas dos justos na terra.

Não é
necessário, porém, que os Santos sejam publicamente “canonizados” ou declarados
tais pela Igreja. A santidade pode ficar oculta aos homens e reconhecida por
Deus só. Em outros termos: os Santos canonizados não são os únicos Santo
existentes na glória do céu.

Desde os
primeiros séculos, o povo cristão reconheceu o eminente amor a Deus ou a
santidade existente nos mártires, isto é, nos justos que haviam dado a vida
para testemunhar a sua fé. Em conseqüência, os cristãos os foram cultuando como
Santos. Mediante tal culto, os fiéis não adoravam (nem adoram) o Santo, mas
louvavam (e louvam) a Deus por ter concedido suas graças a determinado justo, e
pediam (perdem) ao Senhor, por intercessão do mesmo, concedesse (conceda) ao
seu povo na terra os benefícios de que necessita.

A partir do
século IV, foram sendo cultuados, além dos mártires, também outros justos, cuja
caridade se tornara notória: confessores da fé, virgens, viúvas, pessoas
casadas, etc.

Geralmente
nos primeiros séculos não se empreendia processo prévio para se prestar culto a
determinado Santo. Quando um justo morria com fama de santidade, os fiéis
espontaneamente lhe dirigiam as suas preces e o declaravam “Santo”. As
autoridades das Igreja vigiavam para que o povo cristão só atribuísse veneração
a autênticos homens e mulheres de Deus; não raro os fiéis se enganavam,
estimando como santas certas pessoas cujas virtudes não eram extraordinárias ou
chegavam a ser ilusórias.

Exercendo o
seu papel de vigilância, diversos concílios regionais da antiguidade e do
início da Idade Média tiveram que proibir o culto atribuído a servos de Deus
antes que a autoridade eclesiástica se tivesse oficialmente pronunciado a seu
respeito. Também promulgaram cânones que mandavam cancelar das listas dos
Santos nomes aí prematuramente inseridos pelo fervor popular.

Já, porém,
que se multiplicavam os enganos e abusos a respeito das virtudes dos justos
falecidos “em odor de santidade”, a Santa Sé nos séc. X / XI foi reservando a
sai à faculdade de “canonizar”, ou seja, de declarar que tal ou tal alma justa
se acha na glória do céu e pode ser publicamente invocada como intercessora
junto a Deus. Essas declarações foram precedidas de “processos de canonização”,
pelos quais se investigavam os feitos, ditos e escritos dos heróis da fé
falecidos.

Os
processos de canonização se tornaram cada vez mais minuciosos e rigorosos, como
acontece em nossos tempos, a fim de que se removam todas as possíveis ilusões
concernentes a cada caso.

Verifica-se,
pois, hoje em dia que há santos formalmente
canonizados, ou seja, oficialmente declarados santos pela Igreja após
meticuloso processo. Tais são os Santos posteriores ao séc. X;

Santos
eqüipolentemente canonizados, ou seja, santos que o povo canonizou
espontaneamente até o séc. X, com a aprovação das autoridades eclesiásticas. A
Igreja, nestes casos, se limita a reconhecer a legitimidade do culto
multissecular devotado a tal justo na base de autêntica fama de santidade e de
milagres a ele atribuídos.

Ora, para
os Santos eqüipolentemente canonizados, ou seja, canonizados pela piedade do
povo nos dez primeiros séculos sem processo prévio, a Igreja está hoje em dia
voltando de maneira especial a sua atenção.

2. A Igreja
e os Santos antigos

Verifica-se
que na Antigüidade e na Idade Média a fé do povo cristão se deixava não raro
levar pela imaginação em torno dos Santos. Atribuiam-se-lhes facilmente ditos e
feitos maravilhosos, destituídos de fundamento histórico, mas aptos a suscitar
edificação e provocar à imitação. Tais crendices populares se propagavam
rapidamente, pois os antigos careciam de apurado senso crítico. As autoridades
eclesiásticas permitiam que as “estórias” se difundissem, pois não tinham
indícios de que fossem falsas; não havia estudos historiográficos,
paleográficos e arqueológicos que lhes permitissem distinguir o real e o
imaginário nas narrativas populares. Os Bispos e Concílios regionais rejeitavam
sem hesitação as afirmações e práticas de piedade que fossem  contrárias à fé e aos bons costumes
toleravam, porém, os outros dizeres do povo, desde que pudessem ter foros de
verossimilhança. Com isto não pretendiam definir “estórias”; a Igreja nunca
empenhou seu magistério infalível em favor de qualquer das legendas dos Santos.

Hoje, os
estudos de história tendo progredido, patenteia-se a inveracidade de certos
relatos da hagiografia antiga. A Igreja não hesita em aceitar os resultados da
crítica historiográfica; não afetam em absoluto os dogmas da fé. As narrativas
a respeito dos Santos são tão dignas de crédito quanto os argumentos que as
fundamentam; desde que estes vacilem ou sejam validamente contraditados, é não
somente lícito, mas até necessário, recusar tais narrativas.

Estes
princípios explicam que a Igreja, nos últimos tempos, tenha declarado infundada
a crença em certos episódios maravilhosos que, conforme narrações errôneas, se
teriam dado na vida de Santos dos primeiros séculos. Opondo-se a tais
“legendas”, a Igreja não está “cassando” ou “dessantificando” os Santos. Ela de
modo nenhum declara que tal Santo (São Sebastião, São Lourenço, Santa Catarina…)
não seja santo. Ela apenas faz questão de dizer que tal ou tal “estória”,
tradicionalmente associada ao nome de tal ou tal Santo, carece de base
histórica. A denúncia da “estória” nada tem que ver com “cassação”; é totalmente
secundária para a verdadeira piedade cristã.

Observe-se
também o seguinte: não se pode dizer que os antigos, admitindo e narrando
“estórias” a respeito dos Santo, tenham mentido ou pecado contra a veracidade.
A mentira formalmente dita supõe conhecimento da verdade e desejo de se lhe
opor. Ora não foi o que se deu com os antigos e medievais em matéria de
hagiografia, não se preocupavam propriamente com a verdade histórica, mas sim,
com a edificação (e edificação… tal como eles a podiam captar). Esta os
levava a imaginar e crer com exuberância, sem indagar os fundamentos históricos
de suas crenças. A hagiografia tinha seus padrões de estilo, seus lugares
comuns, seus tipos clássicos, dentro dos quais era natural que fossem
enquadradas as figuras dos grandes Santos. Que assim escrevesse a vida de um
justo, não mentia, porque não tinha a intenção de fazer obra historiográfica
propriamente dita.

Note-se, de
resto, que em tudo que não é dogmático, a Igreja está sujeita aos meios humanos
de conhecimento; suas conclusões, desde que não pertençam ao depósito da fé,
podem sempre progredir, enriquecer-se e depurar-se, de acordo com o lento modo
de proceder da inteligência humana. Por isto, na apresentação do Cristianismo,
foi e será (principalmente no século XXI) necessário propor claramente a
distinção entre  o que é de fé e o que
não é de fé dentro da mensagem cristã;

3. Alguns
exemplos

Seguem-se
alguns casos de Santos antigos em torno dos quais a historiografia moderna
lançou valiosas luzes.

1) São Sebastião.
 O que se sabe a respeito de São
Sebastião, mártir do séc. III (+ 288) deve-se a Atas do seu martírio que datam
dos séculos V ou VI, referindo o seguinte:

Era oriundo
de Milão (Itália) ou Narbona (França), filho de pais cristãos, que o tornaram fiel
servidor de Cristo. Fez-se soldado do exército romano em 283, a fim de poder
prestar conforto a seus irmãos na fé perseguidos na milícia imperial.

Depois de
ter beneficiado a numerosos companheiros e obtido belas conversões para Cristo,
foi finalmente denunciado ao Imperador Diocleciano como cristão. Já que
permanecia intrépido em sua confissão de fé, Sebastião foi entregue aos
milicianos, que o prostraram ao solo com as suas flechas, julgando-o morto. A
nobre dama Cástula recolheu o seu corpo desejosa de o sepultar; vendo-o, porém,
ainda vivo, levou-o para casa, e medicou-o, de sorte que em breve Sebastião se
achava totalmente curado. O corajoso soldado voltou então a interpretar o
Imperador, protestando contra a perseguição aos cristãos. Diocleciano, ao
vê-lo, surpreendeu-se profundamente e mandou espancar Sebastião até que
morresse, devendo posteriormente o seu corpo ser atirado à cloaca. Assim terá
terminado os seus dias o herói da fé. – Até aqui as Atas do séc. V ou VI.

Sebastião
tornou-se um dos mártires mais célebres de Roma; a sua estima espalhou-se pela
Itália, a Gália e a Alemanha. Foi sendo invocado contra a peste; assim no ano
de 680 cessou uma epidemia em Roma quando as relíquias do Santo foram levadas
em procissão pela cidade. Fenômenos semelhantes se deram posteriormente,
particularmente em Milão no ano de 1575 e em Lisboa (1599).

As Atas do
Martírio de São Sebastião foram, durante muito tempo, atribuídas a S. Ambrósio
(+ 397), o que lhes deu foros de autoridade. Verifica-se, porém, que reproduzem
o estilo dos escritos análogos dos séc. V / VI, época em que a piedade popular
tendia a se edificar mais e mais com os maravilhosos feitos dos santos. Por
cerca de dois ou três séculos, a partir de 288, não se encontra na literatura
cristã um só relato do martírio do Santo. É o que leva a suspeitar da clássica
narrativa atrás proposta. – Tillemont (“Mémoires pour servir…” t. IV, pág.
515) julga que as Atas do Martírio de São Sebastião podem ser consideradas
antigas e merecem algum crédito, ao menos em seus pontos principais.

De modo especial,
a associação de flechas e combate à peste na figura de Sebastião tem chamado a
atenção dos críticos. – Sabe-se que os antigos designavam a peste pelo símbolo
de flechas; dizia, por exemplo a mitologia que as flechas de Apolo lançadas
contra os gregos haviam desencadeado grave epidemia; as flechas também eram, na
escrita dos hieróglifos egípcios, o sinal que exprimia a peste. Conscientes
disto, alguns historiadores modernos levantaram a hipótese de que certos grupos
cristãos tenham começado a invocar São Sebastião contra a peste, por guardarem
a reminiscência do antigo simbolismo das flechas (o que não quer dizer que
adotassem as crenças da mitologia). Outros estudiosos, porém, replicam com
razão que há vários Santos popularmente invocados contra o mesmo flagelo sem
que tenham sofrido o tormento das flechas; assim S. Antão, S. Adriano, S.
Roque…; julgam, por isto, que a devoção a S. Sebastião, “protetor contra a
peste”, se deva simplesmente ao fato de que outrora (quiçá em 680) os fiéis
obtiveram por intercessão do santo mártir a cessação do flagelo da peste; o
fato maravilhoso terá ocasionado a fama do taumaturgo.   

À Igreja
não compete definir tais questões de índole meramente histórica. A sua solução
depende dos dados que as pesquisas historiográficas e arqueológicas possam
trazer à tona. O que interessa à Igreja, é remover todo erro de historiografia,
desde que ele seja formalmente comprovado.

2) Santa
Bárbara (séc. III). Dizem as narrativas o seguinte:

Um rico
pagão, Dióscoro, tinha uma formosa filha, Bárbara. A fim de preservar a jovem,
encerrou-a em uma torre. Bárbara foi várias vezes solicitada em casamento,
recusando, porém, todas as instâncias. Um belo dia, seu pai partiu em viagem; a
donzela então, que já era cristã de coração, pediu e recebeu o Batismo. Sua
torre tinha duas janelas; Bárbara exigiu que lhe fizessem uma terceira janela,
para honrar a Trindade.

O pai,
regressando de viagem, enfureceu-se por ver que sua filha desprezava os deuses;
pelo que a quis matar. Bárbara, então, tomou a fuga, e uma rocha se abriu para
a deixar passar e salvar-se. Um pastor, porém, denunciou o lugar de seu retiro;
em conseqüência, Deus transformou-lhe os carneiros em escaravelhos. Dióscoro,
tendo ido ao encalço de sua filha, encontrou-a; levou-a à presença do juiz, que
a submeteu a suplícios; todavia Cristo a reconfortou. Insaciável em sua fúria,
o tirano mandou que a jovem, despojada de seus trajes, fosse exibida em toda a
região; Bárbara, porém implorou Aquele que cobre o céu com nuvens, e o Senhor
Deus lhe enviou uma veste. Por fim, Dióscoro decapitou sua filha; em
conseqüência, foi fulminado por um raio.

Há diversas
versões dessa narrativa, nem sempre concordes entre si. A data dos episódios
descritos é incerta: (…), sob o Imperador Maximino (235-238) ou sob Maximiniano
Hercúleo (286-305)? Dióscoro habitava Antioquia ou uma cidade de Heliópolis,
que não se pode identificar precisamente. O local do martírio terá sido
Nicormédia ou a Toscana ou Roma. As ovelhas do pastor que denunciou Bárbara,
haverão sido transformadas ou em escaravelhos ou em gafanhotos ou em estátuas.

A devoção a
Santa Bárbara se difundiu extraordinariamente na antiguidade e na Idade Média.
Os fiéis passaram a venerá-la como padroeira cuja intercessão seria eficaz para
preservar da morte subitânea ou má. Esta crença se deriva provavelmente do
episódio conforme o qual seu pai incrédulo foi fulminado por um raio;
acreditava-se, pois, que os raios estavam a serviço de Santa Bárbara. Os livros
de oração pública na Idade Média incluíram a seguinte prece: “Fazei, Senhor,
que, pela intercessão de Santa Bárbara, obtenhamos a graça de receber, antes  da morte, o sacramento do Corpo e do Sangue de
Nosso Senhor Jesus Cristo”. Por este motivo Santa Bárbara costuma ser
apresentada na iconografia com um cibório na mão.

As imagens
da Santa a reproduzem também a segurar a torre em que ela terá habitado.

Que dizer
de todo esse conjunto de narrativas e devoções?

Os traços
da vida e do martírio de S. Bárbara são mui pouco fidedignos; devem-se à
imaginação fervida dos antigos; estão claramente no estilo dos escritos
apócrifos. Enquanto não pairavam dúvidas a respeito da sua historicidade, as
autoridades eclesiásticas não se opunham a que o povo fiel invocasse santa Bárbara
segundo as tendências de sua piedade exuberante. Em nossos dias, porém, tendo a
crítica sadia evidenciado o caráter fantasista da “estória” de S. Bárbara, a
Igreja quer que os fiéis estejam devidamente avisados a respeito, a fim de que
não alimentem sua devoção com elementos imaginários.

3) Santa
Catarina de Alexandria (séc. IV). Sumariamente, dizem as Atas do Martírio de S.
Catarina o seguinte:

O Imperador
Maxêncio (306-312) foi ter a Alexandria, onde ordenou que todos os seus súditos
oferecessem sacrifícios aos deuses. Havia então naquela cidade a filha de um
rei chamada Catarina, da idade de dezoito anos, a qual era cristã e se esmerara
no estudo das ciências e das artes, dos poetas e dos filósofos. Ciente da ordem
do Imperador, foi ao templo onde se encontrava Maxêncio e recriminou-o por sua
campanha idolátrica, propondo-lhe uma disputa religiosa. O Imperador então
mandou chamar os filósofos do Império para impor silêncio a Catarina. Tendo
comparecido cinqüenta deles, a jovem sábia confundiu a todos; à vista disto,
Maxêncio condenou-os à morte, sendo que Catarina os preparou a morrer
cristãmente.

A seguir, o
Imperador, atraído pela extraordinária formosura da virgem, propôs a esta a
dignidade de Imperatriz. Catarina lhe resistiu; pelo que foi açoitada durante
duas horas, encerrada em cárcere por doze dias, período em que uma pomba a
alimentou maravilhosamente; também o Senhor Jesus com seus anjos lhe apareceu,
assegurando-lhe a sua proteção. Levada de novo à presença do Imperador, a
virgem foi por este intimada a sacrificar aos ídolos.

Tendo
Catarina recusado, o prefeito de Alexandria a submeteu a suplício inédito:
mandou construir um aparelho com quatro rodas dotadas de pontas cujo ruído
assustador bastaria vencer Catarina; caso esta fosse mais forte; seria atirada
às rodas. Ora a virgem foi realmente lançada dentro de tal máquina, ficando,
porém, ilesa, pois um anjo a salvou; as rodas estouraram, matando numerosos
soldados pagãos.

Catarina
foi então levada para fora da cidade, onde um carrasco a decapitou; de seu
pescoço jorrou leite, em lugar de sangue. Os anjos arrebataram o seu corpo,
transportando-o de Alexandria para o monte Sinai, onde o deixaram em um
sepulcro novo.

A narrativa
do martírio de S. Catarina, assim sumariamente reproduzida, é altamente
suspeita. Ela se encontra pela primeira vez em um documento do séc. IX; entre o
século IV e o século IX não se acha uma referência sequer a S. Catarina de
Alexandria nos documentos e na literatura do Cristianismo. O estilo e o teor
das Atas do Martírio têm o sabor dos relatos apócrifos ou dos romances
populares destituídos de valor histórico.

Com razão,
portanto, os críticos asseveram que não merece crédito a “estória” de S.
Catarina de Alexandria. A existência mesma dessa virgem é posta em dúvida, dado
o silêncio dos cinco primeiros séculos posteriores à sua morte.

Em
conclusão, as narrativas concernentes a S. Catarina nada contêm da impossível a
Deus ou de contrário à fé cristã. As razões, porém, indicadas pelos estudiosos
são plenamente suficientes para justificar uma atitude reservada da Igreja
frente às tradicionais práticas de devoção a essa Santa.

4)  São Lourenço (+ 258). Eis o que narra a
hagiografia:

O Papa S.
Sixto, a caminho do cárcere como herói da fé, se encontrou com seu diácono
Lourenço, que manifestou então o desejo de seguir o Pontífice para o martírio
como o costumava acompanhar ao altar. Sixto predisse a Lourenço que dentro de
três dias seria, por sua vez, torturado por causa da sua fé. Em verdade,
Lourenço pouco depois foi preso e intimado a entregar ao Imperador os bens da
Igreja, que ele, como diácono, administrava. Lourenço após três dias levou ao
palácio imperial uma multidão de pobres da cidade de Roma, apresentando-os a
Décio como sendo os tesouros da Igreja. Irado, o soberano mandou submeter
Lourenço a tormentos vários, aos quais se sucedeu o do fogo: Lourenço foi
assado vivo sobre uma grelha, interpelando os seus algozes com alegria e
confiança: “Eis, ó tirano, já cozeste um lado, vira e come. Dou-Te graças,
Senhor Jesus Cristo, porque mereci ter entrada no teu reino”.

Também esta
narrativa é tida pela crítica como pouco fidedigna. A primeira fonte escrita
que a transmite, dista mais de um século dos acontecimentos referidos; obedece
ao estilo amigo do portentoso que caracteriza a hagiografia dos séc. IV / VI.
Em particular, notam os críticos o seguinte:

a) O
encontro de Lourenço com S. Xisto 
aprisionado é duvidoso, pois refere outra fonte que S. Xisto foi
executado pelos algozes instantaneamente, tendo sido descoberto em flagrante a
celebrar o culto sagrado.

b) Não se
duvida de que S. Lourenço tenha sofrido o martírio aos 10 de agosto de 258.
Discute-se apenas o modo. As leis do Império em 258 previam a morte sumária
para os clérigos, desde que fossem presos; não visavam obter apostasia dos
mesmos, nem submetê-los a suplícios requintados.

Verdade é
que os mártires eram, por  vezes,
entregues ao fogo. Assim em 177 Atálio foi colocado sobre uma cadeira de ferro
e queimado vivo. Sob o Imperador Juliano (361-363), os santos Emiliano,
Macedônio, Teodulo e Taciano foram colocados sobre grelhas; exclamaram então
para o algoz: “Se desejas provar carne assada, vira-nos; encontrar-nos-ás de
cem anos após S. Lourenço, pouco antes que aparecesse a narrativa concernente a
este. Pergunta-se então: os biógrafos de S. Lourenço não se terão inspirado do
martírio de S. Emiliano? – À hipótese 
pode-se replicar que não é improvável que dois acontecimentos
semelhantes se tenham dado consecutivamente. É preciso, porém, levar em conta
que mais de um século medeia entre a morte de S. Lourenço e as primeiras Atas
do meu martírio; em conseqüência, os historiadores antigos poderão ter descrito
o fim de S. Lourenço à semelhança do fim de mártires mais recentes.

5) Quanto a
São Jorge,  a sua festa não foi eliminada
do calendário oficial da Igreja, porque não há motivos para pôr em dúvida a sua
existência. Contudo a celebração do Santo foi destituída do seu relevo antigo,
passando a constituir mera comemoração. O motivo disto é que, segundo os mais
recentes estudos, já não se pode asseverar a historicidade de quanto se narrava
a propósito de São Jorge; consciente disto, a Igreja julgou oportuno não chamar
tanto a atenção dos fiéis para um Santo cujos dados biográficos nos ficam quase
totalmente encobertos.

A respeito
de São Jorge, portanto, apenas se pode dizer com segurança que nasceu em Lida
(Lydia) na Síria por volta de 270 e foi martirizado em Nicomédia no ano de 303.
São considerados como incertos ou mesmo lendários os pormenores habitualmente
narrados: Jorge, como soldado do Império Romano, teria participado de uma
campanha na Pérsio, após a qual haveria residido em Beirute (Síria); nesta
cidade, teria lutado contra um dragão; depois disto, dizem que Diocleciano o
enviou em expedição à Grã-Bretanha; Jorge atravessou então o mar da Irlanda,
hoje também dito “Canal de São Jorge”, e desembarcou em Porta Sistuntiorum; daí
dirigiu-se para Glastonbury em peregrinação ao túmulo de seu compatriota José
de Arimatéia…

Parecem
dispensáveis ulteriores comentários ao caso.

4. Reflexão
final

As
ponderações críticas atrás propostas não se opõem, por princípio, ao
sobrenatural nem aos feitos heróicos dos confessores da fé; Deus pode efetuar
milagres, e por certo os efetuou e efetua.

É preciso,
porém, que a aceitação do maravilhoso tenha base em fatos reais; os portentos
hão de ser comprovados como acontecimentos históricos. O espírito de fé não
dispensa desta exigência.

Os antigos
tinham um conceito de hagiografia diferente do nosso: faziam dela estritamente
um motivo de edificação. Já que o seu senso crítico era pouco pronunciado,
adaptavam a historiografia à piedade, distanciando-se da realidade histórica.
Isto não os escandalizava; ao contrário, unia-os mais a Deus e estimulava-os a
se santificar. – A mentalidade do homem moderno já não se deixa levar a Deus
por relatos imaginários, impregnada como está de senso crítico e das categorias
das ciências exatas.

Por isto é
que se requer uma revisão das narrativas concernentes aos Santos; a S. Igreja a
tem empreendido, sem derrogar às verdades da fé.

Tal atitude
da Igreja não significa que os Santos não tenham mais o seu valor na piedade
cristã. Eles o conservam, mas (…), os Santos tais eles foram na realidade
histórica, depurados de todo traço romântico. Os Santos serão sempre facetas em
que o povo cristão contemplará a obra da Redenção e o próprio Redentor Jesus
Cristo; cada Santo é um sinal de Cristo triunfante do pecado e do velho homem;
os Santos são também os grandes amigos de Deus, que podem interceder em favor
dos homens. Os seus exemplos e ensinamentos estimulam a prática das virtudes É
por todos estes títulos que eles não podem ser cancelados do horizonte da
dogmática, da pregação e da piedade da Igreja. A renovação litúrgica
pós-conciliar não lhes quer denegar o seu lugar impreterível dentro da mensagem
cristã, mas, ao contrário, deseja que esse lugar lhes seja assinalado à luz da
verdade histórica e do Cristo Redentor (cf. Vaticano II, Const. “Lúmen Gentium”
nº 49s; Const “Sacrosanctum Concilium” nº 111).

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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