Contemplação: sim ou não? – EB

Revista: “PERGUNTE E
RESPONDEREMOS”

D. Estevão Bettencourt, osb

Nº 464 – Ano 2001 – Pág. 26

 

Em síntese: No mundo agitado
de nossos dias não poucas pessoas experimentam a necessidade de parar e
contemplar. Principalmente o cristão é chamado a ser contemplativo no mundo,
não sob forma de alienação, mas como portador de novas energias e vitalidade em
benefício do próprio mundo. – A Teologia distingue duas modalidades de
contemplação: a adquirida, que se obtém pela leitura e o estudo, e a infusa, que
vem a ser especial dom do Espírito Santo, (…) dom não reservado a privilegiados,
mas destinado a todos os que foram inseridos em Cristo pelo Batismo.

Contemplação é um olhar
sobre valores superiores ou a intuição, geralmente deleitosa, do Transcendental
(como quer que os homens o chamem). As grandes correntes religiosas incitam
seus fiéis à contemplação; assim o hinduísmo, o budismo, o judaísmo, o
islamismo. A própria filosofia grega procurava levar à intuição do Divino, meta
esta à qual davam grande importância o platonismo e o neo-platonismo.

O Cristianismo também
apregoa a contemplação, propondo ao cristão, qual meta final, a visão de Deus
face-a-face (cf. 1Cor 13, 12; 1Jo 3, 1-3). São Paulo, por mais atribulado que
estivesse, não perdia ânimo, pois tinha, em meio a todas as aflições, o olhar
contemplativo, voltado para os valores eternos:

“Não nos deixamos abater.
Pelo contrário, embora em nós o homem exterior vá caminhando para a sua ruína,
o homem interior se renova dia a dia. Pois nossas tribulações momentâneas são
leves em relação ao peso eterno de glória que elas nos preparam até o excesso.
Não olhamos para as coisas que se vêem, mas para as que não se vêem, pois o que
se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno”  (2Cor 4, 16-18).

A Teologia católica
distingue contemplação adquirida e contemplação infusa.

Contemplação adquirida

A contemplação adquirida é a
que resulta da leitura e do estudo da Palavra de Deus e dos artigos da fé.

Supõe o aparato conferido
pelo Batismo e cada cristão: graça santificante, as virtudes teologais da fé,
da esperança e da caridade e, ainda, os dons do Espírito Santo (sabedoria,
inteligência, ciência, conselho, fortaleza, piedade e temor de Deus). O estudo
da Palavra de Deus nunca é algo de meramente acadêmico ou cerebrino; é o
encontro com Tu que fala e quer ser acolhido com dedicação. O grande mestre São
Boaventura O.F.M., dito “o Doutor Seráfico”, observa na sua obra itinerário da
Mente para Deus:

“Ninguém creia que lhe baste
a leitura a unção, a especulação sem a devoção, a investigação sem a admiração,
a atenção sem a alegria, a atividade sem a piedade, a ciência sem a caridade, a
inteligência sem a humildade, o estudo sem a graça divina, a pesquisa humana
sem a sabedoria inspirada por Deus” (Proêmio).

Já no Antigo Testamento os
sábios professavam o grande valor da contemplação, especialmente cultivada nos
dois últimos séculos antes de Cristo. Eis, por exemplo, o retrato do sábio como
o autor do Eclesiástico ou o Sirácida o concebe:

“A sabedoria do escriba se
adquire em horas de lazer,

aquele que está livre de
afazeres torna-se sábio” (38, 24).

“Aquele que medita na lei do
Altíssimo,

investiga a sabedoria de
todos os antigos,

ocupa-se das profecias.

Conserva as narrações dos
homens célebres,

penetra na sutileza das
parábolas.

Investiga o sentido obscuro
dos provérbios,

deleita-se com os segredos
das parábolas.

Presta serviços no meio dos
grandes

e é visto diante dos que
governam.

Percorre países
estrangeiros,

fez a experiência do bem e
do mal entre os homens.

Desde a manhã, de todo
coração,

volta-se para o Senhor, seu
Criador.

Suplica diante do Altíssimo,

abre sua boca em oração.

Suplica o perdão de seus
pecados.

Se for da vontade do supremo
Senhor,

ele será repleto do espírito
de inteligência.

Ele mesmo fará chover
abundantemente suas palavras de sabedoria

e na sua oração dará graças
ao Senhor.

Ele mesmo adquirirá a
retidão do julgamento e do conhecimento,

meditará os seus segredos.

Ele mesmo manifestará a
instrução recebida,

gloriar-se-á da lei da
aliança do Senhor.

Muitos louvarão a sua
inteligência

e jamais será esquecido.

Sua lembrança não se
apagará,

seu nome viverá de geração
em geração.

As nações proclamarão a sua
sabedoria

e a assembléia proclamará os
seus louvores.

Se vive muito, seu nome será
mais glorioso do que mil outros,

E, se morre, isto lhe basta”
(39, 1-11).

Os sábios de Israel tanto
estimavam a Sabedoria que a personificavam poeticamente em belas passagens como
a de Pr 8, 22-31:

“O Senhor me criou,
primícias de sua obra, de seus feitos mais antigos…

Quando afirmava os céus, lá
eu estava, quando traçava a abóbada sobre a face do abismo,

Quando punha um limite ao
mar e as águas não ultrapassavam o seu mandamento,

Quando assentava os
fundamentos da terra,

Eu estava junto com Ele,
como mestre-de-obra.

Eu era o seu encanto todos
os dias, todo o tempo brincava em sua presença.

Brincava na superfície da
terra e me alegrava com os homens” (Pr 8, 22.27-31).

Ver Eclo 24, 1-22; Sb 7,
22-8, 1-28.

O estudo e a contemplação
adquirida são hoje particularmente necessários a um fiel católico, para que
possa dar contas, a si e ao próximo, da sua fé e da esperança que o anima. A fé
precisa de credenciais; não é um ato cego, mas um ato de inteligência, que tem
o direito de perguntar: por que crer?… por que crer nisto ou naquilo?… por
que não aceitar esta ou aquela proposta mística? A fé sem credenciais pode
tornar-se crendice ou superstição; vem a ser atitude emocional, que não tem
solidez nem persistência. Eis por que muito se recomenda que cada fiel leia o
Catecismo da Igreja Católica, elaborado em nossos tempos como Súmula da
Doutrina da Fé, atendendo aos questionamentos do mundo atual.

O estudo da Teologia leva à
contemplação adquirida. Muito a propósito se diz que a Teologia se estuda de
joelhos.

Contemplação infusa

 A contemplação infusa é aquela que não depende
tanto de leitura e estudo, mas é um precioso dom do Espírito Santo. Pode ser a
intuição repentina e profunda de uma verdade muitas vezes professada, mas nunca
muito significativa; o rico conteúdo dessa proposição pode patentear-se quando
menos se espera.

Essa contemplação esta
intimamente associada à pureza de coração, da qual fala Jesus em Mt 5, 8:

“Felizes os puros de
coração, porque verão a Deus”.

Para tanto, requer-se a
purificação do coração ou a remoção de paixões desregradas que obnubilam a
mente. Muito sabiamente enumeram os mestres de espiritualidade três etapas na
caminhada da vida cristã:

a) via purgativa, ou a
prática de ascese destinada a extinguir os afetos desregrados do coração. É
algo de indispensável; toma as mais diversas formas, adaptadas às condições de
cada indivíduo. É a primeira e a contínua etapa da vida espiritual, pois até o
fim da caminhada terrestre o cristão terá que lutar contra os impulsos
desordenados do seu íntimo;

b) via iluminativa, que é a
iluminação da mente purificada para que possa intuir as grandes verdades da fé.
O amor a Deus, fortalecido pela mortificação dos amores desregrados, é que abre
o olho da mente para que possa receber a iluminação do Espírito Santo. O
profundo conhecimento de Deus tem por base o amor. É o que explica que
muitas  pessoas simples ou mesmo
iletradas tenham lúcida percepção das verdades da fé; são beneficiadas por sua
familiaridade, sua afinidade ou sua conaturalidade com Deus. Tais pessoas são
movidas pelos dons do Espírito Santo da sabedoria, da inteligência e da
ciência. Tais dons são como que velas desfraldadas que captam o sopro do
Espírito e fazem o barco avançar muito mais rapidamente e com menos esforço do
que anteriormente, quando o barco era movido a remos;¹

c) via unitiva é a
conseqüência do exercício do amor que intui a Deus e seu plano de ação. Pode
então o cristão dizer com São Paulo: “Vivo eu, não eu; é Cristo que vive em
mim” (Gl 2, 20). Tem-se assim o antegozo da bem-aventurança celeste ou “daquilo
que o olho não viu, o ouvido não ouviu, o coração do homem jamais percebeu”
(1Cor 2, 9). A ciência que todo cristão deve ter, de que é templo do Espírito
Santo e tem dentro de si um tesouro em vaso de argila (2Cor 4, 17).

A certeza da habitação de
Deus nas almas dos justos é tão antiga quanto os escritos de São Paulo: “Não
sabeis que sois um templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?”
(1Cor 3, 16). Todavia a infiltração de filosofias heterogêneas na Teologia
católica a fez empalidecer na época moderna. O Santo Padre Leão XIII a reavivou
pela sua encíclica Divinum Illud,  da
qual vai citado o seguinte trecho:

“Deus, por meio de sua
graça, está presente na alma do justo da forma mais íntima e inefável, como que
em seu templo; e daí provém aquele amor mútuo, pelo qual a alma está
intimamente presente a Deus, está mais nele do que possa estar entre os amigos
mais queridos, e deleita-se nele com a mais deliciosa doçura. Esta admirável união,
que propriamente se chama inabitação, somente na condição ou estado, não na
essência porém, se diferencia da que constitui a felicidade no céu”.

Merece destaque a afirmação
de que a união com Deus na terra é a mesma que ocorrerá no céu, com a diferença
apenas de que, durante a peregrinação terrestre, ela se faz na penumbra ou no
claro-escuro da fé através de véus, ao passo que no além ela ocorrerá num
face-a-face pleno, condicionado tão somente pelo grau de amor com que o cristão
tiver passado do provisório para o Definitivo. Importa notar que o Deus da
caminhada terrestre é o mesmo Deus da bem-aventurada visão celeste. A presença
desse Bem Infinito pode ser reconhecida em graus diversos pelo cristão; pode
também ficar inconsciente – o que provoca o tédio de muitos cristãos de nome
apenas. Muito vivamente recorda S. Agostinho o seu passado ao escrever:

“Tarde eu te amei, Beleza
tão antiga e tão nova! Tarde eu te amei. Eis o que acontecia: Tu estavas dentro
de mim, e eu estava fora, onde me precipitava, fazendo o movimento contrário,
sobre as belas coisas da terra, tuas obras.

Tu estavas comigo, sem que
eu estivesse contigo, mantido longe de Ti por elas, que, a menos que estejam
contigo, não existiriam. Chamaste, gritaste e rompeste a minha surdez. Tu estavas
dentro de mim e eu estava fora”.

Para favorecer o feliz
encontro com Deus, requer-se não somente o silêncio exterior, mas também o
silêncio interior ou o silêncio da fantasia e da memória, que devaneiam
inutilmente, dispersando o orante.

É claro também que o
progresso na vida espiritual supõe a freqüentação dos sacramentos, dos quais o
principal é a Eucaristia. É ela que propicia a mútua imanência do Cristo no
cristão e do cristão no Cristo. A Eucaristia recebida com assiduidade e
dignidade deve levar o cristo à vida mística, ou seja, à experiência ou à
intuição de Deus, que vive no mais fundo da alma humana. Ocorre, porém, não
raro que a recepção da Eucaristia se processa rotineiramente, de modo que sua
ação é tolhida na alma do cristão.

Por último, é de lembrar que
a prática da lectio divina,  com suas
quatro etapas (leitura, meditação ou ruminação do texto lido, oração inspirada
pelo texto e aprofundado, e contemplação) reúne em si a contemplação adquirida
e a infusa; esta última será sempre dependente da abertura de coração com que
alguém se entrega ao Espírito Santo. – Eis por que os mestres recomendam o
exercício diário da  lectio divina,  cuja metodologia vai abaixo resumida:

1) Leitura: depois de se
colocar na presença de Deus e pedir as suas luzes, o orante abre o livro (o
Evangelho, as cartas paulinas… ou outras secções bíblicas), e passa a ler
pausadamente, sem se preocupar com a extensão do segmento. Tendo encontrado uma
frase que o impressione, o orante pára e começa a

2) meditação. Mediante
intelecto, memória e demais faculdades procura aprofundar o sentido do texto em
foco: de que trata? Quem é o autor? Quem é o destinatário? Que significa para
mim? … – A meditação suscita quase espontaneamente a

3) oração ou elevação da
alma a Deus, que percorre quatro estágios:

– adoração ou reconhecimento
da soberania de Deus – o que  pode ser
efetuado num profundo silêncio inferior;

– ação de graças,  que redunda em louvor de Deus tanto pelos
benefícios que a pessoa compreende quanto por aqueles que ultrapassam seu
entendimento;

– expiação ou pedido de
perdão pelas faltas do orante e pelas do mundo: “Fomos ingratos à misericórdia
de Deus, falando ou procedendo deste ou daquele modo…”;

– súplica ou pedido das
graças necessárias para que a verdade contemplada se converta em vivência santa
para o orante.

4)  contemplação,  fase esta na qual o orante se comporta mais
passivamente, deixando-se penetrar pelo Espírito de Deus. Pode esta fase ser
preenchida pela repetição de uma jaculatória, que tem por objetivo criar o
clima propício à ação do Espírito Santo. Afinal é Ele o Grande Mestre, aquele
que ensina no íntimo do coração, continuando a explanação, como bem recorda S.
Agostinho:

“Não tendes necessidade de
que alguém vos ensine: sua unção vos ensina sobre tudo”  (1Jo 2,27).

Irmãos, então que estamos
nós a fazer? Nós, que vos ensinamos? Se a sua unção é que vos ensina todas as
coisas, nós como que trabalhamos sem necessidade! Para que havermos de falar
tanto? Basta-nos abandonar-vos à sua unção e ela vos ensinará. É a mim mesmo
que faço esta pergunta agora, e questiono também ao próprio apóstolo. Que ele
se digne ouvir-me favoravelmente, a mim, humilde indagador. Pergunto, pois, a
João, ele mesmo: tinham a unção aquelas pessoas a quem pregavas? Pois dizes: “A
unção ensina sobre tudo”. Então, porque escreveste esta Epístola? Por qual
razão ensinas? Por que instruis? Por que edificas?

Vede aqui, um grande
mistério (magnum sacramentum). O som de nossas palavras chega a vossos ouvidos,
mas o verdadeiro Mestre está dentro. Não penseis que alguém pode ser ensinado
por outro homem. Podemos admoestar-vos pelo som de nossa voz, mas se não está
dentro de vós aquele que ensina, são vãs as nossas palavras.

Quereis uma prova disso,
Irmãos? Não ouvistes todos vós este sermão? Quantos, contudo, vão sair daqui
sem nada terem aprendido! Quanto dependeu de mim, dirigi-me a todos. Mas
aqueles a quem esta unção não fala em seu interior, aqueles a quem o Espírito
Santo não instrui no íntimo, esses retiram-se sem nada terem captado.

O ensino exterior é uma
ajuda, uma exortação. Mas aquele que instrui os corações, esse possui sua
cátedra no céu. E eis por que ele mesmo nos diz no Evangelho: “Quanto a vós,
não permitais que vos chamem mestres, pois um só é o vosso Mestre, Cristo” (Mt
23, 8.9). Que ele fale, pois, no interior. Lá onde nenhum homem penetra, pois
também se alguém está a teu lado, ninguém está dentro de teu coração. Que
Cristo esteja no teu coração, ninguém mais. Que a sua unção esteja no teu
coração, a fim de que esse teu coração não se encontre sedento no deserto, sem
fonte onde possas saciar a sede. Está, portanto, no interior o Mestre que
ensina. É Cristo que ensina. É a sua inspiração que ensina. A sua inspiração e
a sua unção. É em vão que da parte de fora ressoam as palavras.

Assim, irmãos, estas
palavras que pronunciamos no exterior são o que o jardineiro é para a planta.
Ele trabalha no exterior: rega; dedica-lhe todos os cuidados. Mas o que quer
que faça no exterior, acaso é ele que reveste os galhos nus com a sombra das
folhas? É ele que no interior faz algo de semelhante? Mas quem o faz? Escutais
o apóstolo a se comparar a jardineiro. Vede o que nós somos e ouvi o Mestre
interior: “Eu plantei, Apolo regou; mas era a Deus quem fazia crescer. Assim,
pois, aquele que planta, nada é; aquele que rega, nada é; mas importa
tão-somente Deus, que dá o crescimento” (1Cor 3, 6.7).

Isso eu vos digo igualmente:
quer plantemos, quer reguemos, por nossas palavras, não somos nós que fazemos
alguma coisa, mas aquele que dá o crescimento, Deus, isto é, a unção daquele
que vos ensina todas as coisas.

 

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¹ O avanço a remos é figura
do lento progresso que o cristão realiza quando põe em prática a leitura e o
estudo. O avanço a velas simboliza o rápido progresso devido aos impulsos do
Espírito, que se serve dos três citados dons.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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