Conselho Pontifício para a família sexualidade humana: verdade e significado Orientações educativas em família- Parte 4

1. Os anos da inocência

78.
Desde a idade de cinco anos, aproximadamente, até à puberdade ” cujo
início se coloca na manifestação das primeiras modificações no corpo do
rapaz ou da menina (efeito visível de um aumento de produção das
hormonas sexuais) ” diz”se que a criança está na fase descrita, segundo
as palavras de João Paulo II, como « os anos da inocência ».13 Este
período de tranquilidade e serenidade nunca deve ser perturbado com uma
informação sexual desnecessária. Nestes anos, antes
que se torne
evidente um desenvolvimento físico sexual, é normal que os interesses da
criança se voltem para outros aspectos da vida. Desapareceu a
sexualidade instintiva rudimentar da criança pequena. Os meninos e as
meninas desta idade não estão particularmente interessados pelos
problemas sexuais e preferem conviver com crianças do mesmo sexo.
Para
não perturbar esta importante fase natural do crescimento, os pais
reconhecerão que uma cauta formação para o amor casto, neste período,
deve ser indirecta, em preparação para a puberdade, período em que a
informação directa será necessária.

79. Nesta fase do
desenvolvimento, a criança está normalmente à vontade com o corpo e as
suas funções. Aceita a necessidade de modéstia no modo de vestir e no
comportamento. Embora conheça as diferenças físicas entre os dois sexos,
a criança em crescimento mostra em geral pouco interesse pelas funções
genitais. A descoberta das maravilhas da criação, que acompanha esta
época, e as experiências nesse sentido em casa e na escola, deverão
também ser orientadas para as fases da catequese e a aproximação dos
sacramentos, que acontece no interior da comunidade
eclesial.

80.
Todavia, este período da infância não é desprovido do seu significado
em termos de desenvolvimento psico”sexual. O menino ou a menina que
cresce aprende, com o exemplo dos adultos e a experiência familiar, o
que significa ser uma mulher ou um homem. Certamente, não se deveriam
desencorajar as expressões de ternura natural e de sensibilidade da
parte dos rapazes, nem, vice”versa, se deveriam excluir as meninas de
actividades físicas vigorosas. Mas, por outro lado, em algumas
sociedades sujeitas a pressões ideológicas, os pais deverão evitar
também uma
oposição exagerada em relação àquela que se define como
uma « esteriotipização dos papéis ». Não se deveríam ignorar ou
minimizar as diferenças efectivas entre os dois sexos e, num ambiente
familiar são, as crianças aprenderão que é natural que a estas
diferenças corresponda uma certa diversidade entre os papéis familiares e
domésticos normais, respectivamente dos homens e das mulheres.

81.
Durante esta fase, as meninas desenvolvem em geral um interesse materno
pelas crianças pequeninas, pela maternidade e pelos cuidados da casa.
Tendo constantemente como modelo a Maternidade da Santíssima Virgem
Maria, deveriam ser encorajadas a valorizar a sua própria feminilidade.

82.
Um rapaz, nesta fase, está num período de desenvolvimento relativamente
tranquilo. Este representa frequentemente o período mais fácil para
estabelecer um bom relacionamento com o pai.
Neste tempo, ele deveria
aprender que a sua masculinidade, embora deva ser considerada um dom
divino, não é sinal de superioridade em relação às mulheres, mas um
chamamento de Deus para assumir certos papéis e responsabilidades. O
rapazinho deveria ser desaconselhado de se tornar excessivamente
agressivo ou muito preocupado com a coragem física como garantia da sua
virilidade.

83.
Todavia, no contexto da informação moral e sexual, podem surgir nesta
fase da infância diversos problemas. Hoje, em algumas sociedades, há
tentativas programadas e determinadas para impor uma informação sexual
prematura às crianças.
Neste período do desenvolvimento, todavia,
elas não são ainda capazes de compreender plenamente o valor da dimensão
afectiva da sexualidade. Não podem compreender e controlar a imagem
sexual num contexto adequado de princípios morais e, portanto, não podem
integrar uma informação sexual prematura com a responsabilidade moral.
Tal informação tende assim a infringir o seu desenvolvimento emocional e
educativo e a perturbar a serenidade natural deste período de vida. Os
pais
deveriam excluir com suavidade mas com firmeza as tentativas de violar a
inocência dos filhos, porque tais tentativas comprometem o
desenvolvimento espiritual, moral e emocional das pessoas que estão
crescendo e que têm direito a tal inocência.

84. Um problema
ulterior surge quando as crianças recebem uma informação sexual
prematura da parte dos meios de comunicação social ou de coetâneos que
foram desencaminhados ou que receberam uma educação sexual precoce.
Nestas circunstâncias os pais terão necessidade de começar a fornecer
uma informação sexual cuidadosamente limitada, habitualmente para corrir
uma informação imoral errada ou para controlar uma linguagem obscena.

85.
Não são pouco frequentes as violências sexuais diante das crianças. Os
pais devem proteger os seus filhos, antes de mais educando”os para uma
forma de modéstia e de reserva diante de pessoas estranhas; além disso,
dispensando uma adequada informação sexual, sem porém antecipar
pormenores e particularidades que os poderiam perturbar ou assustar.

86.
Como nos primeiros anos de vida, também durante a infância os pais
deveriam encorajar os seus filhos no que respeita ao espírito de
colaboração, obediência, generosidade e abnegação, assim como favorecer
as capacidades de auto”reflexão e de sublimação. De facto, é
característico deste período de desenvolvimento ser”se atraído por
actividades intelectuais: e a intelectualização permite adquirir a força
e a capacidade de controlar a realidade que nos rodeia e, num futuro
próximo,
mesmo os instintos que provêm do corpo, de modo a transformá”los em actividades intelectuais e racionais.
A
criança indisciplinada ou viciada tem tendência para uma certa
fragilidade moral no futuro, porque a castidade é difícil de conservar
se uma pessoa desenvolve hábitos egoístas ou desordenados e não é capaz
de se comportar com os outros com interesse e respeito. Os pais devem
apresentar padrões objectivos daquilo que está certo ou errado, criando
um contexto moral seguro para a vida.

2. A puberdade

87. A
puberdade, que constitui a fase inicial da adolescência, é um momento
em que os pais são chamados a estar particularmente atentos à educação
cristã dos filhos: é o momento da descoberta de si mesmo « e do próprio
universo interior, tempo de planos generosos, o tempo do desabrochar do
sentimento do amor, com os impulsos biológicos da sexualidade, o tempo
do desejo de estar junto com os outros, o tempo de uma alegria
particularmente intensa, ligada a uma inebriante descoberta da vida.
Muitas vezes, porém, é conjuntamente a idade das interrogações mais
profundas, das indagações angustiadas ou até mesmo frustratórias, de uma
certa desconfiança para
com os outros acompanhada do debruçar”se
sobre si mesmo, fechando”se; é a idade, por vezes, dos primeiros passos e
das primeiras amarguras ».14

88. Os pais devem estar
particularmente atentos à evolução dos seus filhos e às suas
transformações físicas e psíquicas, decisivas para a maturação da
personalidade. Embora sem revelar ânsia, medo e preocupação obsessiva,
todavia não consentirão que a cobardia e o comodismo bloqueiem a sua
intervenção. Logicamente, é um momento importante na educação para o
valor da castidade, o qual se traduzirá mesmo no modo de informar sobre a
sexualidade. Nesta fase, a interrogação educativa inclui também o
aspecto da genitalidade e requer, por isso, a sua apresentação, seja no
plano dos valores seja no plano da realidade globalmente compreendida;
isto implica, além de mais, a compreensão do contexto relativo à
procriação, ao matrimónio e à família, contexto que se deve ter presente
numa autêntica obra de educação sexual.15

89. Os pais, partindo
das transformações que as filhas e os filhos experimentam no seu corpo,
são agora levados a dar explicações mais detalhadas sobre sexualidade,
todas as vezes que ” apoiados num relacionamento de confiança e de
amizade ” as meninas se abrem com a mãe e os rapazes com o pai. Tal
relacionamento de confiança e de amizade é instaurado desde os primeiros
anos de vida.

90. Tarefa importante dos pais é acompanhar a
evolução fisiológica das filhas, ajudando”as a acolher com alegria o
desenvolvimento da feminilidade em sentido corpóreo, psicológico e
espiritual.16 Normalmente, poder”se”á falar, portanto, também dos ciclos
de fertilidade e do seu significado; não será porém ainda necessário, a
menos que não seja explicitamente pedido, dar explicações
pormenorizadas sobre a união sexual.

91.
É muito importante que também os adolescentes de sexo masculino sejam
ajudados a compreender as fases do desenvolvimento físico e fisiológico
dos órgãos genitais, antes que ouçam estas notícias dos companheiros de
jogos ou de pessoas não bem intencionadas. A apresentação dos factos
fisiológicos da puberdade masculina deve ser feita num clima de
serenidade, de positividade e de reserva, no contexto da perspectiva
matrimónio”família”paternidade. A instrução quer das
adolescentes
quer dos adolescentes deverá por isso incluir também uma informação
circunstanciada e suficiente sobre as características somáticas e
psicológicas do sexo oposto, em relação ao qual existe principalmente
curiosidade.
Neste contexto, pode ser uma ajuda para os pais o apoio
informativo do médico consciencioso e ainda do psicólogo, sem se separar
tais informações de uma referência à fé e à obra educativa do
sacerdote.

92. Através de un diálogo confiante e aberto, os pais
poderão não só guiar as filhas para enfrentar toda a perplexidade
emotiva, mas ainda manter o valor da castidade cristã na consideração do
outro sexo. A instrução tanto das meninas como dos rapazes deve
procurar evidenciar a beleza da maternidade e a maravilhosa realidade da
procriação, assim como o profundo significado da virgindade. Deste
modo, serão ajudados a opor”se à mentalidade hedonista hoje muito
presente e, em particular, prevenir, num período tão decisivo, aquela «
mentalidade contraceptiva » desgraçadamente muito difusa e com a qual as
filhas deverão defrontar”se mais tarde, no matrimónio.

93.
Durante a puberdade, o desenvolvimento psíquico e emotivo do rapaz pode
torná”lo vulnerável às fantasias eróticas e à tentação de fazer
experiências sexuais. Os pais deverão estar perto dos filhos, corrigindo
a tendência para utilizar a sexualidade de forma hedonista e
materialista.
Eles, por isso, recordar”lhes”ão o dom de Deus,
recebido para cooperar com Ele para « realizar ao longo da história a
bênção originária do Criador, transmitindo a imagem divina pela geração
de homem a homem »; e assim fortalecê”los”ão no conhecimento de que a «
fecundidade é o fruto e o sinal do amor conjugal, o testemunho vivo da
plena doação recíproca dos esposos ».17 Deste modo os filhos aprenderão
também o respeito devido à mulher. A obra de informação e de instrução
dos pais é necessária, de facto, não porque de outro modo os filhos não
poderiam conhecer as
realidades sexuais, mas para que as conheçam a uma luz correcta.

94.
De maneira positiva e prudente os pais realizarão o que pediram os
Padres do Concílio Vaticano II: « Os jovens devem ser instruídos
convenientemente e a tempo, sobretudo no seio da sua família, sobre a
dignidade, a função e o exercício do amor conjugal, a fim de que,
preparados no cultivo da castidade, possam passar, na idade própria, do
noivado honesto para as núpcias ».18 Esta informação positiva sobre a
sexualidade estará sempre inserida num projecto formativo, para criar
aquele contexto cristão em que devem ser dadas todas as informações
sobre a vida e sobre a actividade sexual, sobre a autonomia e sobre a
higiene. Assim, as dimensões espirituais e morais deverão sempre
prevalecer e ter duas finalidades especiais: a apresentação dos
mandamentos de Deus como caminho de vida e a formação duma consciência
recta.
Jesus, ao jovem que o interroga sobre o que deve fazer para
obter a vida eterna, responde: « Se queres entrar na vida, observa os
Mandamentos » (Mt 19, 17); e, depois de ter enumerado aqueles que se
referem ao amor do próximo, resume”os na formulação positiva: « Ama o
teu próximo como a ti mesmo » (Mt 19, 19). Apresentar os mandamentos
como dom de Deus (escritos pelo dedo de Deus, cf. Ex 31, 18) e expressão
da Aliança com Ele, confirmados por Jesus com o seu próprio exemplo, é
muito importante porque o adolescente não os desliga da sua relação com
uma vida
interiormente rica e liberta de egoísmos.19

95. A
formação da consciência requer, como ponto de partida, que se seja
esclarecido sobre o projecto de amor que Deus tem para cada pessoa,
sobre o valor positivo e libertador da lei moral e sobre o conhecimento
tanto da fragilidade proveniente do pecado como também dos meios da
graça que corroboram a pessoa humana no seu caminho para o bem e a
salvação.
« Presente no coração da pessoa, a conciência moral » ” que é o « núcleo mais secreto e o sacrário
do
homem », como afirma o Concílio Vaticano II20 ” « obriga”a, no momento
oportuno, a fazer o bem e a fugir do mal. Ela julga também as opções
concretas, aprovando as boas e denunciando as más. Ela atesta a
autoridade da verdade em relação ao Bem supremo, de Quem a pessoa humana
recebe o atractivo e acolhe os mandamentos ».21
De facto « a
consciência moral é um juízo da razão mediante o qual a pessoa humana
reconhece a qualidade moral de um acto concreto que vai realizar, está
realizando ou já realizou ».22 Por isso, a formação da consciência
requer o esclarecimento acerca da verdade e do plano de Deus e não se
deve confundir com um vago sentimento subjectivo ou com a opinião
pessoal.

96. Ao responderem às perguntas dos filhos, os pais
deverão oferecer argumentos bem reflectidos sobre o grande valor da
castidade e mostrar a fraqueza intelectual e humana das teorias que
inspiram comportamentos permissivos e hedonísticos; responderão com
clareza, sem dar importância excessiva às problemáticas patológicas
sexuais nem à falsa impressão de que a sexualidade seja uma
realidade
vergonhosa ou suja, visto que é um grande dom de Deus, o qual deu ao
corpo humano a capacidade de gerar, tornando”nos participantes do seu
poder criador. Até mesmo, tanto na Escritura (cf. Cant 1″8; Os 2; Jer 3,
1″3; Ez 23, etc.) como na tradição cristã23 sempre se viu o amor
conjugal como um símbolo e uma imagem do amor de Deus pelos seres
humanos.

97. Visto que durante a puberdade um rapaz ou uma jovem
são particularmente vulneráveis às influências emotivas, os pais têm o
dever, através do diálogo e do seu estilo de vida, de ajudar os filhos a
resistir aos influxos negativos que chegam do exterior e poderiam
levá”los a substimar a formação cristã sobre o amor e sobre a castidade.
Às vezes, particularmente nas sociedades alteradas pelos impulsos
consumísticos, os pais deverão ” sem que isso se note muito ” ter
cuidado com os relacionamentos de seus filhos com adolescentes do sexo
oposto. Embora aceites
socialmente, há hábitos no falar e nos
costumes que são moralmente incorrectos e representam uma forma de
banalizar a sexualidade, reduzindo”a a um objecto de consumo. Os pais
devem então ensinar a seus filhos o valor da modéstia cristã, da
sobriedade no vestir, da necessária autonomia em relação às modas,
característica de um homem ou de uma mulher com personalidade madura.24

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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