Conselho Pontifício para a Família: Lexicon (Prefácio)

(trechos)

Alfonso Cardeal Lópes Trujillo
              
O Lexicon contempla uma variedade de possibilidades, como sugere seu título completo. Indicando o real conteúdo e a verdade que deve guiar seu uso apropriado, procura esclarecer alguns termos ou expressões ambíguas ou equívocas, de difícil compreensão. Neste campo existe já uma gravitação cultural que complica ulteriormente uma justa interpretação.  
 É necessário seguir pacientemente a origem e o desenvolvimento das expressões e de sua difusão. Não são raros os casos em que se criam termos que não conseguem ocultar por completo uma precisa intenção: esconder o que seja ofensivo, de modo que a expressão fique mais delicada, com a finalidade de evitar sua rejeição quase instintiva. É o caso da hábil formulação “interrupção voluntária da gravidez” ou “pro- choice”, da qual se falará logo a seguir.  
Existem numerosas expressões, em uso nos Parlamentos e nos foros mundiais, que podem ocultar seu real conteúdo e significado e que são utilizadas sem que os próprios políticos e parlamentares tenham plena consciência de seu alcance, devido, em alguns casos, à falta de uma adequada formação filosófica, teológica, jurídica, antropológica etc. Tal fato impede ainda mais a correta compreensão de alguns conceitos. Gostaríamos que o Lexicon constituísse um subsídio para esses casos, que despertasse o interesse por uma informação objetiva e séria e também que estimulasse o desejo de uma formação mais rigorosa neste campo interdisciplinar.
O problema é maior onde impera a mentalidade do positivismo jurídico, segundo o qual o valor da lei não se mede por sua adequação à pessoa humana concebida integralmente, mas, na realidade, a lei é formulada e aceita enquanto expresso o da maioria. Chega-se assim a um conceito da “verdade política”, de uma democracia, que já não saberá subtrair-se ao conceito da lei como imposta pelo mais forte.
Existem também diversos conceitos obscuros e de difícil compreensão, cujos conteúdos exigem uma serena e paciente definição. Isto naturalmente se complica quando aumenta a resistência em aceitar a lei natural e a vincular as leis a uma referência ética. Obviamente, não podemos marginalizar a riqueza da fé, que dá especial profundidade àquilo que a razão pode captar.
Não é nossa intenção combater ou ir contra instituições ou pessoas e, muito menos, fazer imposições. Gostaríamos, antes, de propor, persuadir com amor, orientando em direção à verdade, com respeito, com a esperança que se instaure e se reforce um diálogo fecundo. Não podemos preterir a verdade, à qual o homem tem direito para poder respirar segundo uma liberdade genuína.
Certas expressões aproveitam-se da escassa informação ou da ingenuidade daqueles que fazem uso das mesmas, os quais, seduzidos pela ambigüidade, não se dão  perfeitamente conta do engano. De tal forma, tenta-se manipular a própria opinião pública, ocultando aspectos desagradáveis ou chocantes da realidade ou da verdade. Os termos criados não são propriamente inocentes; alterando o significado das palavras, seus autores usam qualquer meio para obter os fins que desejam alcançar. Isto para evitar uma rejeição, que eles mesmos veem como um risco normal.
A astúcia na busca de expressões ambíguas chega a níveis preocupantes. Começa- se a falar de uma linguagem “orweliana”. O prestigioso escritor George Orwell, em 1984, criticou as formas totalitárias, nas quais, com o propósito de propaganda, certos termos, repetidos para provocar reflexos condicionados, escapavam à clareza da inteligência e acabavam por assumir um significado contrário; por exemplo, escravidão significa liberdade, o mal se identifica com o bem, a mentira com a verdade.
Denunciou-se o fato de que um dos sintomas mais preocupantes do ofuscamento moral é a confusão dos termos, que chega a níveis extremamente degradantes quando estes são utilizados com calculada frieza, com a finalidade de obter uma mudança semântica, isto é, do significado das palavras, de forma artificialmente persuasiva. Esta incrível capacidade de mutação semântica, que mostra o vazio de uma antropologia, manifesta-se também nos conceitos dos “direitos”, que passam a ser seletivos e caprichosos. Nem sempre é coerentemente reconhecida a universalidade dos direitos: são feitas “exceções”, as quais negam a solidez e a extensão dos direitos, especialmente no que se refere ao artigo 3 da Declaração Universal dos Direitos Humanos: “Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”. A impressionante dimensão do massacre do aborto mostra o uso relativo de um direito que deveria ser fundamental. João Paulo II escreveu: “Os direitos humanos estão intimamente entrelaçados entre si, sendo expressões de diferentes dimensões de um único sujeito que é a pessoa.  A defesa da universalidade e da indivisibilidade dos direitos humanos é essencial para a construção de uma sociedade pacífica e para o desenvolvimento integral das pessoas, dos povos e das nações.”
 No crescente equívoco, chega-se mesmo a propor novos direitos, não como conquista em temas antes não reconhecidos que mereçam ser considerados, mas como novas formas de manipulação. Em referência a isto, foi afirmado validamente por P. Abelardo Lobato: “Vistos separadamente, parecem conceitos fascinantes. Não se trata, porém, de uma questão de novidade, mas, mais exatamente, de uma diversidade da linguagem, com o escopo de subtrair alguns direitos humanos a qualquer norma ética, a fim de relegá-los à privacy, através de uma linguagem ambivalente, que promove idéias e práticas que contradizem o que à primeira vista significam. Uma expressão é manipulada e camuflada para, através de potentes meios de comunicação, penetrar em todos os ambientes. Existe uma sempre maior separação entre o pensamento, a própria realidade e a palavra que os exprime, a qual passa a ser objeto de manipulação. No final, são negadas as três realidades que os termos parecem afirmar: a novidade, os direitos e o ‘humanum’. Para não ofender o ouvido, apresentam-se expressões alternativas, como, por exemplo, a interrupção da gravidez para expressar o aborto, a eutanásia para significar morrer mal, a pílula ‘do dia seguinte’ para expressar um abortivo”.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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