“Consagração ao Coração de Jesus, cume desta JMJ”

Fala Dom Munilla, responsável pela pastoral juvenil do episcopado espanhol

MADRI, quinta-feira, 25 de agosto de 2011 (ZENIT.org) – A consagração dos jovens ao Coração de Jesus, realizada por Bento XVI durante a vigília em Cuatro Vientos no último sábado, foi o momento culminante da 26ª Jornada Mundial da Juventude (JMJ).

É sobre isso que ZENIT conversa, nesta entrevista, com Dom José Ignacio Munilla, o bispo responsável – junto ao de Solsona, Dom Xavier Novell – pelo departamento de pastoral da juventude da Conferência Episcopal Espanhola.

O bispo de San Sebastián destaca a imprevisível mobilização de jovens espanhóis para a JMJ, propiciada na última hora pelo testemunho dos jovens estrangeiros durante os Dias nas Dioceses, prévios ao grande encontro de Madri.

Agora, ele convida a reler todos os discursos que o Papa pronunciou – e o que não pronunciou – durante a JMJ e a buscar um diretor espiritual como ajuda no seguimento de Cristo.

ZENIT: O que o senhor destaca da JMJ realizada em Madri?

Dom José Ignacio Munilla: Durante os meses e as semanas prévios à JMJ, não era previsível uma mobilização tão grande de jovens espanhóis, como a que aconteceu. O número de inscrições de peregrinos dos demais países era grande, mas o número de espanhóis inscritos deixava muito a desejar.

Pois bem, a explicação dessa massiva assistência de última hora, que deixou todos nós surpresos, precisa ser buscada, entre outros fatores, na grande animação que os peregrinos vindos de todas as partes do mundo realizaram nas dioceses espanholas, durante os dias prévios à JMJ.

Mais uma vez, a iniciativa dos DED (Dias nas Dioceses) foi muito efetiva e pedagógica. O selo que deixou nos jovens que vinham a Madri foi verdadeiramente profundo e efetivo.

ZENIT: Em sua opinião, quais são as principais novidades que esta JMJ ofereceu com relação às edições anteriores?

Dom José Ignacio Munilla: A dinâmica da JMJ já está muito consolidada e o esquema do encontro de Madri foi similar aos anteriores.

Penso que cabe destacar a amplíssima oferta da agenda cultural desta JMJ, bem como o novo método de provisão de alimentos, já não por catering, mas em parceria com 2.500 restaurantes de Madri, o que contribuiu para uma maior integração dos jovens na cidade.

ZENIT: Como o senhor interpreta a chuva da vigília em Cuatro Vientos?

Dom José Ignacio Munilla: É interessante comprovar que essa forte tempestade, que surpreendeu todos nós, que estávamos presentes, fazendo-nos sentir a fraqueza humana diante da natureza, introduziu o momento culminante da JMJ de Madri.

Certamente, foi um momento de graça, porque nos fez ver como, em determinado momento, o vento nos despojava dos nossos planos e programações, e éramos desnudados diante da grandeza de Deus.

Justamente nesse instante, o Papa decidiu suprimir suas palavras e passar ao essencial, à adoração eucarística.

Em meio a um silêncio de oração impressionante, o Papa pronunciou, com voz confiada, a consagração dos jovens do mundo inteiro ao Coração de Jesus. Foi o momento culminante desta JMJ, que passará à história.

ZENIT: Foi pouco comentada essa consagração dos jovens ao Coração de Jesus, que o Papa realizou. Que sentido tem esse gesto?

Dom José Ignacio Munilla: O Papa quis, com este gesto, sublinhar, diante de jovens desejosos de transformar o mundo, que é preciso priorizar o “ser” sobre o “fazer”.

Somente os enamorados de Cristo podem transformar o mundo! E para poder levar a cabo esta tarefa de transformação do mundo, é necessário “ser de Cristo”, ter intimidade com Ele, deixar-nos mover pelo seu Espírito.

O Papa utilizou uma fórmula simples, apresentando todos os jovens diante de Jesus Cristo: “(…) com ardente oração, eu os consagro ao vosso Coração, para que, enraizados e edificados em Vós, sejam sempre vossos, na vida e na morte. Que jamais se separem de Vós (.)”.

Foi uma imagem impressionante do Papa, que nos trazia à memória a conhecida como “oração sacerdotal” de Jesus Cristo (cf. Jo 17), na qual Ele orou ao Pai para que não lhe fosse arrebatado nenhum daqueles que lhe haviam sido confiados.

ZENIT: De tudo o que o Papa disse em seus discursos, que palavras o senhor guardou no coração?

Dom José Ignacio Munilla: Ao voltarmos para casa, temos de fazer um exercício de releitura de todos os discursos.

Não me resta dúvida de que foi providencial que o Papa não tenha podido responder às perguntas dos jovens na vigília em Cuatro Vientos, porque isso nos obriga mais a buscar, na internet, suas respostas íntegras e a aprofundar nelas, sem ficar com uma mera frase, como se fosse uma manchete.

ZENIT: Que reações o senhor está observando nos jovens com quem teve contato nestes dias?

Dom José Ignacio Munilla: Os jovens estão impressionados, ao mesmo tempo que abertos a um novo itinerário em suas vidas.

Nestes dias, o conselho que eu mais estou repetindo é o seguinte: busquem um diretor espiritual para que os ajude no seu seguimento de Cristo! Não há dúvida de que o fruto deste JMJ será diretamente proporcional à quantidade de acompanhamentos espirituais iniciados.

ZENIT: Como se vive uma JMJ como bispo?

Dom José Ignacio Munilla: Em Sydney, vivi a minha primeira JMJ como bispo e confesso que, naquela JMJ, custou-me participar dessa maneira, porque senti falta da proximidade de acompanhar, como sacerdote, um grupo concreto de jovens.

Por outro lado, a relação com os demais irmão bispos durante esses dias também é uma ocasião de graça, já que habitualmente não temos muitas oportunidades de conviver e trocar nossas impressões e experiências diocesanas.

A organização teve um grande detalhe com todos nós, ao oferecer-nos um magnífico concerto do Orfeón Donostiarra no Auditório Nacional de Madri, seguido de um jantar no IFEMA. Foi um momento inesquecível!

ZENIT: Como foram as catequeses dos bispos?

Dom José Ignacio Munilla: As catequeses com os jovens são um dos principais momentos em que um bispo exerce seu ministério na JMJ. Trata-se de uma oportunidade para ter um contato muito direto com os jovens e responder, em um diálogo aberto e sem filtro algum, às suas dúvidas e preocupações.

É um método muito renovador da imagem deformada dos bispos, que muitos jovens puderam receber da mídia. Os pastores estão perto deles, compartilham suas experiências, os escutam e lhes comunicam a Palavra.

Acrescento ao anterior que, nesta ocasião, com motivo da distribuição do YouCat (Catecismo para jovens) na mochila do peregrino, tivemos a oportunidade de incentivar os jovens a empreender progressos de formação.

O clima de secularismo em que vivemos nos obriga a fazer um esforço especial para poder dar razão da nossa fé diante dos que nos cercam.

ZENIT: O Papa aconselha os jovens a não se deixar levar pelos seus impulsos, a ajudar os outros e pensar em compromissos para a vida toda; um bispo iraquiano pede aos jovens árabes que não emigrem dos seus países. Não são propostas pouco realistas para os jovens de hoje?

Dom José Ignacio Munilla: O Pe. Morales, um santo jesuíta já falecido, dizia: “Aos jovens, se lhes pedem muito, eles dão mais; mas se lhes pedem pouco, não dão nada”.

Em outras palavras, a radicalidade evangélica encontra um eco muito especial no coação do jovem, quando não foi “domesticado” ou “rendido” ao espírito deste mundo.

E, como diziam Chesterton, “o catolicismo é a única religião que nos liberta da escravidão de ser filhos da nossa época”.

(Patricia Navas)

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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