Como entrar em contato com o Criador

Deus criou o homem com a capacidade de se comunicar [1] e, através de manifestações exteriores, expressar aquilo que vai em seu interior. Poderia fazê-lo através de palavras, gestos, sinais, ou inclusive expressões fisionômicas que expressem uma reação, atitude, desejo ou postura diante de algo ou alguém. Esta disposição leva inclusive a que ele se desprenda do egoísmo e da autossuficiência e a uma abertura com relação àquele que o rodeia, e até ao sobrenatural. [2]

Deste modo, entre todos os seres vivos, ele é o único dotado de uma tal criatividade que, a partir de um número finito de palavras passíveis de serem contidas em um determinado dicionário, é capaz elaborar infinitos sistemas, sem contar o recurso à fantasia e a sentenças que podem inclusive chegar à agramaticalidade [3] sem embargo, facilmente reconhecíveis e até decifráveis por parte de outro falante ouvinte que comparta a mesma língua ou domine idêntico conjunto de códigos linguísticos. E até o final de sua vida, ele poderá emitir ou receber formulações sempre novas e fecundas, capazes de surpreender e abrir novas perspectivas, contribuindo deste modo a um renovado impulso da comunicatividade e abertura tanto ao próximo com ao transcendental.

Entretanto, foi o próprio Deus que tomou a iniciativa e quis se comunicar com os homens. E o fez por intermédio da criação, estabeleceu uma aliança com os homens “muitas vezes e de muitos modos falou a nossos pais, nos tempos antigos” e nestes tempos, que são os nossos, “nos falou por meio do Filho” (cf. Hb 1, 1-12). E mais, ninguém melhor que Ele para nos dizer que é o Pai. A exortação Apostólica Verbum Domini nos recorda também o papel de sua esposa mística, a Igreja, como transmissora da Revelação, “através da obra do Espírito Santo e sob a guia do Magistério”:

“A Igreja vive na certeza de que seu Senhor, havendo falado alguma vez, não cessa de comunicar hoje sua Palavra na Tradição viva da Igreja e na Sagrada Escritura. De fato, a Palavra de Deus se dá a nós na Sagrada Escritura, como testemunho inspirado da revelação, que, juntamente com a Tradição viva da Igreja, constitui a regra suprema da fé (n. 18).

Enquanto a outras formas do Senhor comunicar-se aos homens, o Catecismo da Igreja Católica não deixa de assinalar os sacramentos, sendo Cristo que neles atua e comunica a graça que significam (cf. n. 1127). E para não delimitar o tema, que jamais se encerra aqui, bastaria considerar que o Espírito faz ouvir sua voz e atua onde quer, conforme explica o próprio Jesus por ocasião de sua conversação noturna com Nicodemo (cf. Jn 3, 8).

Agora, uma vez que Deus é pródigo em comunicar-se, cabe ao homem estar atento, não somente vigilante, mas também orante (cf. Mt 26, 41), ou seja, respondendo à interpelação que lhe é dirigida e cuja fé exige, mais adiante, as obras (cf. Tg 2, 14-26). É inerente ao homem, como ser simultaneamente corporal e espiritual, uma necessidade de entrar em contato com o Criador. Deverá fazê-lo por meio de “sinais e símbolos materiais”, como nos explica o Catecismo: “Como ser social o homem precisa de sinais e símbolos para se comunicar com os outros, pela linguagem, por gestos, por ações. Vale o mesmo para sua relação com Deus” (CIC 1146).

São Tomás de Aquino afirma ser nossa peculiar linguagem obra própria da razão, uma porta para o homem manifestar aquilo que existe em seu interior [4]. E descreve o reto processo da linguagem desta forma:

” [A potência intelectiva] primeiro aprende simplesmente algo e esse ato se chama inteligência o que ela aprendeu para conhecer ou obrar alguma outra coisa, e é a intenção. Ainda persiste na investigação daquilo que se propõe, pensa. Ao examinar o que refletiu em função de princípios corretos, conhece ou sabe; então a sabedoria leva a julgar […] Quando já possui alguma coisa como correta, porque foi comprovada, pensa na maneira de comunicá-la aos demais: e é a disposição da palavra interior, da qual procede a linguagem”. [5]

De modo semelhante sobre o processo mesmo, surge a elevação da mente até Deus, ou seja, a oração que poderá ser vocal, e manifesta a fé do crente como “rationabile obsequim” (cf. Rm 12, 1). O primeiro termo aparece também na oração eucarística do Canon Romano, onde se reza para Deus aceita a oferenda como “rationabile”. Mas esta disposição interior parece não ser suficiente, íntegra, ou inclusive coerente, se não se manifesta e comunica aos demais, através do testemunho e da autenticidade na vida e nos atos do crente. Se entende então a necessidade de prestar a Deus um culto que não seja meramente interno, o que o tornaria incompleto, senão de um culto externo, que deve repercutir na esfera pública, dando que toda a sociedade é devedora de Deus, e desta forma, deve render-lhe um culto público [6].

E como recordava Paulo VI, baseando-se na Sacrosanctum Concilum (n.13), já no último ano de seu pontificado: “Que é a liturgia senão o culto público da Igreja, sua voz comuitária dirigida ao mistério de Deus Pai, por meio de Cristo, no Espírito Santo?” [7]. E acrescenta a necessidade não só da expressão coletiva das vozes dos fiéis, como também a “obrigação e possibilidade do diálogo pessoal com Deus” [8]. A interatividade que deve existir no diálogo entre Deus que interpela, e a resposta do crente, deverá levar a que a “semente do reino produza seu fruto na terra fértil”. E por isso, “as ações litúrgicas significam o que a Palavra de Deus expressa: a iniciativa gratuita de Deus e ao mesmo tempo a resposta de fé de seu povo” (CIC 1153).

Ainda que nossa linguagem pareça ser insuficiente, não só para explicar-nos quem é Deus, mas também para dirigir-nos a Ele, não nos esqueçamos de que o “Verbo se fez carne” (Jn 1, 14), e assumindo a condição humana (cf. Fl 2, 7), semelhante a nós em tudo exceto no pecado (Hb 4, 14), falou aos homens (cf. Hb 1, 2). Por isso afirma a Dei Verbum: “As palavras de Deus com efeito, expressadas por línguas humanas, se tornaram intimamente semelhantes a linguagem humana como alguma vez o Verbo do Eterno Pai se assemelhou aos homens tomando a carne da debilidade humana” (n.13).

“Assim falando de Deus, nossa linguagem se expressa, sem dúvida, de maneira humana, mas alcança realmente ao próprio Deus, ainda que sem poder expressá-lo em sua infinita simplicidade” (CIC 43). E para São Tomás de Aquino, esta simplicidade não fica comprometida quando a Deus se atribuem algumas coisas, uma vez que partem do conhecimento que possui nosso intelecto relativamente aos efeitos divinos, cuja relação tem nEle seu fim [9].

E em quanto a nos dirigirmos a Deus, é sempre possível, inclusive recorrendo ao emprego de palavras humanas, pois a melhor referência e o exemplo foram oferecidos pela segunda pessoa da Santíssima Trindade, que assim nos ensina a orar: “Pai nosso…” (Cf. Mt 6, 5-15; Lc 11, 1-4).

***
Por Padre José Victorino de Andrade, EP

____________________
1. Adão nomeia todos os seres vivos (cf. Gn 2, 20), se dirige a Eva, mulher que lhe foi dada para que não ficasse só e que constituía com ele uma só carne (cf. Gn 2, 23-24) e ela, por sua vez, responde a indagação da serpente (Gn 3, 2). Estão compreendidas, nestas três passagens, as primeiras palavras registradas nas Sagradas Escrituras.

2. São Tomás de Aquino se refere várias vezes à natureza social do homem. Ver, por exemplo, S. Th. I, q. 96, a. 4; S. Th. I-II, q. 61, a. 5. Cont. Gent. III, c. 128; 129; 131.
3. Quanto a esta questão, ver o excelente capítulo a ela dedicada no manual de GOUVEIA, Carlos et al. Introdução à Linguística Geral e Portuguesa. 2. ed. Lisboa: Caminho, 2006.
4. Cf. S. Th. I-I, q. 91, a. 3; S. Th. I-I q. 107, a. 1.
5. S. Th. Q. 79, a. 10, resp. 3.
6. Tanto autores clássicos de filosofia tomista como recentes defendem a necessidade do culto público: Jolivet, Collin. Ver também CHALMETA, Gabriel. Ética social: família, profissão e cidadania. 2a. ed. Pamplona: Eunsa, 2003. Assim mesmo a constituição conciliar Sacrosanctum Concilium, e os decretos Apostolicam Actuositatem y Christus Dominus.
7. PAOLO VI. Udienza Generale, 12 abr. 1978. Disponível em: . Último acesso em 5 set. 2011. (Tradução nossa).
8. Loc. cit.
9. Cf. Cont. Gent. II, c. 13-14, 3-4.

Compartilhe!

    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
    Adicionar a favoritos link permanente.