Como é o amor de Deus?

A palavra amor no mundo atual encerra desde os mais vis até os mais nobres sentimentos do homem. Todos são capazes de amar. Em nosso cotidiano essa faculdade direciona-se a diversas criaturas. Ama-se os familiares, vizinhos e amigos, ama-se até mesmo os animais domésticos e objetos inanimados.

Ora, se o homem é capaz de amar, que se dirá de Deus? E de fato, Deus não possui propriamente amor; na verdade, como escreveu São João, “Deus é amor” (1 Jo 4,6), pois o próprio ser de Deus é Amor. Portanto, esta frase não é somente poética, mas nela encontra-se um enigma, uma verdade teológica com uma profundidade insondável explicada em termos pelo catecismo da Igreja.

O amor do homem semelhante ao amor de Deus
Para compreender algo do amor divino, é necessário antes definir o amor humano. São Tomás de Aquino ensina que, por mais que sintamos o peito bater mais intensamente, o amor não é apenas um sentimento expresso pelo coração[1]; amar não é permanecer longas horas pensando em uma pessoa e imaginando situações. “Amar” também não é simplesmente um “verbo transitivo direto”, como referia um escritor brasileiro, e nem mesmo a simples injeção de hormônio dopomina…

Não somente a ciência, a poesia e a literatura são capazes de dizer-nos algo sobre o amor. A teologia ensina que no fundo, amar é querer bem. É o primeiro movimento da vontade humana. Quando queremos algo, amamos. Nosso apetite, nossa vontade tende sobretudo ao bem, porque o amor caracteriza-se por entender o bem existente nas criaturas, admirar e ter a vontade de possuí-lo; isto é ter benevolência, é querer bem.

Assim, amar é um ato da inteligência e da vontade humana que muitas vezes é corroborado por nossa sensibilidade. Santo Agostinho afirma que “a consumação de todas as nossas obras é o amor. É nele que está o fim: é para a conquista dele que corremos; corremos para lá chegar e, uma vez chegados, é nele que descansamos”.[2]

Quando possuímos o que amamos temos alegria e prazer. Quando este bem amado não está ao nosso alcance, possuímos desejo e esperança. O amor é mais verdadeiro quanto mais é racional, por isso, quanto mais se conhece, mais se ama.

Da mesma maneira que o verdadeiro amor humano, o amor de Deus jamais é irracional, como, às vezes, encontra-se o nosso amor, quando maculado pelo egoísmo. Em Deus não existe paixão como a que é capaz de nos arrastar a perder o controle de nós mesmos, quando desejamos algo fora da vontade de Deus e perdemos a razão. Este é um amor imperfeito.

Ora, se Deus é onisciente, dir-se-ia que ama todas as coisas com a máxima intensidade possível. Semelhante ao nosso, o amor de Deus caracteriza-se por querer para o amado aquilo que é bom, mas de modo inteiramente racional. É o amor maximamente perfeito.

Amor criador
Como ensina o livro do Gênesis, o Universo foi criado por Deus segundo a sua sabedoria e não é apenas fruto de um destino cego ou do acaso. Na verdade, todo o universo procede da vontade livre de Deus, que quis fazer as criaturas participantes do seu Ser, da sua sabedoria e da sua bondade (Cf. Sb 9,9). A Igreja ensina que o amor de Deus tem uma peculiaridade: infunde e cria a bondade nas criaturas[3]; por isso, “este mundo foi criado e continua a ser conservado pelo amor do Criador”.[4]

O amor de Deus não se direciona a algo apenas por aquilo ser bom, mas na verdade tudo aquilo que existe de belo e bom na Criação, existe porque Deus o amou antes de criar, ou seja, o amor de Deus é criador, cria porque ama. Por esta razão, tudo que existe foi amado por Deus: o mar, as montanhas, as florestas, os animais, o Céu, inclusive o inferno e o demônio. Deus amou sobretudo ao homem fazendo-o rei da criação, capaz de retribuir este amor divino.

De fato, o amor de Deus deseja reciprocidade. Todavia, ainda que não exista gratidão o amor de Deus não cessa, pois é gratuito. A benevolência de Deus é infinita, sem limites. São Tomás de Aquino ensina que este amor divino aos homens tem duas características essenciais: pela força de união, quer unir-se a nós, dando-se a si mesmo, vivendo em nós através da graça; e em virtude da coesão, quer aperfeiçoar a quem Ele ama, quer nos ajudar em nossas dores, em nossas quedas, Ele quer nos santificar[5].

Por esta razão, o amor de Deus ao homem não se manifesta apenas nas coisas visíveis, nem mesmo nos alimentos e nos bens deste mundo. Este amor quer comunicar o maior bem da criação que é a graça, ou seja, a participação em sua vida bem-aventurada, que nos faz semelhantes a Ele e nos dá a possibilidade de conhecê-Lo e amá-Lo[6]. Deus quer conversar com o homem, consolá-lo em suas aflições, compartilhar sua alegria infinita, quer ser nosso pai, amigo e irmão.

Deus ama mais a uns do que a outros?[7]
Devido à mentalidade moderna, esta pergunta pode ferir os defensores do igualitarismo completo, que quer restringir a esta lei utópica até mesmo o amor do Criador, dizendo que seu amor é idêntico a todos os homens fundamentalmente iguais.
É verdade que enquanto ato próprio de Sua vontade, Deus ama todas as coisas igualmente, pois uma só é sua vontade, pela qual ama como que com o mesmo instrumento todos os homens.

Deus pode amar, porém, mais intensivamente querendo um bem maior a um que a outro. Como a vontade e o amor de Deus são a causa da bondade nas criaturas, Deus ama certas coisas mais que outras, pois algumas são mais perfeitas que outras. Quanto mais excelente é uma criatura mais foi amada por Deus[8], por isso, “os melhores são mais amados por Deus” [9].

Assim, uma planta foi mais amada que uma pedra, pois possui vida. Um homem mais que o animal, porque possui inteligência. Um homem pode ter sido mais amado por Deus que outro, por esta razão alguns possuem mais força, inteligência, beleza ou dotes naturais que outros.

Ademais, quanto mais o homem possui a graça e dons sobrenaturais mais é amado por Deus, pois, “o bem sobrenatural de um só indivíduo está acima ao bem natural de todo o universo” [10]. Por esta razão, caso fosse possível reunir a graça como uma gotinha de água, esta valeria mais do que todo ouro do mundo, mais que todos os astros e seres visíveis. É a mesma razão, que faz concluir que um santo é a criatura de Deus mais amada do Universo.

Uma alma santa possui a graça de Deus e responde com amor e adoração à benevolência divina. Por isto, Deus manifesta seu poder para o bem dos homens através de almas bem-aventuradas que se entregaram inteiramente ao amor do Criador. A criatura mais amada por Deus foi Maria, a Virgem cheia de graça, “filha bem-amada do Padre Eterno”.

O amor de Deus aos pecadores
Nem o pecado é um limite para este amor. Dir-se-ia que Judas ao trair o divino Mestre, cometendo o maior crime da História ao trocar por trinta moedas a vida de Jesus, perdera qualquer capacidade de participar do amor divino. Todavia, como no-lo recorda São Bernardo, se Judas após seu crime horrendo tivesse implorado ao amor de Deus, teria sido perdoado. Se ele tivesse recorrido a Nossa Senhora, seria hoje venerado entre os Apóstolos da Igreja. De fato, nem o deicídio é um limite para o amor divino. Este amor de Deus quer o nosso bem, quer nos santificar. Deus ama o homem, ainda que tenha caído “sob a escravidão do pecado” porque este amor onipotente pode sobrepor até as piores infidelidades.

Lemos na Bíblia que Deus manifestou pelos profetas um grande amor ao “povo eleito”. O amor de Deus é eterno, pois “os montes podem mudar de lugar e as colinas podem abalar-se, mas o meu amor não mudará” (Is 54,8-10; Jr 31,3). O amor de Deus é comparado ao amor de um esposo pela sua bem-amada. Este amor é mais forte que o amor de um pai, ou mesmo de uma mãe, por seus filhos; pois assim como o pai do filho pródigo o perdoou, quando o povo de Israel se afastava deste amor, perdoava-o em suas infidelidades e galardoava-os de bens [11].

O píncaro da manifestação do amor de Deus
Este Amor pela humanidade – ainda que pecadora – culmina na Encarnação de Jesus, pois “Deus amou tanto o mundo, que entregou seu Filho único” (Jo 3,16).

O Divino Mestre manifestou este amor de Deus em diversas parábolas como da moeda perdida, do banquete aos aleijados, do samaritano, do publicano, e sobretudo na parábola do filho pródigo e da ovelha perdida. Jesus é o pastor que se alegra mais com o encontro de uma ovelha desgarrada, é como o pai que encontra seu filho perdido.

Por esta razão, o pecador jamais deve perder a confiança nesse amor infinito do Criador demonstrado pela paixão e morte de Jesus na Cruz[12]. Jesus seria capaz de entregar-se por um só homem a todos os suplícios do Calvário. Como outrora Jacó imolou seu único e amado filho Isaac, Deus Pai entregou a Cristo em resgate de todos os homens.

De tal maneira Deus é amor, que a relação que existe entre as pessoas da Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo é sobretudo de amor. Amor eterno sem começo, nem fim. Ensina o Catecismo que “ao enviar, na plenitude dos tempos, seu Filho único e o Espírito de Amor, Deus revela seu segredo mais íntimo: Ele mesmo é eternamente intercâmbio de amor: Pai, Filho e Espírito Santo, e destinou-nos a participar deste convívio” [13]. Através da graça de Deus somos capazes de amá-Lo como Ele mesmo se ama. Deus como que empresta-nos sua própria capacidade de amar.

O amor de Deus em nossa vida
É este amor que move o cristão a praticar os mandamentos de Deus e a suportar todos os sofrimentos da vida presente. É a firme convicção deste amor de Deus por cada homem, ainda que pecador, que nos faz querermos conhecer os mistérios insondáveis da Fé e de sermos firmes nos propósitos de santidade.

Por esta razão, os santos são a mais perfeita imagem do amor divino, pois correspondem a esse amor. Almas ardentes de caridade divina refletem este amor na benevolência para como o próximo. Como os mártires, são capazes de entregar suas vidas e abandonar todas as coisas terrenas por causa deste amor. Para este amor todos os cristãos são chamados, pois a santidade é um caminho universal, para todos os homens, para mim, que leio este artigo.

Garrigou-Lagrange ensina que “o amor de Deus para conosco é, pois, um amor de benevolência e amizade, amizade tanto mais generosa quanto mais pobres nós formos” [14]. Que confiança o cristão deve ter neste amor Divino, especialmente nas agruras e dificuldades da vida presente.

Fonte: Gaudium Press
por Marcos Eduardo Melo dos Santos

[1] S. Th. 1,20,1.
[2] Santo Agostinho, In epistulam Iohannis ad Parthos tractus 10, 4: PL 35, 2056-2057.
[3] S. Th. 1,20,2.
[4] II Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 2: AAS 58 (1966) 1026.
[5] S. Th. 1,20,1, ad.3.
[6] II Concílio do Vaticano, Decr. Ad gentes, 2-9: AAS 58 (1966) 948-958.
[7] Super Ioannes. Tract 110: ML 35,1924.
[8] S. Th. 1,20,3.
[9] S. Th. 1,20,4.
[10] S. Th. 1-2, 113,9 ad 2.
[11] CCE, 218
[12] II Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 2: AAS 58 (1966) 1026.
[13] Catecismo da Igreja Católica, 221.
[14] GARRIGOU-LAGRANGE, R. Dios. La naturaleza de Dios. Tradução José San Román Villassante. 2 ed. Madrid: Palabra, 1980. p. 90.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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