Combate à ditadura do relativismo: o papel do papa na nova batalha pela religião

Há seis anos, após Joseph Ratzinger ser eleito papa, o jornal alemão “Bild” estampou na primeira página a manchete: “Somos papa”. Nasceu uma manchete memorável -mas foi só isso. Logo ficou claro que a Alemanha não estava entrando em uma nova era de catolicismo. Em vez disso, a manchete não passou de um grito de batalha para uma onda esperada de patriotismo diante do novo papa alemão.

Nada contra o orgulho nacional, mas é um sentimento que tem pouco a ver com a verdadeira revolução espiritual. Esse tipo de revolução seria muito diferente -e duraria muito mais. O fato de os críticos hoje estarem reclamando veementemente contra o papa tem uma explicação impressionantemente simples: o homem continuou sendo verdadeiro a si mesmo. Muitos estão pedindo que o papa se adapte e que adapte sua igreja. Ele deveria acompanhar os resultados das pesquisas que mostram que muitos católicos alemães querem reformas, argumentam. Ele deveria ouvir o teólogo crítico Hans Küng e o movimento de reforma na Áustria, onde centenas de padres dissidentes estão pedindo mudança abertamente. Mas o papa reage a tudo isso dizendo, como Martin Luther King: Aqui estou eu. Não posso fazer diferente.

De fato, mesmo que quisesse, ele não poderia. Ele já disse isso em seu belo discurso para a televisão pública alemã, no dia 17 de setembro, em preparação para sua visita à Alemanha. Em vez de reformas, falou sobre o Deus invisível cuja presença brilha por meio da razão, da beleza, nos santos e em todos nós. Durante o discurso, ele parecia um pouco frágil, como se visse sua visita à Alemanha como uma última batalha.

Resistência às idiotices

Bento 16 é a encarnação da resistência às idiotices de hoje, quando a obsessão com índices de popularidade e sexo são mais importantes do que qualquer artigo de fé. Mas ele desempenha esse papel com uma voz suave, e a constância de um homem profundamente religioso. E ele atrai a lealdade das pessoas que estão com ele nessa oposição -cerca de 1,2 bilhão de católicos no mundo todo- e que são frequentemente ridicularizados como idiotas por fazê-lo. Eles são verdadeiros às palavras do apóstolo Paulo: “Deus escolheu as coisas tolas do mundo.”

Em sua última missa antes de ser eleito papa, o cardeal Ratzinger pregou contra a “ditadura do relativismo” e a ideologia do “vale tudo”. Hoje, muitos analistas veem aquele sermão como um anúncio da abordagem que adotaria como papa.

Quando ele se dirigir ao parlamento alemão, o Bundestag, na quinta-feira (22/9), o papa não vai apenas fazer grandes declarações de doutrina, mas vai falar sobre questões básicas. Ele provavelmente lembrará os alemães das fundações cristãs e judias da sociedade. E ele vai falar sobre Deus, com sua mistura própria especial de análise astuta e acessível, de uma simplicidade humilde. O segredo católico profundo do papa Bento é ser direto e claro.

Mas não seria proselitismo, como acusam os membros do Bundestag, como Rolf Schwanitz, porta-voz do grupo “secularistas do Partido Social Democrático”? Sim, queridos membros do Bundestag, ele está fazendo proselitismo. Não se deve esperar outra coisa do papa.

Ele não está fazendo proselitismo por meio da espada, contudo, e sim pela palavra. Não é o tipo de proselitismo que depende da ameaça de prisão ou de assassinato se você tentar fugir, do tipo que Schwanitz conhece de seus tempos na Alemanha Oriental comunista. O homem que vai se dirigir ao Bundestag é um senhor de cabelos brancos, protegido em casa por guardas suíços armados de alabardas. Schwanitz não deve ter medo. Nem seus colegas do SPD, que protestaram contra o discurso do papa, nem os ateus da extrema esquerda do Partido de Esquerda, que não tiveram problemas em aplaudir Vladimir Putin quando ele falou ao parlamento alemão enquanto seus tanques invadiam a Tchetchênia. Este é o mesmo Partido da Esquerda que recentemente enviou um telegrama de congratulações a Fidel Castro prometendo a ele a lealdade inabalável do partido.

Multiculturalistas do bem

Na cacofonia de parlamentares que vêm expondo suas opiniões na mídia alemã, um chamou a atenção em particular. Foi Pascal Kober, membro do Bundestag do Partido Democrático Livre, que também é ministro protestante. Ele disse ao “Spiegel Online” que esperava que o papa fizesse um discurso que “combatesse fortemente a banalização da mensagem cristã para uma religião agradável”.

Foi uma observação impressionante e muito corajosa, vindo como veio -desculpe-me- de um protestante. Recentemente, participei de um programa de televisão com Nikolaus Schneider, diretor da igreja Protestante na Alemanha, durante o qual conversamos sobre o cristianismo ecumênico. Muitos membros protestantes da plateia ridicularizaram o papa por sua suposta pomposidade e condenaram tudo o que era católico -como a exigência de celibato e de padres apenas do sexo masculino- dizendo que a igreja ficou para trás no tempo.

O cristianismo ecumênico do tipo que as pessoas exigiam naquela noite envolvia, aparentemente, desistir de tudo o que é católico. Seria um cristianismo ecumênico no qual, por exemplo, os dois padres gays que foram suspensos por seus planos de cometer um ato ostensivo de rebelião contra Roma celebrando uma missa em Berlim seriam bem vindos. Não que não haja católicos que apoiariam tal coisa – e provavelmente muitos deles.

Por que? Porque o protestantismo liberal hoje se tornou a ideologia dominante na Alemanha. Tornou-se o livro de hinos de feministas, ambientalistas, multiculturalistas, defensores dos gays e anti-capitalistas fazedores do bem. E essa ideologia não tolera desvios. Em recente entrevista à revista proeminente alemã “Die Zeit”, o teólogo de reforma católica Saskia Wendel sugeriu que as autoridades talvez tenham que reprimir grupos católicos “tradicionalistas” se eles tiverem “atitudes anti-democráticas”.

Uma nova cultura de guerra

Em uma coluna de opinião perspicaz para o jornal “Süddeutsche Zeitung”, Stephan Speicher referiu-se à chamada Kulturkampf (“guerra cultural”) que ocorreu na Alemanha há cerca de 150 anos e envolveu o Estado da Prússia atacando a influência da Igreja Católica. Speicher falou sobre o “liberalismo agressivo” da época, que atacava católicos “atrasados” de forma ainda mais feroz que hoje. A frente de batalha era clara então: protestantes prussianos contra católicos romanos.

Na época, os liberais retrataram a modernidade individualista do final do século 19 como sendo contrária à instituição da Igreja Católica. O conflito atingiu seu ápice no confisco da propriedade da Igreja e prisões em massa de padres. Era uma forma de modernidade que associava a teologia de reforma com o idealismo alemão. O protestantismo, em outras palavras, tinha entrado para o zeitgeist do período: nacionalismo e Kaiser Wilhelm.

O orgulho alemão e o desafio anti-romano. É uma combinação um pouco tradicional, ao menos desde que Luther enfrentou os “italianos”, como Herfried Münkler demonstrou em seu livro “The Germans and their Myths” (os alemães e seus mitos). De fato, a “batalha contra Roma” foi um componente constante da história recente e desastrosa da Alemanha. Sob os nazistas, os chamados “cristãos alemães” eram considerados membros confiáveis do partido, enquanto os católicos orientados para Roma foram considerados “elementos hostis” pelo ministro da propaganda Joseph Goebbels.

As definições políticas de lealdade ao Estado são irrelevantes, é claro. Hoje, o protestantismo se funde perfeitamente com a ideologia cultural dominante, que consiste em grande parte de uma mistura de reflexões anti-romanos e eco-baboseira. Mas agora, é um zeitgeist que se tornou atraente para católicos voltados para a reforma. Eles finalmente querem pertencer ao centro da sociedade.

Falta de gravidade

O que é interessante é que são precisamente os protestantes como Kober, do Bundestag, e Erika Steinbach, dos democratas cristãos, que estão inconfortáveis com essa religiosidade da moda. Eles falam do papa com o maior respeito e o admiram por ser um dos últimos grandes não conformistas. É uma mensagem que se pode ouvir frequentemente dos protestantes.

A nova guerra cultural, portanto, não está mais sendo travada entre católicos e protestantes, mas entre centristas da sociedade por um lado e os fortemente religiosos pelo outro. Assim como há católicos muitos dedicados à reforma atraídos pelo zeitgeist, há também muitos protestantes que ficam irritados com a falta de gravidade religiosa.

Os católicos pró-reforma na Alemanha provavelmente terão pouca escolha senão deixar a Igreja. Mas seria tão difícil imaginar luteranos ortodoxos buscando readmissão na Igreja Católica como os bispos anglicanos e seus seguidores fizeram?

A guerra cultural está entrando em uma nova fase. E o papa dará algo para cada um dos lados.

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por Mathias Matussek
Tradução: Deborah Weinberg

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2011/09/23/combate-a-ditadura-do-relativismo-o-papel-do-papa-na-nova-batalha-pela-religiao.jhtm

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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