Com Maria (Parte 2)

Devemos ser Pastores de coração grande, a exemplo de Paulo
que aos Tessalonicenses escrevia: “Fizemo-nos pequenos entre vós, como uma mãe
que acalenta os filhinhos, que anda a criar. Deste modo, levados pela viva
afeição que sentíamos por vós, desejávamos compartilhar convosco, não só o
Evangelho de Deus, mas a própria vida, tão caros vos tínheis tornado para nós”
(1 Ts 2, 7″8).

É este o vocabulário da caridade, ou melhor, da ternura.
Paulo, que também conhece, quando é necessário, o tom vigoroso da fortaleza e
da severidade, sabe dosá-lo com este extraordinário toque de humanidade, de
sensibilidade, de delicadeza. Do Bispo requer”se o dom total de si, realizado
com plenitude de humanidade. E isto, obviamente, deve ser para com todos. Se
lhe é permitida uma predileção, esta deve ser pelos mais débeis, os mais
pobres, aqueles que não têm ninguém com quem contar. E tudo isto com um coração
deveras universal, indo mesmo para além da comunidade cristã. Na vida de Santo
Ambrósio, lê”se que quando ele morreu todos ficaram tristes, não apenas os
cristãos mas também os judeus e os pagãos (cf. Paulino de Milão, Vita Ambrosii,
48). Esta é uma experiência que foi mil vezes repetida por ocasião da morte dos
santos. No nosso tempo impressionou como o Beato João XXIII cativou, com a sua
humanidade, o ânimo de todos, crentes e não”crentes. Pode”se estar afastado da
fé e ser profundamente tocado, quando um Pastor diz palavras e realiza gestos
que vêm do coração, ou melhor, de um coração modelado pelo de Cristo.

7. No nosso ato penitencial, parece-me que não poderia
faltar uma referência a outro grande aspecto da nossa missão, o que nos vê, não
isolados no âmbito das nossas Igrejas particulares, mas unidos, em virtude da
colegialidade, à vida e às exigências da Igreja universal. Aqui, como
Pastores”pais, tornamo-nos Pastores”irmãos, chamados a viver a comunhão
colegial “afetiva” e “efetiva”. Devemos vivê-la, antes de tudo, em relação ao
Santo Padre e com todos os outros Irmãos no episcopado. A nossa fraternidade
deve levar”nos a fazer nossas, com um acentuado sentido de missionariedade, as
necessidades da Igreja espalhada pelo mundo. Talvez esta fraternidade, mais
ainda, nos pede que estejamos de maneira concreta atentos aos irmãos mais
próximos, para vivermos da melhor maneira as exigências da comunhão, procurando
sempre, embora no respeito da legítima diversidade e das funções de cada um,
pontos de encontro, linhas de orientação comum, para o bem do povo de Deus.
Vale também para este nível pastoral a promessa de Cristo: “Onde estiverem
reunidos, em Meu nome, dois ou três, Eu estou no meio deles” (Mt 18, 20).

8. Queridos Irmãos, “este é um ano de misericórdia do
Senhor” (cf. Is 61, 2), no qual o inteiro Povo de Deus é chamado a experimentar
de modo alegre e pessoal o perdão do Pai. Nós, Bispos, não nos devemos excluir
deste chamado e do “abraço que o Pai reserva para quem vier, arrependido, ao
seu encontro” (Incarnationis mysterium, 11). Ainda antes de nos enviar como
seus apóstolos, Cristo chama-nos a si e concede”nos a abundância do seu perdão
no sacramento da Reconciliação. Nesta Basílica, que nos vê reunidos para o
nosso Jubileu, imploramos misericórdia a Cristo, Bom Pastor.

Façamos dela uma experiência viva, abrindo o nosso coração
ao dom daquela consolação interior, que devemos saber transmitir aos outros, se
quisermos ser autênticos “evangelizadores”, anunciadores da “bela notícia”.
Todos os dias somos interpelados por mil coisas. Estamos muitas vezes mais
envolvidos nos problemas que nas vicissitudes alegres. Em todo o caso, cabe-nos
frequentemente consolar todos os que se sentem oprimidos sob o peso da própria
cruz e para eles devemos ser como que “cireneus”. Esforcemo-nos, então, por ser
“cireneus da alegria”, conforme uma expressão de Paulo: “Queremos apenas
contribuir para a vossa alegria” (2 Cor 1, 24). O nosso Jubileu, neste ano
singular da passagem de Milênio, com um horizonte tão rico de promessas e
desafios, seja para nós sobretudo uma recuperação da alegria interior, na
renovada relação com Cristo, a fim de podermos ser verdadeiros “cireneus da
alegria” para as comunidades a nós confiadas.

A Mãe de Deus, que há 2000 anos ofereceu ao mundo o Verbo
encarnado, guie os nossos passos e nos conduza ao seu divino Filho. N”Ele
“temos a redenção, pelo Seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza
da Sua graça” (Ef 1, 7).

Nossa Senhora nos ajude a fazer de Cristo o centro, a luz e
a energia da nossa vida de Pastores das almas. Amém!

(©L”Osservatore Romano,  14 de Outubro de 2000)

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Todos os Bispos devem estar pessoalmente empenhados na
missão “adgentes” Homilia do Cardeal Jozef Tomko na celebração da Palavra, na
Basílica de São Paulo fora dos Muros Na manhã de sábado, 7 de Outubro, o
segundo ato da programação do Jubileu dos Bispos abrangeu um encontro de oração
e de reflexão na Basílica de São Paulo fora dos Muros, com a participação de 30
Cardeais e um numeroso grupo de Prelados de cerca de 100 Conferências
Episcopais de todo o mundo. A Celebração da Liturgia da Palavra foi presidida
pelo Cardeal Jozef Tomko, Prefeito da Congregação para a Evangelização dos
Povos, e teve início com a procissão que atravessou a Porta Santa daquela
histórica Basílica Patriarcal, durante a qual foi cantada a Ladainha de Todos
os Santos. Depois da homilia do Cardeal Tomko, foram formuladas algumas
intenções de oração ao Senhor, suplicando de modo especial a graça divina para
o longo caminho de fé no exercício do múnus episcopal, na grande obra
evangelizadora da Igreja. Na conclusão desta celebração missionária todos os
Prelados cantaram o “Magnificat”, em homenagem a Nossa Senhora.

Eis o texto da homilia do Cardeal Jozef Tomko:

Nós, sucessores dos Apóstolos no mundo, encontramo-nos em
grande número nesta Basílica, sob o olhar majestoso e

misericordioso do Senhor, Nosso Kyrios”Pantocrator que no
Evangelho nos fala diretamente da missão. Encontramo-nos junto do túmulo do
apóstolo das gentes, o grande missionário Paulo que nos admoesta na primeira
leitura. O solene mandato do Senhor e a mensagem de Paulo remetem-nos para as
raízes da missão. Deixemo-nos iluminar e guiar por esta Palavra de Deus,
particularmente significativa neste ano do Grande Jubileu.

Jubileu quer dizer missão. Significa o aniversário da
salvação, 2000 anos desde a encarnação redentora, desde o nascimento d”Aquele
que “por nós homens e para a nossa salvação desceu do céu e se fez homem”, como
recitamos na Profissão de fé.

Ele nasceu, morreu, mas também ressuscitou, razão pela qual
continua vivo hoje como ontem; a sua encarnação não é apenas um momento
histórico, mas é um estado permanente, no qual Ele vive e atua “ontem, hoje e
para sempre” (Hb 13, 8). O seu solene mandato dado à Igreja ressoa hoje nesta
Basílica, com a mesma força, urgência e atualidade como ontem no Monte das
Oliveiras. Escutemo-Lo atentamente.

1. Na fonte da missão

A fonte da missão é Deus uno e trino. Ela brota do Pai, amor
fontal, que a todos envia (“mittit” envia em missão) o seu Filho, com o poder
do Espírito Santo. O Filho, por sua vez, envia em missão, com o poder do
Espírito, a sua Igreja para comunicar a todos os povos a salvação e a comunhão
com a vida trinitária: a missão da Igreja é a continuação da missão de Jesus
Cristo. “Assim como o Pai Me enviou (misit), também Eu vos envio (“mitto”) a
vós” (Jo 20, 21). A fase externa da missão de Jesus é, por sua vez, precedida e
está relacionada com a vida íntima de Deus. Em Jesus Cristo é o amor
de Deus que se efunde ad extra, derramando-se sobre os homens: “Deus amou de
tal forma o mundo que entregou o Seu Filho único, para que todo o que n’Ele
acredita não morra, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16). A missão de Jesus Cristo
recebida do Pai tem, por conseguinte, a sua continuação na Igreja. É sempre a
mesma missão que, por obra do Filho e do Espírito, passa como encargo à Igreja
de Cristo para a salvação da humanidade.

2. O mandato

Para continuar a sua missão sobre a terra em benefício de
todas as nações e de todas as gerações, Jesus convocou, com a virtude do
Espírito Santo, a comunidade dos seus discípulos, a Igreja, e antes de subir ao
Céu confiou-lhe a sua própria missão. O solene mandato é como que transmissão
do poder e da missão de Jesus Cristo à Igreja, de Deus aos homens.

Este facto é digno de grande atenção da nossa parte, porque
é portador de uma imensa força dinâmica para a ação missionária da Igreja. O
próprio momento escolhido para este mandato é importante: parece que se trata
das últimas palavra do Senhor Jesus sobre esta terra, antes da sua ascensão aos
céus. Em Mateus, o mandato inicia com a solene premissa: “Toda a autoridade Me
foi dada no céu e sobre a terra” (Mt 28, 18); o poder é próprio do Filho de Deus,
“exousia”, que se expande a todo o universo e abrange também os céus. É o
Senhor, o “Kyrios”, que nos fala com toda a autoridade. São Paulo usará outro
termo, não menos expressivo, para este “poder” ou “força”: “dynamis” “poder da
sua Ressurreição”. E é em virtude deste poder que Jesus envia a sua Igreja:
“Ide, pois…”. Aquele “pois” indica claramente a continuidade e, ao mesmo
tempo, o fundamento da missão em nome e com a autoridade que provém em última
análise, do próprio Deus, e que não deveria ser impedida por nenhum poder
humano: poderíamos falar do “direito divino” de evangelizar. Vem depois o
conteúdo concreto do mandato: “Ide, pois, ensinai todas as nações”, ensinai
todos os povos sem exceção, sem limites de tempo ou de períodos, sem considerar
obstáculos e dificuldades. “Ide”, exprime o dinamismo missionário que impele
para fora, para além das próprias fronteiras e dioceses. “Ensinai”, inclui
essencialmente o anúncio, a catequese e o querigma. “Baptizando-as no nome do
Pai e do Filho e do Espírito Santo”, inserindo-as na circulação da linfa vital
divina que provém da vida, que é Jesus Cristo, enxertando-as n’Ele como membros
novos do seu Corpo místico que é a Igreja. Jesus,portanto, ordena aos seus
discípulos que levem a todos os povos os meios da salvação; que abram todos à
comunhão da vida divina trinitária, que implantem a comunidade dos “discípulos”
(“tornar discípulos”) que é a Igreja (Corpo místico) na qual estão inseridos,
com o Baptismo. “Ensinando-os a observar tudo o que vos ensinei”: a
evangelização inclui necessariamente também os mandamentos e, em primeiro
lugar, o “mandamento novo” que é eminentemente missionário: “Se tiverdes amor
uns para com os outros, todos reconhecerão que sois Meus discípulos” (Jo 13,
35). A transformação dos costumes individuais e sociais, a penetração do
espírito e dos valores do Evangelho (justiça, paz, solidariedade, perdão,
liberdade, igualdade, direitos humanos) na vida social está sem dúvida incluída
nas coisas ordenadas pelo Senhor. A missão respeita plenamente os verdadeiros
“valores do Reino” e as exigências da inculturação. “E Eu estarei convosco até
ao fim dos tempos”. Jesus Cristo, morto e ressuscitado, Senhor do cosmos, do
tempo e da história, assegura a sua presença ativa na obra missionária até ao
fim dos séculos. A missão que Lhe foi confiada pelo Pai e por Ele conduzida no
poder do Espírito durante a sua existência terrena, é agora confiada aos seus
discípulos, à sua Igreja, permanecendo porém obra sua. A Igreja realiza pois
esta obra não como algo de autonomamente próprio nem sequer com as suas
próprias forças; trata-se ainda, no sinal do mistério da Encarnação, de uma
obra divino-humana, à qual a assistência divina é prometida e garantida.

3. A
nossa missão “ad gentes”

Caros Irmãos Bispos, sucessores dos apóstolos, fomos
chamados e hoje somo-lo de novo a levar avante a mesma missão de Jesus Cristo
para a salvação do mundo, “pro mundi vita para a vida do mundo” (Jo 6, 51).
Certamente, todos nós temos as nossas tarefas e as nossas Igrejas particulares.
Mas o Concílio Vaticano II admoesta”nos que “todos os Bispos… são consagrados
não só em benefício duma diocese mas para a salvação de todo o mundo. O mandato
de Cristo de pregar o Evangelho a todas as criaturas (cf. Mc 16, 15) afeta-os,
primária e imediatamente a eles. Ao suscitar, promover e dirigir a obra
missionária, torna presentes e como que palpáveis o espírito e o ardor
missionário do povo de Deus, de maneira que todas as dioceses se tornam
missionária” (AG 38).

A Constituição dogmática “Lumen gentium” especifica isto
quando prescreve: “Devem, por isso, com todas as forças, subministrar às
Missões, não só operários para a messe, mas também auxílios espirituais e
materiais” (LG 23). E a Encíclica “Redemptoris missio” estabelece uma norma que
não permite limitar a animação missionária a um ornamento folclórico ou
unicamente a uma jornada: “As Igrejas locais, pois, insiram a animação
missionária como elemento fulcral, na pastoral ordinária das dioceses e
paróquias, das associações e grupos, especialmente juvenis” (RM 83).

Por conseguinte, todos os Bispos devem estar pessoalmente
empenhados na missão “ad gentes”. Como nos diz Paulo, sobre cujo túmulo nos
encontramos: “Nunca deixei de anunciar aquilo que vos pudesse ser de proveito…
Com insistência, convidei judeus e gregos a arrependerem”se diante de Deus e a
acreditarem em Jesus nosso Senhor” (Act 20, 20-21).

Caros Irmãos, se estamos muito habituados a concentrar a
nossa atenção nas necessidades da nossa diocese, na falta de sacerdotes e de
meios, agora é o momento de alargar o nosso coração à medida do mundo, de
renovar a graça da nossa consagração episcopal, de nos empenhar de maneira
decisiva na obra misteriosa que Jesus Cristo continua no mundo, no momento em
que entramos no Terceiro Milênio. Dois terços da humanidade ainda esperam por
Jesus Cristo, para que lhes revele o amor do Pai. “A missão de Cristo Redentor,
confiada à Igreja ainda está muito longe do seu pleno cumprimento. No termo do
segundo milênio após a Sua vinda, uma visão de conjunto da humanidade mostra
que tal missão ainda está no começo, e que devemos empenhar-nos com todas as
forças no seu serviço… “Porque se anuncio o Evangelho, não tenho de que me
gloriar, pois que me foi imposta esta obrigação: ai de mim se não evangelizar!”
(1 Cor 9, 16)” (RM 1). Caritas Christi urget nos (…) o amor de Cristo nos
constrange! Amém!

(©L´Osservatore Romano, 14 de Outubro de 2000)

 

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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