CNBB e o Movimento Focolares

TEOLOGIA DOS MOVIMENTOS
CATÓLICOS CNBB
04.1997

1. Histórico

Foi em 1943, durante a
última guerra, que surgiu o Movimento dos Focolares, fundado por Sílvia Chiara
Lubich, chamado oficialmente “Opera di Maria”. No meio da destruição
geral, causada pelos bombardeios, Chiara e um grupo de jovens companheiras se
perguntaram: “Haverá um ideal que não passa, que nenhuma bomba pode
destruir”? E a resposta chegou: Sim, este ideal é Deus, que se manifesta
no que realmente é: Amor. Decidiram que se fossem vítimas da guerra, se
escrevesse em suas sepulturas: “Nós acreditamos no amor” (1 Jo 4,16).
A data histórica do Movimento é 7 de dezembro de 1943, quando Chiara se consagrou
ao Senhor.

Em pouco tempo, atingiu
centenas de pessoas em Trento e, depois da guerra, espalhou-se pelo mundo
inteiro, envolvendo diversas formas de vocação: focolare masculino e feminino,
voluntários, casados no Movimento Famílias Novas, Sacerdotes, Movimento
sacerdotal seminarista, Movimento Gen, e numerosas publicações. A Santa Sé
aprovou em 1962 com João XXIII e em 1965 com Paulo VI, com uma estrutura
interna do conselho geral de coordenação, cujo presidente, por estatuto, sempre
deve ser uma mulher.

2. Linhas Doutrinais

As linhas doutrinais
inspiradoras da espiritualidade do Movimento estão contidas em doze verdades
evangélicas:

Deus-Amor é a primeira
centelha inspiradora, a compreensão nunca tida antes de Deus como Amor.

Fazer a vontade de Deus é a
resposta que se dá ao Deus-Amor, à imitação de Jesus, o Filho que fez sempre a
vontade do Pai.

Entre as vontades de Deus
destacam-se duas: o mandamento do amor aos irmãos; e a Reciprocidade do amor
fraterno, exigida pelo mandamento novo de Jesus.

A presença de Jesus entre os
homens, quando estes, amando-se uns aos outros, se reúnem em seu nome, dá
sentido à fraternidade universal que Jesus trouxe à terra para toda a
humanidade.

Jesus abandonado na cruz se
manifesta, no cume das dores, como chave para recompor a unidade das pessoas
com Deus e entre si, para sanar toda divisão.

A Palavra de Vida do
Evangelho, como radical reevangelização do próprio modo de pensar, de amar, de
viver, é apresentada cada mês com um breve comentário espiritual de Chiara.

Na Eucaristia, instituída
antes da oração pela unidade “que todos sejam um” Jesus é o vinculo
da unidade, o mais poderoso coeficiente para a plena unidade.

Maria, discípula por
excelência, cristã perfeita, é modelo para cada membro do Movimento, sobretudo
porque tem a função de gerar espiritualmente Cristo entre os homens. O
Movimento foi aprovado como “Obra de Maria” e os seus encontros mais
variados são chamados “Mariápolis”.

À presença de Jesus na
Igreja hierárquica, “quem vos escuta a mim me escuta”, não obstante
todas as fraquezas humanas, exigindo realizar as suas ordens e desejos, se
atribui a explosão mundial do Movimento. Mas a unidade com a hierarquia não
impediu que o Movimento explicitasse cada vez mais as exigências dos diálogos:
ecumênico, interreligioso e com os não crentes, em vista do ideal da unidade.

No Espírito Santo o
Movimento se reconhece a si mesmo pela típica atmosfera que ele difunde entre
seus membros e por aqueles dons tão característicos da Obra de Maria: alegria,
paz, luz.

A unidade é o elemento mais
típico e característico da espiritualidade do focolare e que lhe dá o seu nome
particular: “espiritualidade da unidade”. Todo o resto, todos os
outros elementos estão finalizados para sua atuação, o grande ideal da
espiritualidade focolarina, o seu objetivo único: “que todos sejam um,
como nós somos um, eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e
o mundo reconheça que me enviaste e os amaste, como amaste a mim”.

3. Avaliação

Aspectos positivos

O ponto mais positivo do Movimento
é o embasamento da sua espiritualidade nas doze verdades evangélicas resumidas
acima, intrinsecamente relacionadas entre si e finalizadas para o ideal da
unidade, cerne da Boa Nova anunciada por Jesus Cristo.

O Movimento busca ortodoxia
através de uma adesão fiel e aberta ao Magistério da Igreja, mas acima da
ortodoxia teórica procura encontrar no evangelho a ortopráxis inspiradora de
uma vivência pessoal e comunitária, coerente com os valores do Reino de Deus.

Pratica um ousado e
abrangente diálogo ecumênico e interreligioso, partindo de uma transparente
identidade cristã e católica, sem sincretismo, nem irenismo, sem proselitismo,
nem fanatismo. O ecumenismo é colocado na perspectiva do amor e da unidade,
visando a que as pessoas de confissões religiosas diferentes procurem, antes de
tudo, amar-se para além das suas diferenças religiosas, a exemplo de Jesus
abandonado.

Num mundo marcado pela
globalização econômica excludente, Chiara promoveu, no interior do Movimento,
um compromisso transformador: a busca de uma “economia de comunhão”,
incentivando, para isso, a participação na política mesmo partidária.

Questionamentos

As reflexões de Chiara sobre
o mistério do Deus-Amor, ponto de partida de sua experiência espiritual, não
parecem suficientemente claras. Deus é amor porque é Trindade ou Trindade
porque é amor? Ao falar da Trindade, a sua preocupação é definir a natureza do
verdadeiro amor que consiste essencialmente na doação de si, na oblatividade.
Parece supor que este aspecto positivo pressupõe a negação de si, de modo que o
amor é (como doação) e não é (como negação de si) ao mesmo tempo. Falta-lhe
compreender melhor o conceito de pessoa na Trindade, na qual a pessoa é pura
relação transparente à outra pessoa. Na Trindade, para que uma pessoa ame
outra, não precisa que ela se anule a si mesma, porque ela se percebe como pura
relação transparente de abertura às outras pessoas. Entre nós, seres humanos,
marcados pelo pecado, a oblatividade pressupõe a negação do egoísmo, do
fechamento narcisista em si mesmo. E Jesus abandonado, no seu esvaziamento, é
para nós modelo de negação do egoísmo.

Chiara tem falado muito de
espiritualidade coletiva ou comunitária. Necessita-se de uma reflexão sobre as
diferenças entre indivíduo e pessoa, entre coletividade e comunidade. Quanto
mais se é pessoa, mais se é comunidade e vice-versa. Basta romper o egoísmo e o
fechamento opaco do indivíduo para uma abertura oblativa e comunicativa às
outras pessoas.

As reflexões sobre Jesus
abandonado estimulam a imitação e seguimento de Cristo no aspecto mais
misterioso do seu mistério. É preciso cuidar, entretanto, para que a explicação
do episódio do abandono de Jesus na cruz, interpretado, aliás, diversamente
pelo próprio Novo Testamento, não desfigure nem a figura do Filho totalmente
confiante no Pai e absolutamente certo de sua presença, nem a figura do Pai,
fonte do amor, que jamais abandonaria o seu Filho, deixando-o sozinho.

Aspectos negativos

Como acontece em relação a
outros Movimentos, comenta-se que membros do Focolares tendem a venerar
demasiadamente a figura da Fundadora. Nesse sentido, alguns parecem valorizar a
Palavra da Vida, sobretudo pelo comentário que Chiara faz mensalmente de uma
frase do Evangelho.

Comenta-se, também, que os
focolares atingem predominantemente pessoas de classe média, adotando estilo de
vida acima das camadas pobres da sociedade. Isto poderia ser explicado pelo
condicionamento sociológico e psicológico de muitos dos seus membros. É certo,
porém, que, à luz das verdades evangélicas por eles assumidas, os Focolarinos
estão orientados para a opção preferencial pelos pobres.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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