Cheiro de protestantismo no tradicionalismo

Nas páginas da Sagrada Escritura há não poucas passagens aparentemente contraditórias. Para resolver esse impasse, empregam os protestantes métodos de interpretação próprios de sua visão teológica: ora suprimem textos bíblicos – como fez Lutero com os deuterocanônicos -, ora aplicam sobre eles suas observações pessoais, alegando “iluminação interior do Espírito Santo”.

É interessante notar que os protestamtes não admitem que tais interpretações sejam realmente pessoais, mas, e isso é comum sobretudo entre luteranos, calvinistas e anglicanos, invocam a autoridade da Tradição e do Magistério – com citações patrísticas e de Concílios pré-Reforma -, freqüentemente fora de seu contexto, para justificar suas posições. Para cada protestante, sua interpretação é a verdadeira, pois diz – e, se não analisamos detidamente, quase nos convencemos disso – que é a mais adequada à ortodoxia, aos costumes dos primeiros cristãos, além, é evidente, de ser, na sua opinião, “inspirada” pelo Espírito Santo – qualquer outra, então, passa a ser demoníaca, numa petição de princípio flagrante!

Semelhantemente às Escrituras, há textos do Magistério da Igreja que aparentam estar em contradição entre si. Se quando o problema apresenta-se em relação à Bíblia, é bastante a autoridade da Igreja para resolver, interpretando adequadamente o dado escriturístico, no caso de aparente incoerência interna do próprio Magistério, é óbvio que será este a autoridade legítima para a interpretação correta. Cristo, conferindo autoridade à Igreja, i.e., ao Romano Pontífice, para interpretar Sua Palavra, harmonizando passagens bíblicas aparentemente desconexas, por evidente também confiou à idêntica Igreja, ao mesmo Papa, autoridade suficiente para, entre textos emanados dela mesma – ainda que com a direção do Espírito Santo -, que apresentem, à primeira impressão, descontinuidade de doutrina, fixar-lhes o verdadeiro sentido.

Parecem não pensar assim os auto-denominados tradicionalistas. À maneira protestante – pois seu método muito se assemelha do utilizado pelos hereges -, encontrando alguma dificuldade de entendimento dos documentos do Magistério, que crêem estar em contradição, põem-se os tradicionalistas a fazer grosseira operação exegética, tarefa que, aliás, não lhes compete em definitivo – as obras teológicas nada são sem a palavra final da Igreja, recomendando-as -, sem esperar a elucidação do próprio Magistério. Muitas vezes, inclusive, diante do esclarecimento magisterial posterior, dado pelos Papas, resolvendo os aparentes conflitos, rechaçam a interpretação pontifícia, como os protestantes. Na prática, reclamam que o Magistério posterior ao Vaticano II está fora de sintonia com o anterior – que não é verdade -; tentam resolver por si mesmos o que alegam ser uma contradição, usurpando tarefa que não é sua; acusam a Igreja de não dar a interpretação que resolva a referida contradição; e, quando ela o faz, não aceitam – pura teimosia mesclada com orgulho, em nome de um estranho conceito de “Tradição sem Magistério vivo”.

Sustentam, para isso, que a Igreja ter-se-ia corrompido – ou Roma, o que dá no mesmo -, velha desculpa de Lutero e Calvino para a Reforma Protestante.

A isso, juntam argumentos de que sua interpretação (dos tradicionalistas) é a ortodoxia, citam a Tradição e o Magistério fora de contexto – duas manobras protestantes -, e, gnose das gnoses – característica dos protestantes e também dos “católicos progressistas” tão combatidos pelos tradicionalistas -, parecem supor uma imunidade à heresia, fruto talvez de sua assistência à Missa no rito antigo. Como se, por si só, a fórmula da Missa Tridentina pudesse santificar automaticamente os que a assistem, ou como se o rito de São Pio V – venerabilíssimo, aliás, e felizmente incentivado pelo Papa, pelos Padres de Campos erigidos em Administração Apostólica, pela Fraternidade São Pedro, e tantos outros – fosse garantia infalível de ortodoxia.

Fora de Roma, não só não há salvação, como também não há autêntica Tradição!

“Estamos ao passo da Igreja. Nem adiante dela, tampouco atrás.” (Pe. Marcial Maciel, LC. Fundador dos Legionários de Cristo e do Movimento Regnum Christi)

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Por Rafael Vitola Brodbeck
www.veritatis.com.br

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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