Chandor

Existem no mundo todo lugares famosos por serem enigmáticos. Assim, as pirâmides do Egito, o Triângulo das Bermudas, o Death Valley, na Califórnia, suscitam a curiosidade daqueles que são atraídos pelo mistério.

Na milenar Índia, bem oculta entre colinas, localiza-se a cidade de Chandor. É também este um local enigmático, mas não de enigmas visíveis, evidentes, que saltam aos olhos, mas de misteriosos imponderáveis, que mais se sentem no ar do que se constatam com os sentidos. Se alguém perguntasse: mas, que mistério há aqui? Não haveria resposta. Somente se poderia dizer: fique um pouco por aqui e logo perceberá.

As colinas suaves que bordejam a antiquíssima cidade são recobertas por uma vegetação verde, delicada e proporcional, sem grandes árvores. É uma espécie de grama de folhas longas, flexíveis, de agradável matiz de verde, que obedece com toda facilidade à brisa refrescante da tarde. Se o vento sopra de um lado, para este ela se dobra, revelando a bela gradação do verde de um arrozal nascente; se a aragem a impele para o outro lado, será um verde prateado que exibirá. E de acordo com a incidência da luz solar, ainda mais tonalidades de cores se apresentam.

Esta efêmera cobertura tão inspiradora, esconde, no entanto, um solo que é testemunha milenar de várias épocas e civilizações. Talvez por ser uma cidade portuária, junto ao rio Kushavati, que ali forma um delta com um outro afluente do grande rio Zuari, foi capital dos governantes de Chandrapur, dos quais o mais famoso foi Chandragupta. Mas outros nomes sonoros e enigmáticos estão relacionados a esta pequena cidade: Bhoja, Satyavahanas, Chandraditya, Pulakesin, Chalukyans e outros tantos que formam uma melodiosa ladainha, cujo inicio está no terceiro ou quarto século a.C.

A partir do século XVI, os portugueses descobriram as agradáveis aragens que ventilam a região e, sagazes, passaram a construir ali suas típicas moradias, em tudo semelhantes às de sua terra natal. Atualmente constituem pontos de atração turística, pois são um enclave lusitano em campo indiano.

Mas, dentro da ladainha de personagens misteriosos e históricos, que por ali passaram, ou se fixaram, há um que reluz de maneira especial: Maria, Rainha do Céu e da Terra, Mãe do Criador e Salvador do gênero humano. Não que a Santíssima Virgem em sua vida terrena tenha pisado alguma vez solo indiano, pelo menos que se saiba. Mas representada em sua Imagem peregrina, sim, Maria esteve em Chandor.

A presença portuguesa catolicizou esta região e há inúmeras igrejas, candidamente brancas, dominando a cidade desde o topo das colinas que coroam o fértil e verdejante vale. Como em toda a Índia, é comum em Chandor a presença de templos das inúmeras religiões. Curiosamente, quase todas elegeram o alto dos montes para se instalarem. Assim, estão frente a frente, uma igreja católica, um tempo hindu e uma mesquita.

Na ocasião em que um grupo de fiéis leigos, Arautos do Evangelho, promoveu a visita da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima, em dezembro de 1999, toda a população católica de Chandor e das aldeias circundantes ali se reuniu para venerar, com seus característicos ritos, a famosa e benfazeja imagem. De uma das capelas situada em plano bem elevado, na segunda colina mais alta da região, uma procissão conduziu a imagem até a Igreja Matriz, morro abaixo, onde foi recebida com festas, seguidas de solene missa.

Nada mais piedoso e, ao mesmo tempo, pitoresco, que esta procissão. O povinho presente vinha vestido com seus trajes domingueiros, que, entre os católicos indianos, segue a recatada moda europeia dos anos 60. A chegada à Matriz foi feita em meio a rojões e vivas, com cânticos em Konkani e em português. Perfumados incensos, longos cordões de jasmins, ramalhetes singelos de flores silvestres, a igreja ornamentada com coloridos tecidos, tudo estava aparelhado para receber a Rainha que os visitava. O recinto tornou-se pequeno para o público; assim, alguns fiéis tiveram que se consolar em acompanhar tudo do cemitério que circunda a igreja.

O povo indiano é de poucas palavras, mas de muita vivacidade, que se percebe pelos olhares. Não é à toa que seus olhos são tão abertos e profundos. Alguns Arautos que estavam acompanhando a peregrinação também não puderam entrar na Igreja, já lotada, e deixaram-se ficar do lado de fora com o povo. Qual não foi a surpresa deles quando vêem formada diante de si uma fila de crianças, inicialmente, depois de jovens e adultos, que vinham “tomar a bênção.

Como não podiam aproximar-se da Rainha, contentavam-se em ter um contato com seus Arautos. Estes ficaram tão confusos com a situação, porque não eram, naquele tempo, nem sequer seminaristas, que não sabiam o que fazer. Finalmente foram vencidos pela insistência, e em resposta ao pedido de bênção feito em Konkani, respondiam em português: “Que Nossa Senhora os abençoe!” E deixavam os piedosos goeses contentíssimos.

Naquela tarde tão fresca, mais um elemento juntava-se à história de Chandor. O sol ia se pondo entre os adeuses e saudações da brisa e do povinho àquela Rainha que os visitara e alimentara sua fé católica.

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por Elizabeth Kiran
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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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