Celibato: sim ou não? – EB

sacerdoteEm síntese: Num debate sobre o celibato entre um pastor protestante e um frade católico deu-se o confronto entre NÃO e o SIM. Chama a atenção, porém, o fato de que nenhum dos dois debatedores se referiu a 1Cor 7, 25-35. Isto é especialmente estranho se se considera que o protestantismo pretende ser fiel à Bíblia.

A REVISTA DAS RELIGIÕES, agosto 2004, pp. 80s, apresenta duas opiniões a respeito do celibato: a do Pastor Ludgero Bonilha Morais, presbiteriano, que rejeita o celibato, e a de Frei Antonio Moser, franciscano, que o aceita. É estranho que ambos silenciem o texto Paulino de 1Cor 7, 25-35, que é o fundamento mais sólido da prática celibatária ¹. O Pr. Ludgero se detém apenas sobre os textos bíblicos que recomendam o matrimônio numa leitura unilateral do texto sagrado, ao passo que Frei Antonio Moser argumenta unicamente a partir de premissas antropológicas e psicológicas.

A seguir, será analisado o trecho Paulino de 1Cor 7, 25-35; após o quê serão considerados certos versículos bíblicos aduzidos pelo Pastor em restrição ao celibato.

1Cor 7, 25-35

Já em 56, ou seja, no terceiro decênio do Cristianismo, o Apóstolo escrevia aos fiéis de Corinto enfatizando o valor da vida uma ou indivisa:

“Não estás ligado a uma mulher? Não procures mulher. Todavia, se te casares, não pecarás; e se a virgem se casar, não pecará. Mas essas pessoas terão tribulações na carne; eu vo-las desejaria poupar”.

O Apóstolo alude às tribulações acarretadas pelo casamento… não àquelas que se originam na concupiscência desregrada, mas aos encargos da vida conjugal (preocupações com orçamento, salário, educação dos filhos…). – São Paulo explicita seu pensamento:

¹ É frequente citar-se também o texto de Mt 19, 12, em que Jesus se refere aos eunucos que se fizeram tais por amor do reino dos céus. Este texto, porém, examinado à luz dos antecedentes, alude àqueles cristãos que têm vocação matrimonial, mas fracassaram no casamento e devem viver como eunucos ou como celibatários para não trair o Cristo ou por amor do reino dos céus.

“Eis o que vos digo, irmãos: o tempo se fez curto. – Resta, pois, que aqueles que têm esposa, sejam como se não a tivessem; aqueles que choram se regozijassem; aqueles que compram, como se não possuíssem; aqueles que usam deste mundo, como se não usassem plenamente. Pois passa a figura deste mundo.

Eu quisera que estivéssemos isentos de preocupações. Quem não tem esposa, cuida das coisas do Senhor e do modo de agradar à esposa, e fica dividido. Da mesma forma a mulher não casada e a  virgem cuidam das coisas do Senhor, a fim de serem santas de corpo e de espírito. Mas a mulher casada cuida das coisas do mundo; procura como agradar ao marido”.

“O tempo se fez breve”. Por quê? Porque nele entrou o Eterno e Definitivo, para o qual o cristão se volta com todo o interesse, dispensando-se, enquanto possível, de todos os afazeres não estritamente necessários; ele procura concentrar-se no serviço do Eterno, ciente de que o tempo se tornou breve demais para quem tem consciência da presença do Eterno a iniciar seu reino neste mundo. A consequência disto é uma revisão dos valores deste mundo; são válidos, sim, mas hão de ser considerados à luz da eternidade; nenhum deles é capaz de saciar as aspirações mais profundas do ser humano. Cada um deles, portanto, é um aceno a algo de ulterior que só se realizará plenamente no além. Não há por que se derreter em lágrimas como não há por que dar gargalhadas tão efusivas… Uma certa reserva permanece na consciência do cristão que reconhece o caráter ambíguo e relativo dos bens passageiros. Com efeito; escreve o Apóstolo: “Passa a figura deste mundo”. Tal frase compara a história deste mundo a uma peça de teatro, cujo enredo pode ser fascinante, suscitando aplausos, risos, lágrimas, diálogo,… mas enredo que o espectador sabe ser transitório a cortina cairá sobre o palco, pondo fim ao fascinante enredo, de modo que o espectador não pode estar totalmente envolvido no desenrolar do palco; Ele não pode perder a convicção de que tudo passa e só Deus fica. Ora tal convicção faz brotar na mente do cristão uma atitude virginal, atitude esta que se pode espelhar no físico do cristão, levando-o a abraçar a vida uma ou indivisa.

É, pois neste texto de São Paulo que se fundamenta a vida celibatária, que, conforme o Apóstolo, implica um carisma ainda mais elevado do que o da vida conjugal: “Procede bem aquele que casa sua virgem; aquele que não a casa, procede melhor ainda” (1Cor 7, 38).

Em suma, verifica-se que a vida uma ou indivisa é a resposta espontânea que desde os primeiros decênios o cristão, sustentado pela graça de Deus, possa dar ao anúncio do Evangelho. A virgindade consagrada e o celibato não tinham valor nem para o judeu nem para o pagão. Eles brotam da consciência de que o Reino já chegou com Jesus Cristo.

O Pastor Ludgero Morais cita algumas passagens bíblicas que parecem contradizer a essa estima da vida uma.

2. 1Tm 4, 3

O Apóstolo censura os que proíbem o casamento: cf. 1Tm 4, 3.

Aplicar-se-ia censura à Igreja? – Não. S. Paulo tem em vista pregadores gnósticos dualistas, que repudiam a matéria, considerada má por si mesma, em oposição ao espírito. Ora tal não é o modo de pensar da Igreja; ela sabe que a matéria foi criada por Deus para dar glória ao Criador. De resto a Igreja não proíbe o casamento de modo geral; ela o proíbe a quem espontaneamente abraçou o celibato juntamente com o sacerdócio ministerial. O matrimônio na Igreja é abençoado por um sacramento próprio. Nem é de crer que o Apóstolo tenha caído em contradição consigo mesmo (ver 1Cor 7, 25-35).

3. Os sacerdotes do Antigo Testamento

Alega o Pastor: “Os sacerdotes do Antigo Testamento só eram admitidos se fossem casados, bons maridos e bons pais”.

– Em resposta afirmamos que é fora de propósito recorrer ao caso do Antigo Testamento. Este é uma preparação para o Novo; os Israelitas faziam questão de se casar e ter filhos para preparar a vinda do Messias. Este objetivo já foi atingido no Novo Testamento de modo que agora o interesse do fiel não é ter filhos, mas concentrar suas atividades em torno do Reino do Messias. Quanto mais livre de familiares, tanto mais poderá atender aos irmãos.

4. Esposo de uma só mulher (1Tm 3, 2)

O epíscopo ou presbítero deve ser esposo de uma só mulher (cf. 1Tm 3, 2). Estaria, por isto, o padre obrigado a casar-se?

Não. O Apóstolo tem em vista uma comunidade situada em Éfeso cujos membros se converteram em idade adulta. Pois bem dentre esses o Apóstolo deseja que sejam escolhidos para o sacerdócio homens casados (evitando os viúvos recasados). É de crer que não houvesse homens solteiros na comunidade. Esta norma do Apóstolo, em vez de favorecer o casamento dos clérigos, fala em favor da restrição do casamento, pois rejeita a ordenação de viúvos recasados.

5. Sacerdócio comum dos crentes

Diz o Pastor:

“A ideia de que há uma divisão entre o clero e o leigo é um equívoco que se baseia na imagem de uma casa de dois andares: no andar de cima esta o clero (ekklesía), Igreja, no andar de baixo está o leigo (laikós), o povo. A Reforma Protestante do século XVI derruba essa educação falsa e afirmou o sacerdócio universal de todos os crentes”.

Em resposta diremos: Jesus confiou a todos os fiéis à tarefa missionária ou o anúncio da Boa Nova a todos os homens, mas entregou somente aos Apóstolos duas faculdades sacerdotais de importância capital: a faculdade de consagrar o pão e o vinho concedida aos Doze apenas (“Fazei isto em memória de mim”) e a faculdade de perdoar os pecados, também reservada aos Doze: “Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, serão perdoados. Àqueles a quem os retiverdes, serão retidos”.

Os Apóstolos e seus sucessores exerceram tais faculdades em virtude do dom de Cristo Sacerdote, que é o sacramento da Ordem caracterizado por um tipo de vida próprio dos sacerdotes.

6. Motivações antropológicas

É válida a argumentação aduzida por Antonio Moser. Bem mostra como a vida uma depende da capacidade ou da estrutura humana de cada indivíduo. Estranha-se, porém, o silêncio do teólogo franciscano a respeito do embasamento teológico do celibato; teria dado ainda maior consistência a sua posição. É preciso não haja medo de dizer toda a Verdade.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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