Catequeses (Parte 4)

O Espírito e o ”corpo espiritual” ressuscitado

L’osservatore Romano nº 45 (616) – 07.11.98

1. “Nós porém – ensina o apóstolo Paulo – somos cidadãos do Céu e de lá esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Ele transformará o nosso corpo miserável, tornando-o conforme ao Seu corpo glorioso com o mesmo poder que Lhe permite sujeitar ao Seu domínio todas as coisas” (Fl 3, 20-21).

Assim como o Espírito Santo transfigurou o corpo de Jesus Cristo quando o Pai O ressuscitou dentre os mortos, também o mesmo Espírito revestirá da glória de Cristo os nossos corpos. Escreve São Paulo: “E se o espírito d’Aquele que ressuscitou a Jesus dos mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou a Jesus Cristo dos mortos, há-de dar igualmente a vida aos vossos corpos mortais por meio do Seu Espírito, que habita em vós (Rm 8, 11).

2. Desde o início, a fé cristã na ressurreição da carne encontrou incompreensões e oposições. Toca-o com a mão o mesmo apóstolo Paulo no momento de anunciar o Evangelho no centro do Areópago de Atenas: “Ao ouvirem falar da ressurreição dos mortos – narram os Atos dos Apóstolos – uns começaram a troçar, enquanto outros disseram: “Ouvir-te-emos falar sobre isso ainda outra vez” (At 17, 32).

Essa dificuldade é proposta de novo também no nosso tempo. Com efeito, por um lado, também quando se crê em qualquer forma de sobrevivência para além da morte, reage-se com ceticismo à verdade da fé que esclarece este supremo interrogativo da existência, à luz da ressurreição de Jesus Cristo. Por outro lado, não falta quem percebe o fascínio de uma crença como a da ressurreição, que está radicada no humus religioso de algumas culturas orientais (cf. Tertio millennio adveniente, 9).

A revelação cristã não se contenta com um vago sentimento de sobrevivência, embora aprecie a intuição de imortalidade que é expressa na doutrina de alguns grandes pesquisadores de Deus. Podemos, além disso, admitir que a idéia de uma reencarnação é suscitada pelo intenso desejo de imortalidade e pela percepção da existência humana como “prova” em vista de um fim último, bem como da necessidade de uma purificação plena para chegar à comunhão com Deus. A reencarnação, contudo, não garante a identidade única e singular de toda a criatura humana como objeto do pessoal amor de Deus, nem a integridade do ser humano como “espírito encarnado”.

3. O testemunho do Novo Testamento sublinha, antes de tudo, o realismo da ressurreição também corporal de Jesus Cristo. Os Apóstolos afirmam explicitamente, baseando-se na experiência por eles vivida nas aparições do Senhor ressuscitado, que “Deus O ressuscitou ao terceiro dia e Lhe permitir manifestar-se… às testemunhas anteriormente designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois da Sua ressurreição dos mortos” (Act 10, 40-41). Também o quarto Evangelho ressalta este realismo, quando, por exemplo, nos narra o episódio do apóstolo Tomé que é convidado por Jesus a colocar o dedo no lugar dos cravos e a mão no lado trespassado do Senhor (cf. Jo 20, 24-29). Assim também, na aparição à margem do lado de Tiberíades, quando Jesus ressuscitado “tomou o pão e deu-lho, fazendo o mesmo com o peixe” (Jo 21, 13).

Esse realismo das aparições testemunha que Jesus ressuscitou com o Seu corpo e, com este corpo, vive junto do Pai. Trata-se, contudo, de um corpo glorioso, já não sujeito às leis do espaço e do tempo, transfigurado na glória do Pai. Em Cristo ressuscitado é manifestada aquela fase escatológica à qual, um dia, são chamados a chegar todos aqueles que acolheram a Sua redenção, precedidos pela Virgem Santa que “terminado o curso da vida terrena, foi elevado à glória do céu em corpo e alma” (Pio XII, Const. Apost. Munificentissimus Deus, 1/11/1959, DS 3903; cf. Lumen gentium, 59).

4. Tendo como ponto de referência o relato da criação narrado pelo livro do Gênesis e interpretando a ressurreição de Jesus como a “nova criação”, o apóstolo Paulo pode então afirmar: “O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente: o último Adão é um espírito vivificante” (1 Cor 15, 45). A realidade glorificada de Cristo, com efeito, através da efusão do Espírito Santo, é participada de modo misterioso, mas real, também a todos aqueles que n’Ele crêem.

Assim, em Cristo “todos ressuscitarão com os corpos de que agora estão revestidos (Concílio Lateranense IV; DS 801), mas este nosso corpo será transfigurado em corpo glorioso (cf. Fl 3, 21), em “corpo espiritual (1 Cor 15, 44). Paulo, na primeira Carta aos Coríntios, àqueles que lhe perguntam: “Como ressuscitam os mortos? Com que espécie de corpo voltam eles?”, responde servindo-se da imagem da semente que morre para se abrir à nova vida: “O que semeias não torna vida, se primeiro não morrer. E o que semeias não é o corpo que há-de-vir, mas sim um grão simples de trigo, por exemplo, ou de qualquer outra espécie (…). Assim também é a ressurreição: semeia-se na corrupção e ressuscita-se na incorrupção. Semeia-se na ignomínia e ressuscita-se na glória. Semeia-se na fraqueza, ressuscita-se na força. Semeia-se corpo natural e ressuscita-se corpo espiritual (…). É necessário que este corpo incorruptível se revista de incorruptibilidade, e que este corpo mortal se revista de imortalidade” (1 Cor 15, 36-37.42-44.52).

Certamente – explica o Catecismo da Igreja Católica – o “como” isto acontecerá “ultrapassa a nossa imaginação e o nosso entendimento; só na fé se torna acessível. Mas a nossa participação na Eucaristia dá-nos já um antegozo da transfiguração do nosso corpo por Cristo” (n. 1000).

Através da Eucaristia Jesus dá-nos, sob as espécies do pão e do vinho, a Sua carne vivificada pelo Espírito Santo e que vivifica a nossa carne, a fim de nos fazer participantes, com todo o nosso ser, espírito e corpo, na Sua ressurreição e condição de glória. Ireneu de Lião ensina a esse respeito: “Assim como o pão que é fruto da terra, depois de ter sido invocada sobre ele a bênção divina, já não é pão comum, mas Eucaristia, composta de duas realidades, uma terrena e outra celeste, assim também os nossos corpos que recebem a Eucaristia já não são corruptíveis, a partir do momento que trazem em si o gérmen da ressurreição? (Adversus haereses, 4, 18, 4-5).

5.     Tudo o que até aqui dissemos, sintetizando o ensinamento da Sagrada Escritura e da Tradição da Igreja, explica-nos porque “o Credo cristão… culmina na proclamação da ressurreição dos mortos, no fim dos tempos, e na vida eterna” (CIC n. 988). Com a encarnação o Verbo de Deus assumiu a condição humana (cf. Jo 1, 14) tornando-a partícipe, através da Sua morte e ressurreição, da Sua mesma glória de Unigênito do Pai. Mediante os dons do Espírito e da carne de Cristo glorificada na Eucaristia, Deus Pai infunde em todo o ser do homem e, de certo modo, no próprio cosmos o anélito a este destino. Como diz São Paulo. “A criação aguarda ansiosa a revelação dos filhos de Deus; (…) e nutre a esperança de ser, também ela, libertada da servidão da corrupção para participar, livremente, da glória dos filhos de Deus” (Rm 8, 19-21).
 

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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