Catequeses (Parte 3)

A vida no Espírito

L’osservatore Romano nº 43 (592) – 24/10/1998

1. O Espírito Santo “é Senhor e dá a vida”. Com estas palavras do Símbolo niceno-constantinopolitano, a Igreja continua a professar a fé no Espírito Santo, que São Paulo proclama como “Espírito da vida” (Rm 8, 2).

Na história da salvação a vida aparece sempre unida ao Espírito de Deus. Desde a manhã da criação, graças ao sopro divino, como que “um sopro de vida”, “o homem transformou-se num ser vivo” (Gn 2, 7). Na história do povo eleito o Espírito do Senhor intervém muitas vezes para salvar Israel e o guiar mediante os patriarcas, juízes, reis e profetas. Ezequiel apresenta de maneira eficaz a situação do povo humilhado pela experiência do exílio, como um vale imenso, repleto de esqueletos aos quais Deus comunica uma nova vida (cf. Ez 37, 1-14): “O espírito penetrou neles. Retomando a vida, endireitaram-se sobre os seus pés” (Ez 37, 10).

Sobretudo na história de Jesus o Espírito Santo estende o seu poder vivificante: o fruto do seio de Maria é concebido “por obra do Espírito Santo”  (Mt 1, 18; cf. Lc 1, 35). Toda a missão de Jesus é animada e dirigida pelo Espírito Santo; de modo especial a ressurreição tem o selo do “Espírito d’Aquele que ressuscitou a Jesus dos mortos” (Rm 8, 11).

2. O Espírito Santo, juntamente com o Pai e o Filho, é o protagonista daquele “Evangelho da vida” que a Igreja não se cansa de anunciar e testemunhar ao mundo.

O Evangelho da vida de fato – como expliquei na Carta Encíclica Evangelium vitae – não é uma simples reflexão sobre a vida humana, nem sequer apenas um mandamento dirigido à consciência; ele é, na verdade, “uma realidade concreta e pessoal, porque consiste no anúncio da própria pessoa de Jesus” (n. 29). Com efeito, Ele apresenta-Se como “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6). E ao dirigir-Se a Marta, irmã de Lázaro, reafirma: “Eu sou a  ressurreição e a vida” (Jo 11, 25).

3. “Quem Me segue – proclama ainda – terá a luz da vida”  (Jo 8, 12). A vida que Jesus Cristo nos dá é uma água viva que sacia o desejo mais profundo do homem e o introduz, como filho, na plena comunhão com Deus. Esta água viva e dadora de vida é o Espírito Santo.

No colóquio com a Samaritana, Jesus prenuncia este dom divino: “Se conhecesses o dom de Deus e Quem é Aquele que te diz: “Dá-me de beber?”, tu é que Lhe terias pedido, e Ele dar-te-ia uma água viva…  Quem bebe desta água voltará a Ter sede; mas quem beber da água que Eu lhe der, jamais terá sede, porque a  água que Eu lhe der tornar-se-á nele uma nascente de água a jorrar para a vida eterna” (Jo 4, 10.13-14). Ao prenunciar depois, por ocasião da festa dos Tabernáculos, a Sua morte e ressurreição, Jesus exclama sempre em voz alta, como que para Se fazer escutar pelos homens de todos os lugares e de todos os tempos: “Se alguém tem sede venha a Mim e beba! Do seio daquele que acreditar em Mim, correrão rios de água viva, como diz a Escritura”. Ele diz isto – observa o evangelista João – ao referir-Se “ao Espírito que deviam receber os que n’Ele acreditassem” (Jo 7, 37-39).

Ao obter-nos o dom do Espírito com o sacrifício da própria vida, Jesus cumpre a missão recebida do Pai: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). O Espírito Santo torna novo o nosso coração (cf. Ez 36, 25-27; Jr 31, 31-34), conformando-o com o de Cristo. O cristão pode assim “compreender e realizar o sentido mais verdadeiro e profundo da vida: ser um dom que se consuma no dar-se” (EV, 49).É esta a lei nova, “a lei do Espírito que dá a vida em Cristo Jesus” (Rm 8, 2). A sua expressão fundamental, à imitação do Senhor que oferece a vida pelos próprios amigos (cf. Jo 15, 13), é o dom de si no amor: “Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos” (1 Jo 3, 14).

4. A vida do cristão que, mediante a fé e os sacramentos, está intimamente unido a Jesus Cristo, é uma “vida no Espírito”. Com efeito, o Espírito Santo derramado em nossos corações (cf. Gl 4, 6) torna-Se em nós e para nós “nascente de água a jorrar para a vida eterna” (Jo 4, 14).

É preciso, pois, deixar-nos guiar com docilidade pelo Espírito  de Deus, para nos tornarmos de maneira cada vez mais plena aqueles que já somos por graça: filhos de Deus em Cristo (cf. Rm 8, 14-16). “Se vivemos pelo Espírito – exorta-nos ainda São Paulo -, caminhemos também segundo o Espírito” (Gl 5, 25).

Sobre este princípio se baseia a espiritualidade cristã, que consiste em acolher toda a vida que o Espírito nos dá. Esta concepção da espiritualidade põe-nos ao abrigo dos equívocos que às vezes ofuscam o seu perfil genuíno.

A espiritualidade cristã não consiste num esforço de auto-aperfeiçoamento, como se o homem com as suas forças pudesse promover o crescimento integral da sua pessoa e conseguir a salvação. O coração do homem, ferido pelo pecado, só é curado pela graça do  Espírito Santo e somente pode viver como verdadeiro filho de Deus, se for sustentado por esta graça.

A espiritualidade nem sequer consiste em tornar-nos como que “imateriais”, desencarnados, privados de empenho responsável na história. A presença do Espírito Santo em nós, de fato, longe de nos impelir para uma “evasão” alienante, penetra e mobiliza todo o nosso ser: inteligência, vontade, afetividade, corporeidade, para que o nosso “homem novo” (Ef 4, 24) impregne o espaço e o tempo da novidade evangélica.

5. No limiar do terceiro Milênio, a Igreja dispõe-se a acolher o dom sempre novo daquele Espírito dador de vida, que brota do lado trespassado de Jesus Cristo, para anunciar a todos com íntima alegria o Evangelho da vida.

Supliquemos o Espírito Santo para que torne a Igreja do nosso tempo um eco fiel da palavra dos Apóstolos: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam acerca do Verbo da vida – porque a vida manifestou-se, nós vimo-la, damos testemunho dela e vos anunciamos esta vida eterna que estava no Pai e que nos foi manifestada – o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também vós tenhais comunhão conosco. Quanto à nossa comunhão , ela é com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo” (1 Jo 1, 13). 

 
O Espírito ”Doador de Vida” e a Vitória sobre a Morte

L’osservatore Romano nº 44 (604) – 31.10.98

1. “Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o Seu Filho único, para que todo o que n’Ele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16).  Nestas palavras do Evangelho de João o Dom da “vida eterna” representa o fim último do desígnio de amor do Pai.  Esse dom consente-nos ter acesso, por graça, à inefável comunhão de amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo: “E a vida eterna consiste nisto: Que Te conheçam a Ti, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo; a Quem enviaste” (ibid., 17,3).

    A “vida eterna”, que brota do Pai, é-nos transmitida em plenitude por Jesus na sua Páscoa, através do dom do Espírito Santo.  Ao recebê-lo, participamos na vitória definitiva que Jesus ressuscitado realizou sobre a morte.  “Morte e Vida – faz-nos proclamar a liturgia – enfrentavam-se num prodigioso duelo.  O Senhor da vida estava morto; mas, agora vivo, triunfa” (Seqüência do Domingo de Páscoa) .  Neste evento decisivo da salvação, Jesus dá aos homens a “vida eterna” no Espírito Santo.

2. Assim, na “plenitude dos tempos” Cristo cumpre, para além de toda a expectativa,  aquela promessa de “vida eterna” que, desde a origem do mundo, tinha sido inscrita pelo Pai na criação do homem à Sua imagem e semelhança (cf. Cor 1,26).
    Como conta o Salmo 104, o homem experimenta que a vida no cosmo e, em particular, a sua própria vida têm o princípio no “sopro” comunicado pelo Espírito do Senhor: “Se escondes o Vosso rosto, perturbam-se; se lhes retirais o seu alento,  perecem, e voltam ao pó donde saíram.  Se lhes enviais o Vosso espírito, voltam à vida, e renovais a face da terra”  (vv. 29-30).
A comunhão com Deus, dom do seu Espírito, torna-se para o povo eleito o sempre mais penhor de uma vida, que não se limita à existência terrena, mas misteriosamente a transcende e a prolonga sem limites.
 No duro período do exílio na Babilônia, o Senhor reacende a esperança do Seu povo, proclamando uma nova e definitiva aliança, que será selada por uma efusão superabundante do Espírito (cf. Ez. 36, 24-26): “Eis que abrirei as vossas sepulturas e vos farei sair delas, ó Meu povo. Introduzirei em vós o meu espírito e vivereis”. (ibid. 37, 12-14).
Com estas palavras, Deus anuncia a renovação messiânica de Israel, depois dos sofrimentos do exílio.  Os símbolos utilizados adaptam-se bem a evocar o caminho que a fé de Israel realiza lentamente, até intuir a verdade da ressurreição da carne, que será realizada pelo Espírito no fim dos tempos.

3. Esta verdade é consolidada na época já próxima da vinda de Jesus Cristo (cf. Dn 12,2; 2 Mc 7, 9-14.23.36; 12, 43-45), o Qual a confirma  vigorosamente, censurando aqueles que a negavam por desconhecerdes as Escrituras e o poder de Deus?”  (Mc 12,24).  Segundo Jesus de fato, a fé na ressurreição baseia-se na fé em Deus, que “não é um Deus dos mortos, mas dos vivos” (ibid. 12,27).
Além disso, Jesus liga a fé na ressurreição à sua própria Pessoa: “Eu sou a Ressurreição e a Vida” (Jo 11, 25).  N’Ele, com efeito, graças ao mistério da Sua morte e ressurreição, se cumpre a divina promessa do dom da “vida eterna”, que implica uma plena vitória sobre a morte: “Vai chegar a hora em que todos os que estão nos túmulos ouvirão a voz (do Filho): os que tiverem praticado boas obras sairão, ressuscitando para a vida …” (Jo 5, 28-29): “E a vontade de Meu Pai é esta, que todo aquele que vê o Filho e acredita n’Ele tenha a vida eterna; e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia” (ibid. 6, 40).

4. Esta promessa de Cristo se realizará, portanto, misteriosamente no fim dos tempos, quando Ele retornar glorioso “para julgar os vivos  e os mortos”.  (2 Tm 4,1); cf. Act 10, 42; 1 Pd 4,5).  Então os nossos corpos mortais reviverão pelo poder do Espírito, que nos foi dado como “penhor da nossa herança, enquanto esperamos a completa redenção” (Ef 1, 14; cf. 2 Cor 1, 21-22).
Contudo, não se deve pensar que a vida para além da morte só comece com a ressurreição final.  Esta, de fato, é precedida pela condição em que se encontra todo ser humano desde o momento da morte física.  Trata-se duma fase intermédia, na qual à decomposição do corpo corresponde “a sobrevivência e a subsistência de um elemento espiritual, o qual é dotado de consciência e de vontade, de maneira tal que o “eu humano” subsista, embora lhe falte nesse ínterim o complemento do seu corpo” (Sacra Congregatio pro doctrina fidei, De quibusdam quaestionibus ad eschatologiam spectantibus, 7 de maio de 1979: AAS 71 [1979] 941).
Para os crentes acrescenta-se a certeza de que a sua relação vivificante com Cristo não pode ser destruída pela morte, mas mantém-se noutra vida.  Com efeito, Jesus declarou: “Quem crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá” (Jo 11,25).  A Igreja sempre professou esta fé e expressou-a sobretudo na oração de louvor, que dirige a Deus em comunhão com todos os Santos e na invocação a favor dos defuntos, que ainda não se purificaram plenamente.  Por outro lado, a Igreja inculca o respeito pelos restos mortos de todo ser humano, quer pela dignidade da pessoa a que pertencem, quer pela honra que se deve ao corpo de todos os que, com o Batismo, se tornaram templos do Espírito Santo.  A liturgia no rito das Exéquias e na veneração das relíquias dos Santos, que se desenvolveu desde os primeiros séculos, é testemunho específico disto.  Aos ossos destes últimos – diz São Paulino de Nola – “jamais falta a presença do Espírito Santo, da qual provém uma graça viva aos sepulcros sagrados” (Cântico XXI, 632-633).

5. O Espírito Santo aparece-nos assim como Espírito da vida, não só em todas as fases da existência terrena, mas de igual modo na fase que, depois da morte, precede a vida plena que o Senhor prometeu também para os nossos corpos mortais.  Com maior razão, graças a Ele realizaremos, em Cristo, a nossa “passagem” final ao Pai. Observa São Basílio Magno: “Se alguém reflete com atenção, compreenderá que também no momento da esperada manifestação do Senhor a partir do céu, o Espírito Santo não vos faltará como alguns crêem, ao contrário, Ele estará presente também no dia da revelação do Senhor, na qual julgará o mundo na justiça.  Ele que é bem-aventurado e o único soberano”. (O Espírito Santo, XVI, 40).

 O Espírito é ”Esperança que não nos deixa confundidos”

 L’osservatore Romano nº 46 (632) – 14.11.98

1. O Espírito Santo, efundido “sem medida” por Jesus Cristo crucificado e ressuscitado, é “Aquele que constrói o Reino de Deus no curso da história e prepara a sua plena manifestação em Jesus Cristo … que acontecerá no fim dos tempos  (Tertio millenio adveniente, 45).  Nesta perspectiva escatológica os crentes são chamados, neste ano dedicado ao Espírito Santo, a redescobrir a virtude teologal da esperança, que, “por um lado, impede o cristão a não perder de vista a meta final que dá sentido o valor à sua existência inteira e, por outro, oferece-lhe motivações sólidas e profundas para o empenhamento quotidiano na transformação da realidade a fim de a tornar conforme ao projeto de Deus”  (ibid., 46).

2. São Paulo sublinha o vínculo íntimo e profundo que existe entre o dom do Espírito Santo e a virtude da esperança . “A esperança – diz ele na Carta aos Romanos – não nos deixa confundidos porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi concedido””(5,5).  Sim: precisamente o dom do Espírito Santo, ao colmar o nosso coração ao amor de Deus e ao tornar-nos, em Jesus Cristo, filhos do Pai (cf. Gl. 4,6), suscita em nós a esperança certa que nada “poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, Nosso Senhor” (Rm 8, 39).
Por este motivo, o Deus que Se revelou na “plenitude dos tempos” em Jesus Cristo é verdadeiramente “o Deus da esperança”, que enche de alegria e paz os crentes, fazendo-os abundar “na esperança pela virtude do Espírito Santo” (Rm 15,13).  Por isso, os cristãos são chamados a ser no mundo testemunhas desta jubilosa esperança, “sempre prontos a responder a todo aquele que vos perguntar a razão da vossa esperança” (1 Pd 3,15).

3. A esperança cristão realiza plenamente a esperança suscitada por Deus no povo de Israel, e que encontra a própria origem e o próprio modelo em Abraão, o qual “contra o que podia esperar, acreditou que havia de ser pai de muitas nações” (Rm 4,18).  Ratificada na aliança estabelecida pelo Senhor, através de Moisés, com o Seu povo, a esperança de Israel foi reacendida continuamente, no curso dos séculos, pela pregação dos profetas.  Ela, por fim, concentrou-se na promessa da efusão escatológica do Espírito de Deus sobre o Messias e sobre todo o povo (cf. Is 11, 2; Ez 36, 27; Gl 3, 1-2).
Em Jesus se cumpre esta promessa.  Ele não é apenas a testemunha da esperança que se abre diante de quem se torna Seu discípulo.  Ele mesmo é, na Sua pessoa e na Sua obra de salvação, “a nossa esperança” (1 Tm 1,1), pois anuncia e atua o Reino de Deus.  A “magna charta” deste Reino é constituída pelas bem-aventuranças (cf. Mt 5; 3-12).  “As bem-aventuranças elevam a nossa esperança para o Céu, como nova terra prometida e traçam-lhe o caminho através das provações que esperam os discípulos de Jesus” (Catecismo da Igreja Católica, n. 1820).

4. Constituído Cristo e Senhor na Páscoa (cf. Act. 2, 36) Jesus torna-Se “espírito vivificante” (1 Cor 15,45), e os crentes, batizados n’Ele com a água e o Espírito (cf. Jo 3,5), são “regenerados para uma esperança viva” (1 Pd 1,3).  Agora, o dom da salvação, por meio do Espírito Santo é o penhor e a garantia (cf. 2 Cor 1,21-22; Ef. 1, 13-14), da plena comunhão com Deus à qual Cristo nos conduz.  O Espírito Santo – lê-se na Carta a Tito – foi “derramado sobre nós abundantemente por Jesus Cristo, nosso Salvador, a fim de que, justificados pela Sua graça, sejamos herdeiros da vida eterna, conforme a nossa esperança” (3, 6-7).

5. Também segundo os Padres da Igreja, é o Espírito Santo “o dom que nos concede a esperança perfeita” (Santo Hilário de Poitiers, De Trinitae, II, 1). Diz São Paulo, com efeito: “atesta em união com o nosso espírito que somos filhos de Deus; filhos e igualmente herdeiros de Cristo” (Rm 8, 16-17).

A existência cristã cresce e amadurece até à sua plenitude, a partir daquele “já” da salvação que é a vida como filhos de Deus em Cristo, participada a nós pelo Espírito Santo. Da experiência deste dom, ela aspira com esperança confiante ao “ainda não” e ao “ainda mais”, que Deus nos prometeu e nos dará no fim dos tempos. Como de fato argumenta São Paulo, se alguém é realmente filho, ele é também herdeiro de tudo aquilo que pertence ao Pai com Cristo, o “Primogênito de muitos irmãos” (Rm 8, 29). “Tudo quanto o Pai tem é Meu” afirma Jesus (Jo 16, 15). Por este motivo, Ele, ao comunicar-nos o seu Espírito, torna-os partícipes da herança do Pai e dá-nos desde agora o penhor e as primícias. Essa realidade divina é a inexaurível fonte da esperança cristã.

6. A doutrina da Igreja concebe a esperança como uma das três virtudes teologais, efundidas por Deus por meio do Espírito Santo no coração dos crentes. Ela é aquela virtude “pela qual desejamos o Reino dos Céus e a vida eterna como nossa felicidade, pondo toda a confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos, não nas nossas forças, mas no socorro da graça do Espírito Santo” (CIC, nº 1817).

Ao dom da esperança “há-de ser prestada uma  particular atenção, especialmente no nosso tempo, em que muitos homens – também não poucos cristãos – se debatem entre a ilusão e o mito de uma capacidade infinita de auto-redenção e realização de si, e a tentação do pessimismo na experiência das freqüentes desilusões e derrotas (Audiência geral, 3/7/91, em L’Osserv. Rom., ed. Port. De 7/7/91, pág.. 12).

Muitos perigos parecem incumbir sobre o futuro da humanidade e inúmeras incertezas pesam sobre os destinos pessoais e não raro sentimo-nos incapazes de os enfrentar. Também a crise do sentido do existir e o enigma do sofrimento e da morte voltam com insistência a bater à porta do coração dos nossos contemporâneos.

A mensagem de esperança que vem de Jesus Cristo ilumina este horizonte denso de incertezas e de pessimismo. A esperança sustenta-nos e protege no bom combate da fé (cf. Rm 12, 12), Ela é alimentada na oração, de modo muito particular no “Pai-Nosso”, “resumo de tudo o que a esperança nos faz desejar” (CIC, n. 1820).

7. Hoje não basta despertar a esperança na interioridade da consciência de cada um; é preciso “cruzar juntos o limiar da esperança”.

A esperança, de fato, tem essencialmente – como teremos oportunidade de aprofundar – também uma dimensão comunitária e social, de tal forma que aquilo que o Apóstolo diz em sentido próprio e direto em relação à Igreja, pode ser em sentido lato aplicado à vocação da inteira humanidade: “Há um só corpo e um só Espírito, como existe uma só esperança no chamamento que recebestes” (Ef 4,4).

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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