Catequeses (Parte 1)

O encontro entre o homem e Deus sob o impulso do Espírito

L’osservatore Romano nº 35 (476) 29/08/1998

1. A história da salvação é a progressiva autocomunicação de Deus à humanidade, que alcança o seu vértice em Jesus Cristo. No Verbo feito homem, Deus Pai quer participar a Sua própria vida a todos: em definitivo, quer comunicar-Se. Esta autocomunicação divina acontece no Espírito Santo, vínculo de amor entre a eternidade e o tempo, entre a Trindade e a história.

Se no seu Espírito Deus Se abre ao homem, este, por sua vez, é criado como sujeito capaz de acolher a autocomunicação divina. O homem – como diz a tradição do pensamento cristão – é “capax Dei”: capaz de conhecer a Deus e de acolher o dom que Ele faz de Si mesmo. Com efeito, criado à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26), é capaz de viver uma relação pessoal com Ele e de responder com a obediência de amor à relação de aliança que lhe foi proposta pelo seu Criador.

Na base deste ensinamento bíblico, o dom do Espírito, prometido ao homem e concedido “sem medida” por Jesus Cristo, significa então o “chamamento à amizade, na qual as transcendentes “profundezas de Deus” são abertas, de algum modo, à participação por parte do homem” (Dominum et vivificantem, 34).

Quanto a isto, o Concílio Vaticano II ensina: “Deus invisível (cf. Cl 1, 15; 1 Tm 1, 17), na riqueza do seu amor, fala aos homens como amigos (cf. Êx 33, 11; Jo 15, 14 s.) e convive com eles  ( Br 3, 38) para os convidar a admitir à comunhão com Ele” (Dei Verbum, 2).

2. Então, se mediante o seu Espírito Deus Se comunica ao homem, este é continuamente chamado a doar-se a Deus com todo o próprio ser. Esta é a sua vocação mais profunda. A isto ele é solicitado sem cessar pelo Espírito Santo que, iluminando a sua inteligência e sustentando a sua vontade, o introduz no mistério da filiação divina em Jesus Cristo e o convida a vivê-lo com coerência.

Todos os impulsos generosos e sinceros da inteligência e da liberdade do homem para se aproximar, ao longo dos séculos, do mistério inefável e transcendente de Deus, são suscitados pelo Espírito Santo.

Em particular na história da antiga Aliança, estabelecida por Javé com o povo de Israel, testemunhamos a atuação progressiva deste encontro entre Deus e o homem no espaço de comunhão que foi aberto pelo Espírito.

É  impressionante, por exemplo, pela sua intensa beleza, a narração do encontro do profeta Elias com Deus no sopro do Espírito: “O Senhor disse-lhe: “Sai e permanece sobre o monte, na presença do Senhor: eis que o Senhor vai passar”. Nesse momento passou adiante dele um vento impetuoso e violento, que fendia as montanhas e quebrava o rochedo; mas o Senhor não estava naquele vento. Depois do vento, a terra tremor de terra. Passado o tremor de terra, acendeu-se um fogo; mas o Senhor não estava no fogo. Depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. Elias, ouvindo isto, cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da caverna. Uma voz disse-lhe: “Que fazes aqui Elias?” (1 Rs 19, 11-13).

3. Mas o encontro perfeito e definitivo entre Deus e o homem – aguardado e contemplado na esperança pelos patriarcas e profetas – é Jesus Cristo. Ele, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, “na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si próprio e descobre-lhe a sua vocação sublime” (Gaudium et spes, 22). Jesus Cristo realiza esta revelação com toda a Sua vida. Com efeito Ele, por impulso do Espírito Santo, está sempre propenso a cumprir a vontade do Pai, e no madeiro da Cruz oferece-Se ao Pai “de uma vez para sempre”, “com um Espírito eterno (cf. Hb 9, 14).

Através do evento pascal, Cristo ensina-nos como “o homem, única criatura sobre a terra a ser querida por Deus por si mesma, não se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo” (Gaudium et spes, 24). Ora, precisamente o Espírito Santo, comunicado em plenitude à Igreja por Jesus Cristo, faz com que o homem, ao reconhecer-se n’Ele, sempre melhor “se reconheça através de um dom sincero de si mesmo”.

4. Esta verdade eterna sobre o homem, que nos foi revelada por Jesus Cristo, adquire no nosso tempo uma particular atualidade. Apesar das contradições também intensas, hoje o mundo vive um período de intensa “socialização”  (cf. Gaudium et spes, 6) no que se refere quer às relações interpessoais no interior das várias comunidades humanas, quer aos relacionamentos entre os povos, as raças e as diversas sociedades e culturas.

Em todo este processo rumo à comunhão e à  unidade, é necessária a ação do espírito Santo, também para superar os obstáculos e os perigos que insidiam este caminho da humanidade. “Na perspectiva do ano 2000 depois do nascimento de Cristo, importa conseguir que um número cada vez maior de homens “possam encontrar-se plenamente… através do dom sincero de si”. Trata-se pois de fazer com que, sob a ação do Espírito-Paráclito, se realize no nosso mundo um processo de verdadeiro amadurecimento na humanidade, na vida individual e na vida comunitária; foi em ordem a isso que o próprio Jesus, quando pedia ao Pai “que todos sejam um, como Eu e Tu somos um” (Jo 17,  21-22)… nos sugeriu que existe uma certa semelhança entre a união das pessoas divinas e a união dos filhos de Deus na verdade e na caridade” (Dominum et vivificantem, 59).

 
O Espírito de Deus e as ”sementes de verdade” presentes nas religiões não cristãs

L’OSSERVATORE ROMANO Nº 37 (496)- 12/09/1998

1.  Na Declaração Nostra aetate, sobre as relações da Igreja com as religiões não cristãs, o Concílio Ecumêmico Vaticano II ensina que “a Igreja católica nada rejeita do que nessas religiões existe de verdadeiro e santo. Olha com sincero respeito esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que, embora se afastem em muitos pontos daqueles que ela própria segue e propõe, todavia refletem não raramente um raio de verdade que ilumina todos os homens”  (n. 2).

Retomando o ensinamento conciliar, desde a primeira Carta Encíclica do meu pontificado, eu quis evocar a antiga doutrina formulada pelos Padres da Igreja, segundo a qual é necessário reconhecer as “sementes do Verbo”, presentes e operantes nas diversas religiões (cf. Ad gentes, 11; Lumen gentium, 17). Essa doutrina impele-nos a afirmar que, embora por caminhos diferentes, “está contudo voltado para uma mesma direção a mais profunda aspiração do espírito humano, tal como ela se exprime na busca de Deus; e conjuntamente na busca, mediante a tensão no sentido de Deus, da plena dimensão da humanidade, ou seja, do sentido pleno da vida humana” (Redemptor hominis, 11).

As “sementes de verdade”, presentes e operantes nas diversas tradições religiosas, são um reflexo do único Verbo de Deus, “que a todo o homem ilumina” (cf. Jo 1, 9) e que Se fez carne em Cristo Jesus (cf. Jo 1, 14). Elas são ao mesmo tempo “efeito do Espírito da verdade, operante para além dos confins visíveis do Corpo Místico”, e que “sopra onde quer” (Jo 3, 8) (cf. Redemptor hominis, 6 e 12). Tendo presente esta doutrina, a celebração do Jubileu do Ano 2000 “será uma grande ocasião – como se vê pelos acontecimentos destes últimos decênios – para o diálogo inter-religioso” (Tertio millennio adveniente, 53). Já desde agora, neste ano pneumatológico, é oportuno que nos detenhamos para aprofundar em que sentido e por que vias o Espírito Santo está presente na busca religiosa da humanidade e nas diversas experiências e tradições que a exprimem.

2. Antes de tudo, é preciso ter presente que toda a busca do espírito humano em direção da verdade e do bem e, em última análise, de Deus, é suscitada pelo Espírito Santo. Precisamente desta abertura primordial do homem em relação a Deus nascem as diversas religiões. Não raro na sua origem encontramos fundadores que realizaram, com a ajuda do Espírito de Deus, uma mais profunda experiência religiosa. Transmitida aos outros, essa experiência tomou forma nas doutrinas, nos ritos e nos preceitos das várias religiões.

Em todas as autênticas experiências religiosas, a manifestação mais característica é a oração. Por causa da constitutiva abertura do espírito humano à ação com que Deus solicita a transcender-se, podemos considerar que “toda a oração autêntica é suscitada pelo Espírito Santo, que está misteriosamente presente no coração de todo o homem” (Alocução aos membros da Cúria Romana, 22/12/1986, n. 11 em Insegnamenti IX/2 [1986], pág. 2028).

Nós vivemos uma manifestação eloqüente desta verdade no Dia mundial de Oração pela Paz, no dia 27 de Outubro de 1986 em Assis, e noutras semelhantes ocasiões de grande intensidade espiritual.

3. O Espírito Santo está presente nas outras religiões não só através das autênticas expressões de oração. “A presença e a ação do Espírito – como escrevi na Carta Encíclica Redemptoris missio – não atingem apenas os indivíduos, mas também a sociedade e a história, os povos, as culturas e as religiões” (n. 28).

Normalmente, “é através da prática daquilo que é bom nas suas próprias tradições religiosas e seguindo os ditames da sua consciência, que os membros das outras religiões respondem de maneira positiva ao convite de Deus e recebem a salvação em Jesus Cristo, ainda que não O reconheçam como o seu Salvador (cf. Ad gentes, 3, 9 e 11)” (Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso – Congregação para a Evangelização dos Povos, Instrução Diálogo e Anúncio, 19 de Maio de 1991, n. 29, em Enchiridion Vaticanum 13 [1991-1993], pág. 203).

Com efeito, como ensina o Concílio Vaticano II, “já que por todos morreu Cristo e a vocação última de todos os homens é realmente uma só, a saber, a divina, devemos manter que o Espírito Santo a todos dá a possibilidade de se associarem a este mistério pascal por um modo só de Deus conhecido” (Gaudium et spes, 22).

Tal possibilidade realiza-se mediante a adesão íntima e sincera à Verdade, o dom generoso de si ao próximo, a busca do Absoluto suscitada pelo espírito de Deus. Também através da atuação dos preceitos e das práticas conformes à lei moral e ao autêntico sentido religioso se manifesta um raio da Sabedoria divina. Precisamente em virtude da presença e da ação do Espírito, os elementos de bem, dentro das diversas religiões, dispõem misteriosamente os corações para acolherem a revelação plena de Deus em Cristo.

4. Pelos motivos aqui recordados, a atitude da Igreja e de cada um dos cristãos para com as outras religiões é marcada por respeito sincero, simpatia profunda e também, quando for possível  e oportuno, por colaboração cordial. Isto não significa esquecer que Jesus Cristo é o único Mediador e Salvador do gênero humano. Nem sequer significa atenuar a tensão missionária, à qual estamos obrigados em obediência ao mandato do Senhor ressuscitado: “Ide, pois, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28, 19). Antes, a atitude de respeito e diálogo constitui um imperioso reconhecimento das “sementes do Verbo” e dos “gemidos do Espírito”. Neste sentido, longe de se opor ao anúncio do Evangelho, ela prepara-o, à espera dos tempos dispostos pela misericórdia do Senhor. “Através do diálogo, façamos com que Deus esteja presente no meio de nós: pois enquanto nos abrirmos uns aos outros, abrimo-nos também a Deus” (Discurso aos membros das outras religiões, Madras, 5 de Fevereiro de 1986, n. 4, em Insegnamenti IX/1 [1986], pp. 322 s.).

O espírito de verdade e de amor, no horizonte do terceiro milênio já próximo, nos guie pelos caminhos do anúncio de Jesus Cristo e do diálogo de paz e de fraternidade com os seguidores de todas as religiões!

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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