Catequese sobre os Anjos (Parte 2)

4. O tema a que nos referimos poderá parecer ‘distante’ ou ‘menos vital’ à mentalidade do homem moderno. Todavia a Igreja, propondo com franqueza a totalidade da verdade acerca de Deus Criador também dos anjos, crê que presta um grande serviço ao homem. O homem nutre a convicção de que em Cristo, Homem-Deus, é ele (e não os anjos) a encontrar-se no centro da Divina Revelação. Pois bem, o encontro religioso com o mundo dos seres puramente espirituais torna-se revelação preciosa do seu ser não só corpo mas também espírito, e da sua pertença a um projeto de salvação verdadeiramente grande e eficaz, dentro de uma comunidade de seres pessoais que para o homem e com o homem servem o desígnio providencial de Deus.

5. Notemos que a Sagrada Escritura e a Tradição chamam propriamente anjos àqueles espíritos puros que na prova fundamental de liberdade escolheram Deus, a Sua glória e o Seu reino. Eles estão unidos a Deus mediante o amor consumado que nasce da beatificante visão, face a face, da Santíssima Trindade. Di-lo Jesus mesmo: ‘Os anjos nos céus veem constantemente a face de Meu Pai que está nos céus’ (Mt 18,10). Aquele ‘ver constantemente a face do Pai’ é a manifestação mais excelsa da adoração de Deus. Pode-se dizer que ela constitui aquela ‘liturgia celeste’, realizada em nome de todo o universo, à qual se associa incessantemente a liturgia terrena da Igreja, de modo especial nos seus momentos culminantes. Basta recordar aqui o ato com o qual a Igreja, todos os dias e a todas as horas, no mundo inteiro, antes de dar inicio à Oração Eucarística no ponto central da Santa Missa, se refere aos ‘Anjos e aos Arcanjos’ para cantar a glória de Deus três vezes Santo, unindo-se assim àqueles primeiros adoradores de Deus, no culto e no amoroso conhecimento do inefavel mistério da Sua santidade.

6. Ainda segundo a Revelação, os anjos, que participam da vida da Trindade na luz da glória, são também chamados a ter a sua parte na
história da salvação dos homens, nos momentos estabelecidos pelo desígnio da Divina Providência. ‘Não são eles todos espíritos ao serviço de Deus, enviados a fim de exercerem um ministério a favor daqueles que hão de herdar a salvação?’, pergunta o autor da Carta aos Hebreus (1,14). E nisto crê e isto ensina a Igreja, com base na Sagrada Escritura da qual sabemos que é tarefa dos anjos bons a proteção dos homens e a solicitude pela sua salvação. Encontramos certas expressões em diversas passagens da Sagrada Escritura como por exemplo no Salmo 90/91, já citado mais de uma vez: ‘Mandou aos Seus anjos que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te levarão nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’ (Sl 90/91,11-12). O próprio Jesus, falando das crianças e recomendando que não se lhes desse escândalo faz referência aos ‘seus anjos’ (Mt 18,10). Ele atribui também aos anjos a função de testemunhas no supremo juízo divino sobre a sorte de quem reconheceu ou negou Cristo: ‘Todo aquele que se declarar por Mim diante dos homens, também o Filho do Homem se declarara por ele diante dos anjos de Deus. Aquele, porém, que Me tiver negado diante dos homens será negado diante dos anjos de Deus’ (Lc 12,8-9; cf. Ap 3,5). Estas palavras são significativas porque, se os anjos tomam parte no juízo de Deus, estão interessados pela vida do homem. Interesse e participação que parecem receber uma acentuação no discurso escatológico, em que Jesus faz intervir os anjos na Parusia, ou seja, na vinda definitiva de Cristo no fim da história (cf. Mt 24,31; 25,31-41).

7. Entre os livros do Novo Testamento, são especialmente os Atos dos Apóstolos que nos dão a conhecer alguns fatos que atestam a solicitude dos anjos pelo homem e pela sua salvação. Assim é quando o Anjo de Deus liberta os Apóstolos da prisão (cf. At 5,18-20) e antes de tudo Pedro, que estava ameaçado de morte por parte de Herodes (cf. At 12, 15-10). Ou quando guia a atividade de Pedro a respeito do centurião Cornélio, o primeiro pagão convertido (At 10,3-8. 12-13), e de modo análogo a atividade do diácono Filipe no caminho de Jerusalém para Gaza (At 8,26-29). Destes poucos fatos citados a título de exemplo, compreende-se como na consciência da Igreja se tenha podido formar a persuasão acerca do ministério confiado aos anjos a favor dos homens. Portanto, a Igreja, confessa a sua fé nos anjos da guarda, venerando-os na liturgia com uma festa própria e recomendando o recurso à sua proteção com uma oração frequente, como na invocação do ‘Anjo de Deus’. Esta oração parece fazer tesouro das lindas palavras de São Basílio: ‘Cada fiel tem ao seu lado um anjo como tutor e pastor, para o levar à vida’ (cf. 5. Basilius, Adv. Funonium, III, 1; veja-se também Sto. Tomas, Summa Theol. 1, q. II, a.3).

8. É por fim oportuno notar que a Igreja honra com culto litúrgico três figuras de anjos, que na Sagrada Escritura são chamados por nome. O primeiro é Miguel Arcanjo (cl. Dn 10,13-20; Ap 12,7; Jd 9). O seu nome exprime sinteticamente a atitude essencial dos espíritos bons. ‘Mica´El’ significa, de fato: ‘Quem como Deus?’. Neste nome encontra-se, pois, expressa a escolha salvífica graças à qual os anjos veem a face do Pai’ que está nos céus. O segundo é Gabriel: figura ligada sobretudo ao mistério da encarnação do Filho de Deus (cf. Lc 1,19-26). O seu nome significa: ‘O meu poder é Deus’ ou ‘poder de Deus’, quase como que a dizer que, no auge da criação, a encarnação é o sinal supremo do Pai onipotente. Finalmente o terceiro arcanjo chama-se Rafael. ‘Rafa’El’ significa: ‘Deus cura’. Ele nos é dado a conhecer pela história de Tobias no Antigo Testamento (cf. Tb 12,15-20), etc., tão significativa quanto ao fato de serem confiados aos anjos os pequeninos filhos de Deus, sempre necessitados de guarda, de cuidados e de proteção. Se pensarmos bem, vê-se que cada uma destas três figuras: Mica’El, Gabri’EI e Rafa’El reflete de modo particular a verdade contida na pergunta formulada pelo autor da Carta aos Hebreus: ‘Não são eles todos espíritos ao serviço de Deus enviados a fim de exercerem um ministério a favor daqueles que hão de herdar a salvação?’ (Hb 1,14).

5. A queda dos Anjos Rebeldes Audiência do dia 13 de agosto de 1986

(Publicada no L’osservatore Romano, ed. port., no dia 17 de agosto de 1986.)

1. Continuando o argumento das catequeses passadas dedicadas aos Anjos, criaturas de Deus, concentramo-nos hoje a explorar o mistério da liberdade que alguns deles orientaram contra Deus, e o seu plano de salvação em relação aos homens. Como testemunha o evangelista Lucas, no momento em que os discípulos voltavam ao Mestre cheios de alegria, pelos frutos recolhidos no seu tirocínio missionário, Jesus pronuncia uma palavra que faz pensar: ‘Eu via satanás cair do céu como um raio’ (cf. Lc 10,18). Com estas palavras o Senhor afirma que o anúncio do reino de Deus é sempre uma vitória sobre o diabo, mas ao mesmo tempo revela também que a edificação do reino está continuamente exposta às insídias do espírito mau. Interessar-se por isso, como pretendemos fazer com a catequese de hoje, quer dizer preparar-se para a condição de luta que é própria da vida da Igreja neste tempo derradeiro da história, da salvação (como afirma o livro do Apocalipse, cf. 12,7). Por outro lado, isto permite esclarecer a reta fé da Igreja perante quem a altera exagerando a importância do diabo, ou quem nega ou minimiza o seu poder maléfico. As catequeses passadas, acerca dos anjos, preparam-nos para compreender a verdade que a Sagrada Escritura revelou e que a tradição da Igreja transmitiu sobre satanás, isto é, sobre o anjo caído, o espírito maligno, chamado também diabo ou demônio.

2. Esta queda, que apresenta o caráter da rejeição de Deus, com o consequente estado de danação, consiste na livre escolha daqueles espíritos criados, que radical e irrevogavelmente rejeitaram Deus e o seu reino, usurpando os seus direitos soberanos e tentando subverter a economia da salvação e a própria ordem da criação inteira. Um reflexo desta atitude encontra-se nas palavras do tentador aos progenitores: ‘sereis como Deus’ ou ‘como deuses’ (cf. Gn 3,5). Assim o espírito maligno tenta insuflar no homem a atitude de rivalidade, de insubordinação e de oposição a Deus, que se tornou quase a motivação de toda a sua existência.

3. No Antigo Testamento, a narração da queda do homem, apresentada no livro do Gênesis, contém uma referência à atitude de antagonismo que satanás quer comunicar ao homem para o levar à transgressão (Gn 3,5). Também no livro de Jó (cf. Jó 1,11; 2,24), satanás é apresentado como o artífice da morte que entrou na história do homem juntamente com o pecado.

4. A Igreja, no Concílio Lateranense IV (1215), ensina que o diabo, ou (satanás) e os outros demônios ‘foram criados bons por Deus mas tornaram-se maus por sua própria vontade’. De fato, lemos na carta de São Judas: ‘Os anjos que não souberam conservar a sua dignidade, mas abandonaram a própria morada, Ele os guardou para o julgamento do grande dia, em prisões eternas e no fundo das trevas’ (Jd 6). De modo idêntico na Segunda Carta de São Pedro fala-se de ‘anjos que pecaram e que Deus ‘não poupou… e os precipitou nos abismos tenebrosos do inferno, para serem reservados para o Juízo’ (2 Pd 2,4). É claro que se Deus ‘não perdoa’ o pecado dos anjos fá-lo porque eles permanecem no seu pecado, porque estão eternamente ‘nas prisões’ daquela escolha que fizeram no início, rejeitando Deus, sendo contra a verdade do Bem supremo e definitivo que é Deus mesmo. Neste sentido São João escreve que ‘o demônio peca desde o principio’ (1 Jo 3,8). E foi assassino ‘desde o princípio’ (1 Jo 8,44), e ‘não se manteve na verdade, porque nele não há verdade’ (Jo 8,44).cpa_os_anjos

5. Estes textos ajudam-nos a compreender a natureza e a dimensão do pecado de satanás, consciente na rejeição da verdade acerca de Deus, conhecido à luz da inteligência e da revelação como Bem infinito, Amor e Santidade subsistente. O pecado foi tanto maior quanto maior era a perfeição espiritual e a perspicácia cognoscitiva do intelecto angélico, quanto maior era a sua liberdade e a proximidade de Deus. Rejeitando a verdade conhecida acerca de Deus com um ato da própria vontade livre, satanás torna-se ‘mentiroso’, cósmico e ‘pai da mentira’ (Jo 8,44). Por isso ele vive na radical e irreversível negação de Deus e procura impor a criação aos outros seres criados à imagem de Deus, que satanás (sob forma de serpente) tenta transmitir aos primeiros representantes do gênero humano: Deus seria cioso das suas prerrogativas e imporia, portanto, limitações ao homem (cf. Gn 3,5). Satanás convida o homem a libertar-se da imposição deste jugo, tornando-se como ‘Deus’.

6. Nesta condição de mentira existencial, satanás torna-se ‘segundo São João ‘também ‘assassino’, isto é, destruidor da vida sobrenatural que Deus desde o princípio tinha introduzido nele e nas criaturas, feitas ‘à imagem de Deus’: os outros puros espíritos e os homens; satanás quer destruir a vida segundo a verdade, a vida na plenitude do bem, a sobrenatural vida de graça e de amor. O autor do Livro da Sabedoria escreve: ‘Por inveja do demônio é que a morte entrou no mundo, e prová-la-ão os que pertencem ao demônio’ (Sb 2,24). E no evangelho Jesus Cristo adverte: ‘Temei antes aquele que pode fazer perecer na Geena o corpo e a alma’ (Mt 10,28).

7. Como efeito do pecado dos progenitores, este anjo caído conquistou em certa medida o domínio sobre o homem. Esta é a doutrina constantemente confessada e anunciada pela Igreja, e que o Concílio de Trento confirmou no tratado sobre o pecado original (cf. DS 1511): ela encontra dramática expressão na liturgia do batismo, quando ao catecúmeno se pede para renunciar ao demônio e a suas tentações. Deste influxo sobre o homem e sobre as disposições do seu espírito (e do corpo), encontramos várias indicações na Sagrada Escritura, na qual satanás é chamado ‘o príncipe deste mundo’ (2Cor 4,4). Encontramos muitos outros nomes que descrevem as suas nefastas relações como o homem: ‘Belzebu ou ‘Belial’, ‘espírito malígno’, e por fim ‘anticristo’ (1 Jo 4, 3). É comparado com um ‘leão’ (1 Pd 5, 9), com um ‘dragão’ (Apocalipse) e com uma serpente (Gn 3). Com muita frequência, para o designar, é usado o nome ‘diabo’, do grego ‘diabellein’ (daqui diábolos), que significa: causar a destruição, dividir, caluniar, enganar. E, para dizer a verdade, tudo isto acontece desde o princípio, por obra do espírito malígno, que é apresentado pela Sagrada Escritura, como uma pessoa, embora tenha afirmado que não está só: ‘somos muitos’, respondem os diabos a Jesus, na região dos Geracenos (Mc 5, 9); ‘o diabo e seus anjos’, diz Jesus, na descrição do juízo final (cf. Mt 25, 41).

8. Segundo a Sagrada Escritura, e de modo especial, no Novo Testamento, o domínio e o influxo de satanás e dos outros espíritos malignos abrange todo o mundo. Pensemos na parábola de Cristo sobre o campo (que é o mundo), sobre a boa semente e sobre a que não é boa, que o diabo semeia no meio do trigo procurando arrancar dos corações aquele bem que neles foi ‘semeado’ (cf. Mc 13, 38-39). Pensemos nas numerosas exortações à vigilância (cf. Mt 26, 41;1 Pd 5,8), à oração e ao jejum (cf. Mt 17, 21). Pensemos naquela forte afirmação do Senhor: ‘Esta casta de demônios só pode ser expulsa com oração’ (Mc 9, 29). A ação de Satanás consiste, antes de tudo, em tentar os homens ao mal influindo na sua imaginação e nas suas faculdades superiores para as orientar em direção contrária à
lei de Deus. Satanás põe à prova até Jesus (cf. Lc 4,3-13), na tentativa extrema de contrariar as exigências da economia da salvação como Deus a estabeleceu. Não é para excluir que em certos casos o espírito maligno chegue até o ponto de exercer o seu influxo não só nas coisas materiais, mas também sobre o corpo do homem, pelo que se fala de ‘possessos de espíritos impuros’ (Mc 5, 2-9). Nem sempre é fácil discernir o que de preternatural acontece nesses casos, nem a Igreja condescende ou secunda facilmente a atribuir muitos fatos a intervenções diretas do demônio, mas em linha de princípio não se pode negar que, na sua vontade de prejudicar e de levar para o mal, satanás possa chegar a esta extrema manifestação da sua superioridade.

9. Devemos por fim acrescentar que as impressionantes palavras do Apóstolo João: ‘O mundo inteiro está sob o jugo do maligno’ (I Jo 5,19), aludem também à presença de satanás na história da humanidade, uma presença que se acentua à medida que o homem e a sociedade se afastam de Deus. O influxo do espírito maligno pode ocultar-se de modo mais profundo e eficaz: fazer-se ignorar corresponde aos seus ”interesses”. A habilidade de satanás no mundo está em induzir os homens a negarem a sua existência, em nome do racionalismo e de cada um dos outros sistemas de pensamento que procuram todas as escapatórias para não admitir a obra dele. Isto não significa, porém, a eliminação da vontade livre e da responsabilidade do homem e nem se quer a frustração da ação salvífica de Cristo. Trata-se antes de um conflito entre as forças obscuras, do mal e as forças da redenção. São eloquentes a este propósito as palavras que Jesus dirigiu a Pedro no início da Paixão: ‘Simão, olha que satanás vos reclamou para vos joeirar como o trigo. Mas Eu roguei por ti, a fim de que tua fé não desfaleça’ (Lc 22,31). Por isso compreendemos o motivo por que Jesus, na oração que nos ensinou, o ‘Pai-nosso’, que é a oração do reino de Deus, termina bruscamente, ao contrário de multas outras orações do seu tempo, recordando-nos a nossa condição de expostos às insídias do Mal-Maligno. O cristão, fazendo apelo ao Pai com o espírito de Jesus e invocando o seu Reino, brada com a força da fé: não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal, do Maligno. Não nos deixeis, ó Senhor, cair, na infidelidade a que nos tenta aquele que foi infiel desde o princípio.

6. A Vitória de Cristo sobre o Espírito do Mal

Audiência do dia 20 de agosto de 1986 (Publicada no L’OSSERVATORE ROMANO, ed. port., no dia 24 de agosto de 1986.)

1. As nossas catequeses sobre Deus, Criador das coisas ‘invisíveis’, levaram-nos a iluminar e a retemperar a nossa fé no que se refere à verdade acerca do maligno ou satanás, não certamente querido por Deus, sumo Amor e Santidade, cuja Providência sapiente e forte sabe mconduzir a nossa existência à vitória sobre o príncipe das trevas. A fé da Igreja, de fato, ensina-nos que o poder de satanás não é infinito. Ele é só uma criatura poderosa enquanto espírito puro, sendo sempre uma criatura, com os limites da criatura, subordinada ao querer e ao domínio de Deus. Se satanás opera no mundo mediante o seu ódio contra Deus e o seu Reino, isto é permitido pela Divina Providência que, com poder e bondade (fortiter et suaviter), dirige a história do homem e do mundo. Se a ação de satanás sem dúvida causa muitos danos de natureza espiritual e indiretamente também de natureza física ‘aos indivíduos e à sociedade, ele não está, contudo, em condições de anular a definitiva finalidade para que tendem o homem e toda a criação, o Bem. Ele não pode impedir a edificação do Reino de Deus, no qual se terá, no fim, a plena realização da justiça e do amor do Pai para com as criaturas eternamente ‘predestinadas’ no Filho-Verbo, Jesus Cristo. Podemos mesmo dizer com São Paulo que a obra do maligno concorre para o bem (cf. Rm 8,28) e que serve para edificar a glória dos ‘eleitos’ (cf. 2Tm 2,10).

2. Assim toda a história da humanidade se pode considerar em função da salvação total, na qual está inscrita a vitória de Cristo sobre o ‘príncipe deste mundo’ (Jo 12,13; 14,30; 16,11). ‘Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a Ele prestaras culto’ (Lc 4,8), diz peremptoriamente Cristo a satanás. Num momento dramático do seu ministério a quem o acusava de modo imprudente de expulsar os demônios por serem aliados de Belzebu, chefe dos demônios, Jesus responde com aquelas palavras severas e confortantes ao mesmo tempo: ‘Todo o reino dividido contra si mesmo ficara devastado; e toda a cidade ou casa dividida contra si mesma não poderá subsistir. Ora, se Satanás expulsa Satanás, está dividido contra si mesmo. Como há de subsistir o seu reino?… Mas se é pelo Espírito de
Deus que Eu expulso os demônios, quer dizer, então, que chegou até vós o reino de Deus’ (Mt 12, 25.26.28). ‘Quando um homem forte e bem armado guarda o seu palácio, os seus bens estão em segurança; mas se aparece um mais forte e o vence, tira-lhe as armas em que confiava e distribui os seus despojos’ (Lc 11,21-22). As palavras pronunciadas por Cristo a propósito do tentador encontram o seu cumprimento histórico na cruz e na ressurreição do Redentor. Como lemos na Carta aos Hebreus, Cristo tornou-se participante da humanidade até a cruz  ‘a fim de destruir, pela Sua morte, aquele que tinha o império da morte, isto é, o Demônio, e libertar aqueles que… estavam toda a vida sujeitos à escravidão’ (Hb 2,14-15). Esta é a grande certeza da fé cristã: ‘O príncipe deste mundo está condenado’ (Jo 16,11); ‘Para Isto é que o Filho de Deus se manifestou: Para destruir as obras do Demônio’ (I Jo 3,8), como nos afirma São João. Por conseguinte, o Cristo crucificado e ressuscitado revelou-se como o ‘mais forte’ que venceu ‘o homem forte’, o diabo, e o destronou. Na vitória de Cristo sobre o diabo participa a Igreja: Cristo, com efeito, deu aos seus discípulos o poder de expulsar os demônios (cf. Mt 10,1; Mc 16,17). A Igreja exerce este poder vitorioso mediante a fé em Cristo e a oração (cf. Mc 9,29; Mt 19s.), que em casos específicos pode assumir a forma do exorcismo.

3. Nesta fase histórica da vitória de Cristo inscreve-se o anúncio e o início da vitória final, a Parusia, a segunda e definitiva vinda de Cristo no termo da história, em direção do qual está projetada a vida do cristão. Embora seja verdade que a história terrena continua a desenrolar-se sob o influxo daquele ‘espírito que ‘como diz São Paulo’ atua nos rebeldes’ (Ef 2,2), os crentes sabem que são chamados a lutar pelo definitivo triunfo do Bem: ‘Porque nós não temos de lutar contra a carne e o sangue, mas contra os Principados e Potestades, contra os Dominadores deste mundo tenebroso, contra os Espíritos malignos espalhados pelos ares’ (Ef 6,12). A luta, à medida que se aproxima do seu termo, torna-se, em certo sentido, cada vez mais violenta, como põe em relevo de modo especial o Apocalipse, o último livro do Novo Testamento (cf. Ap. 12,7-9). Mas precisamente este livro acentua a certeza que nos é dada por toda a Revelação divina: isto é, que a luta se concluíra com a definitiva vitória do bem. Naquela vitória, pré-contida no mistério pascal de Cristo, cumprir-se-á definitivamente o primeiro anúncio do Livro do Gênesis, que é chamado, com termo significativo, protoevangelho, quando Deus adverte a serpente: Farei reinar a inimizade entre ti e a mulher’ (Gn 3,15). Naquela fase definitiva, Deus, completando o mistério da sua paterna Providência, ‘livrara do poder das trevas’ aqueles que eternamente ‘predestinou em Cristo’ e ‘transferi-los-á para o Reino de Seu Filho muito amado’ (cf. Cl 1,13-14). Então o Filho sujeitara ao Pai também o universo inteiro, a fim de que ‘Deus seja tudo em todos’ (I Cor 15,28).

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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