Catequese do Papa: sobre Jesus e a oração (3)

Praça de São Pedro

Queridos irmãos e irmãs,

hoje gostaria de refletir convosco sobre a oração de Jesus ligada à sua prodigiosa ação curadora. Nos Evangelhos, são apresentadas várias situações em que Jesus frente à obra benéfica e curadora de Deus Pai, que age através d’Ele. Trata-se de uma oração que, mais uma vez, manifesta a relação única de conhecimento e comunhão com o Pai, enquanto Jesus deixa-se envolver, com grande participação humana, nos desalentos de seus amigos, como, por exemplo, nos de Lázaro e sua família, ou de tantos pobres e doentes que Ele quis ajudar concretamente.

Um episódio significativo é o da cura do surdo-mudo (cf. Mc 7,32-37). A narração do Evangelista Marcos – que escutamos há pouco – mostra que a ação curadora de Jesus está conectada com a sua intensa relação, tanto com o próximo – o doente – quanto com o Pai. A cena do milagre é descrita cuidadosamente assim: “Levando-o à parte, longe da multidão, Jesus pôs os dedos nos seus ouvidos, cuspiu, e com a saliva tocou-lhe a língua. Olhando para o céu, suspirou e disse: ‘Efatá!’ (que quer dizer: ‘Abre-te’)” (Mc 7,33-34). Jesus quis que a cura acontecesse em um lugar distante da multidão. Isso não parece acontecer devido, sobretudo, ao fato de que o milagre tivesse que acontecer longe do alcance da visão das pessoas, para evitar que se formem interpretações limitativas ou distorcidas da pessoa de Jesus. A escolha de levar o doente para um lugar à parte faz com que, no momento da cura, Jesus e o surdo-mudo encontrem-se a sós, aproximados em uma singular relação. Com um gesto, o Senhor toca as orelhas e a língua do doente, ou seja, os locais específicos da sua enfermidade. A intensidade da atenção de Jesus manifesta-se ainda nos traços peculiares da cura: Ele usa os próprios dedos e, até mesmo, a própria saliva. Também o fato de que o Evangelista reporte a palavra original utilizada pelo Senhor – “Éfata”, ou seja, “Abre-te” – evidencia o caráter singular da cena.

Mas o ponto central desse episódio é o fato de que Jesus, no momento de operar a cura, busca diretamente sua relação com o Pai. A narração diz, de fato, que Ele, “olhando para o céu, suspirou” (v. 34). A atenção ao doente, a cura operada por Jesus, estão ligadas por uma profunda atitude de oração dirigida a Deus. E a emissão do suspiro é descrita com um verbo que, no Novo Testamento, indica a aspiração de algo bom que ainda falta (cf. Rm 8,23). O conjunto da narração, portanto, mostra que o envolvimento humano com o doente leva Jesus à oração. Mais uma vez ressurge a sua relação única com o Pai, a sua identidade de Filho Unigênito. N’Ele, através de Sua Pessoa, torna-se presente o agir curador e benéfico de Deus. Não é um acaso que o comentário conclusivo das pessoas após o milagre recorde a avaliação da Criação ao início do Gênesis: “Fez bem a todas as coisas” (Mc 7,37). Na ação curadora de Jesus entra de modo claro a oração, com o seu olhar em direção ao Céu. A força que curou o surdo-mudo foi, certamente, provocada pela compaixão por ele, mas provém do recurso ao Pai. Encontram estas duas relações: a humana, de compaixão pelo homem, que entra na relação com Deus, e fica assim curado.

Na narração joanina da ressurreição de Lázaro, essa mesma dinâmica é testemunhada com uma evidência ainda maior (cf. Jo 11,1-44). Também aqui se entrelaçam, de um lado, o vínculo de Jesus com um amigo e com o seu sofrimento e, de outro, a relação filial que Ele tem com o Pai. A participação humana de Jesus no acontecimento de Lázaro tem traços particulares. Ao longo de toda a narração é repetidamente recordada a amizade com Lázaro, bem como com as irmãs Marta e Maria. Jesus mesmo afirma: “Lázaro, nosso amigo, dorme, mas vou despertá-lo” (Jo 11,1). O afeto sincero pelo amigo é evidenciado também pelas irmãs de Lázaro, bem como pelos Judeus (cf. Jo 11,3; 11,36), e manifesta-se na comoção profunda de Jesus frente à dor de Marta e Maria e de todos os amigos de Lázaro, ao ponto de romper em prantos – tão profundamente humano – ao aproximar-se da sepultura: “Ao vê-la chorar assim, como também todos os judeus que a acompanhavam, Jesus ficou intensamente comovido em espírito. E, sob o impulso de profunda emoção, perguntou: ‘Onde o pusestes?’. Responderam-lhe: ‘Senhor,vinde ver’. Jesus pôs-se a chorar” (Jo 11,33-35).

Esse laço de amizade, a participação e comoção de Jesus frente à dor dos parentes e conhecidos de Lázaro, liga-se, em toda a narração, com uma contínua e intensa relação com o Pai. Desde o início, o acontecimento é lido por Jesus em relação com a própria identidade e missão e com a glorificação que Lhe espera. À notícia da doença de Lázaro, de fato, Ele comenta: “Esta enfermidade não causará a morte, mas tem por finalidade a glória de Deus. Por ela será glorificado o Filho de Deus” (Jo 11,4). Também o anúncio da morte do amigo é acolhido por Jesus com profunda dor humana, mas sempre em clara referência à relação com Deus à missão que lhe foi confiada. Diz: “Lázaro morreu. Alegro-me por vossa causa, por não ter estado lá, para que creiais” (Jo 11,14-15). O momento da oração explícita de Jesus ao Pai em frente à sepultura é o começo natural de todo o acontecimento, estendido ao longo desse duplo registro da amizade com Lázaro e da relação filial com Deus. Também aqui as duas relações andam juntas. “Levantando Jesus os olhos ao alto, disse: ‘Pai, rendo-te graças, porque me ouviste'” (Jo 11,41): é uma Eucaristia. A frase revela que Jesus não deixou nem sequer por um instante a oração de súplica pela vida de Lázaro. Essa oração contínua, mais ainda, reforçou os laços com o amigo e, ao mesmo tempo, confirmou a decisão de Jesus de permanecer em comunhão com a vontade do Pai, com o seu plano de amor, no qual a doença e a morte de Lázaro são consideradas como um lugar em que se manifesta a glória de Deus.

Queridos irmãos e irmãs, lendo essa narração, cada um de nós é chamado a compreender que, na oração de súplica ao Senhor, não devemos esperar um cumprimento imediato daquilo que nós pedimos, da nossa vontade, mas confiar-nos antes de mais nada à vontade do Pai, lendo cada evento na perspectiva da sua glória, do seu plano de amor, muitas vezes misterioso aos nossos olhos. Por isso, na nossa oração, súplica, louvor e agradecimento deveriam fundir-se, também quando nos parece que Deus não responde às nossas expectativas concretas. O abandonar-se ao amor de Deus, que nos precede e acompanha sempre, é uma das atitudes de fundo do nosso diálogo com Ele. O Catecismo da Igreja Católica (CIC) comenta assim a oração de Jesus na narração da ressurreição de Lázaro: “Apoiada na ação de graças, a oração de Jesus revela-nos como devemos pedir: Antes de Lhe ser dado o que pede, Jesus adere Aquele que dá e Se dá nos seus dons. O Doador é mais precioso do que dom concedido, é o ‘tesouro’, e é n’Ele que está o coração do Filho; o dom é dado ‘por acréscimo'” (2604). Isto me parece muito importante: antes que o dom seja concedido, aderir Àquele que dá; o doador é mais precioso que o dom. Também para nós, portanto, muito além daquilo que Deus nos dá quando O invocamos, o maior dom que pode nos dar é a Sua amizade, a Sua presença, o Seu amor. Ele é o tesouro precioso a se pedir e proteger sempre.

A oração que Jesus pronuncia enquanto é retirada a pedra da entrada sepultura de Lázaro apresenta um desenvolvimento singular e inesperado. Ele, de fato, após ter agradecido a Deus Pai, complementa: “Eu bem sei que sempre me ouves, mas falo assim por causa do povo que está em roda, para que creiam que tu me enviaste” (Jo 11,42). Com a sua oração, Jesus quer conduzir à fé, à confiança total em Deus e na Sua vontade, e quer mostrar que este Deus que tanto amou o homem e o mundo a ponto de mandar Seu Filho unigênito (cf. Jo 3,16) é o Deus da vida, que leva esperança e é capaz de derrubar as situações humanamente impossíveis. A oração confiante de um crente, portanto, é um testemunho vivo dessa presença de Deus no mundo, do seu interessar-se pelo homem, do seu agir para realizar o seu plano de salvação.

As duas orações de Jesus meditadas agora, que acompanham a cura do surdo-mudo e a ressurreição de Lázaro, revelam que o profundo laço entre o amor a Deus e o amor ao próximo deve entrar também na nossa oração. Em Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, a atenção pelo outro, especialmente se necessitado e sofredor, o comover-se frente à dor de uma família amiga, levam-nO a dirigir-se ao Pai, naquela relação fundamental que guia toda a sua vida. Mas também vice-versa: a comunhão com o Pai, o diálogo constante com Ele, impele Jesus a estar atento de modo único às situações concretas do homem, para levar a ele a consolação e o amor de Deus. A relação com o homem guia-nos rumo à relação com Deus, e a relação com Deus guia-nos novamente à relação com o próximo.

Queridos irmãos e irmãs, nossa oração abre a porta a Deus, que nos ensina a sair constantemente de nós mesmos para sermos capazes de nos fazer próximos dos outros, especialmente nos momentos de provação, para levar a eles consolação, esperança e luz. O Senhor nos conceda sermos capazes de uma oração sempre mais intensa, para reforçar nossa relação pessoal com Deus Pai, alargar nosso coração à necessidade dos que nos são próximos e sentirmos a beleza de ser “filhos no Filho”, unidos com tantos irmãos.

Obrigado!

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Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé

(Tradução de Leonardo Meira – equipe CN Notícias – 14/12/2011)

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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