Catequese do Papa: Para um novo Céu e uma nova Terra

PAPA JOÃO PAULO II

A Segunda Carta de Pedro,
recorrendo aos símbolos característicos da linguagem apocalíptica usada na
literatura judaica, indica a nova criação como uma flor que desabrocha da cinza
da história e do mundo (cf. 3, 11, 13). É uma imagem que marca o livro do
Apocalipse, quando João proclama: “vi, depois, um novo Céu e uma nova
Terra, porque o primeiro Céu e a primeira Terra haviam desaparecido, e o mar já
não existia” (Ap 21, 1). O apóstolo Paulo, na Carta aos Romanos, drescreve
a criação que geme sob o peso do mal, mas destinada a “ser, também ela,
libertada da servidão da corrupção para participar, livremente, da glória dos
filhos de Deus” (Rm 8, 21).A Sagrada Escritura insere desta forma quase um fio de ouro no meio das
debilidades, misérias, violências e injustiças da história humana e conduz para
uma meta messiânica de libertação e paz. Sobre esta sólida base bíblica, o
Catecismo da Igreja Católica ensina que “o Universo visível é, pois,
também ele destinado a ser transformado, “a fim de que o próprio mundo,
restaurado no seu estado primitivo, esteja sem mais nenhum obstáculo ao serviço
dos justos”, participando na sua glorificação em Jesus Cristo Ressuscitado”
(CIC, 1047; cf. Santo Ireneu, Adv haer., 5, 32, 1). Então finalmente, num mundo
pacificado, “a terra está cheia da ciência do Senhor, tal como as águas
que cobrem o mar” (Is 11, 9).

2. Esta nova criação, humana e cósmica, é inaugurada com a ressurreição de
Cristo, primazia daquela transfiguração a que todos estamos destinados. Paulo
afirma isto na Primeira Carta aos Coríntios: “Cristo, como prímícias;
depois os que são de Cristo, por ocasião da sua vinda. Depois virá o fim, quando
entregar o Reino de Deus Pai (…). O último inimigo a ser destruído será a
morte… a fim de que Deus seja tudo em todos” (1 Cor 15, 23-24.26.28).
Sem dúvida, é uma perspectiva de fé que por vezes pode ser tentada pela dúvida,
no homem que vive na história sob o peso do mal, das contradições e da morte.
Já a citada Segunda Carta de Pedro narra isto, reflectindo a objecção dos que
suspeitam e são cépticos ou até “escarnecedores cheios de zombaria”
que perguntam: “Onde está a promessa da Sua vinda? Desde que os nossos
pais morreram, tudo continua da mesma maneira, como no princípio do mundo”
(2 Pd 3, 3-4).

3. Eis a atitude desencorajada dos que renunciam a qualquer empenho em relação
à história e à sua transformação. Estes estão convencidos de que nada pode
mudar, que qualquer esforço é vão, que Deus está ausente e não se interessa
minimamente por este minúsculo ponto do universo que é a terra. Já no mundo
grego alguns pensadores ensinavam esta perspectiva e a Segunda Carta de Pedro
talvez reaja também a esta visão fatalista com evidentes aspectos práticos. De
facto, se nada pode mudar, que sentido tem esperar? A única coisa é pôr-se à
margem da vida, deixando que o movimento repetitivo das vicissitudes cumpra o
seu ciclo perene. Nesta perspectiva muitos homens e mulheres já caíram na
margem da história, sem confiança, indiferentes a tudo, incapazes de lutar e de
esperar. Pelo contrário, a visão cristã é ilustrada por Jesus de maneira clara,
quando, “interrogado pelos fariseus sobre quando chegaria o reino de Deus,
lhes respondeu: “O reino de Deus não vem de maneira ostensiva. Ninguém
poderá afirmar: Ei-lo aqui ou ali, pois o reino de Deus está dentro de
vós”” (Lc 17, 20-21).

4. À tentação de todos os que imaginam cenas apocalípticas de irrupção do Reino
de Deus e de todos os que fecham os olhos entorpecidos pelo sono da
indiferença, Cristo opõe a vinda sem clamor dos novos céus e da nova terra.
Esta vinda é semelhante ao escondido mas fervoroso germinar da semente na terra
(cf. Mt 4, 26-29). Por conseguinte, Deus entrou nas vicissitudes humanas e no mundo e procede
silenciosamente, esperando com paciência a humanidade, com os seus atrasos e
condicionamentos. Ele respeita a sua liberdade, apoia-a quando ela é
atormentada pelo desespero, condu-la de etapa em etapa e convida-a a colaborar
no projecto de verdade, de justiça e de paz do Reino. Por conseguinte, a acção
divina e o empenho humano devem entrelaçar-se entre si. “A mensagem cristã
não afasta os homens da construção do mundo nem os incita a desinteressar-se da
sorte dos seus semelhantes: impõe-lhes, ao contrário, um dever mais
rigoroso” (Gaudium et spes, 34).

5. Desta forma, abre-se diante de nós um tema de grande relevo que interessou
sempre a reflexão e a obra da Igreja. Sem cair nos extremos opostos do
isolamento sacral e do secularismo, o cristão deve exprimir a sua esperança
também no interior das estruturas da vida secular. Se o reino é divino e
eterno, ele está contudo espalhado no tempo e no espaço: está “no meio de
nós” como diz Jesus.
O Concílio Vaticano II realçou com vigor este vínculo íntimo e profundo:
“a missão da Igreja é não só levar a mensagem e a graça de Cristo a todos
os homens, mas também impregnar e aperfeiçoar com o espírito evangélico a ordem
temporal” (Apostolicam actuositatem, 5). A ordem espiritual e a temporal,
“embora distintas, estão de tal maneira unidas no único desígnio de Deus,
que o próprio Deus deseja reintegrar, em Cristo, todo o mundo numa nova
criatura, que começa na terra, e atinge a plenitude no último dia” (ibid.).

Animados por esta certeza, o cristão caminha com coragem pelas estradas do
mundo, procurando seguir os passos de Deus e colaborando com ele para fazer
surgir um horizonte no qual “amor e fidelidade se encontrarão, justiça e
paz se beijarão” (Sl 85 [84], 11).
Alocução da
Audiência geral de quarta-feira, 31 de Janeiro 2001

_______________________________
(©L’Osservatore Romano – 3 de Fevereiro de 2001)

 

Compartilhe!

    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
    Adicionar a favoritos link permanente.