Carta sobre a meditação cristã – Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé

 RESUMO DE D. ESTEVÃO
BETTENCOURT – PR 392/1995

 Em vista da tendência de
alguns mestres cristãos a adotar métodos e concepções hinduístas de oração, a
Congregação para a Doutrina da Fé publicou uma Carta sobre a Meditação Cristã
datada de 15/10/1989; analisa a oração cristã em confronto com a oração
hinduísta, mostrando as diferenças existentes entre uma e outra.  A fim de mais esclarecer o assunto abordado por
John Main, a seguir, transmitidos alguns dos traços mais significativos de tal
Carta.

Após a introdução (nºs.
1-3), tem-se o título

A Oração Cristã à Luz da
revelação (nºs. 4-7), onde se leem as seguintes considerações:

No Novo testamento, a oração
é apresentada como obra do Espírito Santo, que ensina aos discípulos toda a
verdade, completando a missão de Jesus (cf. 1Cor 2,10; Jo 16,13s).  Especialmente o Evangelho segundo São João se
presta a alimentar a contemplação do mistério do Verbo Encarnado ou de Deus que
se dá ao homem; tal mistério, São Paulo deseja que os fiéis o possam
compreender em suas várias dimensões (cf. Ef 3, 18s).

Vê-se assim que a oração
cristão não é mero esforço da mente e das faculdades do homem para contemplar o
Transcendental, mas é Dom de Deus.  Ele
se fundamenta e abastece na revelação que Deus faz de si ao homem (… ) revelação
que tem em Cristo seu ponto culminante. 
Eis por que a Igreja recomenda a luz assídua e o aprofundamento da
Palavra de Deus.  Guiado por este
manancial, o cristão não esquecerá que a sua oração decorre sempre dentro da
comunhão dos Santos e segundo o espírito da Igreja.  O cristão nunca ora isoladamente, mesmo
quando está na solidão, mas ora sempre em união com Cristo, no Espírito e em
comunhão com todos os Santos, para o bem da Igreja.

Segue-se o título III.  Maneiras errôneas de rezar (nºs. 8-12), que
observa:

Os erros do passado
continuam a tentar o homem contemporâneo. 
Este por vezes reduz a oração a um estado psíquico ou a uma conquista da
mente, que se treina para ampliar as suas faculdades meramente naturais.  Há também, em nossos dias, aqueles cristãos
que se servem de métodos orientais a fim de se preparar para a contemplação:
identificam o Absoluto, concebido pelo budismo, com a Majestade de Deus, que
ultrapassa toda realidade finita:  assim
tendem a um conceito de Deus totalmente desligado das manifestações históricas
ou das teofanias do Artigo e do Novo Testamento; negligenciam o mistério da SS.
Trindade para “mergulhar no abismo indefinido da divindade” ou no nirvana, em
que as noções de eu, tu e ele desaparecem. – Desta maneira tem origem
pernicioso sincretismo, pois os seus arautos tendem a fundir o monoteísmo
histórico da revelação judeo-cristão com o panteísmo da filosofia hinduísta.

O título IV.  A Via Cristã para a união com Deus (nºs
13-15) afirma que a profunda união com Deus prometida ao cristão leva a um
estado que os antigos mestres gregos chamavam “divinização” .  Esta, porém, nunca extingue a diferença
radical existente entre Criador e criatura; o eu humano jamais poderá ser
absorvido pelo eu divino, nem mesmo nos estados místicos mais elevados.  O “se outro” não é um mal, pois que ele
ocorre entre as três Pessoas Divinas: o Pai não é o Filho, nem o Espírito Santo
é o Pai ou o Filho, embora haja uma só Divindade ou uma só natureza
divina.  Assim entre Deus e nós existe
diferença, que não impossibilita uma íntima união.  Também pela Eucaristia e os demais
sacramentos Cristo nos faz participar da sua vida divina 1,  sem extinguir a nossa natureza criada.

Quem considera estas
verdades, descobre com profunda surpresa que, na concepção cristã, se cumprem
todas as aspirações existentes nas outras correntes religiosas, sem que o eu
pessoal e a sua índole de criatura sejam aniquilados e desapareçam no oceano do
Absoluto.  A profissão de que Deus é Amor
(1Jo 4,8) explica a íntima união ou o intercâmbio e o diálogo entre Deus que
ama, e a criatura que é amada.  O cristão
que recebe o Espírito Santo (o amor existente entre o Pai e o Filho) é feito
“filho no Filho”  e exclama “Abá, Pai”,  participando realmente da vida da SS.
Trindade; cf. Rm 8, 15-17; Gl 4,6).

O título V.   Questões de Método  (nºs 16-25) 
refere o seguinte:

A maioria das grandes
religiões propõe métodos ou caminhos para que o homem chegue a Deus.  A Igreja Católica nada rejeita do que haja de
verdadeiro e santo nessas normas.  Apenas
ensina que esses elementos positivos devem ser enquadrados dentro das linhas
doutrinárias da fé católica, que é monoteísta, e não panteísta.2  De modo especial, a procura de um mestre espiritual
(guru, dizem os hinduístas) é algo de comum a todas as correntes religiosas; o
Catolicismo muito preza essa figura, desde que ela ensina ao discípulo o
“sentir com a Igreja” e a descoberta dos dons do Espírito Santo no seio da S.
Mãe Igreja (…) .

Por conseguinte, o grande
perigo que ameaça o orante concentrado em si segundo as normas do hinduísmo, é
precisamente o de “permanecer em si”, como se o homem fosse uma centelha da
Divindade encerrada na corporeidade.  O
grande mestre S. Agostinho diz a propósito: Se queres encontrar a Deus,
abandona o mundo exterior, e entra entre ti. 
Mas não permaneças em ti; ultrapassa-te, pois tu não és Deus; Ele é
maior do que tu; “Deus intimior intimo meo, et superior summo meo (Deus me é
mais íntimo do que o que tenho de mais íntimo e está acima do que tenho de mais
elevado”, Confissões 3,6,11).  Deus está
conosco e em nós, mas Ele nos transcende em seu mistério.  Ademais ninguém se purifica das paixões nem
se aproxima de Deus a não ser por dom do próprio Deus. Este dom se concretiza,
por excelência, em Jesus
Cristo, cujo Espírito Santo nos move interiormente para
participar da vida trinitária …

Os mestres apresentam a vida
unitiva ou a experiência de Deus decorrente da íntima união com Ele.  É chamada experiência mística, pois está
associada aos santos mistérios ou aos sacramentos como fruto destes no cristão
fiel.  Trata-se de um conhecimento de
Deus derivado não da aplicação dos sentidos nem do raciocínio, mas da afinidade
ou conaturalidade do cristão com o Senhor Deus. 
Quem muito ama a Deus, tem o olhar da mente aguçado para intuir a Deus
de maneira mais clara e profunda.

O progresso na vida
espiritual requer recolhimento e silêncio, sem dúvida; exige aplicação das
faculdades (inteligência, vontade, memória, imaginação …), mas não se pode
dizer que seja fruto de alguma técnica ou da arte humana de conquistar o
mistério de Deus; é um dom de Deus, concedido gratuitamente, cujo beneficiário
se sentirá sempre indigno.

A benignidade de Deus pode
conceder graças especiais de oração e união a certos fiéis como, por exemplo,
os fundadores de Ordens e Congregações Religiosas dentro da Igreja; São
Francisco de Assis foi certamente um desses grandes favorecidos, que deixaram
um testemunho eloqüente de vida mística. 
É de notar, porém, que as graças de Deus são algo de muito pessoal; não
há necessidade de que as gerações de fiéis subseqüentes as reproduzam e imitem
estritamente.  O Espírito Santo age em
cada cristão como bem lhe apraz ou com suma liberdade.

O título VI.  Métodos Psicofísicos e Corporais (nºs 26-28)
assim pode ser sintetizado:

A experiência ensina que a
posição e as atitudes do corpo têm influência no recolhimento e no
funcionamento do espírito.  Isto levou
autores cristãos tanto do Ocidente como do Oriente a aconselhar determinadas
posturas corporais que visam a facilitar a meditação: sentar-se ou prostrar-se
no chão, ritmar a respiração, olhar um ponto fixo, acompanhar as pulsações do
coração…  Tais recursos podem ser
válidos, mas sempre terão utilidade relativa; seria errôneo identificar a união
com Deus com uma possível euforia resultante de exercícios físicos.  A perfeição espiritual é, antes do mais,
graça de Deus, que o homem pede e deve pedir, mas que ele jamais conseguirá
produzir ou atingir por sua habilidade ou seu atletismo espiritual; o empenho
fiel e generoso da criatura é indispensável, sim, mas apenas para criar um
clima no qual o Espírito Santo possa agir livremente.1

Em particular, a oração de
Jesus (“Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim”), repetida
segundo o ritmo natural da respiração, pode ser um espécimen de combinação
profícua da mente e do corpo.  Tal
prática é muito cara aos orientais.  É
preciso lembrar, porém, que cada indivíduo tem sua personalidade própria: uns
precisam mais, outros menos … do apoio do corpo, dos sentidos e dos símbolos
… de modo que não se devem absolutizar esses subsídios corporais par a vida
de oração.

Merece especial atenção a
advertência contida no § 28 da Carta em pauta:

“Certos exercícios produzem
automaticamente sensações de paz e de distensão, sentimentos gratificantes ou
até fenômenos de luz e calor semelhantes ao bem-estar espiritual.  Considerá-las como autênticas consolações do
Espírito Santo seria uma forma totalmente errônea de conceder o progresso
espiritual.  Não devem ser identificadas
com a experiência mística se a vida moral da pessoa interessada não está à
altura devida; tal identificação viria a ser uma espécie de esquizofrenia
mental, que poderia levar até a perturbações psíquicas e, por vezes, a
aberrações morais”.

O texto chama a atenção para
o risco de auto-ilusão ocorrente quando o orante dá excessivo valor a
sentimentos, estados psicológicos, imagens mentais na sua vida de oração; pode
chegar a confundir sintomas doentios ou psicopatológicos com experiência
mística, revelações divinas, aparições …; desta maneira entra por um caminho
tortuoso em que as doenças mentais são alimentadas por falsas concepções
religiosas.

Entre as práticas corporais
classicamente recomendadas pelos mestres espirituais, está o jejum.  Este liberta o cristão de suas paixões,
tornando-o mais disponível para Deus e para o serviço do próximo.

Sob o título VII.  “Eu sou o Caminho” (nºs 29-31) está dito à
guisa de fecho:

Na rica variedade de
maneiras de rezar que a Igreja reconhece, cada cristão poderá e deverá
descobrir o seu modo próprio de caminhar para Deus.  É certo, porém, que todas as vias
particulares convergem para esse grande caminho de acesso ao Pai que é Jesus
Cristo.  Daí a necessidade de que cada
orante subordine suas preferências pessoais de oração ao Modelo e à Escola de
Jesus Cristo,  Escola da qual o Espírito
Santo é o Mestre interior.

Eis as palavras finais,
literalmente transcritas:

“O amor de Deus, único
objeto da contemplação cristã, é uma realidade de que ninguém se pode apoderar
por algum método ou técnica; ao contrário, devemos Ter sempre o olhar fixo
sobre Jesus Cristo, através de quem o amor de Deus chegou até nós…  Por conseguinte, havemos de deixar que Deus decida
a maneira pela qual Ele nos fará participar do seu amor.  Mas nunca poderemos procurar colocar-nos no
mesmo nível do objeto contemplado ou do livre amor de Deus, nem mesmo quando
nos é dado gratuitamente em Cristo em reflexo sensível desse amor divino e nos
sentimentos como que atraídos pela verdade, a bondade e a beleza do Senhor.

Quanto mais é dado a uma
criatura aproximar-se de Deus, tanto mais cresce nela a reverência frente ao
Deus três vezes Santo.  Compreendemos
assim a palavra de S. Agostinho: “Tu podes chamar-me amigo, mas eu me reconheço
servidor”  (Enarr. In Psalmum 142,6).”

CONCLUSÃO

A fé cristão é estritamente
monoteísta (existe um só Deus, que é distinto do homem e do mundo, pois é o Seu
Criador).  Todavia as novas correntes têm
em comum a concepção de que orar é uma questão de métodos e técnicas: bem
aplicados, permitem ao orante obter o que ele quer.

Pois bem.  Tal concepção é incompatível com a mensagem
cristã.  Esta diz que a oração é dom de
Deus; ninguém ora unicamente por suas próprias forças ou habilidade. É claro,
porém, que deus requer a mobilização das faculdades do homem, o silêncio, o
recolhimento, a leitura de livros sagrados…; 
mas todo este esforço humano é sustentado pela graça e a sua eficácia
depende tão somente da benignidade de Deus, que nunca pode ser forçada pelas
artes humanas.  O cristão ora como filho
na presença do Pai, e não como arteiro, que se pode gloriar de conseguir
maravilhas.

A mística oriental seduz por
suas belas fórmulas, por seu ritual e seu simbolismo; ela aviva no homem a
consciência do Absoluto … A Psicologia moderna desvenda  ao homem possibilidades de se condicionar,
que o habilitam a efeitos inesperados. 
Mas nada disso se pode confundir com a mensagem cristão, que é de
humildade e confiança filiais diante de Deus. 
Nenhuma prece é inútil ou perdida se feita por Cristo ou em nome de
Jesus (cf. Jo 15,16; 16,23s), não, porém, para fazer Deus obedecer ao homem e,
sim, para fazer que o homem colabore com Deus na realização do plano do Senhor sobre
a história e a humanidade.

 

_______________________________

1 É o Apóstolo quem diz:
“Vivo eu, não eu; é Cristo que vive em mim” 
(Gl 2,20).

2  Praticamente isto quer dizer, entre outras
coisas, o seguinte: é oportuno  fazer o
silêncio interior e praticar a ascese corporal. 
O budista o pratica para libertar a centelha divina que ele diz trazer
dentro de si, diminuída ou apoucada pela matéria do corpo.  O cristão, ao contrário, o fará para
purificar os afetos sensíveis e harmonizá-los com os anseios superiores ou
espirituais que ele traz em
si.   O budismo
professa uma antítese entre matéria e espírito; o Cristianismo, ao invés,
embora reconheça tendências diversas da carne e do espírito, sabe que ambos são
criaturas do mesmo Deus bom e que devem ser harmonizadas entre si pela renúncia
às paixões desregradas.

Algo de semelhante se dá com
a Yoga:  pode ser praticada em
perspectiva panteísta (para libertar a centelha divina ou a alma humana
encarcerada no corpo) ou em atitude cristã (para tender à harmonia de corpo e
alma entre si.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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