Carta do Santo Padre João Paulo II aos Sacerdotes por ocasião da Quinta-feira Santa de 1998 – Parte 1

Queridos Irmãos no
Sacerdócio!

Com a mente e o coração
fixos no Grande Jubileu, solene celebração do bimilenário do nascimento de Cristo e início do
terceiro milénio cristão, desejo invocar convosco o Espírito do Senhor, a Quem é particularmente dedicada a
segunda etapa do itinerário espiritual de imediata preparação para o Ano Santo que ocorrerá no
ano 2000.

 Dóceis às suas amorosas
inspirações, disponhamo-nos a viver com todas as nossas forças este tempo favorável, implorando
do Dador dos dons as graças necessárias para discernir os sinais da salvação e responder com
plena fidelidade à chamada de Deus.

 Um estreito vínculo une o
nosso sacerdócio ao Espírito Santo e à sua missão. No dia da Ordenação presbiteral, por uma
singular efusão do Paráclito, o Ressuscitado renovou em cada um de nós aquilo que efectuou nos seus
discípulos ao anoitecer do dia de Páscoa, constituindo-nos continuadores da sua missão no mundo (cf. Jo
20,21-23). Este dom do Espírito, com a sua misteriosa força santificadora, é fonte e
raiz da tarefa singular de evangelização e santificação que nos foi confiada.

A Quinta-Feira Santa, dia em
que comemoramos a Ceia do Senhor, põe diante dos nossos olhos Jesus, o Servo « obediente
até à morte » (Fil 2,8), que institui a Eucaristia e a Ordem sagrada como sinais singulares do seu
amor. Ele deixa-nos este testamento extraordinário de amor, a fim de perpetuar em todos os tempos
e lugares o mistério do seu Corpo e do seu Sangue, para que os homens possam aproximar-se
da fonte inesgotável da graça. Porventura existe para nós, sacerdotes, um momento mais oportuno e
sugestivo do que este para contemplar a obra do Espírito Santo em nós, e implorar os seus dons
para nos conformarmos sempre mais a Cristo, Sacerdote da Nova Aliança?

1. O Espírito Santo criador
e santificador

Veni Creator Spiritus, Mentes tuorum visita,

Imple superna gratia, Quae tu creasti pectora.

Vinde, Espírito Criador, visitai a alma dos vossos
fiéis

enchei de graça celestial os corações que Vós
criastes.

Este antigo cântico
litúrgico recorda na mente de cada sacerdote o dia da sua Ordenação, evocando os propósitos de plena
disponibilidade à acção do Espírito Santo, formulados em circunstância tão singular. Lembra-lhe,
igualmente, a especial assistência do Paráclito e tantos momentos de graça, alegria e intimidade, que o
Senhor lhe fez saborear ao longo da sua vida.

A Igreja, que no Símbolo
Niceno-Constantinopolitano, proclama a sua fé no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, põe
claramente em evidência o papel que Ele realiza acompanhando as vidas humanas e, de modo
particular, as dos discípulos do Senhor no caminho da salvação.

Ele é o Espírito criador que
a Sagrada Escritura apresenta, no início da história humana, « pairando sobre as águas » (Gn 1,2) e,
nos prelúdios da redenção, como o artífice da encarnação do Verbo de Deus (cf. Mt 1,20; Lc
1,35).

Consubstancial ao Pai e ao
Filho, o Espírito Santo é, « no mistério absoluto de Deus uno e trino, a Pessoa-Amor, o Dom incriado,
que é fonte eterna de toda a dádiva que provém de Deus na ordem da criação, o princípio
directo e, em certo sentido, o sujeito da autocomunicação de Deus na ordem da graça. O mistério da
Encarnação constitui o ápice dessa dádiva suprema, dessa autocomunicação de Deus » (Carta enc.
Dominum et vivificantem, 50).

O Espírito Santo orienta a
vida terrena de Jesus para o Pai. Graças à sua intervenção misteriosa, o Filho de Deus é concebido
no seio da Virgem Maria (cf. Lc 1,35) e faz-Se homem. É também o Espírito que, descendo sobre
Jesus em forma de pomba, O manifesta como Filho do Pai, no baptismo do Jordão (cf. Lc
3,21-22), e logo a seguir impele-O até ao deserto (cf. Lc 4,1). Depois da vitória sobre as
tentações, Jesus inicia a sua missão « com a força do Espírito » (Lc 4,14):
n’Ele, exulta de alegria e bendiz o
Pai pelos seus desígnios de graça (cf. Lc 10,21); com Ele, expulsa os demónios (cf. Mt 12,28; Lc
11,20). Na hora dramática da cruz, oferece-Se a Si próprio « mediante um Espírito eterno » (Hb
9,14), pelo Qual foi depois ressuscitado (cf. Rm 8,11) e « constituído filho de Deus em todo o seu poder
» (Rm 1,4).

Ao anoitecer do dia de
Páscoa, Jesus ressuscitado diz aos Apóstolos reunidos no Cenáculo: «Recebei o Espírito Santo »
(Jo 20,22); e mais tarde, depois de prometer uma nova efusão, confia-lhes a salvação dos
irmãos, enviando-os pelas estradas do mundo: « Ide (…) ensinai todas as nações, baptizando-as em
nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E
Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo » (Mt 28,19-20).

Esta presença de Cristo na
Igreja de todos os tempos e lugares torna-se viva e eficaz no coração dos crentes por obra do
Consolador (cf. Jo 14,26). Também na nossa época o Espírito é « o agente principal da nova
evangelização (…) que constrói o Reino de Deus no curso da história e prepara a sua plena
manifestação em Jesus
Cristo, animando os homens no mais íntimo deles mesmos e fazendo germinar
dentro da existência humana os gérmens da salvação definitiva que acontecerá no fim dos tempos
» (Tertio millennio adveniente, 45).

2. Eucaristia e Ordem,
frutos do Espírito Qui diceris Paraclitus, Altissimi donum Dei, Fons vivus, ignis, caritas Et spiritalis unctio Vós, chamado o Consolador dom do Deus altíssimo, fonte viva, fogo, caridade e unção espiritual.

Com estas palavras, a Igreja
invoca o Espírito Santo como spiritalis unctio, unção espiritual. Pela unção do Espírito no seio
imaculado de Maria, o Pai consagrou Cristo sumo e eterno Sacerdote da Nova Aliança, o Qual quis
partilhar o seu sacerdócio connosco, chamando-nos a ser o seu prolongamento na história
para a salvação dos irmãos.

Na Quinta-Feira Santa, Feria
quinta in Cena Domini, nós, sacerdotes, somos convidados a dar graças a Deus com toda a
comunidade dos crentes pelo dom da Eucaristia, e a consciencializarmo-nos ainda
mais da graça da nossa vocação especial. Somos também levados a confiarmo-nos, com coração
jovem e plena disponibilidade à acção do Espírito, deixando que Ele nos conforme cada dia a
Cristo sacerdote.

O Evangelho de S. João, com
palavras cheias de carinho e de mistério, refere a narração daquela primeira Quinta-Feira Santa,
quando tomou lugar à mesa com os discípulos, no Cenáculo, o Senhor – « …Ele que amara os Seus
que estavam no mundo, levou até ao extremo o Seu amor por eles » (13,1). Até ao extremo: até
à instituição da Eucaristia, antecipação de Sexta-Feira Santa, do sacrifício da cruz e do
mistério pascal. Durante a Última Ceia, Cristo toma o pão nas mãos e pronuncia as primeiras
palavras da consagração: « Isto é o meu Corpo que será entregue por vós ».

Logo a seguir, proclama
sobre o cálice com vinho as sucessivas palavras da consagração: « Este é o cálice do meu Sangue, o
Sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por todos para remissão dos pecados »,
e acrescenta: « Fazei isto em memória de Mim ». Cumpre-se assim, no Cenáculo, de modo
incruento o Sacrifício da Nova Aliança, que será realizado com o derramamento de sangue no
dia seguinte, quando Cristo disser sobre a cruz: « Consummatum est », « Tudo está consumado! » (Jo
19,30).

Oferecido uma vez por todas
sobre o Calvário, este Sacrifício é confiado aos Apóstolos, graças ao Espírito Santo, como o
Santíssimo Sacramento da Igreja. Para impetrar a intervenção misteriosa do Espírito, a Igreja, antes
das palavras da consagração, implora: « Humildemente Vos suplicamos, Senhor: santificai, pelo
Espírito Santo, estes dons que Vos apresentamos, para que se convertam no Corpo e Sangue de Nosso
Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que nos mandou celebrar estes mistérios » (Oração
Eucarística III). De facto, sem a força do Espírito divino, como poderiam lábios humanos fazer com que
o pão e o vinho se tornassem o Corpo e o Sangue do Senhor, até ao fim do mundo? É somente
devido à força do Espírito divino que a Igreja pode professar incessantemente o grande mistério
da fé: « Anunciamos, Senhor, a vossa morte, proclamamos avossa ressurreição. Vinde,
Senhor Jesus ».

Os sacramentos da Eucaristia
e da Ordem são frutos do mesmo Espírito: « Assim como na Santa Missa o Espírito Santo é o
artífice da transubstanciação do pão e do vinho no Corpo e no Sangue de Cristo, assim
também no sacramento da Ordem Ele é o artífice da consagração sacerdotal ou episcopal »
(Dom e mistério, p. 53).

3. Os dons do Espírito Santo

Tu septiformis munere

Digitus paternae dexterae

Tu rite promissum Patris,

Sermone ditans guttura.

Vós, com vossos sete dons, sois força da dextra de
Deus, Vós, o prometido do Pai; vossa palavra enriquece
nossos lábios.
Como não reservar uma
particular reflexão sobre os dons do Espírito Santo, que a tradição da Igreja, na esteira das
fontes bíblicas e patrísticas, indica como um sacro Septenário? Debruçou-se atentamente sobre esta
doutrina a teologia escolástica, que ilustrou amplamente o seu significado e características.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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