Carta às Famílias – Papa João Paulo II (Parte 7)

O «grande mistério», o sacramento do amor e da vida, que tem o seu início na criação e na redenção e cujo garante é Cristo-Esposo, perdeu na mentalidade moderna as suas raízes mais profundas. Está ameaçado em nós e à nossa volta. Possa o Ano da Família, celebrado na Igreja, tornar-se para os esposos uma ocasião propícia para o redescobrir e reafirmar com vigor, coragem e entusiasmo.

A Mãe do belo amor
20. A história do «belo amor» tem início com a Anunciação, naquelas palavras admiráveis que o Anjo dirigiu a Maria, chamada a ser a Mãe do Filho de Deus. Com o «sim» de Maria, Aquele que é «Deus de Deus, Luz da Luz», torna-se filho do homem; Maria é sua Mãe, sem deixar de ser a Virgem que «não conhece homem» (cf. Lc 1, 34). Como Mãe-Virgem, Maria torna-se Mãe do belo amor. Esta verdade está revelada já nas palavras do Arcanjo Gabriel, mas o seu pleno significado será pouco a pouco confirmado e aprofundado, à medida que Maria for seguindo o seu Filho na peregrinação da fé (48).

A «Mãe do belo amor» foi recebida por aquele que, segundo o costume de Israel, era já seu esposo terreno, José, da estirpe de David. Ele teria o direito de pensar na consorte já desposada como sua mulher e mãe dos seus filhos. Porém, nesta aliança esponsal, Deus intervém com uma iniciativa própria: «José, filho de David, não temas receber Maria tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo» (Mt 1, 20). José está ciente do estado de Maria, constata com os próprios olhos que n’Ela foi concebida uma nova vida que não provém dele, e, como homem justo, respeitador da Lei antiga que, no seu caso, impunha a obrigação do divórcio, quer rescindir, de forma caridosa, o seu matrimônio (cf. Mt 1, 19). O Anjo do Senhor faz-lhe saber que isso não estaria de acordo com a sua vocação, antes, seria contrário ao amor esponsal que o une a Maria. Este recíproco amor esponsal, para ser plenamente o «belo amor», exige que ele acolha Maria e o Filho d’Ela sob o tecto da sua casa, em Nazaré. José obedece à mensagem divina e atua segundo o que lhe fora mandado (cf. Mt 1, 24). É graças também a José que o mistério da encarnação e, juntamente com ele, o mistério da Sagrada Família, fica inscrito profundamente no amor esponsal do homem e da mulher e indiretamente na genealogia de cada família humana. Aquilo que S. Paulo designará por «grande mistério», encontra na Sagrada Família a sua expressão mais alta. A família coloca-se assim verdadeiramente no centro da Nova Aliança.

Mas pode-se também dizer que a história do «belo amor» iniciou, em certo sentido, com o primeiro casal humano, com Adão e Eva. A tentação, a que cederam, e o consequente pecado original não os privou completamente da capacidade do «belo amor». Vê-se isso, por exemplo, ao ler no livro de Tobias que os esposos Tobias e Sara, ao definirem o sentido da sua união, fazem apelo aos primeiros pais, Adão e Eva (cf. Tb 8, 6). Na Nova Aliança, testemunha-o também S. Paulo ao falar de Cristo como novo Adão (1 Cor 15, 45): Cristo não vem condenar o primeiro Adão e a primeira Eva, mas redimi-los; vem renovar aquilo que no homem é dom de Deus, quanto nele é eternamente bom e belo e que constitui o substrato do belo amor. A história do «belo amor» é, em determinado sentido, a história da salvação do homem.

O «belo amor» sempre tem início da auto-revelação da pessoa. Na criação, Eva revela-se a Adão, como Adão se revela a Eva. No curso da história, os novos casais humanos dizem-se reciprocamente: «Caminharemos juntos na vida». Assim tem início a família como união dos dois e, graças ao sacramento, como nova comunidade em Cristo. Para que seja realmente belo, o amor deve ser dom de Deus, entranhado pelo Espírito Santo nos corações humanos e aí continuamente alimentado (cf. Rom 5, 5). Ciente disto, a Igreja no sacramento do matrimônio pede ao Espírito Santo que visite os corações humanos. Para que seja verdadeiramente o «belo amor», isto é, dom da pessoa à pessoa, deve provir d’Aquele que em Si mesmo é dom e fonte de todo o dom.

Assim sucede no Evangelho, no caso de Maria e José, que, no limiar da Nova Aliança, revivem a experiência do «belo amor», descrita no Cântico dos Cânticos. José pensa e diz a Maria: «Irmã minha, Esposa» (cf. Ct 4, 9). Maria, Mãe de Deus, concebe por obra do Espírito Santo, do Qual provém o «belo amor», que o Evangelho delicadamente coloca no contexto do «grande mistério».

Quando falamos do «belo amor», estamos naturalmente a referir-nos à beleza: beleza do amor e beleza do ser humano que, em virtude do Espírito Santo, é capaz de tal amor. Falamos da beleza do homem e da mulher: da sua beleza como irmãos e irmãs, como noivos, como cônjuges. O Evangelho esclarece não apenas o mistério do «belo amor», mas também aquele não menos profundo da beleza, que vem de Deus como o amor. De Deus vêm o homem e a mulher, pessoas chamadas a tornar-se um dom recíproco. Do dom originário do Espírito «que dá a vida», provém o dom mútuo de serem marido ou mulher, e igualmente o dom de serem irmão ou irmã.

Tudo isto encontra confirmação no mistério da Encarnação, que se tornou, na história dos homens, fonte de uma beleza nova que inspirou inumeráveis obras-primas de arte. Depois da severa proibição de representar o Deus invisível por meio de imagens (cf. Dt 4, 15-20), a época cristã, ao contrário, tem oferecido a representação artística do Deus feito homem, de Maria sua Mãe e de José, dos Santos da Antiga e Nova Aliança e, em geral, de toda a criação redimida por Cristo, inaugurando assim uma nova relação com o mundo da cultura e da arte. Pode-se dizer que o novo cânone da arte, atento à dimensão profunda do homem e ao seu futuro, tem início a partir do mistério da Encarnação de Cristo, inspirando-se nos mistérios da sua vida: o nascimento em Belém, a vida oculta em Nazaré, o ministério público, o Gólgota, a ressurreição, o regresso final na glória. A Igreja está ciente de que a sua presença no mundo contemporâneo e, em particular, o seu contributo e apoio à promoção da dignidade do matrimônio e da família estão estreitamente ligados ao progresso da cultura; com isto, justamente ela se preocupa. Por isso mesmo, a Igreja segue com solícita atenção a orientação dos meios de comunicação social, cuja dever é simultaneamente o de formar e o de informar o grande público (49). Conhecendo bem a ampla e profunda incidência desses meios, ela não se cansa de acautelar os operadores da comunicação para os perigos de manipulação da verdade. De fato, que verdade poderá haver em filmes, espetáculos, programas rádio-televisivos onde prevalecem a pornografia e a violência? Será este um bom serviço à verdade do homem? São interrogações a que não se podem subtrair os operadores destes instrumentos e os vários responsáveis pela elaboração e a comercialização dos seus produtos.

Graças a uma tal reflexão crítica, a nossa civilização, com tantos aspectos positivos que possui quer no plano material quer no cultural, dever-se-ia dar conta de ser, sob diversos pontos de vista, uma civilização doente que gera profundas alterações no homem. Por que é que se verifica isto? A razão está no fato de a nossa sociedade se ter afastado da verdade plena sobre o homem, da verdade acerca daquilo que o homem e a mulher são como pessoas. Consequentemente, não sabe compreender de maneira adequada o que sejam verdadeiramente o dom das pessoas no matrimônio, o amor responsável ao serviço da paternidade e da maternidade, a autêntica grandeza da geração e da educação. Será, então, exagerado afirmar que os mass media, se não são orientados segundo os sãos princípios éticos, não respeitam a verdade na sua dimensão essencial? Aqui está o drama: os modernos instrumentos da comunicação social estão sujeitos à tentação de manipular a mensagem, tornando falsa a verdade sobre o homem. O ser humano não é aquele anunciado na publicidade e apresentado nos modernos mass media. É muito mais, como unidade psicofísica, como um todo só feito de alma e corpo, como pessoa. É muito mais pela sua vocação ao amor, que o insere como homem e mulher na dimensão do «grande mistério».

Maria foi a primeira a entrar nesta dimensão, e nela introduziu também o seu esposo José. Eles tornaram-se, assim, os primeiros modelos daquele belo amor, que a Igreja não cessa de implorar para a juventude, para os cônjuges e para as famílias. E a juventude, os cônjuges e as famílias não se cansem, também eles, de rezar por isso. Como não pensar na multidão de peregrinos, jovens e menos jovens, que acorrem aos santuários marianos e fixam o olhar no rosto da Mãe de Deus, no rosto dos membros da Sagrada Família, sobre os quais se reflecte toda a beleza do amor dado por Deus ao homem?

No Sermão da Montanha, reportando-Se ao sexto mandamento, Cristo proclama: «Ouvistes que foi dito: não cometerás adultério. Eu, porém, digo-vos que todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração» (Mt 5, 27-28). Comparativamente ao Decálogo, orientado já para a defesa da tradicional solidez do matrimônio e da família, estas palavras marcam um grande passo em frente. Jesus vai à fonte do pecado do adultério: essa situa-se no íntimo do homem e manifesta-se num modo de olhar e pensar que é dominado pela concupiscência. Por meio desta, o homem tende a apropriar-se de um outro ser humano, que não é seu, mas pertence a Deus. Ao dirigir-se aos seus contemporâneos, Cristo fala aos homens de todos os tempos e de todas as gerações; fala, em particular, à nossa geração que vive sob o signo de uma civilização consumista e hedonista.

Por que motivo Cristo se pronuncia de modo tão forte e exigente no Sermão da Montanha? A resposta é bem clara: Cristo quer garantir a santidade do matrimônio e da família, quer defender a verdade plena relativa à pessoa humana e à sua dignidade.

Só à luz desta verdade é que a família pode ser plenamente a grande «revelação», a primeira descoberta do outro: a mútua descoberta dos esposos e, depois, de cada filho ou filha que deles nasce. Aquilo que os cônjuges se juram reciprocamente, ou seja, de serem «fiéis e de se amarem e honrarem, tanto na prosperidade como na provação, por toda a sua vida», só é possível na dimensão do «belo amor». Isto, o homem de hoje não o pode aprender dos conteúdos da moderna cultura de massa. O «belo amor» aprende-se sobretudo rezando. A oração, de fato, comporta sempre, para usar uma expressão de S. Paulo, uma espécie de interior ocultação com Cristo em Deus: «A vossa vida está escondida com Cristo em Deus» (Col 3, 3). Só numa tal ocultação é que opera o Espírito Santo, fonte do belo amor. Ele derrama este amor não só no coração de Maria e de José, mas também no coração dos esposos, dispostos a ouvirem a palavra de Deus e a conservarem-na (cf. Lc 8, 15). O futuro de cada núcleo familiar depende deste «belo amor»: amor recíproco dos cônjuges, dos pais e dos filhos, amor de todas as gerações. O amor é a verdadeira fonte da unidade e da força da família.

O nascimento e o perigo
21. O breve relato da infância de Jesus refere-nos, de maneira muito significativa e quase contemporaneamente, o seu nascimento e o perigo, que Ele teve logo de enfrentar. S. Lucas reproduz as palavras proféticas pronunciadas pelo velho Simeão, quando o Menino foi apresentado ao Senhor no Templo, quarenta dias depois do nascimento. Fala de «luz» e de «sinal de contradição»; a Maria prediz ainda: «Uma espada trespassará a tua alma» (cf. Lc 2, 32-35). S. Mateus, ao contrário, detém-se nas ciladas tramadas por Herodes contra Jesus: informado pelos Magos, chegados do Oriente para ver o novo rei que devia nascer (cf. Mt 2, 2), Herodes sente-se ameaçado no seu poder e, depois da partida daqueles, ordena que sejam mortos todos os meninos de Belém e arredores, com menos de dois anos de idade. Jesus escapa das mãos de Herodes, graças a uma particular intervenção divina e à solicitude paterna de José, que o leva juntamente com sua Mãe para o Egito, onde residem até à morte de Herodes. Tornam depois para Nazaré, a sua cidade natal, onde a Sagrada Família inicia o longo período de uma existência escondida, cadenciada pelo cumprimento fiel e generoso dos deveres quotidianos (cf. Mt 2, 1-23; Lc 2, 39-52).

De grande eloquência profética se apresenta o fato que Jesus tenha sido confrontado com ameaças e perigos, logo desde o nascimento. Ainda Menino, e já Ele é «sinal de contradição». Uma eloquência profética reveste também o drama das crianças inocentes de Belém, assassinadas por ordem de Herodes, que se tornaram, segundo a antiga liturgia da Igreja, participantes do nascimento e da paixão redentora de Cristo (50). Através da sua «paixão», elas «completam o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja» (Col 1, 24).

Assim, no Evangelho da infância, o anúncio da vida que de modo admirável se cumpre na ocorrência do nascimento do Redentor, aparece fortemente contraposto à ameaça à vida, uma vida que abraça na sua globalidade o mistério da Encarnação e da realidade divino-humana de Cristo. O Verbo fez-se carne (cf. Jo 1, 14), Deus fez-se homem. A este mistério sublime apelavam frequentemente os Padres da Igreja: «Deus fez-se homem, para nos tornarmos deuses» (51). Esta verdade da fé indica contemporaneamente a verdade do ser humano. Ela põe em destaque a gravidade de qualquer atentado à vida do menino no ventre da mãe. Aqui, precisamente aqui, encontramo-nos nas antípodas do «belo amor». Mirando exclusivamente ao prazer, pode-se chegar até a matar o amor, matando o seu fruto. Para a cultura do prazer, o «fruto bendito do teu ventre» (Lc 1, 42) torna-se, em certo sentido, um «fruto maldito».

Como não recordar, a este respeito, os desvios que o chamado estado de direito sofreu em numerosos países? Unívoca e categórica é a lei de Deus relativamente à vida humana. Deus ordena: «Não matarás» (Êx 20, 13). Portanto, nenhum legislador humano pode afirmar: é-te lícito matar, tens direito de matar, deverias matar. Infelizmente, na história do nosso século, verificou-se isso, quando subiram ao poder, até de modo democrático, forças políticas que emanaram leis contrárias ao direito de todo o homem à vida, em nome de supostas e aberrantes razões eugênicas, étnicas e outras do gênero. Não menos grave, inclusive porque acompanhado de larga aceitação ou consenso de opinião pública, é o fenômeno das legislações não respeitadoras do direito à vida desde a sua concepção. Como se poderiam moralmente aceitar leis que permitem matar o ser humano não nascido ainda, mas já vivo no ventre materno? Desse modo, o direito à vida torna-se apanágio exclusivo dos adultos, que se servem dos próprios parlamentos para atuarem os seus projetos e procurarem os próprios interesses.

Encontramo-nos defronte a uma enorme ameaça contra a vida: não apenas dos simples indivíduos, mas também de toda a civilização. A afirmação de que esta civilização se tornou, sob alguns aspectos, «civilização da morte», recebe assim uma inquietante confirmação. E não será porventura um evento profético o fato de o nascimento de Cristo ter sido acompanhado do perigo para a sua existência? Sim, também a vida d’Aquele que é ao mesmo tempo filho do homem e filho de Deus, esteve ameaçada, esteve em perigo desde o início, e só por milagre evitou a morte.

Nos últimos decênios, todavia, notam-se alguns sintomas reconfortantes de um despertar das consciências: isto verifica-se tanto no mundo do pensamento como na própria opinião pública. Especialmente nos jovens, cresce uma nova consciência do respeito pela vida desde a concepção; difundem-se os movimentos pró-vida (pro life). É um fermento de esperança para o futuro da família e da inteira humanidade.

«…e Me acolhestes»
22. Cônjuges e famílias de todo o mundo: convosco está o Esposo! É sobretudo isto que o Papa quer dizer-vos no ano que as Nações Unidas e a Igreja dedicam à família. «Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho unigênito, para que todo o que n’Ele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não mandou o seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas, para que o mundo seja salvo por Ele» (Jo 3, 16-17); «O que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do Espírito é espírito (…) Tendes de nascer de novo» (Jo 3, 6-7). Tendes de nascer «da água e do Espírito» (Jo 3, 5). E precisamente vós, queridos pais e mães, sois as primeiras testemunhas e ministros deste novo nascimento do Espírito Santo. Vós, que gerais os vossos filhos para a pátria terrena, não esqueçais que, ao mesmo tempo, os gerais para Deus. Deus deseja o seu nascimento do Espírito Santo; Ele os ama como filhos adotivos no Filho unigênito, que nos dá «o poder de nos tornarmos filhos de Deus» (cf. Jo 1, 12). A obra da salvação perdura no mundo e realiza-se por meio da Igreja. Tudo isto é obra do Filho de Deus, do Esposo divino, que nos transmitiu o Reino do Pai e recorda a nós, seus discípulos: «O reino de Deus está dentro de vós» (Lc 17, 21).

A nossa fé diz-nos que Jesus Cristo, que «está sentado à direita do Pai», virá para julgar os vivos e os mortos. Por outro lado, o evangelista João assegura-nos que Ele não foi mandado «ao mundo para julgar o mundo, mas, para que o mundo seja salvo por Ele» (Jo 3, 17). Em que consiste, então, o juízo? Cristo mesmo oferece a resposta: «O juízo é este: a luz veio ao mundo (…) quem pratica a verdade aproxima-se da luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, pois são feitas em Deus» (Jo 3, 19.21). É o que ainda recentemente recordou a Encíclica Veritatis splendor (52). Então, Cristo é juiz? Os teus próprios atos te julgarão à luz da verdade que tu conheces. Os pais e as mães, os filhos e as filhas serão julgados pelas suas obras. Cada um de nós será julgado sobre os mandamentos; também sobre aqueles que recordamos nesta Carta: o quarto, o quinto, o sexto, o nono. Cada um será julgado, porém, principalmente sobre o amor, que é o sentido e a síntese dos mandamentos. «No entardecer da vida, seremos julgados sobre o amor» – escreveu S. João da Cruz (53). Cristo, Redentor e Esposo da humanidade, «para isto nasceu e para isto veio ao mundo: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a sua voz» (cf. Jo 18, 37). Será Ele o juiz, mas daquele modo que Ele mesmo indicou ao falar do Juízo final (cf. Mt 25, 31-46). O dele, será um juízo sobre o amor, um juízo que confirmará definitivamente a verdade de que o Esposo estava conosco, sem que, talvez, nós o soubéssemos.

O juiz é o Esposo da Igreja e da humanidade. Por isso, julga dizendo: «Vinde, benditos de Meu Pai (…) Porque tive fome e destes-Me de comer, tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e recolhestes-Me, estava nu e destes-Me de vestir» (Mt 25, 34-36). Naturalmente, este elenco poderia alongar-se, aparecendo nele uma infinidade de problemas que interessam também à vida conjugal e familiar. Poderíamos encontrar afirmações como estas: «Era menino ainda não nascido, e Me acolhestes, permitindo-Me nascer; era criança abandonada e fostes para Mim uma família; era órfão e Me adotastes e educastes como um filho vosso». E ainda: «Ajudastes as mães hesitantes, ou sujeitas a iníquas pressões, a aceitarem o seu menino nelas gerado e a fazerem-no nascer; ajudastes famílias numerosas, famílias em dificuldade a manterem e educarem os filhos, que Deus lhes dera». E poderíamos continuar com uma lista longa e diversificada, incluindo toda a espécie de verdadeiro bem moral e humano, em que se exprime o amor. Eis a grande messe que o Redentor do mundo, a Quem o Pai confiou o juízo, virá recolher: é a messe de graças e de boas obras, amadurecida pelo sopro do Esposo, o Espírito Santo, que não cessa nunca de atuar no mundo e na Igreja. Demos graças por isto ao Dador de todo o bem.

Saibamos, porém, que na sentença final reproduzida pelo evangelista Mateus há um outro elenco, grave e aterrorizador: «Afastai-vos de Mim (…) Porque tive fome e não Me destes de comer; tive sede e não Me destes de beber; era peregrino e não Me recolhestes, estava nu e não Me vestistes» (Mt 25, 41-43). E neste elenco podem-se igualmente encontrar outros comportamentos, nos quais Jesus se apresenta sempre como o homem rejeitado. Assim, Ele identifica-se com a mulher ou o marido abandonado, com a criança concebida e recusada: «Não Me acolhestes»! Também este juízo passa através da história das nossas famílias, passa através da história das nações e da humanidade. O «não Me acolhestes» de Cristo envolve também instituições sociais, governos e organizações internacionais.

Pascal escreveu que «Jesus estará em agonia até ao fim do mundo» (54). A agonia do Getsêmani e a agonia do Gólgota são o clímax da manifestação do amor. Numa e noutra, se manifesta o Esposo que está conosco, que ama incessantemente, que «ama até ao fim» (cf. Jo 13, 1). O amor que está n’Ele e que d’Ele se estende para além dos confins das histórias pessoais ou familiares, ultrapassa os confins da história da humanidade.

No termo destas reflexões, queridos Irmãos e Irmãs, pensando a quanto será proclamado de várias tribunas no Ano da Família, quereria renovar convosco a confissão dirigida por Pedro a Cristo: «Tu tens palavras de vida eterna» (Jo 6, 68). Digamos juntos: As tuas palavras, ó Senhor, não passarão (cf. Mc 13, 31)! O que é que vos pode desejar o Papa no final desta longa meditação sobre o Ano da Família? Faço votos de que vos reencontreis todos nestas palavras, que são «espírito e vida» (Jo 6, 63).

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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