Carta às Famílias – Papa João Paulo II (Parte 6)

Ele anuncia ainda a verdade sobre o matrimônio, quando, ao falar com os fariseus, explica quanto o amor que vem de Deus, amor terno e esponsal, seja fonte de exigências profundas e radicais. Menos exigente tinha sido Moisés, que permitira dar carta de divórcio. Quando, em acesa controvérsia, os fariseus se apelam para Moisés, Cristo responde categórico: «Ao princípio não foi assim» (Mt 19, 8). E recorda como Aquele que criou o ser humano, o criou homem e mulher e estabeleceu: «O homem deixará o pai e a mãe para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne» (Gn 2, 24). Com lógica coerência, Cristo conclui: «Portanto, já não são dois, mas uma só carne. Pois bem, o que Deus uniu não o separe o homem» (Mt 19, 6). À objeção dos fariseus, que se sentem fortes pela lei mosaica, Ele responde: «Por causa da dureza do vosso coração, Moisés permitiu que repudiásseis as vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim» (Mt 19, 8).

Jesus apela «ao princípio», encontrando nas origens mesmas da criação o desígnio de Deus, sobre o qual se baseia a família e, por seu intermédio, toda a história da humanidade. A realidade natural do matrimônio torna-se, por vontade de Cristo, verdadeiro e próprio sacramento da Nova Aliança, marcado com o selo do seu Sangue redentor. Esposos e famílias, recordai-vos por que preço fostes «comprados» (cf. 1 Cor 6, 20)!

Esta verdade admirável, porém, é humanamente difícil de ser aceite e vivida. Como maravilhar-se da cedência de Moisés defronte às instâncias dos seus concidadãos, se até os próprios Apóstolos, ao ouvirem as palavras do Mestre, replicam: «Se é essa a situação do homem perante a mulher, não é conveniente casar-se» (Mt 19, 10)? Jesus, todavia, para bem do homem e da mulher, da família e da sociedade inteira, confirma a exigência posta por Deus desde o princípio. Ao mesmo tempo, porém, Ele aproveita a ocasião para afirmar o valor da opção de não se casar com vista ao Reino de Deus: também esta escolha permite «gerar», mesmo se de modo diverso. A partir desta escolha, têm início a vida consagrada, as Ordens e Congregações Religiosas no Oriente e no Ocidente, bem como a disciplina do celibato sacerdotal, segundo a tradição da Igreja Latina. Portanto, não é verdade a hipótese levantada de que «não é conveniente casar-se», porém, o amor pelo Reino dos céus pode impelir mesmo a não se casar (cf. Mt 19, 12).

Casar-se permanece, contudo, a vocação ordinária do homem, que é abraçada pela maior porção do Povo de Deus. É na família que se formam as pedras vivas do edifício espiritual, de que fala o apóstolo Pedro (cf. 1 Pd 2, 5). Os corpos dos cônjuges são habitação do Espírito Santo (cf. 1 Cor 6, 19). Uma vez que a transmissão da vida divina supõe a da vida humana, do matrimônio nascem não só os filhos dos homens, mas também, em virtude do Batismo, os filhos adotivos de Deus, que vivem a vida nova recebida de Cristo mediante o seu Espírito.

Deste modo, caros irmãos e irmãs, esposos e pais, o Esposo está convosco. Sabeis que Ele é o bom Pastor, e conheceis a sua voz. Sabeis para onde vos conduz, como luta para vos providenciar as pastagens onde encontrar a vida e encontrá-la em abundância; sabeis como enfrenta os lobos devoradores, sempre pronto a arrebatar-lhes das fauces as suas ovelhas: cada marido e cada esposa, cada filho e cada filha, cada membro das vossas famílias. Sabeis que Ele, como bom Pastor, está disposto a oferecer a própria vida pelo rebanho (cf. Jo 10, 11). Ele vos conduz por estradas que não são aquelas sinuosas e traiçoeiras de muitas ideologias contemporâneas; repete ao mundo de hoje a verdade integral, como quando se dirigia aos fariseus ou anunciava aos Apóstolos, que depois foi por estes pregada ao mundo, proclamando-a aos homens do tempo, hebreus e gregos. Os discípulos estavam bem cientes de que Cristo tudo tinha renovado; de que o homem se tornara «nova criatura»: não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, mas «um só», n’Ele (cf. Gál 3, 28), agraciado com a dignidade de filho adotivo de Deus. No dia do Pentecostes, este homem recebeu o Espírito Consolador, o Espírito de verdade; e teve assim início o novo Povo de Deus, a Igreja, antecipação de um novo céu e de uma nova terra (cf. Ap 21, 1).

Os Apóstolos, anteriormente temerosos inclusivamente em relação ao matrimônio e à família, tornaram-se corajosos. Compreenderam que o matrimônio e a família constituem uma verdadeira vocação proveniente do próprio Deus, um apostolado: o apostolado dos leigos. Estão ao serviço da transformação da terra e da renovação do mundo, da criação e da humanidade inteira.

Caríssimas famílias, também vós deveis ser corajosas, sempre prontas a dar testemunho daquela esperança que está em vós (cf. 1 Pd 3, 15), porque enraizada pelo bom Pastor no vosso coração mediante o Evangelho. Deveis estar prontas a seguir Cristo até àquelas pastagens que dão a vida e que Ele mesmo preparou com o mistério pascal da sua morte e ressurreição.

Não tenhais medo dos riscos! As forças divinas são bem mais poderosas que as vossas dificuldades! Incomensuravelmente maior do que o mal que atua no mundo, é a eficácia do sacramento da Reconciliação, não por acaso chamado pelos Padres da Igreja «segundo Batismo». Muito mais incisiva do que a corrupção presente no mundo é a energia divina do sacramento da Confirmação, que faz maturar o Batismo. Incomparavelmente maior é, sobretudo, a força da Eucaristia.

A Eucaristia é um sacramento verdadeiramente admirável. Nele, Cristo deixou-Se a Si próprio como alimento e bebida, como fonte de poder salvífico. Deixou-Se a Si mesmo, a fim de que tivéssemos vida e a tivéssemos em abundância (cf. Jo 10, 10): a vida que está n’Ele e que Ele nos comunicou pelo dom do Espírito, quando ressuscitou ao terceiro dia após a sua morte. De fato, a vida que vem d’Ele é para nós. Esta vida é para vós, caros esposos, pais e famílias! Não instituiu Ele a Eucaristia num ambiente familiar, durante a última Ceia? Quando vos encontrais para a refeição e unidos entre vós a partilhais, Cristo está no meio de vós. Mas, Ele é ainda mais o Emanuel, o Deus conosco, quando vos aproximais da Mesa Eucarística. Pode acontecer que, como em Emaús, Ele seja reconhecido apenas ao «partir do pão» (cf. Lc 24, 35). Sucede também que Ele fique longamente à porta a bater, esperando que a porta se abra para poder entrar e cear conosco (cf. Ap 3, 20). A sua última Ceia, as palavras então pronunciadas conservam todo o poder e sabedoria do sacrifício da Cruz. Não existe outro poder nem outra sabedoria, pelos quais possamos ser salvos e contribuir para a salvação dos outros. Não há outro poder nem outra sabedoria que vos possibilitem a vós, pais, educar os vossos filhos e a vós mesmos também. A força educativa da Eucaristia confirmou- se através das gerações e dos séculos.

O bom Pastor está conosco em toda a parte. Como estava em Caná da Galileia, Esposo entre aqueles esposos, que mutuamente se entregavam por toda a vida, o bom Pastor está hoje convosco como motivo de esperança, força dos corações, fonte de entusiasmo sempre novo e sinal da vitória da «civilização do amor». Jesus, o bom Pastor, repete-nos: Não tenhais medo. Eu estou convosco. «Estou convosco todos os dias até ao fim do mundo» (Mt 28, 20). Donde vem tanta força? Donde vem a certeza de que Tu estás conosco, mesmo se Te mataram, ó Filho de Deus, e morreste como qualquer outro ser humano? Donde vem esta certeza? Diz o evangelista: «Amou-os até ao fim» (Jo 13, 1). Assim, Tu nos amas, Tu que és o Primeiro e o Último, o Vivente; Tu que estavas morto e agora vives para sempre (cf. Ap 1, 17-18).

O grande mistério
19. S. Paulo sintetiza o tema da vida familiar com a expressão: « grande mistério » (Ef 5, 32). O que ele escreve na Carta aos Efésios sobre este «grande mistério», apesar de radicado no livro do Gênesis e em toda a tradição do Antigo Testamento, apresenta todavia uma configuração nova, que encontrará depois explicitação no magistério da Igreja.

A Igreja professa que o matrimônio, como sacramento da aliança dos esposos, é um «grande mistério», porque nele se exprime o amor esponsal de Cristo pela sua Igreja. Escreve S. Paulo: «Maridos, amai as vossas mulheres como também Cristo amou a Igreja, e por ela Se entregou, para a santificar, purificando-a no batismo da água pela palavra da vida» (Ef 5, 25-26). O Apóstolo fala aqui do Batismo, de que trata amplamente na Carta aos Romanos, apresentando-o como participação na morte de Cristo para partilhar da sua vida (cf. Rom 6, 3-4). Neste sacramento, o fiel nasce como um homem novo, já que o Batismo tem o poder de comunicar uma vida nova, a própria vida de Deus. O mistério teândrico do Deus-homem está, em certo sentido, compendiado no evento batismal: «Jesus Cristo, Senhor nosso, Filho de Deus – dirá mais tarde S. Ireneu e, com ele, muitos outros Padres da Igreja do Oriente e do Ocidente – tornou-se filho do homem, para que o homem possa tornar-se filho de Deus» (44).

Assim, o Esposo é o próprio Deus que se fez homem. Na Antiga Aliança, Jahvé apresenta-se como o Esposo de Israel, povo eleito: um Esposo terno e exigente, ciumento e fiel. Todas as traições, deserções e idolatrias de Israel, descritas dramática e sugestivamente pelos Profetas, não conseguem apagar o amor com que Deus-Esposo «ama até ao fim» (cf. Jo 13, 1).

A confirmação e o cumprimento da comunhão esponsal entre Deus e o seu povo verificam-se em Cristo, na Nova Aliança. Jesus assegura-nos que o Esposo está conosco (cf. Mt 9, 15). Está com todos nós, está com a Igreja. A Igreja torna-se esposa: esposa de Cristo. Esta esposa, de que fala a Carta aos Efésios, faz-se presente em cada batizado e é como uma pessoa em quem o olhar do seu Esposo se compraz: «Amou a Igreja, e por ela Se entregou (…) para a apresentar a Si mesmo como Igreja gloriosa sem mancha nem ruga, nem qualquer coisa semelhante, mas santa e imaculada» (Ef 5, 25.27). O amor, pelo qual o Esposo «amou até ao fim» a Igreja, faz com que esta seja sempre novamente santa nos seus santos, mesmo se não deixa de ser uma Igreja de pecadores. Também os pecadores, «os publicanos e as prostitutas», são chamados à santidade, como o próprio Cristo certifica no Evangelho (cf. Mt 21, 31). Todos são chamados a tornar-se Igreja gloriosa, santa e imaculada. «Sede santos – diz o Senhor – porque Eu sou santo» (Lv 11, 44; cf. 1 Pd 1, 16).

Eis a dimensão mais sublime do «grande mistério», o significado interior do dom sacramental na Igreja, o sentido mais profundo do Batismo e da Eucaristia. São os frutos do amor, com que o Esposo amou até ao fim; amor que se esparge constantemente, oferecendo aos homens uma participação cada vez maior na vida divina.

Depois de ter dito: «Maridos, amai as vossas mulheres» (Ef 5, 25), S. Paulo, numa expressão ainda mais vigorosa, acrescenta: «Assim, os maridos devem amar as suas mulheres, como aos seus próprios corpos. Aquele que ama a sua mulher, ama-se a si mesmo. Porque ninguém jamais aborreceu a sua própria carne; pelo contrário, nutre-a e cuida dela, como também Cristo faz à sua Igreja, pois todos somos membros do seu corpo» (Ef 5, 28-30). E exorta os cônjuges com as seguintes palavras: «Sujeitai-vos uns aos outros no temor de Cristo» (Ef 5, 21).

Esta é, por certo, uma apresentação nova da verdade eterna acerca do matrimônio e da família, à luz da Nova Aliança. Cristo revelou-a no Evangelho, com a sua presença em Caná da Galileia, com o sacrifício da Cruz e os Sacramentos da sua Igreja. Assim os cônjuges encontram em Cristo o ponto de referência para o seu amor esponsal. Ao falar de Cristo Esposo da Igreja, é de modo analógico que S. Paulo se refere ao amor esponsal. Ele reenvia ao livro do Gênesis: «O homem deixará o pai e a mãe para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne» (Gn 2, 24). Eis o «grande mistério» do eterno amor já presente na criação, revelado em Cristo e confiado à Igreja. «É grande este mistério – repete o Apóstolo; digo-o, porém, em relação a Cristo e à Igreja» (Ef 5, 32). Portanto, não se pode compreender a Igreja como Corpo místico de Cristo, como sinal da Aliança do homem com Deus em Cristo, como sacramento universal de salvação, sem fazer referência ao «grande mistério», associado à criação do ser humano como homem e mulher e à vocação de ambos ao amor conjugal, à paternidade e à maternidade. Não existe o «grande mistério», que é a Igreja e a humanidade em Cristo, sem o «grande mistério» expresso no ser «uma só carne» (cf. Gn 2, 24; Ef 5, 31-32), isto é, na realidade do matrimônio e da família.

A própria família é o grande mistério de Deus. Como «igreja doméstica», ela é a esposa de Cristo. A Igreja Universal, e nela cada Igreja Particular, revela-se de maneira mais imediata e concreta como esposa de Cristo na «igreja doméstica» e no amor aí vivido: amor conjugal, amor paterno e materno, amor fraterno, amor de uma comunidade de pessoas e gerações. Porventura será possível imaginar o amor humano sem o Esposo e sem o amor com que Ele amou primeiro e até ao fim? Somente se tomam parte em tal amor e nesse «grande mistério», é que os esposos podem amar «até ao fim»: ou se tornam participantes dele, ou então não conhecem plenamente o que seja o amor nem quanto sejam radicais as suas exigências. Sem dúvida, isto constitui para eles um grave perigo.

A doutrina da Carta aos Efésios encanta pela sua profundeza e força ética. Ao indicar o matrimônio, e indiretamente a família, como o «grande mistério» em relação a Cristo e à Igreja, o apóstolo Paulo pode reafirmar uma vez mais aquilo que tinha dito anteriormente aos maridos: «Pelo que vos diz respeito, ame também cada um de vós sua mulher como a si mesmo»! E acrescenta: «E a mulher respeite o seu marido»! (Ef 5, 33). Ela respeita, porque ama e sabe que é correspondida no amor. É em virtude de tal amor que os esposos se tornam dom recíproco. No amor, está contido o reconhecimento da dignidade pessoal do outro e da sua irrepetível unicidade: de fato, dentre todas as criaturas da terra, cada um deles enquanto ser humano foi escolhido por Deus por si mesmo (45); porém, cada um, por um ato consciente e responsável, faz livremente de si próprio um dom ao outro e aos filhos recebidos do Senhor. S. Paulo prossegue a sua exortação, coligando-se significativamente ao quarto mandamento: «Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor, porque isto é justo. “Honra teu pai e tua mãe”, que é o primeiro mandamento que tem uma promessa, “para que sejas feliz e tenhas longa vida sobre a Terra”. E vós, pais, não exaspereis os vossos filhos mas educai-os na disciplina e correção segundo o Senhor!» (Ef 6, 1-4). Assim, o Apóstolo vê implícito no quarto mandamento o compromisso do respeito mútuo entre marido e mulher, entre pais e filhos, reconhecendo nele deste modo o princípio da estabilidade familiar.

A maravilhosa síntese paulina a propósito do «grande mistério» apresenta-se como o compêndio, a summa, em determinado sentido, do ensinamento sobre Deus e o homem, que Cristo levou à perfeição. Infelizmente, com o desenvolvimento do racionalismo moderno, o pensamento ocidental foi-se afastando pouco a pouco de tal ensinamento. O filósofo que formulou o princípio «cogito, ergo sum » (penso, logo existo), acabou por imprimir à concepção moderna do homem o caráter dualista que a caracteriza. É típico do racionalismo contrapor radicalmente, no homem, o espírito ao corpo e o corpo ao espírito. O homem, pelo contrário, é pessoa na unidade do corpo e do espírito (46). O corpo nunca pode ser reduzido a pura matéria: é um corpo «espiritualizado», assim como o espírito está tão profundamente unido ao corpo que se pode qualificar como um espírito «corporizado». A fonte mais importante para o conhecimento do corpo é o Verbo feito carne. Cristo revela o homem ao próprio homem (47). Esta afirmação do Concílio Vaticano II, de certo modo, é a resposta, longamente esperada, dada pela Igreja ao racionalismo moderno.

Tal resposta reveste um importância fundamental para a compreensão da família, especialmente no contexto da civilização atual, que, como foi dito, parece ter, em muitos casos, renunciado a ser uma «civilização do amor». Grande foi, na era moderna, o progresso no conhecimento do mundo material, e também da psicologia humana, mas quanto à sua dimensão mais íntima, a dimensão metafísica, o homem de hoje permanece em boa parte um ser desconhecido para si mesmo; consequentemente, uma realidade desconhecida permanece também a família. Isto verifica-se por causa do afastamento daquele «grande mistério» de que fala o Apóstolo.

A separação entre espírito e corpo no homem teve como consequência a afirmação da tendência a tratar o corpo humano não segundo as categorias da sua específica semelhança com Deus, mas segundo aquelas da sua semelhança com todos os outros corpos presentes na natureza, corpos que o homem utiliza como material para a sua atividade destinada à produção de bens de consumo. Mas facilmente todos se podem dar conta de quanto a aplicação ao homem de tais critérios esconda realmente enormes perigos. Quando o corpo humano, considerado independentemente do espírito e do pensamento, é utilizado como material ao mesmo nível do corpo dos animais, – como sucede, por exemplo, nas manipulações sobre os embriões e os fetos – inevitavelmente caminha-se para um terrível descalabro ético.

Numa tal perspectiva antropológica, a família humana está a viver a experiência de um novo maniqueísmo, no qual o corpo e o espírito são radicalmente contrapostos entre si: nem o corpo vive do espírito, nem o espírito vivifica o corpo. Assim o homem deixa de viver como pessoa e sujeito. Apesar das intenções e declarações em contrário, torna-se exclusivamente um objeto. Assim, por exemplo, esta civilização neo-maniqueísta leva a olhar a sexualidade humana mais como um campo de manipulação e desfrutamento, do que a olhá-la como a realidade geradora daquele assombro primordial que, na manhã da criação, impele Adão a exclamar à vista de Eva: «É carne da minha carne e osso dos meus ossos» (cf. Gn 2, 23). É o mesmo assombro que ecoa nas palavras do Cântico dos Cânticos: «Arrebataste o meu coração, minha irmã, minha esposa! Arrebataste o meu coração com um só dos teus olhares» (Ct 4, 9). Como estão distantes certas concepções modernas da profunda compreensão da masculinidade e da feminilidade oferecida pela Revelação divina! Esta leva-nos a descobrir na sexualidade humana uma riqueza da pessoa, que encontra a sua verdadeira valorização na família e exprime a sua vocação profunda mesmo na virgindade e no celibato pelo Reino de Deus.

O racionalismo moderno não suporta o mistério. Não aceita o mistério do ser humano, homem e mulher, nem quer reconhecer que a plena verdade do homem foi revelada em Jesus Cristo. Não tolera, em particular, o «grande mistério» anunciado pela Carta aos Efésios, e combate-o radicalmente. Num contexto de vago deísmo, reconhece a possibilidade ou mesmo a necessidade de um Ser supremo divino, mas recusa decididamente a noção de um Deus que se faz homem para salvar o homem. Para o racionalismo, é impensável que Deus seja o Redentor, e menos ainda que seja «o Esposo», a fonte originária e única do amor esponsal humano. Aquele interpreta a criação e o sentido da existência humana de maneira radicalmente diversa. Mas, se faltar ao homem a perspectiva de um Deus que o ama e, por intermédio de Cristo, o chama a viver n’Ele e com Ele, se à família não for aberta a possibilidade de participar no «grande mistério», o que é que resta senão a mera dimensão temporal da vida? Resta apenas a vida temporal como campo de luta pela existência, de procura ansiosa do lucro, sobretudo do lucro econômico.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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