Carta às Famílias – Papa João Paulo II (Parte 5)

Os Padres da Igreja, no decurso da tradição cristã, falaram da família como «igreja doméstica», «pequena igreja». Referiam-se assim à civilização do amor como a um possível sistema de vida e convivência humana: «estarem juntos» como família, serem uns para os outros, criarem um espaço comunitário para a afirmação de cada homem enquanto tal, para a afirmação «deste» homem em concreto. Às vezes, trata-se de pessoas com deficiências físicas ou psíquicas, das quais a sociedade dita «progressista» prefere libertar-se. Também a família se pode tornar semelhante a uma tal sociedade. E torna-se-lo de fato, quando rapidamente se desembaraça de quem é ancião, ou vítima de deformações, ou afetado pela doença. Comporta-se assim, porque falta a fé naquele Deus para o Qual «todos vivem» (Lc 20, 38) e todos são chamados à plenitude da vida.

Sim, a civilização do amor é possível, não é uma utopia! Mas só é possível graças a uma constante e viva referência a «Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, do Qual provém toda a paternidade 1 no mundo» (cf. Ef 3, 14-15), do Qual provém cada família humana.

A educação
16. Em que consiste a educação? Para responder a esta questão, há que recordar duas verdades fundamentais: a primeira é que o homem é chamado a viver na verdade e no amor; a segunda é que cada homem realiza-se através do dom sincero de si. Isto vale tanto para quem educa, como para quem é educado. Assim, a educação constitui um processo singular, no qual a recíproca comunhão das pessoas aparece impregnada de grande significado. O educador é uma pessoa que «gera» em sentido espiritual. Nesta perspectiva, a educação pode ser considerada um verdadeiro e próprio apostolado. É uma comunicação vital, que não só constrói uma relação profunda entre educador e educando, mas fá-los ambos participar na verdade e no amor, meta final à qual cada homem é chamado por Deus Pai, Filho e Espírito Santo.

A paternidade e a maternidade supõem a coexistência e a interação de sujeitos autônomos. Isto é particularmente evidente na mãe, quando concebe um novo ser humano. Os primeiros meses da sua presença no ventre materno criam um laço especial, que já reveste um seu valor educativo. Já durante o período pré-natal, a mãe estrutura não apenas o organismo do filho, mas indiretamente toda a sua humanidade. Mesmo se se trata de um processo que se orienta da mãe para o filho, não se esqueça a influência específica que o nascituro exerce sobre a mãe. Nesta influência recíproca, que se manifestará externamente após o nascimento da criança, o pai não toma parte diretamente. Porém, ele deve empenhar-se responsavelmente a prestar a sua solicitude e apoio durante a gravidez e, se possível, também no momento do parto.

Para a «civilização do amor», é essencial que o homem sinta a maternidade da mulher, sua esposa, como um dom: isto, de fato, influi imenso no processo educativo inteiro. Muito depende da sua disponibilidade para tomar parte de forma adequada nesta primeira fase do dom da humanidade, e deixar-se envolver como marido e pai na maternidade da mulher.

A educação é, assim, sobretudo uma «oferta» de humanidade por parte de ambos os pais: estes comunicam juntos a sua humanidade madura ao recém-nascido, o qual, por sua vez, lhes dá a novidade e o frescor da humanidade que traz consigo ao mundo. Isto verifica-se também no caso de crianças afetadas por deficiências psíquicas ou físicas: antes, neste caso a sua situação pode desenvolver uma força educativa muito particular.

Com razão, pois, pergunta a Igreja durante o rito do matrimônio: «Estais dispostos a receber amorosamente da mão de Deus os filhos e a educá-los segundo a lei de Cristo e da Igreja?» (39). O amor conjugal exprime-se na educação como verdadeiro amor de pais. A «comunhão de pessoas», que ao início da família se manifesta como amor conjugal, completa-se e aperfeiçoa-se quando se estende aos filhos com a educação. A potencial riqueza, constituída por cada homem que nasce e cresce na família, deve ser responsavelmente assumida de modo que não degenere nem se dissipe, mas, ao contrário, se realize numa humanidade cada vez mais madura. Também este é um dinamismo de reciprocidade, no qual os pais-educadores são, por sua vez, em certa medida educados. Mestres de humanidade dos próprios filhos, também a aprendem deles. Aqui emerge com destaque a estrutura orgânica da família e revela-se o sentido fundamental do quarto mandamento.

O «nós» dos pais, do marido e da esposa, desenvolve-se, por meio da educação, no «nós» da família, que se enxerta sobre as gerações precedentes e se abre a um gradual alargamento. A este respeito, desempenham um papel singular, por um lado, os pais dos pais e, por outro, os filhos dos filhos.

Se os pais, ao darem a vida, tomam parte na obra criadora de Deus, pela educação tornam-se participantes da sua pedagogia conjuntamente paterna e materna. A paternidade divina, segundo S. Paulo, constitui o modelo originário de toda a paternidade e maternidade no cosmos (cf. Ef 3, 14-15), especialmente da maternidade e paternidade humana. Sobre a pedagogia divina nos instruiu plenamente o Verbo eterno do Pai que, ao encarnar-se, revelou ao homem a verdadeira e integral dimensão da sua vocação: a filiação divina. E revelou assim também qual é o verdadeiro significado da educação do homem. Por meio de Cristo, toda a educação, na família e fora dela, é inserida na dimensão salvífica da pedagogia divina, que se dirige aos homens e às famílias e culmina no mistério pascal da morte e ressurreição do Senhor. Daqui, do «coração» da nossa redenção parte todo o processo de educação cristã que, ao mesmo tempo, é sempre educação para a plena humanidade.

Os pais são os primeiros e principais educadores dos próprios filhos e têm também neste campo uma competência fundamental: são educadores porque pais. Eles partilham a sua missão educadora com outras pessoas e instituições, tais como a Igreja e o Estado; todavia, isto deve verificar-se sempre na correta aplicação do princípio da subsidiariedade. Este implica a legitimidade e mesmo o ônus de oferecer uma ajuda aos pais, mas encontra no direito prevalecente deles e nas suas efetivas possibilidades o seu limite intrínseco e intransponível. O princípio da subsidiariedade põe-se, assim, ao serviço do amor dos pais, indo ao encontro do bem do núcleo familiar. Na verdade, os pais não são capazes de satisfazer por si sós a todas as exigências do processo educativo inteiro, especialmente no que toca à instrução e ao amplo setor da sociabilização. A subsidiariedade completa assim o amor paterno e materno, confirmando o seu caráter fundamental, porque qualquer outro participante no processo educativo não pode operar senão em nome dos pais, com o seu consenso e, em certa medida, até mesmo por seu encargo.

O itinerário educativo conduz à fase da auto-educação, que se atinge quando, graças a um adequado nível de maturidade psico-física, o homem começa a «educar-se por si só». A auto-educação supera, com o passar do tempo, as metas anteriormente alcançadas no processo educativo, no qual, todavia, continua a mergulhar as suas raízes. O adolescente encontra novas pessoas e novos ambientes, em particular os professores e os companheiros de escola, os quais exercem sobre a sua vida um influxo que pode revelar-se educador ou o contrário. Nesta etapa, ele distancia-se, em certa medida, da educação recebida em família, assumindo por vezes uma atitude crítica no confronto dos pais. Apesar de tudo, porém, o processo de auto-educação não pode deixar de estar marcado pelo influxo educativo exercido pela família e pela escola sobre a criança e o adolescente. Mesmo quando se transforma e se encaminha pela sua própria estrada, o jovem continua a permanecer intimamente ligado com as suas raízes existenciais.

Neste horizonte, delinea-se de um modo novo o significado do quarto mandamento: «Honra o teu pai e a tua mãe» (Êx 20, 12); ele permanece ligado organicamente com todo o processo de educação. A paternidade e maternidade, dado primeiro e fundamental no dom da humanidade, abrem perante os pais e os filhos novas e mais profundas perspectivas. Gerar segundo a carne significa dar início a uma posterior «geração», gradual e complexa, através do inteiro processo educativo. O mandamento do Decálogo exige ao filho que honre o pai e a mãe. Mas, como atrás se disse, o mesmo mandamento impõe aos pais um dever, em certo sentido, «simétrico». Também eles devem «honrar» os próprios filhos, tanto pequenos como grandes, e tal atitude é indispensável ao longo de todo o percurso educativo, inclusivamente o escolar. O «princípio de prestar a honra», ou seja, o reconhecimento e o respeito do homem como homem, é a condição fundamental de todo o autêntico processo educativo.

No âmbito da educação, a Igreja tem um papel específico a desempenhar. À luz da tradição e do magistério conciliar, pode-se justamente dizer que não é questão apenas de confiar à Igreja a educação religiosa e moral da pessoa, mas de promover todo o processo educativo da pessoa «juntamente com» a Igreja. A família é chamada a cumprir a sua tarefa educativa em Igreja, participando assim na vida e missão eclesial. A Igreja deseja educar sobretudo através da família, para isso habilitada pelo sacramento do matrimônio com a «graça de estado» que dele se obtém e o específico «carisma» que é próprio da inteira comunidade familiar.

Um dos campos onde a família é insubstituível, é certamente o da educação religiosa, graças à qual a família cresce como «igreja doméstica». A educação religiosa e a catequese dos filhos colocam a família no âmbito da Igreja como um verdadeiro sujeito de evangelização e de apostolado. Trata-se de um direito intimamente conexo com o princípio da liberdade religiosa. As famílias e, mais em concreto, os pais têm a faculdade de livremente escolherem para os seus filhos um determinado modelo de educação religiosa e moral segundo as próprias convicções. Mas ainda quando eles confiam tais obrigações a instituições eclesiásticas ou a escolas geridas por pessoal religioso, é necessário que a sua presença educativa continue a ser constante e ativa.

Tampouco se há-de descurar, no contexto da educação, a questão essencial da opção vocacional e, nela, particularmente a preparação para a vida matrimonial. Notáveis são os esforços e as iniciativas realizadas pela Igreja a favor da preparação para o matrimônio, por exemplo, sob a forma de cursos organizados para os noivos. Tudo isso é válido e necessário. Mas não se deve esquecer que a preparação para a futura vida de casal é sobretudo tarefa da família. Certamente, só as famílias espiritualmente maduras podem enfrentar de modo adequado tal compromisso. E por isso, há que sublinhar a exigência de uma particular solidariedade entre as famílias, que se pode exprimir através de diversas formas organizadas, como as associações de famílias para bem das famílias. A instituição familiar consolida-se com tal solidariedade, que aproxima entre si não apenas as várias pessoas, mas também as comunidades, empenhando-as a rezar juntas e a buscar, com o contributo de todos, as respostas às perguntas essenciais que a vida põe. Não é esta uma forma preciosa de apostolado das famílias entre si? É importante que as famílias procurem construir entre si vínculos de solidariedade. Isto, para além do mais, consente-lhes de se prestarem uns aos outros um serviço educativo: os pais são educados através de outros pais, os filhos através dos filhos. Cria-se assim uma peculiar tradição educadora, cuja força lhe vem do caráter de «igreja doméstica», que é próprio da família.

O evangelho do amor é a fonte inexaurível de tudo quanto se nutre a família humana como «comunhão de pessoas». No amor, encontra apoio e sentido definitivo todo o processo educativo, como fruto maduro da recíproca doação dos pais. Mediante as canseiras, os sofrimentos e as desilusões, que acompanham a educação da pessoa, o amor não cessa de estar sujeito a uma contínua avaliação. Para superar este exame, requer-se um manancial de força espiritual que se encontra apenas n’Aquele que «amou até ao fim» (Jo 13, 1). Assim, a educação coloca-se plenamente no horizonte da «civilização do amor»; desta depende e, em grande medida, contribui para a sua construção.

A assídua e confiante oração da Igreja, durante o Ano da Família, é oferecida pela educação do homem, para que as famílias perseverem no compromisso educativo com coragem, confiança e esperança, não obstante as dificuldades às vezes tão graves que parecem insuperáveis. A Igreja reza para que vençam as forças da «civilização do amor», que jorram da fonte do amor de Deus; forças que a Igreja emprega sem descanso em benefício da inteira família humana.

A família e a sociedade
17. A família é uma comunidade de pessoas, a mais pequena célula social, e como tal é uma instituição fundamental para a vida de cada sociedade.

Que espera a família enquanto instituição da sociedade? Antes de mais, ser reconhecida na sua identidade e aceite na sua subjetividade social. Esta subjetividade está ligada à identidade própria do matrimônio e da família. O matrimônio, que está na base da instituição familiar, é estabelecido pela aliança com que «o homem e a mulher constituem entre si a comunhão íntima de toda a vida, ordenada por sua índole natural ao bem dos cônjuges e à procriação e educação da prole» (40). Somente uma tal união pode ser reconhecida e confirmada como «matrimônio» pela sociedade. Ao contrário, não o podem ser as outras uniões interpessoais que não obedecem às condições agora recordadas, mesmo se hoje, precisamente sobre este ponto, se difundem tendências muito perigosas para o futuro da família e da própria sociedade.

Nenhuma sociedade humana pode correr o risco do permissivismo em questões de fundo relativas à essência do matrimônio e da família! Um tal permissivismo moral só pode causar dano às autênticas exigências da paz e da comunhão entre os homens. Compreende-se assim a razão por que a Igreja defende vigorosamente a identidade da família e incita as instituições competentes, especialmente os responsáveis pela política, bem como as organizações internacionais, a não cederem à tentação de uma aparente e falsa modernidade.

Como comunidade de amor e de vida, a família é uma realidade social firmemente radicada e, de modo muito próprio, uma sociedade soberana, apesar de condicionada sob vários aspectos. A afirmação da soberania da instituição-família e a constatação dos seus múltiplos condicionalismos levam a falar dos direitos da família. A este propósito, a Santa Sé publicou em 1983 a Carta dos Direitos da Família, que conserva hoje toda a sua atualidade. Os direitos da família estão estritamente conexos com os direitos do homem: de fato, se a família é comunhão de pessoas, a sua auto-realização depende, em medida significativa, da justa aplicação dos direitos das pessoas que a compõem. Alguns destes direitos dizem imediatamente respeito à família, como o direito dos pais à procriação responsável e à educação da prole; outros direitos, ao contrário, referem-se ao núcleo familiar só de modo indireto: entre estes, de singular importância, estão o direito à propriedade, especialmente a chamada propriedade familiar, e o direito ao trabalho.

Porém, os direitos da família não são simplesmente a soma matemática dos da pessoa, porquanto a família é algo mais do que a soma dos seus membros considerados singularmente. Ela é comunidade de pais e filhos; às vezes, comunidade de diversas gerações. Por isso, a sua subjetividade, que se constrói sobre a base do desígnio de Deus, fundamenta e exige direitos próprios e específicos. A Carta dos Direitos da Família, partindo dos princípios morais citados, consolida a existência do instituto familiar na ordem social e jurídica da «grande» sociedade: da nação, do estado e das comunidades internacionais. Cada uma destas «grandes» sociedades está condicionada, ao menos indiretamente, pela existência da família; por isso, a definição das tarefas e deveres da «grande» sociedade relativamente à família é questão extremamente importante e essencial.

Em primeiro lugar, está o vínculo quase orgânico que se instaura entre a família e a nação. Naturalmente, nem sempre se pode falar de nação em sentido próprio. É que existem grupos étnicos que, apesar de não se poderem considerar verdadeiras nações, todavia desempenham, em certa medida, a função de «grande» sociedade. Tanto numa hipótese como noutra, o vínculo da família com o grupo étnico ou com a nação baseia-se primariamente sobre a participação na cultura. Os pais geram os filhos, num determinado sentido, também para a nação, a fim de que sejam membros dela e participem do seu patrimônio histórico e cultural. Desde o início, a identidade da família delinea-se, em certa medida, sobre a base da identidade da nação a que pertence.

A família, ao participar no patrimônio cultural da nação, contribui para aquela específica soberania, que deriva da própria cultura e língua. Falei deste argumento à Assembleia da UNESCO em Paris, no ano 1980, e sobre ele tornei mais vezes, devido à sua inegável importância. Através da cultura e da língua, não apenas a nação, mas cada família encontra a sua soberania espiritual. De contrário, seria difícil explicar muitos acontecimentos da história dos povos, especialmente europeus; fatos antigos e modernos, célebres e dolorosos, de vitórias e de derrotas, dos quais resulta quanto a família esteja organicamente unida à nação, e a nação à família.

Quanto ao estado, o vínculo da família é em parte semelhante e em parte diverso. Na verdade, o estado distingue-se da nação pela sua estrutura menos «familiar», organizado como é segundo um sistema político e de forma mais «burocrática». Contudo, também o sistema estatal possui, em determinado sentido, uma própria «alma», na medida correspondente à sua natureza de «comunidade política» juridicamente ordenada em função do bem comum (41). Com esta «alma» está estreitamente conexa a família, ligada ao estado precisamente em virtude do princípio da subsidiariedade. A família, de fato, é realidade social que não dispõe de todos os meios necessários para realizar os próprios fins, nomeadamente no campo da instrução e da educação. O estado é, então, chamado a intervir segundo o mencionado princípio: lá onde se revela auto-suficiente, a família seja deixada agir autonomamente; uma excessiva intromissão do estado resultaria prejudicial, para além de abusiva, constituindo uma clara violação dos direitos da família; somente quando ela não se basta realmente a si mesma, o estado tem a faculdade e o dever de intervir.

Para além do âmbito da educação e da instrução a todos os níveis, o auxílio estatal, que de modo algum deve excluir a iniciativa dos privados, exprime-se, por exemplo, nas instituições que visam salvaguardar a vida e a saúde dos cidadãos, e, de modo particular, nas medidas de previdência que dizem respeito ao mundo do trabalho. O desemprego constitui, em nossos dias, uma das mais sérias ameaças à vida familiar e justamente preocupa todas as sociedades. Ele representa um desafio para a política dos vários estados e um objeto de atenta reflexão para a doutrina social da Igreja. Quão indispensável e urgente é, pois, dar-lhe remédio com soluções corajosas, que saibam atender, também além das fronteiras nacionais, às muitas famílias cuja falta de trabalho se traduz numa situação de dramática miséria (42).

Falando do trabalho em relação à família, é justo sublinhar a importância e o peso da atividade das mulheres no seio do núcleo familiar (43): deve ser reconhecida e valorizada profundamente. A «canseira» da mulher que, depois de ter dado à luz um filho, o nutre, cuida dele e se ocupa da sua educação, especialmente nos primeiros anos, é tão grande que não teme confronto com nenhum trabalho profissional. Isto há-de ser claramente afirmado, pelo menos tanto como se reivindica qualquer outro direito conexo com o trabalho. A maternidade, com tudo aquilo que ela comporta de canseira, deve obter um reconhecimento também econômico, pelo menos igual ao dos outros trabalhos, empreendidos para manter a família, numa fase tão delicada da sua existência.

Há que fazer verdadeiramente todo o esforço possível, para que a família seja reconhecida como sociedade primordial e, em certo sentido, «soberana ». A sua «soberania» é indispensável para o bem da sociedade. Uma nação verdadeiramente soberana e espiritualmente forte é sempre composta por famílias fortes, cientes da sua vocação e da sua missão na história. A família está no centro de todos estes problemas e tarefas: relegá-la para um papel subalterno e secundário, excluindo-a da posição que lhe compete na sociedade, significa causar um grave dano ao autêntico crescimento do corpo social inteiro.

II. O Esposo está convosco
Em Caná da Galileia
18. Falando um dia com os discípulos de João, Jesus acenou a umas bodas e à presença do esposo entre os convidados: «o esposo está com eles» (Mt 9, 15). Indicava assim o cumprimento em Si próprio da imagem de Deus-esposo, empregue já no Antigo Testamento, para revelar plenamente o mistério de Deus como mistério de Amor.

Qualificando-se como «esposo», Jesus desvenda assim a essência de Deus e confirma o seu amor imenso pelo homem. Mas a escolha desta imagem, indiretamente, projeta luz também sobre a verdade profunda do amor esponsal. De fato, usando-a para falar de Deus, Jesus mostra quanta paternidade e quanto amor de Deus se refletem no amor de um homem e de uma mulher, que se unem em matrimônio. Por isso, ao início da sua missão, Jesus vai a Caná da Galileia participar num banquete de núpcias, juntamente com Maria e com os primeiros discípulos (cf. Jo 2, 1-11). Ele pretende assim demonstrar quanto a verdade da família esteja inscrita na Revelação de Deus e na história da salvação. No Antigo Testamento, especialmente nos Profetas, encontram-se palavras muito belas sobre o amor de Deus: um amor carinhoso como o duma mãe para com o seu menino; um amor terno como o do esposo pela esposa, mas ao mesmo tempos e de igual modo profundamente ciumento; um amor mais inclinado ao perdão que ao castigo; um amor que se compadece do homem como faz o pai do filho pródigo, levanta e torna-o participante da vida divina. Um amor que deslumbra: uma novidade até então desconhecida em todo o mundo pagão.

Em Caná da Galileia, Jesus é como que o arauto da verdade divina sobre o matrimônio; daquela verdade sobre a qual a família humana se pode apoiar, fortalecendo-se para todas as provas da vida. Jesus anuncia esta verdade com a sua presença nas bodas de Caná e com a realização do seu primeiro «sinal»: a água transformada em vinho.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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