Carta às Famílias – Papa João Paulo II (Final)

«Fortalecidos no homem interior»
23. Dobro os meus joelhos diante do Pai, do Qual toda a paternidade e maternidade toma o nome, «para que vos conceda (…) que sejais poderosamente fortalecidos pelo seu Espírito quanto ao crescimento do homem interior» (Ef 3, 16). Volto de bom grado a estas palavras do Apóstolo, às quais fiz referência na primeira parte da presente Carta. São, num certo sentido, palavras-chave. A família, a paternidade e a maternidade caminham juntas lado a lado. Ao mesmo tempo, a família é o primeiro ambiente humano, onde se forma o «homem interior» de que fala o Apóstolo. A consolidação da sua força é dom do Pai e do Filho no Espírito Santo.

O Ano da família chama cada um de nós na Igreja a uma enorme responsabilidade, por certo não diversa daquela com que em cada ano e em cada dia se procura o bem da família, mas que adquire particular significado e importância no contexto do Ano em causa. Iniciamos este Ano da Família em Nazaré, na solenidade da Sagrada Família; desejamos, ao longo deste Ano, peregrinar até esse lugar de graça, tornado o Santuário da Sagrada Família na história da humanidade. Desejamos fazer esta peregrinação, recuperando a consciência do patrimônio da verdade sobre a família que desde o início constitui um tesouro da Igreja. É o tesouro que começa a acumular-se a partir da rica tradição da Antiga Aliança, completa-se na Nova e encontra a sua expressão plena e emblemática no mistério da Sagrada Família, na qual o Esposo divino opera a redenção de todas as famílias. Dali, Jesus proclama o evangelho da família. Deste tesouro de verdade, se nutriram todas as gerações dos discípulos de Cristo, a começar pelos Apóstolos, de cujo ensinamento usufruímos abundantemente nesta Carta.

Na nossa época, este tesouro está profundamente explorado nos documentos do Concílio Vaticano II (55); interessantes análises se encontram desenvolvidas também nos numerosos Discursos que Pio XII dedicou aos esposos (56), na Encíclica Humanae vitae de Paulo VI, nas intervenções durante o Sínodo dos Bispos consagrado à família (1980) e na Exortação apostólica Familiaris consortio. Fiz já referência a estas iniciativas do Magistério. Se agora volto a elas, é para sublinhar como é amplo e rico o tesouro da verdade cristãs sobre a família. Todavia, os simples testemunhos escritos não bastam. Bem mais importantes, são os testemunhos vivos. Paulo VI observou que «o homem contemporâneo escuta com maior gosto as testemunhas do que os mestres, ou se escuta os mestres é porque são testemunhas» (57). Na Igreja, é sobretudo às testemunhas que está confiado o tesouro da família: àqueles pais e àquelas mães, filhos e filhas, que através da família encontraram a estrada da sua vocação humana e cristã, a dimensão do «homem interior» (Ef 3, 16) de que fala o Apóstolo, e alcançaram assim a santidade. A Sagrada Família é o início de tantas outras famílias santas. O Concílio recordou que a santidade é vocação universal dos batizados (58). Como no passado, também na nossa época não faltam testemunhas do «evangelho da família», mesmo se são desconhecidas ou não foram proclamadas santas pela Igreja. O Ano da Família constitui a ocasião oportuna para fazer crescer a consciência da sua existência e do seu grande número.

Através da família, passa a história do homem, a história da salvação da humanidade. Procurei mostrar nestas páginas como a família se acha no centro do grande combate entre o bem e o mal, entre a vida e a morte, entre o amor e quanto a este se opõe. À família está confiado o dever de lutar sobretudo para libertar as forças do bem, cuja fonte se encontra em Cristo Redentor do homem. É preciso fazer com que tais forças sejam assumidas por cada núcleo familiar, para que, como se disse por ocasião do milênio polaco do cristianismo, a família seja «forte de Deus» (59). Eis a razão por que a presente Carta quis inspirar-se nas exortações apostólicas, que encontramos nos escritos de Paulo (cf. 1 Cor 7, 1-40; Ef 5, 21-6, 9; Col 3, 25), e nas Cartas de Pedro e de João (cf. 1 Ped 3, 1-7; 1 Jo 2, 12-17). Como são semelhantes, mesmo se num contexto histórico e cultural diverso, as situações dos cristãos e das famílias de então e de hoje!

Assim, as minhas palavras considerai-as um convite: um convite dirigido especialmente a vós, queridos maridos e esposas, pais e mães, filhos e filhas. É um convite a todas as Igrejas Particulares, para que permaneçam unidas no ensino da verdade apostólica; aos Irmãos no episcopado, aos presbíteros, às famílias religiosas e às pessoas consagradas, aos movimentos e às associações de fiéis leigos; aos irmãos e irmãs, a quem nos une a fé comum em Jesus Cristo, mesmo se não experimentamos ainda a plena comunhão querida pelo Salvador (60); a todos quantos, participando na fé de Abraão, pertencem como nós à grande comunidade dos crentes num único Deus (61); àqueles que são herdeiros de outras tradições espirituais e religiosas; a todo o homem e mulher de boa vontade.

Cristo, que é o mesmo «ontem, hoje e sempre» (cf. Heb 13, 8), esteja conosco ao dobrarmos os joelhos diante do Pai, do Qual provém toda a paternidade e maternidade e cada família humana (cf. Ef 3, 14-15) e, com as mesmas palavras da oração ao Pai que Ele próprio nos ensinou, ofereça uma vez mais o testemunho do amor com que Ele nos «amou até ao fim» (Jo 13, 1)!

Falo com a força da Sua verdade ao homem do nosso tempo, para que compreenda quão grandes bens são o matrimônio, a família e a vida; e quão grande perigo constitui o desprezo de tais realidades e a menor consideração pelos supremos valores que fundam a família e a dignidade do ser humano.

Seja o Senhor Jesus a dizer-nos de novo estas coisas com o poder e a sabedoria da Cruz (cf. 1 Cor 1, 17-24), a fim de que a humanidade não ceda à tentação do «pai da mentira» (Jo 8, 44), que constantemente a impele por estradas largas e espaçosas, aparentemente fáceis e agradáveis, mas, na realidade, cheias de insídias e perigos. Seja-nos concedido seguir sempre Aquele que é «o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14, 6).

Queridos Irmãos e Irmãs, sejam estes os compromissos das famílias cristãs e o anseio missionário da Igreja ao longo deste Ano, rico de singulares graças divinas. A Sagrada Família, ícone e modelo de cada família humana, ajude cada um a caminhar no espírito de Nazaré; ajude cada núcleo familiar a aprofundar a própria missão civil e eclesial, mediante a escuta da Palavra de Deus, a oração e a partilha fraterna de vida! Maria, Mãe do belo amor, e José, Guarda do Redentor, nos acompanhem a todos com a sua incessante proteção!

Com estes sentimentos, abençôo cada família em nome da Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo.

Dado em Roma, junto de S. Pedro, no dia 2 de Fevereiro, Festa da Apresentação do Senhor, do ano 1994, décimo sexto de Pontificado.

Joannes Paulus PP II.

Referências Bibliográficas

Carta Encíclica Redemptor Hominis, 14 (4/março/1979) – Papa João Paulo II

Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et Spes, 1,  Concílio Vaticano II

Ibid., 22

Ibid.

Ibid.

Constituição Dogmática sobre a Igreja Lumen Gentium, 11, Concílio Vaticano II.

Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et Spes, parte II, cap. I,  Concílio Vaticano II

Rituale Romanum, Ordo celebrandi matrimonium, n. 74: editio typica altera, 1991, p. 26.

Exortação Apostólica sobre a família Familiaris Consortio, 79-84, (22/novembro/1981) – Papa João Paulo II.

Rituale Romanum, Ordo celebrandi matrimonium, n.74: ed. cit., p. 26.

 Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et Spes, 48,  Concílio Vaticano II

 Exortação Apostólica sobre a família Familiaris Consortio, 69, (22/novembro/1981) – Papa João Paulo II.

Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et Spes, 24,  Concílio Vaticano II

Rituale Romanum, Ordo celebrandi matrimonium, n.60: ed. cit., p. 17.

Exortação Apostólica sobre a família Familiaris Consortio, 28, (22/novembro/1981) – Papa João Paulo II.

Carta Encíclica Humani Generis (12/ agosto/1950) – Papa Pio XII.

Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et Spes, 24,  Concílio Vaticano II

Ibid.

Ibid.

Confissões, I, 1: CCL, 27,1.

Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et Spes, 50,  Concílio Vaticano II

Rituale Romanum, Ordo celebrandi matrimonium, n.62: ed. cit., p. 17.

Ibid., n. 61: ed. cit., p. 17.

Summa Theologiae, I, q.5, a.4, ad 2, Santo Tomás de Aquino.

Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et Spes, 24,  Concílio Vaticano II.

Carta Encíclica Sollicitudo rei solialis, 25 (30/ dezembro/ 1987) – Papa João Paulo II

Carta Encíclica Redemptor Hominis, 14 (4/março/1979) – Papa João Paulo II.

Carta Encíclica Centesimus Annus, 53, (1/maio/1991) – Papa João Paulo II.

Adversus haereses IV, 20, 7: PG 7, 1057; SCh 100/2, 648-649.

Carta Encíclica Centesimus Annus, 39, (1/maio/1991) – Papa João Paulo II.

Carta Encíclica Sollicitudo rei solialis, 25 (30/ dezembro/ 1987) – Papa João Paulo II.

Carta Encíclica Humanae Vitae, 12 (25/ julho/1968) – Papa Paulo VI. Catecismo da Igreja Católica, § 2366.

Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et Spes, 24,  Concílio Vaticano II.

Homilia no rito de encerramento do Ano Santo (25/ dezembro/ 1975).

N. 22

Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et Spes, 47,  Concílio Vaticano II.

Summa Theologiae, I, q.5, a.4, ad 2, Santo Tomás de Aquino.

Summa Theologiae, I -2, q. 22, Santo Tomás de Aquino.

Constituição Dogmática sobre a Igreja Lumen Gentium, 11, 40 e 41, Concílio Vaticano II.

Rituale Romanum, Ordo celebrandi matrimonium, n.60: ed. cit., p. 17.

Código de Direito Canônico, cân. 1055, 1; Catecismo da Igreja Católica, § 1601.

Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et Spes, 74,  Concílio Vaticano II.

Carta Encíclica Centesimus Annus, 57, (1/maio/1991) – Papa João Paulo II.

Carta Encíclica Laboren exercens , 19 (14/ setembro/ 1981) – Papa João Paulo II.

 Adversus haereses, III, 10, 2: PG 7, 873; SCh 211, 116-119; também Santo Atanásio, De incarnatione Verbi, 54; PG 25, 191-192; Santo Agostinho, Sermo 185, 3: PL 38, 999; Sermo 194, 3, 3:PL 38, 1016.

Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et Spes, 74,  Concílio Vaticano II.

“O homem é um ser uno, composto de corpo e alma. (corpore  et anima unus): especifica com expressão feliz o Concílio, Ibid., 14.

Ibid., 22.

Constituição Dogmática sobre a Igreja Lumen Gentium, 56-59, Concílio Vaticano II.

Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais, Instrução pastoral Aetatis novae, 7 (22/ fevereiro/ 1992).

Na liturgia da sua Festa, que remonta ao V século, a Igreja dirige-se aos Santos Inocentes, designando-os com as palavras do poeta Prudêncio (?405), “quais flores dos mártires que, mesmo no limiar da vida, o perseguidor de Cristo arrancou como um turbilhão, rosas ainda em botão”.

Santo Atanásio, De incarnatione Verbi, 54: PG 25, 191-192.

Carta Encíclica Veritatis Splendor, 84 (6/ agosto/ 1993) – Papa João Paulo II.

Palavra de Luz e de amor, 59.

B. Pascal, Pensamentos. O mistério de Jesus, (ed. Brunschvicg, 553).

Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et Spes, 47-52,  Concílio Vaticano II.

Especial atenção merece o discurso aos participantes no Convênio da União Católica Italiana Obstétrica (29/ outubro/ 1951), em Discorsi e Radiomessaggi, XIII, 333-353.

Dircurso aos membros do “Concilium de Laicis” (2/ outubro/ 1974).

Constituição Dogmática sobre a Igreja Lumen Gentium, 40, Concílio Vaticano II.

“Família, forte de Deus” – Cardeal Wyszynski, homilia proferida em Jasna Gora (26/ agosto/ 1961).

Constituição Dogmática sobre a Igreja Lumen Gentium, 15, Concílio Vaticano II.

Ibid.,16.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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