Carta às Famílias do Brasil – Parte 1

A educação
afetiva e sexual dos filhos e o uso do preservativo como inibidor da AIDS.

Brasília,
12 de novembro de 2003.

Dom Rafael
Llano Cifuentes

Presidente
da Comissão Família e Vida

Caríssimos
irmãos e irmãs: hoje gostaria de ter com vocês uma conversa amigável.  Somos uma família.  Uma família mais unida do que julgam aqueles
que não nos conhecem.  E na família há
esses momentos gostosos de conversa depois do almoço, na varanda, no quintal ou
na sala tomando um cafezinho.  Desejaria,
agora, se vocês me permitissem, entrar no vosso lar, sentar-me ao lado de vocês
e, num cálido ambiente familiar, ir falando daquilo que me preocupa e que penso
ser motivo de preocupação e de perplexidade para vocês, como fazem os irmãos
entre si, os pais com os filhos, os filhos com os pais e os amigos de verdade.

E provável
que esse nosso encontro se prolongue por um certo tempo.  É bom que seja assim.  Deste modo tudo o que gostaria de lhes
comunicar, penso, ficará claro e, provavelmente, a partir dessa nossa conversa,
vocês sairão mais esclarecidos e se sentirão mais fortalecidos para abordar
esse tema com os seus filhos, vizinhos, amigos e irmãos na fé.

Ultimamente
tem aparecido, nos jornais, revistas e televisão – inclusive num programa de
grande audiência – ataques a nossa grande família que é a Igreja, chamando-a de
“retrógrada” e “medieval”, e tratando ao Cardeal Alfonso López Trujillo, que
trabalha no Vaticano como Presidente do Pontifício Conselho para a Família, de
uma maneira afrontosa.  Culpam-no,
erradamente, de não ter apresentado nenhuma pesquisa sobre a ineficácia dos
preservativos.  Também por esta razão nos
vimos obrigados a citar bastantes pesquisas sobre esta matéria.  Trabalhos estes que também são do
conhecimento de D. Alfonso.

 

Os
Questionamentos

 

Alguns
meios de comunicação questionam: como é possível que a Igreja não recomende o
uso dos preservativos? Não é este o método mais eficaz para deter o avanço
dessa doença que está se convertendo numa verdadeira epidemia endêmica de
âmbito planetário?:  “A Igreja nega o
óbvio”, apregoa a manchete de um importante jornal paulistano…

Talvez nós,
que amamos a Igreja, nos sentimos constrangidos quando o Ministério da Saúde,
ou a Organização Mundial da Saúde (OMS) expressa opiniões semelhantes.

Vamos por
isso raciocinar juntos num âmbito familiar. 
Muitos de nós já enviamos a diferentes jornais artigos e cartas que
tentavam esclarecer o problema.  Mas ou
não os publicam ou os publicam fracionados ou incluídos num contexto que os
desfigura.  E é por isso que sinto
necessidade de abrir o coração e falar agora, sem entraves, à nossa querida
família cristã.  Esta é a razão de ser
desta carta familiar.  Num clima sereno,
sem polemicas, vamos ir deixando fluir os nossos pensamentos, procurando que
prevaleça o bom senso e a ponderação.

A OMS parte
de um fato: os costumes atuais não seguem as normas tradicionais, nas que as
relações sexuais estão destinadas a consumar um amor estável dentro do
matrimônio onde, como fruto desse amor, hão de vir os  filhos, criados e educados dentro desse
âmbito familiar.  Isto, porventura,
poderia ser considerado como o “ideal” mas – argumenta-se – não podemos viver
de “idealismos” mas de realidades. E a realidade é bem diferente. Os jovens
começam a ter relações sexuais antes do matrimônio; muitos não se casam, e
mantêm relações eventuais e transitórias; as moças jovens com freqüência
deixam-se levar pelos seus impulsos e sentimentos, não se vive a fidelidade
conjugal… Há, enfim, em não poucos ambientes um clima de permissividade ou
até de promiscuidade, bem diferente a um eventual e teórico “ideal”.  E é preciso encarar essa realidade, deixando
de lado certos princípios, que estão sendo ultrapassados pelo progresso das ciências
e das descobertas dos fármacos anticoncepcionais e dos preservativos.  A verdade é que a Igreja está fora da
realidade.

Continua-se
argumentando: Qual é o método mais seguro, barato e de fácil divulgação?: o
preservativo.  Mas o preservativo não tem
falhas?  Alguns representantes do Ministério
da Saúde e da OMS dizem taxativamente que não. 
Outros, contudo, admitem que elas existem, mas argumentam deste modo:
admitamos que os preservativos têm 10% de ineficácia, mas este risco é muito
maior quando eles não são usados; então o risco é de 100%.  É por esta razão que recomendamos o
preservativo.  Um cientista, num
importante jornal do Rio de Janeiro, alega que as vacinas contra o sarampo e a
pólio, também não imunizam 100%.  E nem
por isso se pensa na possibilidade de não usá-las ou de fazer campanhas
chamando a atenção para isso, sob pena de incentivar a rejeição das vacinas que
praticamente erradicaram aquelas doenças.

Estes
argumentos parecem tão contundentes que não poucos católicos ficam
perplexos.  Talvez não chegam a
contradizer abertamente a posição da Igreja, mas ficam com dúvidas ou acuados
ou pelo menos fragilizados.

 

Esclarecimentos
necessários

 

Devemos,
contudo, ponderar que a Igreja – a única instituição duas vezes milenar – tem
razões muito sérias para recomendar que não se usem os preservativos.  Convido-os, por isso, novamente, para
continuarmos refletindo juntos, com toda calma e serenidade.

Falando-lhes
como um irmão, preocupado como estou, que se deteve a estudar esse assunto em
profundidade, a fim trazer-lhes um posicionamento seguro a respeito destes
questionamentos, quero dizer-lhes que a argumentação antes apresentada – que
compara as falhas do preservativo com as das vacinas do sarampo, ou da pólio,
por exemplo – não é consistente, por duas razões:  a primeira, porque os vírus da pólio e do
sarampo não se podem evitar: atacam em qualquer momento, transmitem-se pelo ar
que se respira, pela água que se bebe, pelo alimento que se come ou pelo
contato habitual do relacionamento social… 
A AIDS, não: transmite-se fundamentalmente pelas relações sexuais. E
ninguém é obrigado a praticá-las com uma pessoa que não se conhece em
profundidade, da mesma maneira que é obrigado a comer, a beber, a respirar ou a
relacionar-se socialmente…  A segunda,
porque no caso dos preservativos, a propaganda recomenda o uso como se as
relações promíscuas fossem “normais”, inócuas, inevitáveis, ou até
recomendáveis.  Essa é a feição que tem
as propagandas que às vezes aparecem: “aproveite o carnaval, mas use ‘camisinha'”.  Aceita-se um pressuposto inadequado – a
promiscuidade – e inclusive incentiva-se a mesma:  “não se iniba, divirta-se, mas – cuidado! –
use ‘camisinha'”.

A
propaganda, em geral, não faz nenhuma advertência, não entra em sutilezas,
simplesmente incita a usar a “camisinha” fomentando o que este uso traz
consigo: uma relação eventual e insegura. 
É um meio que, sem dúvida, convida ao desregramento sexual.  Desregramento sexual este que traz consigo
muitos inconvenientes: o enfraquecimento da saúde e da força de vontade, a
perda de um comportamento social e profissionalmente correto, a falta de
respeito à pessoa humana e, sobretudo, a infidelidade conjugal e a gravidez
precoce, da qual não poucas vezes deriva o aborto.

A
mentalidade permissivista pode aceitar-se teoricamente, porém, quando na
prática nos afetam pessoalmente, é bem diferente.  Pode-se defender o “sexo livre”, mas ninguém
aceita que a sua esposa, ou o seu marido, tenha relações com um terceiro.  Pode-se, intelectualmente, ser favorável às
relações sexuais pré-matrimoniais, mas ninguém gosta que uma filha de quinze
anos fique grávida, ou que um filho de quatorze anos seja pai.  O fim bom não justifica utilizar meios
perversos.  Quem aceitaria montar uma
escola para ensinar aos pivetes de rua a roubar sem matar?  Alguém alegaria que o fim é excelente: evitar
muitas mortes.  Mas os meios utilizados
são péssimos.

Evitar o
pior não justifica consentir no que é mau. 
Evitar a AIDS é ótimo mas fomentar a promiscuidade é péssimo.  Não estaremos utilizando um inibidor para a
AIDS – o preservativo – que, em última análise, pode se tornar causa desta
mesma doença?  Descuida-se a educação dos
adolescentes para a afetividade e a vida sexual sadias, lamenta-se o uso
precoce do sexo e a gravidez das adolescentes e de repente, “a toque de caixa”,
põe-se nas mãos dos menores um pacote de preservativo como que dizendo: “fique
bem a vontade, a ‘camisinha’ garante”.  É
igual que querer apagar um incêndio com gasolina!  E depois chamam de irresponsável a quem dá um
grito de alerta.

O “slogan”
da “camisinha” que foi anunciado num conhecido programa de televisão é este:
“Pecado é não usar camisinha”.  É difícil
inventar uma tão ardilosa falácia. 
“Pecado é não usar ‘camisinha'”, mas não é pecado trair a esposa usando
camisinha; não é pecado o desregramento sexual porque se usa “camisinha”; não é
pecado deflorar uma menina porque se usa “camisinha”; não é pecado perverter
menores incitando-os a usar “camisinha”; não é pecado desfigurar a imagem do
Brasil, que tem tantos valores, apresentando-o como o país da libertinagem, das
mulheres fáceis, dos bacanais de carnaval…

Se uma
campanha gastou tempo para inventar esta “sutileza”, o que poderemos esperar no
desenvolvimento da mesma campanha? A Igreja simplesmente aconselha a ter um
comportamento decente – porque, não o esqueçamos, a questão consiste em ser
simplesmente decente – e deixa em liberdade para que as pessoas tomem a atitude
que o desejarem: não faz campanha.  Não
tem milhões para fazer propaganda.  Não
pressiona a opinião pública dessa maneira. 
Mas, tem que suportar o peso fabuloso que representa para a opinião
pública programas de televisão caríssimos. 
Nós perguntaríamos, quem realmente comete o pecado?  Por que esse interesse em denegrir a imagem
da Igreja?  Não será por medo que a
atitude transparente d’Ela desperte a consciência dos cidadãos?  Será necessário gastar milhões para tentar
convencê-los: “Não, não há pecado quando se usa ‘camisinha'”.  A Igreja não pretende admiração.  A Igreja o que pretende é respeito.

As ações
que facilitam a propagação de uma doença são eticamente reprováveis.  E os atos que desumanizam o sentido da
sexualidade são igualmente reprováveis. 
João Paulo II assim se expressou: “o uso dos preservativos acaba
estimulando, queiramos ou não, uma prática desenfreada do sexo”.

Podemos
inibir-nos as vezes, queridos irmãos e irmãs, mas é preciso ter a coragem de
dizer as verdades, aos filhos, à sociedade e ao Estado: não existe sociedade
estável, sem família bem constituída; não há família bem constituída sem
fidelidade conjugal; e não há fidelidade conjugal sem a educação da afetividade
e do sexo, sem auto-controle.  E quando
não há auto-controle, o que fazer?  A OMS
e o Ministério da Saúde advertem: Não é para se preocupar: use a
“camisinha”!  A “camisinha” soluciona
todos os problemas… Perguntamos: a “camisinha” protege das crises conjugais,
do sexo prematuro tão perturbador para tantos menores de idade, da delinqüência
juvenil e das conseqüências naturais da desestruturação do lar?  Sabemos muito bem que a questão não consiste
em curar os efeitos; é preciso suprimir as causas.  Não se soluciona o problema profilático da
água colocando um filtro em cada torneira, mas purificando a água na fonte, no
reservatório.  Não se encontra o remédio
na “camisinha”, mas na mudança de atitude: um verdadeiro trabalho educativo no
qual a Família, o Estado e a Igreja têm que envidar os mais vigorosos esforços.

Não, não é
com preservativos que se solucionarão os problemas do desregramento sexual, mas
com um trabalho profundo que venha a colocar no lugar que merece o valor da
vida, do amor, do sexo, do matrimônio e da família.

E é nessa
empreitada que está metida a Igreja.  A
Igreja não nega o óbvio.  A Igreja
reconhece o óbvio – a realidade – mais esforça-se por superá-la.  Talvez seja a única entidade, a nível
mundial, que tem a coragem de chamar as coisas pelo seu verdadeiro nome.  E talvez seja por essa razão que é tão
duramente criticada: a luz alegra os olhos sadios e fere os que estão doentes.

 

O
fundamento da posição da Igreja

 

Mas, caríssimos
amigos e amigas, voltemos a um ponto concreto destas nossas reflexões.  Há quem diga: que tem a ver a Igreja com a
eficácia técnica e profilática dos preservativos?  E nós poderíamos responder com toda a
certeza: em realidade ela não tem nada que ver com isso, como não tem nada que
ver com a eficácia da estreptomicina, enquanto o assunto estiver no âmbito
científico.  A Igreja defenderia a mesma
opinião de sempre ainda que os preservativos fossem absolutamente seguros.  Com efeito, o fundamento da posição da Igreja
é muito mais profundo: a mesma natureza humana.

O eminente
descobridor do HIV, Luc Montagnier, não se recusou a comprometer-se a fundo ao
indicar como deveriam ser as campanhas contra a AIDS: “são necessárias
campanhas contra práticas sexuais contrárias à natureza biológica do homem.  E, sobretudo, há que educar a juventude
contra o risco da promiscuidade e o vagabundeio sexual”[1].  Note-se que não é o Padre que fala no
confessionário, mas o cientista-descobridor do HIV.

A lei
natural determina que existe um vínculo inseparável entre a relação sexual e a
transmissão da vida.  Romper
artificialmente essa união – como acontece no uso do preservativo – representa
uma grave infração dessa mesma lei natural.

A Igreja
reafirmou este princípio em repetidos documentos.  Apresentamos aqui, apenas um texto da Humanae
Vitae, de Paulo VI: “A doutrina da Igreja está fundamentada sobre a conexão
inseparável que Deus quis e que o homem não pode alterar por sua iniciativa,
entre os dois significados do ato conjugal: o significado unitivo e o
significado procriador”(n. 12).

A mesma
Encíclica esclarece: “É de excluir, como o Magistério da Igreja repetidamente
declarou, a esterilização direta, tanto perpétua como temporária, e tanto do
homem como da mulher; é, ainda, de excluir toda, a ação que, ou em previsão do
ato conjugal, ou durante a sua realização, ou também durante o desenvolvimento
das suas conseqüências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar
impossível a procriação”(n. 14).

            Não se pode mudar a ordem natural em
função de uma solução imediatista e inadequada que, além de não solucionar o
problema da proliferação da AIDS, propicia e incentiva a uma prática desregrada
do sexo.

Se a Igreja
não tem porque dar um diagnostico técnico sobre a eficácia do preservativo,
contudo – como qualquer pai ou qualquer mãe – muito se importa quando se
pretende enganar os seus filhos com afirmações pouco transparentes ou
falaciosas.  Nos artigos que têm
aparecido recentemente nos jornais, infectologistas afirmam que “não conhecem
qualquer estudo confirmando que o vírus da AIDS passa  pelos poros da camisinha”.  Uma afirmação como esta só tem duas
explicações: ou, por um lado, há um desconhecimento das múltiplas pesquisas
verificativas existentes nesse sentido (ignorância que não se pode desculpar
num verdadeiro cientista); ou, por outro, existe má fé: ocultam-se dados
importantes para não tirar força a uma campanha que envolve milhões de reais,
alimenta a próspera “indústria do sexo” e enriquece os laboratórios.

 

A eficácia
dos preservativos

 

Com efeito,
existem numerosos trabalhos que demonstram a ineficácia dos preservativos.  A nossa conversa familiar está-se prolongando
demais.  Não a quero tornar mais
cansativa e pesada, com uma repetição enfadonha de dezenas de pesquisas
existentes nesta matéria.  Por isso
pediria o vosso consentimentos para citar apenas alguns exemplos.

“A Food and
Drug Administration (FDA) – entidade do governo dos Estados Unidos encarregada
de aprovar medicamentos, próteses, aditivos alimentares, etc. – estudou 430
marcas com 102.000 preservativos; 165 fabricadas nos EUA com 38.000
preservativos e 265 marcas estrangeiras com 64.000 preservativos.  O resultado da pesquisa verificou que 12% das
marcas de estadunidenses e 21% das estrangeiras não tinha um nível suficiente
de qualidade”[2].  “Aceitando essa taxa de defeitos, a
probabilidade de falha no caso do preservativo seria de 20,8% anual se
mantivessem relações uma vez por semana e de 41,6% se fossem duas vezes por
semana”[3].

“Em 1992 o
Dr. Ronald F. Carey, pesquisador da FDA, introduz microesferas de poliestireno
do diâmetro do HIV em preservativos que tinham superado positivamente o teste
da FDA e os submeteu a variações de pressão similares às que se produzem numa
relação sexual: um terço deles perdeu entre 0,4 e 1,6 nanolitros.  Numa relação sexual de dois minutos, com um
preservativo que perde um nanolitro por segundo, passariam 12.000 vírus de HIV”[4].  Como se observa, a porosidade do látex pode
permitir a passagem de milhares de vírus da AIDS, com toda a sua carga
mortífera, apenas numa breve relação. 
Este vírus é 450 vezes menor que o espermatozóide.

O Centro de
Controle de Doenças de Atlanta (EEUU), o que mais informações possuem na luta
contra AIDS, reconhece que “o uso apropriado dos preservativo em cada ato
sexual pode reduzir, mas não eliminar, o risco de doenças de transmissão
sexual” e acrescenta: “a abstinência e a relação sexual com um parceiro(a)
mutuamente fiel e não infectado (a) são as únicas estratégias preventivas
totalmente eficazes”.  Nestes mesmos
termos, a OMS, paradoxalmente, em algum momento já  afirmou que “só a abstinência ou a fidelidade
recíproca perdurável entre os parceiros sexuais não infectados, elimina
completamente o risco de infecção do vírus HIV”.[5]  Se tornássemos a ler, novamente, esta última
frase pareceria estarmos escutando um aconselhamento da Igreja.  Mas, não, é a própria OMS que o afirma.  Criticando a Igreja, essa organização está,
sem perceber, contestando afirmações feitas por ela mesma.

Uma fonte da
Internet subscreve: “Em maio de 2003, um estudo realizado na França pelo
“Instituto da Saúde e da Pesquisa Médica”, poe os cabelos em pé, ao indicar que
a metade dos preservativos usados se rompem ou se utilizam mal: há, portanto,
segundo esse estudo, somente uns 50% de eficácia prática dos
preservativos.  A eficácia teórica,
realizada no laboratório em condições ideais, é bem diferente da eficácia
alcançada no uso prático dos preservativos.

Esta mesma
fonte acrescenta: “Toda sociedade se fundamenta na confiança que os cidadãos
têm nos responsáveis políticos, escolhidos democraticamente nas urnas, por isso
mesmo não há nada mais decepcionante que a queda dessa confiança.  Confiamos em que os responsáveis políticos haverão
tomado nota destes importantes estudos que se acabam de citar, para agir em
conseqüência, já que não se pode brincar com a saúde dos cidadãos”[6].

Não se
poderia aplicar esse apelo a algumas autoridades brasileiras e a certos meios
de comunicação social?  Por que culpar o
Cardeal Lopez Trujillo das suas afirmações e não ao Instituto da Saúde e da
Pesquisa Médica da França?  Aliás, ao
referirmos ao Cardeal Lopez Trujillo, acrescentaremos a resposta que ele mesmo
deu à BBC de Londres depois das suas declarações tão mal interpretadas, dizendo
que o Sr. Cardeal não apresentava provas científicas para as suas
declarações.  Assim se expressa D.
Alfonso:”Há muitos estudos publicados que fazem surgir dúvidas fundamentadas no
que diz respeito à «segurança» do uso do preservativo. Jacques Suaudeau, doutor
em Medicina, que seguiu de perto o debate e problema da AIDS na África, tem um
importante artigo em nosso «Lexicon» cheio de anotações bibliográficas acerca
do tema. Nós recebemos também notícias de um relatório de grupos que
representam 10.000 médicos que acusam o «Centre for Disease Control» (CDC) nos
Estados Unidos de ocultar a pesquisa do próprio governo, a qual mostrava a
«ineficácia dos preservativos para prevenir a transmissão de doenças
sexualmente transmissíveis». Este informe do «Catholic Family and Human Rights
Insitut» (um grupo em Nova
York que controla os temas da ONU em relação à família e à
vida) manifesta além disso que a rejeição do CDC de reconhecer este fato
«contribuiu para propagar a epidemia de doenças sexualmente transmissíveis»”.

Infelizmente
do equívoco da BBC se fez eco uma muito conhecida revista brasileira e, aquele
programa de televisão de tão grande audiência a que nos referimos antes.  Não é só a imatura superficialidade de ambas
as reportagens as que nos causam espanto, mas a irresponsabilidade com que se
acusa, sem provas, (aí sim é que não apresentam provas!) uma autoridade da
Igreja digna de crédito.

Poderíamos
prosseguir citando dúzias de pesquisas até esgotar a vossa paciência, queridos
irmãos e irmãs.  Limitamo-nos apenas a
fazer constância de algumas delas, a mais, citando-as no fim desta carta.

Depois de
tudo o que foi dito perguntamos: como é possível que um pesquisador, professor
de uma renomada Universidade do Rio de Janeiro, possa afirmar que “não existe
qualquer estudo mostrando que a “camisinha” é ineficaz na prevenção da
AIDS”?  Como se explica que as críticas
dirigidas a quem desaconselha o uso do preservativo e propõe uma educação
afetiva e sexual mais de acordo com a natureza humana, tenha como um único destinatário
a Igreja Católica?

O
descobridor do HIV, o Centro de Controle de Doenças de Atlanta, o “Instituto da
Saúde e da Pesquisa Médica da França, não falam fundamentando-se numa norma
religiosa mas, pelo contrário, baseando-se nos resultados orientados por um
estudo científico sério e consciencioso.

Então, como
é possível dizer que a “Igreja nega o óbvio”? 
Não seria melhor asseverar que a Igreja afirma o que toda pessoa com um
mínimo de informação e de consciência ética também afirmaria, seja esta hindu,
budista, maometana, cristã ou espírita; quer seja parte do povo comum do
Brasil, quer integre um governo que diz querer representar os sentimentos desse
povo?

Voltamos a
insistir em algo fundamental: a Igreja não rejeita o uso de preservativos
somente porque estes não são eficazes. Continuaria afirmando o mesmo se estes
fossem 100% perfeitos, em todo momento e em todas as circunstâncias.  Mas levando em conta as falhas da
“camisinha”, é natural que, como faria qualquer mãe responsável, advirta aos
seus filhos dos riscos que correm.  Há
momentos em que calar-se representa uma grave omissão.  Porque faz isso o Ministério da Saúde?  Como já afirmamos em outro momento, não é
transparente uma propaganda de difusão indiscriminada do uso do preservativo
sem chamar a atenção sobre os seus perigos. 
Se todo laboratório tem a obrigação legal de indicar na bula dos
remédios os efeitos colaterais do mesmo, e os fabricantes de cigarros alertar,
em cada maço, as doenças que o fumo provoca, o Ministério da Saúde tem também a
obrigação de prevenir a população a respeito do risco no uso dos
preservativos.  Coisa que ele
sistematicamente não faz: fala-se sempre de “sexo seguro”.

 

A atitude
da Igreja dissemina a AIDS?

 

A Igreja
não está impedindo o combate à AIDS, pelo fato de não concordar com o uso da
“camisinha”.  Quem afirmar o contrário
está difundindo uma inverdade insidiosa que muitos aceitam passivamente sem
ulteriores verificações.  Como uma pequena
mostra disto que acabamos de afirmar copio um artigo de, ISTMO, uma conhecida e
prestigiosa revista cultural mexicana, – não de uma revista religiosa – escrita
por um especialista na matéria e não por um moralista: “Se analisarmos a AIDS
na África, devemos pensar que a influência da Igreja Católica se circunscreve a
15,6% da sua população total.  Alguém se
atreveria a afirmar que a AIDS prejudica em maior medida aos católicos do que
aos muçulmanos ou animistas?  Não seria
possível fazer isto, já que diversas estatísticas demonstram que a comunidade
católica sofre em medida bem menor a praga da AIDS: é lógico que o ensinamento
em favor da monogamia e da castidade tenham os seus efeitos positivos em
ambiente de promiscuidade generalizada.

“Então
entre que grupos humanos a atitude da Igreja poderia contribuir para disseminar
AIDS?  Entre os católicos sem prática
religiosa, nem vivência dos seus princípios morais?  Seria sensato supor que quem é infiel a sua
esposa, virá a respeitar a orientação da Igreja que desaconselha o uso do
preservativo?  Nestas condições correria,
por acaso, o risco de contaminar-se para ser fiel às orientações de uma
religião que não pratica?  Seria um
absurdo. Evidentemente que quem não têm escrúpulos de ter relações com uma
mulher fácil ou uma prostituta, nem se apresentará a questão da licitude moral
do preservativo.  Portanto acusar a
Igreja Católica na difusão da AIDS por esse motivo é, mais do que um absurdo,
uma manobra para negar-se a reconhecer a realidade contrária: sem a moral
católica a sociedade seria mais promíscua e, em conseqüência, a AIDS estaria
muito mais estendida”.[7]

The Wall
Street Journal, no 14 de outubro último, deixou constância que 25% dos doentes
de AIDS no mundo são atendidos por instituições católicas.  E, igualmente, afirmou que os estudos
científicos – um deles a cargo do Serviço de Saúde dos Estados Unidos e outro à
responsabilidade da Universidade de Harvard – coincidiam em alertar sobre os
decepcionantes resultados da prevenção da AIDS baseados no preservativo.  Menciona-se o caso de Uganda que em 1991
contava com uma taxa de infecção de 20%, enquanto que no ano de 2002 tinha
descido aos 6%, em virtude de uma política sanitária centrada na fidelidade e
na abstinência, não no preservativo, (à diferença de Botsuana e Zimbábue que
ainda ocupam os primeiros lugares nos contágios)[8].

Chama a
atenção que estes fatos são sistematicamente silenciados.  Por baixo das realidades verdadeiramente
científicas desliza uma correnteza estranha e anticientifica que silencia estas
realidades positivas.  A agência LifeSite
e a agência ACI, por exemplo, denunciaram recentemente que a maioria dos
informes sobre a AIDS na África ignoram sempre os êxitos conseguidos em Uganda,
por haver apostado, na sua política sanitária, na promoção da abstinência
sexual, da fidelidade e da castidade.

Muitas
autoridades, incluindo o Secretário de Estado norte-americano Colin Powell,
louvaram e reconheceram o êxito de Uganda em reduzir a taxa de infecção uns 50%
desde 1992.  Inclusive a CNN informou que
no ano 2000 foi o país “com maior sucesso na luta contra a AIDS”.  No entanto a LifeSite adverte que por uma
razão desconhecida “o êxito de Uganda poucas vezes é mencionado”[9].

Questionamo-nos
se essas razões, desconhecidas e entranhas, são as que fazem a alguns
cientistas brasileiros dizerem que “desconhecem a existência de pesquisas sobre
falhas nos preservativos” e os levam a formular críticas maldosas dizendo que a
Igreja “desconhece a realidade” e “nega o óbvio”.

O jornal
espanhol La Gaceta
de los Negócios, (16/12/02) comenta nesse sentido: “os patrocinadores do preservativo,
como principal instrumento de prevenção da Aids, em lugar de aceitar esta
evidência – o grande sucesso da Uganda – se obstinam nas políticas de extensão
do uso do preservativo, que leva inevitavelmente consigo o implícito convite à
promiscuidade sexual

[1] Luc Montagnier. “AIDS Natureza do Vírus”, em Atas da IV
Reunião Internacional da AIDS, 1989, p.52.

[2] CDC. “Preservativos for
prevention of sexually transmitted diseases”. MMWR. N. 37, 1988, pp.
133-134, cit. por Ernesto Aguilar – Alvarer Bay, “Campañas que matan”, ISTMO, México-DF., Março-Abril 2003, p. 35.

[3] F. Guillén, I. Aguinaga., “Efectividad de los preservativos em la
prevención de la infección por HIV em casais de pessoas soropositivas”.
Méd. Clin. N. 105, 1995, p. 542, cit. Por Ernesto Aguilar, loc. Cit.

[4] Cit. Por Ernesto Aguilar
Alvarez Bay, loc. Cit.

[5] OMS., 20 de janeiro de
1992, n°. 17.

[6] José Javier Ávila
Martinez., www.piensaunpoco.com

[7] Ernesto Aquilez – Alvarez
Bay. “Istmo”. México, DF, Março a Abril de 2003, p. 38.

[8] Aceprensa. Madrid, 22 de
outubro 2003, p.3.

[9] VII Congreso Nacional Sobre
el SIDA, maio de 2003, Bilbao, Espanha.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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