Carta Apostólica Salvifici Doloris: O Sentido do Sofrimento Humano (Parte 5)

Se Cristo, conhecedor do intimo do homem, põe em realce esta comoção, quer dizer que ela é importante para todo o nosso modo de comportar-nos diante do sofrimento de outrem. É necessário, portanto, cultivar em si próprio esta sensibilidade do coração, que se demonstra na compaixão por quem sofre. Por vezes esta compaixão acaba por ser a única ou a principal expressão do nosso amor e da nossa solidariedade com o homem que sofre. O Bom Samaritano da parábola de Cristo não se limita, todavia, à simples comoção e compaixão. Estas transformam-se para ele num estímulo para as acções que tendem a prestar ajuda ao homem ferido. Bom Samaritano, portanto, é, afinal, todo aquele que presta ajuda no sofrimento, seja qual for a sua espécie; uma ajuda, quanto possível, eficaz. Nela põe todo o seu coração, sem poupar nada, nem sequer os meios materiais. Pode-se dizer mesmo que se dá a si próprio, o seu próprio « eu », ao outro. Tocamos aqui um dos pontos-chave de toda a antropologia cristã. O homem «não pode encontrar a sua própria plenitude a não ser no dom sincero de si mesmo». (92) Bom Samaritano é o homem capaz, exatamente, de um tal dom de si mesmo.

29. Seguindo a parábola evangélica, poder-se-ia dizer que o sofrimento, presente no nosso mundo humano sob tantas formas diversas, também aí está presente para desencadear no homem o amor, precisamente esse dom desinteressado do próprio « eu » em favor dos outros homens, dos homens que sofrem. O mundo do sofrimento humano almeja sem cessar, por assim dizer, outro mundo diverso: o mundo do amor humano; e aquele amor desinteressado que vem do coração e transparece nas ações da pessoa que sofre; amor que esta deve, aliás, em certo sentido ao sofrimento. O homem que é o « próximo » não pode passar com indiferença diante do sofrimento de outrem; e isso, por motivo da solidariedade humana fundamental e em nome do amor ao próximo. Deve «parar», «deixar-se comover», como fez o Samaritano da parábola evangélica. Esta parábola, em si mesma, exprime uma verdade profundamente cristã e, ao mesmo tempo, muitíssimo humana universalmente. Não é sem motivo que até na linguagem corrente se designa obra de « bom samaritano » qualquer atividade em favor dos homens que sofrem ou precisam de ajuda.

Esta atividade adota, ao longo dos séculos, formas institucionais organizadas e constitui um campo de trabalho nas respectivas profissões. Quanto de «bom samaritano» têm as profissões do médico ou a da enfermeira, ou outras similares! Em virtude do conteúdo «evangélico» que nelas se encerra, somos inclinados a pensar, nestes casos, mais em vocação do que em simples profissão. E as instituições que, no decorrer das gerações, realizaram um serviço de « bom samaritano », desenvolveram-se e especializaram-se ainda mais nos nossos dias. Isto prova, sem sombra de dúvida, que o homem de hoje se detém cada vez com maior atenção a perspicácia junto aos sofrimentos do próximo, tenta compreendê-los e precavê-los, de modo cada vez mais preciso, e conquista também, cada vez mais, capacidade e especialização neste sector.

Tendo presente tudo isto, podemos dizer que a parábola do Samaritano do Evangelho se tornou uma das componentes essenciais da cultura moral e da civilização universalmente humana. E pensando em todas aquelas pessoas que, com a sua ciência e capacidade, prestam múltiplos serviços ao próximo que sofre, não podemos deixar de ter para com elas uma palavra de reconhecimento e de gratidão. Esta palavra estende-se a todos aqueles que exercem o próprio serviço para com o próximo que sofre, de maneira desinteressada, aplicando-se voluntariamente em dar ajuda de «bom samaritano» e destinando a essa causa todo o tempo e forças que lhes ficam do trabalho profissional.

 Tal atividade espontânea como «bom samaritano», ou caritativa, pode ser chamada atividade social; e pode também ser definida como apostolado quando é empreendida por motivos lidimamente evangélicos, sobretudo quando isso sucede em ligação com a Igreja ou com uma outra Comunidade cristã. A atividade voluntária de «bom samaritano» realiza-se nas instituições e meios apropriados, ou então através de organizações criadas para determinado fim. Estas formas de atuação têm grande importância, especialmente quando se trata de assumir tarefas de maior vulto, que exijam cooperação e uso de meios técnicos. Permanece não menos valiosa também a atividade individual, especialmente a atividade daquelas pessoas que se sentem mais aptas para cuidarem de certas espécies de sofrimento humano, a que não se pode dar ajuda senão individual e pessoalmente. Depois há a ajuda familiar, que compreende quer os atos de amor ao próximo feitos em benefício dos membros da própria família, quer a ajuda recíproca entre as famílias. É difícil apresentar um elenco de todos os gêneros e de todas as esferas da atividade de «bom samaritano» que existem na Igreja e na sociedade. Importa pelo menos reconhecer que são muito numerosos e, por isso, exprimir alegria; com efeito, graças a eles, os valores morais fundamentais, como o valor da solidariedade humana, o valor do amor cristão ao próximo, compõem o quadro da vida social e das relações inter-humanas e aí fazem frente às diversas formas do ódio, da violência, da crueldade, do desprezo pelo homem, ou até da simples «insensibilidade», ou seja, da indiferença para com o próximo e os seus sofrimentos.

Neste ponto é para salientar o grandíssimo significado das atitudes que convém adoptar na educação. A família, a escola e as outras instituições educativas – ainda que seja somente por motivos humanitários – devem trabalhar com perseverança no sentido de despertar e apurar aquela sensibilidade para com o próximo e o seu sofrimento, de que se tornou símbolo a figura do Samaritano do Evangelho. A Igreja deve fazer o mesmo, como é óbvio; e, se for possível, ajudar a aprofundar ainda mais tal sentido, com a perscrutação das motivações que Cristo apresentou na sua parábola e em todo o Evangelho. A eloquência da parábola do Bom Samaritano – como de todo o Evangelho, de resto – está sobretudo nisto: o homem deve sentir-se como que chamado, de maneira muito pessoal, a testemunhar o amor no sofrimento. As instituições são muito importantes e indispensáveis; no entanto, nenhuma instituição, só por si, pode substituir o coração humano, a compaixão humana, o amor humano, a iniciativa humana, quando se trata de ir ao encontro do sofrimento de outrem. Isto é válido pelo que se refere aos sofrimentos físicos; mas é mais válido ainda quando se trata dos múltiplos sofrimentos morais e, sobretudo, quando é a alma que está a sofrer.

30. A parábola do Bom Samaritano que, como foi dito, pertence sem dúvida ao Evangelho do sofrimento, com ele tem caminhado ao longo da história da Igreja e do Cristianismo e ao longo da história do homem e da humanidade. Ela testemunha que a revelação, feita por Cristo, do sentido salvífico do sofrimento, não o identifica, de forma alguma, com um comportamento de passividade. Muito pelo contrário. O Evangelho é a negação da passividade diante do sofrimento.
O próprio Cristo, neste aspecto, é sobretudo ativo. E assim, realiza o programa messiânico da sua missão em conformidade com as palavras do Profeta: « O Espírito do Senhor está sobre mim; porque me conferiu a unção e me enviou para anunciar aos pobres a boa nova, para anunciar aos cativos a libertação e aos cegos o dom da vista; para pôr em liberdade os oprimidos e promulgar um ano de graça da parte do Senhor ». (93) Cristo realiza de modo superabundante este programa messiânico da sua missão: passa « fazendo o bem »; (94) e o bem resultante das suas obras assumiu grande realce sobretudo diante do sofrimento humano. A parábola do Bom Samaritano está em profunda harmonia com o comportamento do próprio Cristo. Esta parábola, por fim, quanto ao seu conteúdo, tem cabimento naquelas inquietantes palavras do juízo final, que São Mateus recolheu no seu Evangelho: «Vinde, benditos de meu Pai, entrai na posse do reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber; era peregrino e destes-me hospedagem, andava nu e vestistes-me, estava doente e visitastes-me, estava no cárcere e fostes ver-me». (95) Aos justos que perguntam quando fizeram precisamente a ele tudo isso, o Filho do Homem responderá: « Em verdade vos digo que tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes ». (96) Sentença contrária caberá àqueles que se houverem comportado diversamente: « tudo o que não fizestes a um destes pequeninos a mim deixastes de o fazer ». (97) Poder-se-ia certamente ampliar a lista dos sofrimentos que encontraram eco na sensibilidade humana, na compaixão e na ajuda, ou que não o encontraram.

A primeira e a segunda parte da declaração de Cristo sobre o juízo final indicam, sem ambiguidade, quanto são essenciais para todos os homens, na perspectiva da vida eterna, o « parar », como fez o Bom Samaritano, junto do sofrimento do seu próximo, o ter « compaixão » dele, e, por fim, ajudá-lo. No programa messiânico de Cristo, que é ao mesmo tempo o programa do reino de Deus, o sofrimento está presente no mundo para desencadear o amor, para fazer nascer obras de amor para com o próximo, para transformar toda a civilização humana na «civilização do amor». Com este amor é que o significado salvífico do sofrimento se realiza totalmente e atinge a sua dimensão definitiva. As palavras de Cristo sobre a juízo final permitem compreender isto, com toda a simplicidade e clareza típicas do Evangelho. Estas palavras sobre o amor, sobre os actos de caridade relacionados com o sofrimento humano, permitem-nos descobrir, uma vez mais, por detrás de todos os sofrimentos humanos, o próprio sofrimento redentor de Cristo. O mesmo Cristo diz: «A mim o fizestes».

É Ele próprio quem, em cada um, experimenta o amor; é Ele próprio quem recebe ajuda, quando ela é prestada a quem quer que sofra, sem exceção. Ele próprio está presente em quem sofre, pois o seu sofrimento salvífico foi aberto de uma vez para sempre a todo o sofrimento humano. E todos os que sofrem foram chamados, de uma vez sempre, a tornarem-se participantes « dos sofrimentos de Cristo ». (98) Assim como todos foram chamados a « completar » com o próprio sofrimento « o que falta aos sofrimentos de Cristo ». (99) Cristo ensinou o homem a fazer bem com o sofrimento e, ao mesmo tempo, a fazer bem a quem sofre. Sob este duplo aspecto, revelou cabalmente o sentido do sofrimento.

VIII. Conclusão
31. Tal é o sentido do sofrimento: verdadeiramente sobrenatural e, ao mesmo tempo, humano; é sobrenatural, porque se radica no mistério divino da Redenção do mundo; e é também profundamente humano, porque nele o homem se aceita a si mesmo, com a sua própria humanidade, com a própria dignidade e a própria missão.

O sofrimento faz parte, certamente, do mistério do homem. Talvez não esteja tão envolvido como o mesmo homem por este mistério, que é particularmente impenetrável. O Concílio Vaticano II exprimiu esta verdade assim: « na realidade, só no mistério do Verbo Encarnado encontra verdadeira luz o mistério do homem. Com efeito…, Cristo, que é o novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai o do Seu amor, também manifesta plenamente o homem ao homem e descobre-lhe a sublimidade da sua vocação». (100) Se é verdade que estas palavras dizem respeito a tudo o que concerne o mistério do homem, então elas referem-se de modo particularíssimo, certamente, ao sofrimento humano. Quanto a este ponto, o «revelar o homem ao homem e descobrir-lhe a sublimidade de sua vocação» é sobremaneira indispensável. Acontece porém – como a experiência demonstra – isso ser particularmente dramático. Mas quando se realiza totalmente e se transforma em luz para a vida humana, é também particularmente bem-aventurante. «Por Cristo e em Cristo se esclarece o enigma da dor e da morte».

(101) Concluímos as presentes considerações sobre o sofrimento no ano em que a Igreja está a viver o Jubileu extraordinário, relacionado com o aniversário da Redenção. O mistério da Redenção do mundo está radicado no sofrimento de modo maravilhoso; e o sofrimento, por sua vez, tem nesse mistério o seu supremo e mais seguro ponto de referência.

Desejamos viver este ano da Redenção numa união especial com todos os que sofrem. É necessário pois, que se congreguem em espírito, junto à Cruz do Calvário, todos aqueles que sofrem e acreditam em Cristo; e, especialmente, aqueles que sofrem por causa da sua fé n-Ele, Crucificado e Ressuscitado, a fim de que o oferecimento dos seus sofrimentos apresse o realizar-se da oração do mesmo Salvador pela unidade de todos. (102) Que para lá afluam também os homens de boa vontade, porque na Cruz está o « Redentor do homem », o Homem das dores, que assumiu sobre si os sofrimentos físicos e morais dos homens de todos os tempos, para que estes possam encontrar no amor o sentido salvífico dos próprios sofrimentos e respostas válidas para todas as suas interrogações. Com Maria, Mãe de Cristo, que estava de pé junto à Cruz, (103) nós detemos-nos junto a todas as cruzes do homem de hoje.

Invocamos todos os Santos, que no decorrer dos séculos foram de modo especial participantes nos sofrimentos de Cristo. Pedimos a sua proteção. E pedimos a todos vós que sofreis, que nos ajudeis. Precisamente a vós, que sois fracos, pedimos que vos torneis uma fonte de força para a Igreja e para a humanidade. Na terrível luta entre as forças do bem e do mal, de que o nosso mundo contemporâneo nos oferece o espectáculo, que vença o vosso sofrimento em união com a Cruz de Cristo!

A todos, caríssimos Irmãos e Irmãs, envio a minha Bênção Apostólica.

Dado em Roma, junto de São Pedro, na memória litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes, a 11 de Fevereiro do ano de 1984, sexto do meu Pontificado.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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