Carta Apostólica Salvifici Doloris: O Sentido do Sofrimento Humano (Parte 3)

(49) Juntamente com este horrível peso, que dá bem a medida de «todo» o mal que está em voltar as costas a Deus, contido no pecado, Cristo, mediante a profundidade divina da união filial com o Pai, apercebe-se bem, de modo humanamente inexprimível, deste sofrimento que é a separação, a rejeição do Pai, a ruptura com Deus. Mas é exatamente mediante este sofrimento que ele realiza a Redenção e pode dizer ao expirar: «Tudo está consumado». (50) Pode-se dizer também que se cumpriu a Escritura, que se realizaram definitivamente as palavras do Canto do Servo sofredor: «Aprouve ao Senhor esmagá-lo pelo sofrimento». (51) O Sofrimento humano atingiu o seu vértice na paixão de Cristo; e, ao mesmo tempo, revestiu-se de uma dimensão completamente nova e entrou numa ordem nova: ele foi associado ao amor, àquele amor de que Cristo falava a Nicodemos, àquele amor que cria o bem, tirando-o mesmo do mal, tirando-o por meio do sofrimento, tal como o bem supremo da Redenção do mundo foi tirado da Cruz de Cristo e nela encontra perenemente o seu princípio. A Cruz de Cristo tornou-se uma fonte da qual brotam rios de água viva. (52) Nela devemos também repropor-nos a pergunta sobre o sentido do sofrimento, e ler aí até ao fim a resposta a tal pergunta.

V. Participantes nos sofrimentos de Cristo
19. 0 mesmo Canto do Servo sofredor no Livro de Isaías conduz-nos, através dos versículos seguintes, exatamente na direção dessa pergunta e dessa resposta: «Aprouve ao Senhor que… oferecendo a sua vida em expiação, gozasse de uma descendência longeva e por seu meio tivesse efeito o intento do Senhor. Das aflições do seu coração sairá para ver a luz e desta visão se há-de saciar. O Justo, meu servo, justificará a muitos e tomará sobre si as nossas culpas. Por isso, dar-lhe-ei-em prêmio as multidões e fará dos poderosos os seus despojos, em recompensa de se ter prodigalizado, mesmo até à morte, e se ter deixado contar entre os malfeitores, quando, ao invés, ele tomou sobre si a culpa de muitos e intercede pelos malfeitores». (53) Pode-se dizer que com a paixão de Cristo todo o sofrimento humano veio a encontrar-se numa nova situação. Parece mesmo que Job a tinha pressentido, quando dizia: «Eu sei que o meu Redentor está vivo…», (54) e que para ela tivesse orientado o seu próprio sofrimento que, sem a Redenção, não teria podido revelar-lhe a plenitude do seu significado. Na Cruz de Cristo, não só se realizou a Redenção através do sofrimento, mas também o próprio sofrimento humano foi redimido. Cristo – sem ter culpa nenhuma própria – tomou sobre si «todo o mal do pecado». A experiência deste mal determinou a proporção incomparável do sofrimento de Cristo, que se tornou o preço da Redenção. É disto que fala o Canto do Servo sofredor de Isaías. Disto falarão também, a seu tempo, as testemunhas da Nova Aliança, estabelecida com o Sangue de Cristo. Eis as palavras do  Apóstolo Pedro, na sua primeira Carta: «Vós sabeis que não fostes resgatados dos vossos costumes úteis, herdados dos vossos antepassados, a preço de coisas corruptíveis, como a prata e o ouro, mas pelo sangue precioso de Cristo, como de um cordeiro sem defeito e sem mácula». (55) E o Apóstolo Paulo, na Carta aos Gálatas, dirá:
«Entregou-se a si mesmo pelos nossos pecados, a fim de nos subtrair ao mundo maligno em que vivemos»; (56) e na primeira Carta aos Coríntios: «Fostes comprados por elevado preço. Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo». (57) É assim, com estas e com expressões semelhantes, que as testemunhas da Nova Aliança falam da grandeza da Redenção, que se realizou mediante o sofrimento de Cristo. O Redentor sofreu em lugar do homem e em favor do homem. Todo o homem tem uma sua participação na Redenção. E cada um dos homens é também chamado a participar naquele sofrimento, por meio do qual se realizou a Redenção; é chamado a participar naquele sofrimento, por meio do qual foi redimido também todo o sofrimento humano. Realizando a Redenção mediante o sofrimento, Cristo elevou ao mesmo tempo o sofrimento humano ao nível de Redenção. Por isso, todos os homens, com o seu sofrimento, se podem tornar também participantes do sofrimento redentor de Cristo. 20. Os textos do Novo Testamento exprimem esta mesma ideia em diversos pontos. Na segunda  Carta aos Coríntios, o Apóstolo escreve: «Em tudo atribulados, mas não oprimidos, perplexos, mas não desesperados, perseguidos, mas não abandonados, abatidos, mas não perdidos, por toda aparte levamos sempre no corpo os sofrimentos de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste no nosso corpo. De fato, enquanto vivemos, somos continuamente entregues à morte por causa de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste também na nossa carne mortal … com a certeza de que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus, nos ressuscitará também a nós com Jesus». (58)
São Paulo fala dos diversos sofrimentos e, em particular, daqueles em que os primeiros cristãos se tornavam participantes «por causa de Jesus». Estes sofrimentos permitem aos destinatários desta Carta participar na obra da Redenção, realizada mediante os sofrimentos e a morte do Redentor. A eloquência da Cruz e da morte, no entanto, é completada com a eloquência da Ressurreição. O homem encontra na Ressurreição uma luz completamente nova, que o ajuda a abrir caminho através das trevas cerradas das humilhações, das dúvidas, do desespero e da perseguição. Por isso, o Apóstolo escreverá ainda na segunda Carta aos Coríntios: «Pois, assim como são abundantes para nós os sofrimentos de Cristo, assim por obra de Cristo é também superabundante a nossa consolação». (59) Noutras passagens dirige aos destinatários dos escritos palavras de encorajamento: «Que o Senhor dirija os vossos corações para o amor de Deus e a paciência de Cristo». (60) E na Carta aos Romanos escreve: «Exorto-vos, pois, irmãos, pela misericórdia de Deus, a oferecer os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; é este o culto espiritual que lhe deveis prestar». (61) A própria participação nos sofrimentos de Cristo, nestas expressões apostólicas, reveste-se de uma dupla dimensão. Se um homem, se torna participante dos sofrimentos de Cristo, isso acontece porque Cristo abriu o seu sofrimento ao homem, porque Ele próprio, no seu sofrimento redentor, se tornou, num certo sentido, participante de todos os sofrimentos humanos. Ao descobrir, pela fé, o sofrimento redentor de Cristo, o homem descobre nele, ao mesmo tempo, os próprios sofrimentos, reencontra-os, mediante a fé, enriquecidos de um novo conteúdo e com um novo significado. Esta descoberta ditou a São Paulo palavras particularmente vigorosas na Carta aos Gálatas: «Com Cristo estou cravado na Cruz; e já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim. E, enquanto eu vivo a vida mortal, vivo na fé do Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim». (62) A fé permite ao autor destas palavras conhecer aquele amor que levou Cristo à Cruz. E se ele amou assim, sofrendo e morrendo, então, com este seu sofrimento e morte, ele vive naquele a quem amou assim, vive no homem: em Paulo. E vivendo nele – à medida que o Apóstolo, consciente disso mediante a fé, responde com amor ao seu amor – Cristo torna-se também de um modo particular unido ao homem, a Paulo, através da Cruz. Esta união inspirou ao mesmo Apóstolo, ainda na Carta aos Gálatas, estas outras palavras, não menos fortes: «Quanto a mim, jamais suceda que eu me glorie a não ser na Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, como eu para o mundo». (63)

21. A Cruz de Cristo projeta a luz salvífica de um modo assim tão penetrante sobre a vida do homem e, em particular, sobre o seu sofrimento, porque, mediante a fé, chega até ele juntamente com a Ressurreição: o mistério da paixão está contido no mistério pascal. As testemunhas da paixão de Cristo são, ao mesmo tempo, testemunhas da sua Ressurreição. São Paulo escreve: «Poderei conhecê-lo, a ele e à força da sua Ressurreição, e ser integrado na participação dos seus sofrimentos, transformado numa imagem da sua morte, com a esperança de chegar à ressurreição dos mortos». (64) O Apóstolo experimentou isto verdadeiramente: em primeiro lugar, «a força da Ressurreição» de Cristo, no caminho de Damasco; e só depois, nesta luz pascal, chegou àquela «participação nos seus sofrimentos» de que fala, por exemplo, na Carta aos Gálatas. A caminhada de São Paulo é claramente pascal: a participação na Cruz de Cristo realiza-se através da experiência do Ressuscitado e, por isso, graças a uma participação especial na Ressurreição. E por esta razão que mesmo nas expressões do Apóstolo sobre o tema do sofrimento aparece tão frequentemente o motivo da glória, à qual a Cruz de Cristo dá início. As testemunhas da Cruz e da Ressurreição estavam convencidas de que «através de muitas tribulações é que temos de entrar no reino de Deus». (65) E São Paulo, escrevendo aos Tessalonicenses, exprime-se deste modo: «Nós mesmos nos ufanamos de vós… pela vossa constância e pela vossa fidelidade, no meio de todas as vossas aflições e perseguições que suportais. É isto um indício do justo juizo de Deus, para que sejais feitos dignos do reino de Deus, pelo qual, precisamente, sofreis». (66) Portanto, a participação nos sofrimentos de Cristo é, ao mesmo tempo, sofrimento pelo reino de Deus. Aos olhos de Deus justo, frente ao seu juízo, todos os que participam nos sofrimentos de Cristo tornam-se dignos deste reino. Mediante os seus sofrimentos, eles restituem, em certo sentido, o preço infinito da paixão e morte de Cristo, que se tornou o preço da nossa Redenção: por este preço, o reino de Deus foi de novo consolidado na história do homem, tornando-se a perspectiva definitiva da sua existência terrena. Cristo introduziu-nos neste reino pelo seu sofrimento. E é também mediante o sofrimento que amadurecem para ele os homens envolvidos pelo mistério da Redenção de Cristo.

22. À perspectiva do reino de Deus está unida também a esperança daquela glória, cujo início se encontra na Cruz de Cristo. A Ressurreição revelou esta glória – a glória escatológica – que na Cruz de Cristo era completamente ofuscada pela imensidão do sofrimento. Aqueles que participam nos sofrimentos de Cristo, estão também chamados, mediante os seus próprios sofrimentos, para tomar parte na glória. São Paulo exprime esta ideia em diversas passagens. Aos Romanos, escreve: «Somos… coerdeiros de Cristo, se, porém, sofrermos com ele, para sermos também glorificados com ele. Tenho como coisa certa, efetivamente, que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção alguma com a glória que há-de revelar-se em nós». (67) Na segunda Carta aos Coríntios lemos: «Realmente, o leve peso da nossa tribulação do momento presente prepara-nos, para além de toda e qualquer medida, um peso eterno de glória: não que nós olhemos para as coisas visíveis, mas para as invisíveis». (68) O Apóstolo Pedro exprimirá esta verdade nas seguintes palavras da sua primeira Carta: «Alegrai-vos, antes, na medida em que participais nos sofrimentos de Cristo, para que também vos alegreis e rejubileis na sua gloriosa aparição». (69) O motivo do sofrimento e da glória tem uma característica profundamente evangélica, que se clarifica mediante a referência à Cruz e à Ressurreição. A Ressurreição tornou-se, antes de mais nada, a manifestação da glória, que corresponde à elevação de Cristo por meio da sua Cruz. Com efeito, se a Cruz representou aos olhos dos homens o despojamento de Cristo, ela foi, ao mesmo tempo, aos olhos de Deus a sua elevação. Na Cruz, Cristo alcançou e realizou em toda a plenitude a sua missão: cumprindo a vontade do Pai, realizou-se ao mesmo tempo a si mesmo. Na fraqueza manifestou o seu poder; e na humilhação, toda a sua grandeza messiânica Não são porventura uma prova desta grandeza todas as palavras pronunciadas durante a agonia, no Gólgota, e, de modo especial, as palavras que se referem aos autores da crucifixão:
«Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem»? (70) Estas palavras impõem-se àqueles que são participantes dos sofrimentos de Cristo, com a força de um exemplo supremo. O sofrimento constitui também um chamamento a manifestar a grandeza moral do homem, a sua maturidade espiritual. Disto deram prova, ao longo das diversas gerações, os mártires e os confessores de Cristo, fiéis às palavras: « Não temais os que matam o corpo e que não podem matar a alma ». (71) A Ressurreição de Cristo revelou « a glória que está contida no próprio sofrimento de Cristo, a qual muitas vezes se refletiu e se reflete no sofrimento do homem, como expressão da sua grandeza espiritual. Importa reconhecer esta glória, não só nos mártires da fé, mas também em muitos outros homens que, por vezes, mesmo sem a fé em Cristo, sofrem e dão a vida pela verdade e por uma causa justa. Nos sofrimentos de todos estes é confirmada, de um modo particular, a grande dignidade do homem.

23. O sofrimento, de fato, é sempre uma provação – por vezes, uma provação muito dura – à qual a humanidade é submetida. Impressiona-nos nas páginas das Cartas de São Paulo, com frequência, aquele paradoxo evangélico da fraqueza e da força, experimentado de maneira particular pelo Apóstolo, e que experimentam com ele também todos aqueles que participam nos sofrimentos de Cristo. Na segunda Carta aos Coríntios, escreve: « De boa vontade me ufanarei de preferência das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo ». (72) Na Segunda Carta a Timóteo lemos: «É também por esta causa que eu sofro estes males, mas não me envergonho: porque sei em quem depositei a minha confiança». (73) E na Carta aos Filipenses dirá mesmo expressamente: «Tudo posso naquele que me dá força». (74)
Aqueles que participam nos sofrimentos de Cristo têm diante dos olhos o mistério pascal da Cruz e da Ressurreição, no qual Cristo, numa primeira fase, desce até às últimas da debilidade e da impotência humana: efetivamente, morre pregado na Cruz. Mas dado que nesta fraqueza se realiza ao mesmo tempo a sua elevação, confirmada pela força da Ressurreição, isso significa que as fraquezas de todos os sofrimentos humanos podem ser penetradas pela mesma potência de Deus, manifestada na Cruz de Cristo. Nesta concepção, sofrer significa tornar-se particularmente receptivo, particularmente aberto à ação das forças salvíficas de Deus, oferecidas em Cristo à humanidade. Nele, Deus confirmou que quer operar de um modo especial por meio do sofrimento, que é a fraqueza e o despojamento do homem; e ainda, que é precisamente nesta fraqueza e neste despojamento que Ele quer manifestar o seu poder. Compreende-se, deste modo, a recomendação da primeira Carta de São Pedro: Se alguém «sofre por ser cristão, não se envergonhe, mas dê glória a Deus por este título». (75) Na Carta aos Romanos, o Apóstolo Paulo pronunciar-se-á ainda mais detidamente sobre este tema do «nascer da força na fraqueza» e do retemperar-se espiritual do homem no meio das provações e tribulações, que é vocação especial daqueles que participam nos sofrimentos de Cristo: «Gloriamo-nos também nas tribulações, sabendo que da tribulação deriva a paciência; da paciência a virtude comprovada; e da virtude comprovada a esperança. A esperança não engana, porque o amor de Deus se encontra largamente difundido nos nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado». (76) No sofrimento está como que contido um particular apelo à virtude que o homem por seu turno deve exercitar. É a virtude da perseverança em suportar tudo aquilo que incomoda e faz doer. Ao proceder assim, o homem dá livre curso à esperança, que mantém em si a convicção de que o sofrimento não prevalecerá sobre ele, nem o privará da dignidade própria do homem, que anda unida à consciência do sentido da vida. E este sentido manifesta-se simultaneamente com a obra do amor de Deus, que é o dom supremo do Espírito Santo. A medida que participa deste amor , o homem sabe orientar-se quando mergulhado no sofrimento: reencontrando-se, reencontra «a alma» que julgava ter «perdido» (77) por causa do sofrimento.

24. As experiências do Apóstolo participante nos sofrimentos de Cristo, no entanto, vão ainda mais longe. Na Carta aos Colossenses podemos ler as palavras que representam como que a última etapa do itinerário espiritual em relação ao sofrimento. São Paulo escreve: « Alegro-me nos sofrimentos suportados por vossa causa e completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja». (78) E numa outra Carta, o mesmo Apóstolo interpela os destinatários: «Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo ». (79)
No mistério pascal, Cristo deu início à união com o homem na comunidade da Igreja. O mistério da Igreja exprime-se nisto: a partir do ato em que alguém recebe o Batismo, que configura a Cristo, e depois mediante o seu Sacrifício – sacramentalmente mediante a Eucaristia – a Igreja edifica-se espiritualmente, sem cessar, como Corpo de Cristo. Neste Corpo, Cristo quer estar unido a todos os homens, e está unido de modo especial àqueles que sofrem. As palavras da Carta aos Colossenses, acima citadas, atestam o caráter excepcional desta união. De fato, aquele que sofre em união com Cristo – assim como o Apóstolo Paulo suportava as suas « tribulações » em união com Cristo – não só haure de Cristo aquela força de que em precedência se falou, mas « completa » também com o seu sofrimento « aquilo que falta aos sofrimentos de Cristo ». Neste contexto evangélico, é posta em relevo, de um modo especial, a verdade sobre o caráter criativo do sofrimento. O sofrimento de Cristo criou o bem da Redenção do mundo. Este bem é em si mesmo
inexaurível e infinito. Ninguém lhe pode acrescentar coisa alguma. Ao mesmo tempo, porém, Cristo no mistério da Igreja, que é o seu Corpo, em certo sentido abriu o próprio sofrimento redentor a todo o sofrimento humano. Na medida em que o homem se torna participante nos sofrimentos de Cristo – em qualquer parte do mundo e em qualquer momento da história – tanto mais ele completa, a seu modo, aquele sofrimento, mediante o qual Cristo operou a Redenção do mundo. Quererá isto dizer, porventura, que a Redenção operada por Cristo não é completa? Não. Isto significa apenas que a Redenção, operada por virtude do amor satisfatório, permanece constantemente aberta a todo o amor que se exprime no sofrimento humano. Nesta dimensão – na dimensão do amor – a Redenção, já realizada totalmente, realiza-se em certo sentido constantemente. Cristo operou a Redenção completa e cabalmente; ao mesmo tempo, porém, não a fechou: no sofrimento redentor, mediante o qual se operou a Redenção do mundo, Cristo abriu-se desde o princípio, e continua a abrir-se constantemente, a todo o sofrimento humano. Sim, é algo que parece fazer parte da própria essência do sofrimento redentor de Cristo: o fato de ele solicitar a ser incessantemente completado. Deste modo, com tal abertura a todos os sofrimentos humanos, Cristo operou com o seu próprio sofrimento a Redenção do mundo. Esta Redenção, no entanto, embora tenha sido realizada em toda a sua plenitude pelo sofrimento de Cristo, à sua maneira vive e desenvolve-se ao mesmo tempo na história dos homens. Vive e desenvolve-se como o Corpo de Cristo, que é a Igreja; e nesta dimensão, todo o sofrimento humano, em razão da sua união com Cristo no amor, completa o sofrimento de Cristo. Completa-o como a Igreja completa a obra redentora de Cristo. O mistério da Igreja – daquele Corpo que completa também em si o corpo crucificado e ressuscitado de Cristo – indica, ao mesmo tempo, aquele âmbito no qual os sofrimentos humanos completam o sofrimento de Cristo. Só à luz disto e com esta dimensão – da Igreja-Corpo de Cristo que se desenvolve continuamente no espaço e no tempo – é que se pode pensar e falar « daquilo que falta » aos sofrimentos de Cristo. O Apóstolo, de resto, sublinha-o claramente quando fala da necessidade de completar «aquilo que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja». A Igreja, precisamente, que sem cessar vai haurir nos infinitos recursos da Redenção, introduzindo esta na vida da humanidade, é a dimensão na qual o sofrimento redentor de Cristo pode ser constantemente completado pelo sofrimento do homem. Nisto é posta também em relevo a natureza divino-humana da Igreja. O sofrimento parece participar, de certo modo, nas características desta natureza; e, por isso, reveste-se também de um valor especial aos olhos da Igreja. É um bem, diante do qual a Igreja se inclina com veneração, com toda a profundidade da sua fé na Redenção. Inclina-se também diante dele com toda a profundidade daquela fé com que acolhe em si mesma o inexprimível mistério do Corpo de Cristo.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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