Carta Apostólica Salvifici Doloris: O Sentido do Sofrimento Humano (Parte 2)

Assim é afirmada a dimensão pessoal da pena. Segundo esta dimensão, a pena tem sentido não só porque serve para contrabalançar o mesmo mal objetivo da transgressão com outro mal, mas sobretudo porque oferece a possibilidade de reconstruir o bem no próprio sujeito que sofre. Isto é um aspecto importantíssimo do sofrimento. Está profundamente arraigado em toda a Revelação da Antiga e sobretudo da Nova Aliança. O sofrimento deve servir à conversão, isto é, à reconstrução do bem no sujeito, que pode reconhecer a misericórdia divina neste chamamento à penitência. A penitência tem como finalidade superar o mal que, sob diversas formas, se encontra latente no homem, e consolidar o bem, tanto no mesmo homem, como nas relações com os outros e, sobretudo, com Deus.

13. Mas para se poder perceber a verdadeira resposta ao «porquê» do sofrimento, devemos voltar a nossa atenção para a revelação do amor divino, fonte última do sentido de tudo aquilo que existe. O amor é também a fonte mais rica do sentido do sofrimento que, não obstante, permanece sempre um mistério; estamos conscientes da insuficiência e inadequação das nossas explicações. Cristo introduz-nos no mistério e ajuda-nos a descobrir o « porquê » do sofrimento, na medida em que nós formos capazes de compreender a sublimidade do amor divino. Para descobrir o sentido profundo do sofrimento, seguindo a Palavra de Deus revelada, é preciso abrir-se amplamente ao sujeito humano com as suas múltiplas potencialidades. É preciso, sobretudo, acolher a luz da Revelação, não só porque ela exprime a ordem transcendente da justiça, mas também porque ilumina esta ordem com o amor, qual fonte definitiva de tudo o que existe. O Amor é ainda a fonte mais plena para a resposta à pergunta acerca do sentido do sofrimento. Esta resposta foi dada por Deus ao homem na Cruz de Jesus Cristo.

IV. Jesus Cristo: O Sofrimento vencido pelo Amor
14. « Deus amou tanto o mundo que deu o Seu Filho unigénito, para que todo aquele que crê n-Ele não pereça, mas tenha a vida eterna ». (27) Estas palavras pronunciadas por Cristo no colóquio com Nicodemos, introduzem-nos no próprio centro da ação salvífica de Deus. Elas exprimem também a própria essência da soteriologia cristã, quer dizer, da teologia da salvação. E salvação significa libertação do mal; e por isso mesmo está em relação íntima com o problema do sofrimento. Segundo as palavras dirigidas a Nicodemos, Deus dá o seu Filho ao « mundo » para libertar o homem do mal, que traz em si a definitiva e absoluta perspectiva do sofrimento. Ao mesmo tempo, a palavra «dá» («deu») indica que esta libertação deve ser realizada pelo Filho unigénito, mediante o seu próprio sofrimento. E nisto se manifesta o amor, o amor infinito, quer do mesmo Filho unigénito, quer do Pai, o qual «dá» para isso o seu Filho. Tal é o amor para com o homem, o amor pelo «mundo»: é o amor salvífico. Encontramo-nos aqui – importa dar-nos conta disso claramente na nossa reflexão comum sobre este problema – perante uma dimensão completamente nova do nosso tema. É uma dimensão diversa daquela que determinava e, em certo sentido, restringia a busca do significado do sofrimentodentro dos limites da justiça. É a dimensão da Redenção, que no Antigo Testamento as palavras do justo Job – pelo menos segundo o texto da Vulgata – parecem já prenunciar: «Sei, de fato, que o meu Redentor vive e que no último dia… verei o meu Deus…».28 Enquanto que até aqui as nossas considerações se concentravam, primeiro que tudo e, em certo sentido, exclusivamente, no sofrimento sob as suas múltiplas formas temporais (como era o caso também dos sofrimentos do justo Job), agora as palavras do colóquio de Jesus com Nicodemos, acima citadas, referem-se ao sofrimento no seu sentido fundamental e definitivo. Deus dá o seu Filho unigénito, para que o homem « não pereça »; e o significado deste «não pereça» é cuidadosamente determinado pelas palavras que lhe seguem: «mas tenha a vida eterna ». O homem « perece », quando perde a « vida eterna». O contrário da salvação não é, pois, somente o sofrimento temporal, qualquer sofrimento, mas o sofrimento definitivo: a perda da vida eterna, o ser repelido por Deus, a condenação. O Filho unigénito foi dado à humanidade para proteger o homem, antes de mais nada, deste mal definitivo e do sofrimento definitivo. Na sua missão salvífica, portanto, o Filho deve atingir o mal nas suas próprias raízes transcendentais, a partir das quais se desenvolve na história do homem. Estas raízes transcendentais do mal estão pegadas ao pecado e à morte: elas estão, de fáto, na base da perda da vida eterna. A missão do Filho unigénito consiste em vencer o pecado e a morte. E Ele vence o pecado com a sua obediência até à morte, e vence a morte com a sua ressurreição.

15. Quando se diz que Cristo com a sua missão atinge o mal nas próprias raízes, nós pensamos não só no mal e no sofrimento definitivo, escatológico (para que o homem «não pereça, màs tenha a vida eterna»), mas também – pelo menos indiretamente – no mal e no sofrimento na sua dimensão temporal e histórica. O mal, de fato, permanece ligado ao pecado e à morte. E ainda que se deva ter muita cautela em considerar o sofrimento do homem como consequência de pecados concretos (como mostra precisamente o exemplo do justo Job), ele não pode contudo ser separado do pecado das origens, daquilo que em São João é chamado « o pecado do mundo », (29) nem do pano de fundo pecaminoso das ações pessoais e dos processos sociais na história do homem. Se não é permitido aplicar aqui o critério restrito da dependência direta (como faziam os três amigos de Job), não se pode também, por outro lado, pôr absolutamente de parte o critério segundo o qual, na base dos sofrimentos humanos, há uma multíplice implicação com o pecado. Sucede o mesmo quando se trata da morte. Esta, muitas vezes, até é esperada, como uma libertação dos sofrimentos desta vida; ao mesmo tempo, não é possível deixar passar despercebido que ela constitui como que uma síntese definitiva da obra destrutora do sofrimento, tanto no organismo corporal como na vida psíquica. Mas a morte comporta, antes de mais, a desagregação da ersonalidade total psicofísica do homem. A alma sobrevive e subsiste separada do corpo, ao passo que o corpo é sujeito a uma decomposição progressiva, segundo as palavras do Senhor Deus, pronunciadas depois do pecado cometido pelo homem nos princípios da sua história terrena: « És pó e em pó te ás-de tornar ».(30) Portanto, mesmo que a morte não seja um sofrimento no sentido temporal da palavra, mesmo que de certo modo ela se encontre para além de todos os sofrimentos, contudo o mal que o ser humano nela experimenta tem um caráter definitivo e totalizante. Com a sua obra salvífica, o Filho unigênito liberta o homem do pecado e da morte. Antes de mais, cancela da história do homem o domínio do pecado, que se enraizou sob o influxo do Espírito maligno a partir do pecado original; e dá desde então ao homem a possibilidade de viver na Graça santificante. Na esteira da vitória sobre o pecado, tira o domínio também à morte, abrindo, com a sua ressurreição, o caminho para a futura ressurreição dos corpos. Uma e outra são condição essencial da « vida eterna », isto é, da felicidade definitiva do homem em união com Deus; isto, para os salvados, quer dizer que na perspectiva escatológica o sofrimento é totalmente cancelado. Como consequência da obra salvífica de Cristo, o homem passou a ter, durante a sua existência na terra, a esperança da vida e da santidade eternas. E ainda que vitória sobre o pecado e sobre a morte, alcançada por Cristo com a sua Cruz e a sua Ressurreição, não suprima os sofrimentos temporais da vida humana, nem isente do sofrimento toda a dimensão histórica da existência humana,ela projeta, no entanto, sobre essa dimensão e sobre todos os sofrimentos uma luz nova. É a luz do Evangelho, ou seja, da Boa Nova. No centro desta luz encontra-se a verdade enunciada no colóquio com Nicodemos: « Com efeito, Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigênito ».(31) Esta verdade opera uma mudança, desde os fundamentos, no quadro da história do homem e da sua situação terrena. Apesar do pecado que se enraizou nesta história, como herança original, como « pecado do mundo » e como suma dos pecados pessoais, Deus Pai amou o Filho unigênito, isto é, ama-o de modo perdurável; depois, no tempo, precisamente por motivo deste amor que supera tudo, Ele «dá» este Filho, a fim de que atinja as próprias raízes do mal humano e assim se aproxime, de maneira salvífica, do inteiro mundo do sofrimento, no qual o homem é participante.

16. Na sua atividade messiânica no meio de Israel, Cristo tornou-se incessantemente próximo do mundo do sofrimento humano. « Passou fazendo o bem »; (32) e adotava este seu modo de proceder em primeiro lugar para com os que sofriam e os que esperavam ajuda. Curava os doentes, consolava os aflitos, dava de comer aos famintos, libertava os homens da surdez, da cegueira, da lepra, do demônio e de diversas deficiências físicas; por três vezes, restituiu mesmo a vida aos mortos. Era sensível a toda a espécie de sofrimento humano, tanto do corpo como da alma. Ao mesmo tempo ensinava; e no centro do seu ensino propôs as oito bem-aventuranças, que são dirigidas aos homens provados por diversos sofrimentos na vida temporal. Estes são os « pobres em espírito », « os aflitos », « os que têm fome e sede de justiça », « os perseguidos por causa da justiça », quando os injuriam, os perseguem e, mentindo, dizem toda a espécie de mal contra eles por causa de Cristo… (33) É assim segundo São Mateus; e São Lucas menciona ainda explicitamente aqueles «que agora têm fome ». (34) De qualquer modo, Cristo aproximou-se do mundo do sofrimento humano, sobretudo pelo fato de ter ele próprio assumido sobre si este sofrimento. Durante a sua atividade pública, ele experimentou não só o cansaço, a falta de uma casa, a incompreensão mesmo da parte dos que viviam mais perto dele, mas também e acima de tudo foi cada vez mais a cantoado por um círculo hermético de hostilidade, ao mesmo tempo que se iam tornando cada dia mais manifestos os preparativos para o eliminar do mundo dos vivos. E Cristo estava cônscio de tudo isto e muitas vezes falou aos seus discípulos dos sofrimentos e da morte que o esperavam: «Eis que subimos a Jerusalém; e o Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas, e eles condená-lo-ão à morte e entregá-lo-ão nas mãos dos gentios, que o hão-de escarnecer, cuspir sobre ele, flagelar e matar. Mas três dias depois ressuscitará». (35) Cristo vai ao encontro da sua paixão e morte com plena consciência da missão que deve realizar exatamente desse modo. É por meio deste seu sofrimento que ele tem de fazer com que «o homem não pereça, mas tenha a vida eterna». É precisamente por meio da sua Cruz que ele deve atingir as raízes do mal, que se embrenham na história do homem e nas almas humanas. É precisamente por meio da sua Cruz que ele deve realizar a obra da salvação. Esta obra, no desígnio do Amor eterno, tem um caráter redentor. Por isso, Cristo repreende severamente Pedro quando ele pretende faze-lo abandonar os pensamentos sobre o sofrimento e a morte na Cruz. (36) E quando, no momento de Ele ser preso no Getsemani, o mesmo Pedro procura defendê-lo com a espada, Cristo diz-lhe: «Mete a tua espada na bainha… Como se cumpririam então as Escrituras, segundo as quais é necessário que assim suceda?». (37) E diz ainda: «Não hei-de eu beber o cálice que meu Pai me deu?». (38) Esta resposta – tal como outras que aparecem em diversos pontos do Evangelho – mostram quanto Cristo estava profundamente compenetrado do pensamento que já tinha exprimido no colóquio com Nicodemos: « Com efeito, Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que crê n-Ele não pereça, mas tenha a vida eterna ». (39) Cristo encaminha-se para o próprio sofrimento, consciente da força salvífica deste; e vai, obediente ao Pai e, acima de tudo, unido ao Pai naquele mesmo amor, com o qual Ele amou o mundo e o homem no mundo. E por isso, São Paulo escreverá, referindo-se a Cristo: «Amou-me e entregou-se a si mesmo por mim». (40)

17. As Escrituras tinham que ser cumpridas. Eram muitos os textos messiânicos do Antigo Testamento que anunciavam os sofrimentos do futuro Ungido de Deus. De entre todos eles, é particularmente comovedor aquele que habitualmente se designa como Canto quarto do Servo de Javé, contido no Livro de Isaías. O profeta, que justamente é chamado «o quinto evangelista», dá-nos neste Canto a imagem dos sofrimentos do Servo, com um realismo tão vivo como se o contemplasse com os próprios olhos: com os olhos do corpo e com os do espírito. A paixão de Cristo torna-se, à luz dos versículos de Isaías, quase mais expressiva e comovente do que nas descrições dos próprios evangelistas. Eis como se nos apresenta o verdadeiro Homem das dores:
«Não tem aparência bela nem decorosa para atrair os nossos olhares…Foi desprezado e evitado pelos homens, homem das dores, familiarizado com o sofrimento; como pessoa da qual se desvia o rosto, desprezível e sem valor para nós. No entanto, ele tomou sobre si as nossas enfermidades carregou-se com as nossas dores, e nós o julgávamos açoitado e homem ferido por Deus e humilhado. Mas foi transpassado por causa dos nossos delitos, e espezinhado por causa das nossas culpas.A punição salutar para nós foi-lhe infligida a ele,e as suas chagas nos curaram.Todos nós, como ovelhas, nos desgarramos, cada um seguia o seu caminho; o Senhor fez cair sobre ele as culpas de todos nós ». (41) O Canto do Servo sofredor contém uma descrição na qual se podem, de certo modo, identificar os momentos da paixão de Cristo com vários pormenores dos mesmos: a prisão, a humilhação, as bofetadas, os escarros, o rebaixamento da própria dignidade do prisioneiro, o juízo injusto; e, a seguir, a flagelação, a coroação de espinhos e o escárnio, a caminhada com a cruz, a crucifixão e a agonia. Mais do que esta descrição da paixão, impressiona-nos ainda nas palavras do Profeta a profundidade do sacrifício de Cristo. Ele, embora inocente, carregou-se com os sofrimentos de todos os homens, porque assumiu sobre si os pecados de todos. «O Senhor fez cair sobre ele as culpas de todos nós »: todo o pecado do homem, na sua extensão e profundidade, se torna a verdadeira causa do sofrimento do Redentor. Se o sofrimento «se pode medir» pelo mal suportado, então as expressões do Profeta permitem-nos compreender a medida deste mal e deste sofrimento que Cristo carregou sobre si. Pode-se dizer que se trata de um sofrimento « substitutivo »; mas ele é, sobretudo, «redentor». O Homem das dores da citada profecia é verdadeiramente aquele «cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo». (42) Com o seu sofrimento, os pecados são cancelados precisamente porque só ele, como Filho unigênito, podia tomá-los sobre si, assumi-los com aquele amor para com o Pai que supera o mal de todos os pecados; num certo sentido, ele aniquila este mal, no plano espiritual das relações entre Deus e a humanidade, e enche o espaço criado com o bem. Deparamos aqui com a dualidade de natureza de um único sujeito pessoal do sofrimento redentor. Aquele que, com a sua paixão e morte na Cruz, opera a Redenção é o Filho unigênito que Deus nos «deu». Ao mesmo tempo, este Filho da mesma natureza que o Pai sofre como homem. O seu sofrimento tem dimensões humanas; e tem igualmente – únicas na história da humanidade – uma profundidade e intensidade que, embora sendo humanas, podem ser também uma profundidade e intensidade de sofrimento incomparáveis, pelo fato de o Homem que sofre ser o próprio Filho unigênito em pessoa: «Deus de Deus». Portanto, somente Ele – o Filho unigênito – é capaz de abarcar a extensão do mal contida no pecado do homem: em cada um dos pecados e no pecado «total», segundo as dimensões da existência histórica da humanidade na terra.

18. Pode-se dizer que as considerações anteriores nos levam agora diretamente ao Getsemani e ao Golgota, onde se cumpriu o mesmo Canto do Servo sofredor, contido no Livro de Isaías. Antes de chegar aí, porém, leiamos os versículos sucessivos do Canto que constituem uma antecipação profética da paixão do Getsémani e do Gólgota. O Servo sofredor – e isso é por sua vez algo essencial para uma análise da paixão de Cristo – toma sobre si aqueles sofrimentos de que se falou, de um modo totalmente voluntário. « Era maltratado e ele sofria,não abria a boca; era como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha muda nas mãos do tosquiador. E não abriu a boca. Com tirânica sentença foi suprimido; e quem se preocupa pela sua sorte, pelo modo como foi suprimido da terra dos vivos,e foi ferido de morte por causa da iniquidade do [seu povo? Deram-lhe com os réus sepultura, e uma tumba entre os malfeitores, embora não tivesse cometido injustiça alguma, nem se tenha achado engano algum na sua boca ». (43) Cristo sofre voluntariamente e sofre inocentemente. Ele acolhe, com o seu sofrimento, aquela interrogação – feita muitas vezes pelos homens – que foi expressa, num certo sentido, de uma maneira radical no Livro de Job. Cristo, porém, não só é portador em si da mesma interrogação (e isso de um modo ainda mais radical, uma vez que Ele não é somente homem como Job, mas é o Filho unigênito de Deus), como dá também a resposta mais completa que é possível a esta interrogação. A resposta emerge, pode-se dizer, da mesma matéria que constitui a pergunta. Cristo responde a esta pergunta, sobre o sofrimento, e sobre o sentido do sofrimento, não apenas com o seu ensino, isto é, com a Boa Nova, mas primeiro que tudo, com o próprio sofrimento, que está integrado, de um modo orgânico e indissolúvel, com os ensinamentos da Boa Nova. E esta é, por assim dizer, a última palavra, a síntese desse ensino: «a palavra da Cruz», como dirá um dia São Paulo. (44) Esta «linguagem da Cruz» preenche a imagem da antiga profecia com uma realidade definitiva. Muitas passagens e discursos da pregação pública de Cristo atestam como Ele aceita desde o princípio este sofrimento, que é a vontade do Pai para a salvação do mundo. Neste ponto a oração no Getsemani reveste-se de uma importância decisiva. As palavras: « Meu Pai, se é possível passe de mim este cálice! Contudo, não se faça como eu quero, mas como tu queres!» (45) e as que vêm a seguir: «Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que eu o beba, faça-se a tua vontade », (46) encerram em si uma eloquência multiforme. Provam a verdade daquele amor que, com a sua obediência, o Filho unigênito demonstra para com o Pai. Atestam, ao mesmo tempo, a verdade do seu sofrimento. As palavras da oração de Cristo no Getsémani provam a verdade do amor mediante a verdade do sofrimento. As palavras de Cristo confirmam, com toda a simplicidade e cabalmente, esta verdade humana do sofrimento: o sofrimento o consiste em suportar o mal, diante do qual o homem estremece; e precisamente como disse Cristo no Getsémani, também o homem diz: « passe de mim ». As palavras de Cristo confirmam, ainda, esta única e incomparável profundidade e intensidade do sofrimento, que somente o Homem que é o Filho unigênito pôde experimentar; elas atestam aquela profundidade e intensidade que as palavras proféticas acima referidas nos ajudam, à sua maneira, a compreender. Não, por certo, completamente (para isso seria necessário penetrar o mistério divino-humano d´Aquele que dele era sujeito); elas ajudam-nos, no entanto, a compreender pelo menos a diferença (e, ao mesmo tempo, a semelhança) que se verifica entre todo o possível sofrimento do homem e o do Deus-Homem. O Getsémani é o lugar onde precisamente este sofrimento, com toda a verdade expressa pelo Profeta quanto ao mal que ele faz experimentar, se revelou quase definitivamente diante dos olhos da alma de Cristo. Depois das palavras do Getsémani, vêm as palavras pronunciadas no Gólgota, que atestam esta profundidade – única na história do mundo – do mal do sofrimento que se experimenta. Quando Cristo diz: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?», as suas palavras não são apenas expressão daquele abandono que, por diversas vezes, se encontra expresso no Antigo Testamento, especialmente nos Salmos; e, em particular, no Salmo 22 (21), do qual provêm as palavras referidas.
(47) Pode-se dizer que estas palavras sobre o abandono nascem no plano da união inseparável do Filho com o Pai, e nascem porque o Pai «fez cair sobre ele as culpas de todos nós», (48) na linha daquilo mesmo que mais tarde dirá São Paulo: «A ele, que não conhecera o pecado, Deus tratou-o, por nós, como pecado».

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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