Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae – Parte 3

Mistérios
da alegria

20. O
primeiro ciclo, o dos “mistérios gozosos”, caracteriza-se de facto pela alegria
que irradia do acontecimento da Encarnação. Isto é evidente desde a Anunciação,
quando a saudação de Gabriel à Virgem de Nazaré se liga ao convite da alegria
messiânica: « Alegra-te, Maria ». Para este anúncio se encaminha a história da
salvação, e até, de certo modo, a história do mundo. De facto, se o desígnio do
Pai é recapitular em Cristo todas as coisas (cf. Ef 1, 10), então todo o
universo de algum modo é alcançado pelo favor divino, com o qual o Pai Se
inclina sobre Maria para torná-La Mãe do seu Filho. Por sua vez, toda a
humanidade está como que incluída no fiat com que Ela corresponde prontamente à
vontade de Deus.

Sob o signo
da exultação, aparece depois a cena do encontro com Isabel, onde a mesma voz de
Maria e a presença de Cristo no seu ventre fazem « saltar de alegria » João
(cf. Lc 1, 44). Inundada de alegria é a cena de Belém, onde o nascimento do
Deus-Menino, o Salvador do mundo, é cantado pelos anjos e anunciado aos
pastores precisamente como « uma grande alegria » (Lc 2, 10).

Os dois
últimos mistérios, porém, mesmo conservando o sabor da alegria antecipam já os
sinais do drama. A apresentação no templo, de facto, enquanto exprime a alegria
da consagração e extasia o velho Simeão, regista também a profecia do « sinal
de contradição » que o Menino será para Israel e da espada que trespassará a
alma da Mãe (cf. Lc 2, 34-35). Gozoso e ao mesmo tempo dramático é também o
episódio de Jesus, aos doze anos, no templo. Vemo-Lo aqui na sua divina
sabedoria, enquanto escuta e interroga, e substancialmente no papel d’Aquele
que “ensina”. A revelação do seu mistério de Filho totalmente dedicado às
coisas do Pai é anúncio daquela radicalidade evangélica que põe inclusive em
crise os laços mais caros do homem, diante das exigências absolutas do Reino.
Até José e Maria, aflitos e angustiados, « não entenderam » as suas palavras (Lc
2, 50).

Por isso,
meditar os mistérios gozosos significa entrar nas motivações últimas e no
significado profundo da alegria cristã. Significa fixar o olhar sobre a
realidade concreta do mistério da Encarnação e sobre o obscuro prenúncio do
mistério do sofrimento salvífico. Maria leva-nos a aprender o segredo da
alegria cristã, lembrando-nos que o cristianismo é, antes de mais, euangelion,
“boa nova”, que tem o seu centro, antes, o seu mesmo conteúdo, na pessoa de
Cristo, o Verbo feito carne, único Salvador do mundo.

Mistérios
da luz

21.
Passando da infância e da vida de Nazaré à vida pública de Jesus, a
contemplação leva-nos aos mistérios que se podem chamar, por especial título,
“mistérios da luz”. Na verdade, todo o mistério de Cristo é luz. Ele é a « luz
do mundo » (Jo8, 12). Mas esta dimensão emerge particularmente nos anos da vida
pública, quando Ele anuncia o evangelho do Reino. Querendo indicar à comunidade
cristã cinco momentos significativos – mistérios luminosos – desta fase da vida
de Cristo, considero que se podem justamente individuar: 1o no seu Baptismo no
Jordão, 2o na sua auto-revelação nas bodas de Caná, 3o no seu anúncio do Reino
de Deus com o convite à conversão, 4o na sua Transfiguração e, enfim, 5o na
instituição da Eucaristia, expressão sacramental do mistério pascal.

Cada um
destes mistérios é revelação do Reino divino já personificado no mesmo Jesus. Primeiramente
é mistério de luz o Baptismo no Jordão. Aqui, enquanto Cristo desce à água do
rio, como inocente que Se faz pecado por nós (cf. 2 Cor 5, 21), o céu abre-se e
a voz do Pai proclama-O Filho dilecto (cf. Mt 3, 17 par), ao mesmo tempo que o
Espírito vem sobre Ele para investi-Lo na missão que O espera. Mistério de luz
é o início dos sinais em Caná (cf. Jo 2, 1-12), quando Cristo, transformando a
água em vinho, abre à fé o coração dos discípulos graças à intervenção de
Maria, a primeira entre os crentes. Mistério de luz é a pregação com a qual
Jesus anuncia o advento do Reino de Deus e convida à conversão (cf. Mc 1, 15),
perdoando os pecados de quem a Ele se dirige com humilde confiança (cf.Mc 2,
3-13; Lc 7, 47-48), início do ministério de misericórdia que Ele prosseguirá
exercendo até ao fim do mundo, especialmente através do sacramento da
Reconciliação confiado à sua Igreja (cf. Jo 20, 22-23). Mistério de luz por
excelência é a Transfiguração que, segundo a tradição, se deu no Monte Tabor. A
glória da Divindade reluz no rosto de Cristo, enquanto o Pai O acredita aos
Apóstolos extasiados para que O « escutem » (cf. Lc 9, 35 par) e se disponham a
viver com Ele o momento doloroso da Paixão, a fim de chegarem com Ele à glória
da Ressurreição e a uma vida transfigurada pelo Espírito Santo. Mistério de luz
é, enfim, a instituição da Eucaristia, na qual Cristo Se faz alimento com o seu
Corpo e o seu Sangue sob os sinais do pão e do vinho, testemunhando « até ao
extremo » o seu amor pela humanidade (Jo 13, 1), por cuja salvação Se oferecerá
em sacrifício.

Nestes
mistérios, à excepção de Caná, a presença de Maria fica em segundo plano. Os
Evangelhos mencionam apenas alguma presença ocasional d’Ela no tempo da
pregação de Jesus (cf.Mc 3, 31-35; Jo 2, 12) e nada dizem de uma eventual
presença no Cenáculo durante a instituição da Eucaristia. Mas, a função que
desempenha em Caná acompanha, de algum modo, todo o caminho de Cristo. A
revelação, que no Baptismo do Jordão é oferecida directamente pelo Pai e
confirmada pelo Baptista, está na sua boca em Caná, e torna-se a grande
advertência materna que Ela dirige à Igreja de todos os tempos: « Fazei o que
Ele vos disser » (Jo 2, 5). Advertência esta que introduz bem as palavras e os
sinais de Cristo durante a vida pública, constituindo o fundo mariano de todos
os “mistérios da luz”.

Mistérios
da dor

22. Os
Evangelhos dão grande relevo aos mistérios da dor de Cristo. A piedade cristã
desde sempre, especialmente na Quaresma, através do exercício da Via Sacra,
deteve-se em cada um dos momentos da Paixão, intuindo que aqui está o ápice da
revelação do amor e a fonte da nossa salvação. O Rosário escolhe alguns
momentos da Paixão, induzindo o orante a fixar neles o olhar do coração e a
revivê-los. O itinerário meditativo abre-se com o Getsémani, onde Cristo vive
um momento de particular angústia perante a vontade do Pai, contra a qual a
debilidade da carne seria tentada a revoltar-se. Ali Cristo põe-Se no lugar de
todas as tentações da humanidade, e diante de todos os seus pecados, para dizer
ao Pai: « Não se faça a minha vontade, mas a Tua » (Lc 22, 42 e par). Este seu
“sim” muda o “não” dos pais no Éden. E o quanto Lhe deverá custar esta adesão à
vontade do Pai, emerge dos mistérios seguintes, nos quais, com a flagelação, a
coroação de espinhos, a subida ao Calvário, a morte na cruz, Ele é lançado no
maior desprezo: Ecce homo!

Neste
desprezo, revela-se não somente o amor Deus, mas o mesmo sentido do homem. Ecce
homo: quem quiser conhecer o homem, deve saber reconhecer o seu sentido, a sua
raiz e o seu cumprimento em Cristo, Deus que Se rebaixa por amor « até à morte,
e morte de cruz » (Fil 2, 8). Os mistérios da dor levam o crente a reviver a
morte de Jesus pondo-se aos pés da cruz junto de Maria, para com Ela penetrar
no abismo do amor de Deus pelo homem e sentir toda a sua força regeneradora.

Mistérios
da glória

23. “A
contemplação do rosto de Cristo não pode deter-se na imagem do crucificado. Ele
é o Ressuscitado!”.(29)O
Rosário sempre expressou esta certeza da fé, convidando o crente a ultrapassar
as trevas da Paixão, para fixar o olhar na glória de Cristo com a Ressurreição
e a Ascensão. Contemplando o Ressuscitado, o cristão descobre novamente as
razões da própria fé (cf. 1 Cor 15, 14), e revive não só a alegria daqueles a
quem Cristo Se manifestou – os Apóstolos, a Madalena, os discípulos de Emaús -,
mas também a alegria de Maria, que deverá ter tido uma experiência não menos
intensa da nova existência do Filho glorificado. A esta glória, onde com a
Ascensão Cristo Se senta à direita do Pai, Ela mesma será elevada com a
Assunção, chegando, por especialíssimo privilégio, a antecipar o destino
reservado a todos os justos com a ressurreição da carne. Enfim, coroada de glória
– como aparece no último mistério glorioso – Ela resplandece como Rainha dos
Anjos e dos Santos, antecipação e ponto culminante da condição escatológica da
Igreja. 

No centro
deste itinerário de glória do Filho e da Mãe, o Rosário põe, no terceiro mistério
glorioso, o Pentecostes, que mostra o rosto da Igreja como família reunida com
Maria, fortalecida pela poderosa efusão do Espírito, pronta para a missão
evangelizadora. No âmbito da realidade da Igreja, a contemplação deste, como
dos outros mistérios gloriosos, deve levar os crentes a tomarem uma consciência
cada vez mais viva da sua nova existência em Cristo, uma existência de que o
Pentecostes constitui o grande “ícone”. Desta forma, os mistérios gloriosos
alimentam nos crentes a esperança da meta escatológica, para onde caminham como
membros do Povo de Deus peregrino na história. Isto não pode deixar de
impelí-los a um corajoso testemunho daquela « grande alegria » que dá sentido a
toda a sua vida.

Dos
“mistérios” ao “Mistério”: o caminho de Maria

24. Estes
ciclos meditativos propostos no Santo Rosário não são certamente exaustivos,
mas apelam ao essencial, introduzindo o espírito no gosto de um conhecimento de
Cristo que brota continuamente da fonte límpida do texto evangélico. Cada
passagem da vida de Cristo, como é narrada pelos Evangelistas, reflecte aquele
Mistério que supera todo o conhecimento (cf. Ef 3, 19). É o Mistério do Verbo
feito carne, no Qual « habita corporalmente toda a plenitude da divindade » (Col
2, 9). Por isso, o Catecismo da Igreja Católica insiste tanto nos mistérios de
Cristo, lembrando que « tudo na vida de Jesus é sinal do seu Mistério ».(30)O
“duc in altum” da Igreja no terceiro Milénio é medido pela capacidade dos
cristãos de « conhecerem o mistério de Deus, isto é Cristo, no Qual estão
escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência » (Col 2, 2-3). A cada
baptizado é dirigido este voto ardente da Carta aos Efésios: « Que Cristo
habite pela fé nos vossos corações, de sorte que, arraigados e fundados na
caridade, possais […] compreender o amor de Cristo, que excede toda a
ciência, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus » (3, 17-19).

O Rosário
coloca-se ao serviço deste ideal, oferecendo o “segredo” para se abrir mais
facilmente a um conhecimento profundo e empenhado de Cristo. Digamos que é o
caminho de Maria. É o caminho do exemplo da Virgem de Nazaré, mulher de fé, de
silêncio e de escuta. É, ao mesmo tempo, o caminho de uma devoção mariana
animada pela certeza da relação indivisível que liga Cristo à sua Mãe
Santíssima: os mistérios de Cristo são também, de certo modo, os mistérios da
Mãe, mesmo quando não está directamente envolvida, pelo facto de Ela viver
d’Ele e para Ele. Na Avé Maria, apropriando-nos das palavras do Arcanjo Gabriel
e de Santa Isabel, sentimo-nos levados a procurar sempre de novo em Maria, nos
seus braços e no seu coração, o « fruto bendito do seu ventre » (cf. Lc 1, 42).

Mistério de
Cristo, “mistério” do homem

25. No
citado testemunho de 1978 sobre o Rosário como minha oração predilecta, exprimi
um conceito sobre o qual desejo retornar. Dizia então que « a simples oração do
Rosário marca o ritmo da vida humana ».(31)

À luz das
reflexões desenvolvidas até agora sobre os mistérios de Cristo, não é difícil
aprofundar esta implicação antropológica do Rosário; uma implicação mais
radical do que possa parecer à primeira vista. Quem contempla a
Cristo,percorrendo as etapas da sua vida, não pode deixar de aprender d’Ele a
verdade sobre o homem. É a grande afirmação do Concílio Vaticano II que, desde
a Carta encíclica Redemptor
hominis
, tantas vezes fiz objecto do meu magistério: “Na realidade, o
mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente”.(32)O
Rosário ajuda a abrir-se a esta luz. Seguindo o caminho de Cristo, no qual o
caminho do homem é « recapitulado »,(33)manifestado
e redimido, o crente põe-se diante da imagem do homem verdadeiro. Contemplando
o seu nascimento aprende a sacralidade da vida, olhando para a casa de Nazaré
aprende a verdade originária da família segundo o desígnio de Deus, escutando o
Mestre nos mistérios da vida pública recebe a luz para entrar no Reino de Deus,
e seguindo-O no caminho para o Calvário aprende o sentido da dor salvífica.
Contemplando, enfim, a Cristo e sua Mãe na glória, vê a meta para a qual cada
um de nós é chamado, se se deixa curar e transfigurar pelo Espírito Santo.
Pode-se dizer, portanto, que cada mistério do Rosário, bem meditado, ilumina o
mistério do homem. 

Ao mesmo
tempo, torna-se natural levar a este encontro com a humanidade santa do
Redentor os numerosos problemas, agruras, fadigas e projectos que definem a
nossa vida. « Descarrega sobre o Senhor os teus cuidados, e Ele tesustentará »
(Sal 55, 23). Meditar com o Rosário significa entregar os nossos cuidados aos
corações misericordiosos de Cristo e da sua Mãe. À distância de vinte e cinco
anos, ao reconsiderar as provações que não faltaram nem mesmo no exercício do
ministério petrino, desejo insistir, como para convidar calorosamente a todos,
a fim de que experimentem pessoalmente isto mesmo: verdadeiramente o Rosário «
marca o ritmo da vida humana » para harmonizá-la com o ritmo da vida divina, na
gozosa comunhão da Santíssima Trindade, destino e aspiração da nossa
existência. 

CAPÍTULO
III

« PARA MIM,
O VIVER É CRISTO »

O Rosário,
caminho de assimilação do mistério

26. A meditação dos mistérios de Cristo é
proposta no Rosário com um método característico, apropriado por sua natureza
para favorecer a assimilação dos mesmos. É o método baseado na repetição. Isto
é visível sobretudo com a Avé Maria, repetida dez vezes em cada mistério.
Considerando superficialmente uma tal repetição, pode-se ser tentado a ver o
Rosário como uma prática árida e aborrecida. Chega-se, porém, a uma ideia muito
diferente, quando se considera o Terço como expressão daquele amor que não se
cansa de voltar à pessoa amada com efusões que, apesar de semelhantes na sua
manifestação, são sempre novas pelo sentimento que as permeia.

Em Cristo,
Deus assumiu verdadeiramente um « coração de carne ». Não tem apenas um coração
divino, rico de misericórdia e perdão, mas também um coração humano, capaz de
todas as vibrações de afecto. Se houvesse necessidade dum testemunho evangélico
disto mesmo, não seria difícil encontrá-lo no diálogo comovente de Cristo com
Pedro depois da ressurreição: « Simão, filho de João, tu amas-Me? » Por três
vezes é feita a pergunta, e três vezes recebe como resposta: « Senhor, Tu sabes
que Te amo » (cf. Jo21, 15-17). Além do significado específico do texto, tão importante
para a missão de Pedro, não passa despercebida a ninguém a beleza desta
tríplice repetição, na qual a solicitação insistente e a respectiva resposta
são expressas com termos bem conhecidos da experiência universal do amor
humano. Para compreender o Rosário, é preciso entrar na dinâmica psicológica
típica do amor.

Uma coisa é
clara! Se a repetição da Avé Maria se dirige directamente a Maria, com Ela e
por Ela é para Jesus que, em última análise, vai o acto de amor. A repetição
alimenta-se do desejo duma conformação cada vez mais plena Cristo, verdadeiro
“programa” da vida cristã. S. Paulo enunciou este programa com palavras cheias
de ardor: « Para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro » (Flp 1, 21). E
ainda: « Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim » (Gal 2, 20). O
Rosário ajuda-nos a crescer nesta conformação até à meta da santidade.

Um método
válido…

27. Não
deve maravilhar-nos o facto de a relação com Cristo se servir também do auxílio
dum método. Deus comunica-Se ao homem, respeitando o modo de ser da nossa
natureza e os seus ritmos vitais. Por isso a espiritualidade cristã, embora
conhecendo as formas mais sublimes do silêncio místico onde todas as imagens,
palavras e gestos ficam superados pela intensidade duma inefável união do homem
com Deus, normalmente passa pelo envolvimento total da pessoa, na sua complexa
realidade psico-física e relacional.

Isto é
evidente na Liturgia. Os sacramentos e os sacramentais estão estruturados com
uma série de ritos, em que se faz apelo às diversas dimensões da pessoa. E a
mesma exigência transparece da oração não litúrgica. A confirmá-lo está o facto
de a oração mais característica de meditação cristológica no Oriente, que se
centra nas palavras « Jesus Cristo, Filho de Deus, Senhor, tem piedade de mim,
pecador »,(34)estar
tradicionalmente ligada ao ritmo da respiração: ao mesmo tempo que isso
facilita a perseverança na invocação, assegura quase uma densidade física ao
desejo de que Cristo se torne a respiração, a alma e o “tudo” da vida.

…que
todavia pode ser melhorado

28.
Recordei na Carta apostólica Novo
millennio ineunte
que há hoje, mesmo no Ocidente, uma renovada exigência de
meditação, que se vê às vezes promovida noutras religiões com modalidades
cativantes.(35)Não
faltam cristãos que, por reduzido conhecimento da tradição contemplativa
cristã, se deixam aliciar por tais propostas. Apesar de possuírem elementos
positivos e às vezes compatíveis com a experiência cristã, todavia escondem
frequentemente um fundo ideológico inaceitável. Em tais experiências, é muito
comum aparecer uma metodologia que, tendo por objectivo uma alta concentração
espiritual, recorre a técnicas repetitivas e simbólicas de carácter psico-físico.
O Rosário coloca-se neste quadro universal da fenomenologia religiosa, mas
apresenta características próprias, que correspondem às exigências típicas da
especificidade cristã. 

Na
realidade, trata-se simplesmente de um método para contemplar. E, como método
que é, há-de ser utilizado em ordem ao seu fim, e não como fim em si mesmo.
Mas, sendo fruto duma experiência secular, o próprio método não deve ser
subestimado. Abona em seu favor a experiência de inumeráveis Santos. Isto,
porém, não impede que seja melhorado. Tal é o objectivo da inserção, no ciclo
dos mistérios, da nova série dos mysteria lucis, juntamente com algumas
sugestões relativas à recitação, que proponho nesta Carta. Através delas,
embora respeitando a estrutura amplamente consolidada desta oração, queria
ajudar os fiéis a compreendê-la nos seus aspectos simbólicos, em sintonia com
as exigências da vida quotidiana. Sem isso, o Rosário corre o risco não só de
não produzir os efeitos espirituais desejados, mas até mesmo de o terço, com que
habitualmente é recitado, acabar por ser visto quase como um amuleto ou objecto
mágico, com uma adulteração radical do seu sentido e função.

A
enunciação do mistério

29.
Enunciar o mistério, com a possibilidade até de fixar contextualmente um ícone
que o represente, é como abrir um cenário sobre o qual se concentra a atenção.
As palavras orientam a imaginação e o espírito para aquele episódio ou momento
concreto da vida de Cristo. Na espiritualidade que se foi desenvolvendo na
Igreja, tanto a veneração de ícones como inúmeras devoções ricas de elementos
sensíveis e mesmo o método proposto por Santo Inácio de Loiola nos Exercícios
Espirituais recorrem ao elemento visível e figurativo (a chamada compositio
loci), considerando-o de grande ajuda para facilitar a concentração do espírito
no mistério. Aliás, é uma metodologia que corresponde à própria lógica da
Encarnação: em Jesus, Deus quis tomar feições humanas. É através da sua
realidade corpórea que somos levados a tomar contacto com o seu mistério
divino.

É a esta
exigência de concretização que dá resposta a enunciação dos vários mistérios do
Rosário. Certamente, estes não substituem o Evangelho, nem fazem referência a
todas as suas páginas. Por isso, o Rosário não substitui a lectio divina; pelo
contrário, supõe-na e promove-a. Mas, se os mistérios considerados no Rosário,
completados agora com os mysteria lucis, se limitam aos traços fundamentais da
vida de Cristo, o espírito pode facilmente a partir deles estender-se ao resto
do Evangelho, sobretudo quando o Rosário é recitado em momentos particulares de
prolongado silêncio.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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