Carta Apostólica Novo Millenio Ineunte – João Paulo II (Parte 2)

Espero que os Estados
membros destes organismos, sobretudo aqueles com maior peso decisório, consigam
reunir os consensos necessários para se chegar à rápida solução duma questão
que mantém suspenso o caminho do progresso de muitos países, com pesadas
consequências sobre a condição económica e existencial de tantas pessoas.

Um novo dinamismo

15. Estas são apenas algumas
das linhas resultantes da experiência jubilar. Desta ficam-nos gravadas tantas
recordações; se quiséssemos circunscrever o núcleo essencial do grande legado
que ela nos deixa, não hesitaria em vê-lo na contemplação do rosto de Cristo: considerando-O
nos seus traços históricos e no seu mistério, acolhendo-O com a sua multiforme
presença na Igreja e no mundo, confessando-O como sentido da história e luz do
nosso caminho.

Agora, devemos olhar para a
frente, temos de « fazer-nos ao largo » confiados na palavra de Cristo: Duc in altum!
O que realizámos neste ano jubilar não pode justificar uma sensação de
saciedade nem induzir-nos a uma atitude de relaxamento. Pelo contrário, as
experiências vividas devem suscitar em nós um dinamismo novo, que nos leve a
investir em iniciativas concretas aquele entusiasmo que sentimos. O próprio
Jesus nos adverte: « Quem, depois de deitar a mão ao arado, olha para trás, não
é apto para o Reino de Deus » (Lc 9,62). Na causa do Reino, não há tempo para
olhar para trás, menos ainda para dar-se à preguiça. Há muito trabalho à nossa
espera; por isso, devemos pôr mãos a uma eficaz programação pastoral
pós-jubilar.

Mas é muito importante que
tudo o que com a ajuda de Deus nos propusermos, esteja profundamente radicado
na contemplação e na oração. O nosso tempo é vivido em contínuo movimento que
muitas vezes chega à agitação, caindo-se facilmente no risco de « fazer por
fazer ». Há que resistir a esta tentação, procurando o « ser » acima do « fazer
». A tal propósito, recordemos a censura de Jesus a Marta: « Andas inquieta e
perturbada com muitas coisas; mas uma só é necessária » (Lc 10,41-42). Com este
espírito desejo, antes de propor à vossa consideração algumas linhas de acção,
partilhar qualquer tópico de meditação sobre o mistério de Cristo, fundamento absoluto
de toda a nossa acção pastoral.

II. UM ROSTO A CONTEMPLAR

16. « Queríamos ver a Jesus
» (Jo 12,21). Este pedido, feito ao apóstolo Filipe por alguns gregos que
tinham ido em peregrinação a Jerusalém por ocasião da Páscoa, ecoou
espiritualmente também aos nossos ouvidos ao longo deste ano jubilar. Como
aqueles peregrinos de há dois mil anos os homens do nosso tempo, talvez sem se
darem conta, pedem aos crentes de hoje não só que lhes « falem » de Cristo, mas
também que de certa forma lh’O façam « ver ». E não é porventura a missão da
Igreja reflectir a luz de Cristo em cada época da história, e por conseguinte
fazer resplandecer o seu rosto também diante das gerações do novo milénio?

Mas, o nosso testemunho
seria excessivamente pobre, se não fôssemos primeiro contemplativos do seu
rosto; por certo o Grande Jubileu ajudou-nos a sê-lo mais profundamente.
Concluído o Jubileu, ao retomarmos o caminho de sempre, conservando na alma a
riqueza das experiências vividas neste período muito especial, o olhar permanece
mais intensamente fixo no rosto do Senhor.

O testemunho dos Evangelhos

17. A contemplação do rosto de Cristo não pode inspirar-se
senão àquilo que se diz d’Ele na Sagrada Escritura, que está, do princípio ao
fim, permeada pelo seu mistério; este aparece obscuramente esboçado no Antigo
Testamento e revelado plenamente no Novo, de tal maneira que S. Jerónimo afirma
sem hesitar: « A ignorância das Escrituras é ignorância do próprio Cristo ».8
Permanecendo ancorados na Sagrada Escritura, abrimo-nos à acção do Espírito
(cf. Jo 15,26), que está na origem dos seus livros, e simultaneamente ao testemunho
dos Apóstolos (cf. Jo 15,27), que fizeram a experiência viva de Cristo, o Verbo
da vida: viram-No com os seus olhos, escutaram-No com os seus ouvidos, tocaram-No
com as suas mãos (cf. 1 Jo 1,1).

Por seu intermédio,
chega-nos uma visão de fé, sustentada por um testemunho histórico concreto: um
testemunho verdadeiro que os Evangelhos, apesar da sua redacção complexa e
finalidade primariamente catequética, nos oferecem de forma plenamente
atendível.9

18. De facto, os Evangelhos
não pretendem ser uma biografia completa de Jesus, segundo os cânones da
ciência histórica moderna. No entanto, neles aparece, com fundamento histórico
seguro, o rosto do Nazareno, visto que foi preocupação dos Evangelistas
delineá-lo, recolhendo testemunhos fidedignos (cf. Lc 1,3) e trabalhando sobre
documentos sujeitos a cuidadoso discernimento eclesial. Foi com base nestes
testemunhos da primeira hora que eles, sob a acção iluminadora do Espírito
Santo, souberam do facto – humanamente desconcertante – de Jesus ter nascido
virginalmente de Maria, esposa de José. Daqueles que O tinham conhecido durante
os trinta anos aproximadamente que vivera em Nazaré (cf. Lc 3,23), recolheram
os dados sobre a sua vida de « filho do carpinteiro » (Mt 13,55) e d’Ele mesmo
« carpinteiro », com o quadro da sua parentela bem especificado (cf. Mc 6,3). E
registaram a sua grande religiosidade que O levava a ir em peregrinação anual,
juntamente com os seus, ao templo de Jerusalém (cf. Lc 2,41) e sobretudo fazia
d’Ele um frequentador habitual da sinagoga da sua cidade (cf. Lc 4,16).

As notícias tornam-se mais
abundantes, embora não cheguem a ser um relato orgânico e detalhado, no período
do ministério público, a começar do momento em que o jovem Galileu Se fez
baptizar por João Baptista no Jordão; animado pelo testemunho do Alto e com a
consciência de ser o « Filho predilecto » (Lc 3,22), dá início à sua pregação
anunciando a chegada do Reino de Deus, ilustrando as suas exigências e a sua
força através de palavras e sinais de graça e misericórdia. Os Evangelhos
apresentam-no-Lo caminhando por cidades e aldeias, acompanhado por doze
Apóstolos que Ele escolhera (cf. Mc 3,13-19), por um grupo de mulheres que O
servem com os seus bens (cf. Lc 8,2-3), por multidões que O procuram e seguem,
por doentes que esperam no seu poder de cura, por interlocutores que ouvem, com
variado proveito, as suas palavras.

A narração dos Evangelhos
concorda também no facto de mostrar a tensão que foi crescendo entre Jesus e os
grupos dominantes da sociedade religiosa de então até à crise final, que teve o
seu epílogo dramático no Gólgota. É a hora das trevas, à qual se segue uma
aurora nova, radiante e definitiva. De facto, os relatos evangélicos terminam
mostrando o Nazareno vitorioso sobre a morte: assinalam o seu túmulo vazio e
acompanham-No no ciclo das aparições, durante as quais os discípulos, primeiro
perplexos e atónitos e depois cheios de inefável alegria, O experimentam vivo e
glorioso, tendo recebido d’Ele o dom do Espírito (cf. Jo 20,22) e o mandato de
anunciar o Evangelho a « todas as nações » (Mt 28,19).

O caminho da fé

19. « Alegraram-se os
discípulos, ao verem o Senhor » (Jo 20,20). O rosto, que os Apóstolos
contemplaram depois da ressurreição, era o mesmo daquele Jesus com quem tinham
convivido cerca de três anos e que agora os convencia da verdade incrível da
sua nova vida, mostrando-lhes « as mãos e o lado » (Jo 20,20). Certamente não
foi fácil acreditar. Os discípulos de Emaús só acreditaram no fim dum penoso
itinerário do espírito (cf. Lc 24,13-35). O apóstolo Tomé acreditou apenas
depois de ter constatado o prodígio (cf. Jo 20,24-29). Na realidade, por mais
que se olhasse e tocasse o seu corpo só a fé podia penetrar plenamente no
mistério daquele rosto. Esta experiência, deviam já tê-la feito os discípulos
na vida histórica de Cristo, sempre que se levantavam questões na sua mente ao
sentirem-se interpelados pelos seus gestos e palavras. A Jesus só se chega
verdadeiramente pelo caminho da fé, um caminho cujas etapas o próprio Evangelho
parece delinear na famosa cena de Cesareia de Filipe (cf. Mt 16,13-20). Fazendo
de certo modo um primeiro balanço da sua missão, Jesus pergunta aos discípulos
o que pensam « os homens » acerca d’Ele, tendo ouvido como resposta: « Uns
[dizem] que é João Baptista; outros, que é Elias; e outros, que é Jeremias ou
algum dos profetas » (Mt 16,14). Uma consideração certamente elevada, mas ainda
distante – e muito! – da verdade. O povo chega a pressentir a dimensão
religiosa, absolutamente excepcional, deste Rabbi, cujas palavras o deixa
fascinado, mas ainda não consegue colocá-Lo acima dos homens de Deus que
apareceram ao longo da história de Israel. Ora, Jesus é realmente muito mais. É
precisamente este passo sucessivo de conhecimento, que diz respeito ao nível
profundo da sua pessoa, que Ele espera dos « seus »: « Vós, quem dizeis que Eu
sou? » (Mt 16,15). Só a fé professada por Pedro – e, com ele, pela Igreja de
todos os tempos – atinge o coração do mistério, a sua profundidade: « Tu és o
Cristo, o Filho de Deus vivo » (Mt 16,16).

20. Como chegou Pedro a esta
fé? E o que se requer de nós, se quisermos seguir de forma cada vez mais
convicta as suas pegadas? Mateus dá-nos um indício esclarecedor nas palavras
com que Jesus acolhe a confissão de Pedro: « Não foram a carne nem o sangue
quem to revelou, mas o meu Pai que está nos céus » (Mt 16,17). A expressão «
carne e sangue » evoca o homem e o seu modo comum de conhecer que, no caso de
Jesus, não basta. É necessária uma graça de « revelação » que vem do Pai (cf. Mt
16,17). Lucas oferece-nos uma indicação, que aponta na mesma direcção, ao
observar que este diálogo com os discípulos teve lugar « quando [Jesus] orava
em particular, estando com Ele apenas os discípulos » (Lc 9,18). As duas
anotações levam-nos a tomar consciência de que, à plena contemplação do rosto
do Senhor, não chegamos pelas nossas simples forças, mas deixando a graça
conduzir-nos pela sua mão. Só a experiência do silêncio e da oração oferece o
ambiente adequado para maturar e desenvolver-se um conhecimento mais
verdadeiro, aderente e coerente daquele mistério cuja expressão culminante
aparece na solene proclamação do evangelista João: « E o Verbo fez-Se carne e
habitou no meio de nós; e nós vimos a glória d’Ele, glória que Lhe vem do Pai
como a Filho único, cheio de graça e de verdade » (Jo 1,14).

A profundidade do mistério

21. O Verbo e a carne, a
glória divina e a sua tenda no meio dos homens! É na união íntima e indivisível
destes dois pólos que está a identidade de Cristo, segundo a formulação
clássica do Concílio de Calcedónia (ano 451): « uma pessoa em duas naturezas ».
A pessoa é unicamente a do Verbo eterno, o Filho de Deus. As duas naturezas,
sem qualquer confusão mas também sem possível separação, são a divina e a
humana.10

Temos consciência do
carácter limitado dos nossos conceitos e palavras. Embora sempre humana, a
fórmula está calibrada cuidadosamente no seu conteúdo doutrinal, permitindo em
certa medida de nos debruçarmos sobre o abismo do mistério. Sim! Jesus é
verdadeiro Deus e verdadeiro homem! Como sucedeu com o apóstolo Tomé, a Igreja
é continuamente convidada por Cristo a tocar as suas chagas, ou seja, a
reconhecer a plena humanidade d’Ele, assumida de Maria, entregue à morte,
transfigurada pela ressurreição: « Chega aqui o teu dedo e vê as minhas mãos;
aproxima a tua mão e mete-a no meu lado » (Jo 20,27). Como Tomé, a Igreja
prostra-se em adoração diante do Ressuscitado, na plenitude do seu esplendor
divino, e perenemente exclama: « Meu Senhor e meu Deus! » (Jo 20,28).

22. « O Verbo fez-Se carne »
(Jo 1,14). Esta sublime apresentação joanina do mistério de Cristo é confirmada
por todo o Novo Testamento. Assim, S. Paulo afirma que o Filho de Deus nasceu «
da descendência de David segundo a carne » (Rom 1,3; cf. 9,5). Se hoje, com o
racionalismo que grassa em muitos sectores da cultura contemporânea, é a fé na
divindade de Cristo a encontrar mais problemas, também já houve contextos
históricos e culturais em que predominou a tendência a reduzir ou diluir o
carácter histórico concreto da humanidade de Jesus. Mas, para a fé da Igreja, é
essencial e irrenunciável afirmar que verdadeiramente o Verbo « Se fez carne »
e assumiu todas as dimensões do ser humano, excepto o pecado (cf. Heb 4,15).
Nesta perspectiva, a encarnação é verdadeiramente um « despojar-se » (kenosis),
por parte do Filho de Deus, da glória que Ele possui desde toda a eternidade
(cf. Fil 2,6-8; 1 Ped 3,18).

Por outro lado, esta
humilhação do Filho de Deus não é fim em si mesma, mas visa a plena
glorificação de Cristo, inclusivamente na sua humanidade: « Por isso é que Deus
O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todo o nome, para que, ao nome de
Jesus, todo o joelho se dobre nos céus, na terra e nos abismos, e toda a língua
confesse que Jesus Cristo é o Senhor para glória de Deus Pai » (Fil 2,9-11).

23. « É o teu rosto, Senhor,
que eu procuro » (Sal 2726,8). Este antigo anseio do Salmista não podia ter
recebido resposta melhor e mais surpreendente que a contemplação do rosto de
Cristo. N’Ele, Deus nos abençoou verdadeiramente, fazendo « resplandecer sobre
nós a luz do seu rosto » (Sal 6766,2). Sendo ao mesmo tempo Deus e homem, Ele
revela-nos também o rosto autêntico do homem, « revela o homem a si mesmo ».11

Jesus é o « homem novo »
(cf. Ef 4,24; Col 3,10), que convida a humanidade redimida a participar da sua
vida divina. No mistério da encarnação encontram-se as bases para uma
antropologia capaz de ultrapassar os seus próprios limites e contradições,
caminhando para o próprio Deus, antes, para a meta da « divinização », pela
inserção em Cristo do homem resgatado, admitido à intimidade da vida
trinitária. Os Santos Padres insistiram muito sobre esta dimensão soteriológica
do mistério da encarnação: só porque Se fez verdadeiramente homem o Filho de
Deus, é que o homem pode, n’Ele e por Ele, tornar-se realmente filho de Deus.12

Rosto do Filho

24. Esta sua identidade
divino-humana manifesta-se intensamente nos Evangelhos; estes dão-nos uma série
de elementos que nos permitem penetrar naquela « área reservada » do mistério
que é a autoconsciência de Cristo. A Igreja não tem dúvidas de que, narrando
inspirados pelo Alto, os Evangelistas captaram correctamente, nas palavras
pronunciadas por Jesus, a verdade da sua pessoa e a consciência que Ele tinha
da mesma. Não é precisamente isto que exprime Lucas quando refere as primeiras
palavras de Jesus, com doze anos apenas, no templo de Jerusalém? Já então Ele
está consciente de possuir uma relação única com Deus, própria de « filho ». De
facto, quando a Mãe Lhe faz saber a aflição com que Ela e José O procuraram,
Jesus responde sem hesitar: « Porque me procuráveis? Não sabíeis que devia
estar em casa de meu Pai? » (Lc 2,49). Por isso, não admira que, uma vez homem
feito, a sua linguagem exprima decididamente a profundidade do seu próprio
mistério, como largamente o sublinham quer os evangelhos sinópticos (cf. Mt 11,27;
Lc 10,22), quer sobretudo o evangelista João. Na consciência que tem de Si
mesmo, Jesus não nutre qualquer dúvida: « O Pai está em Mim e Eu n’Ele » (Jo 10,38).

Embora seja lícito pensar
que, no respeito da condição humana que O fazia crescer « em sabedoria, em
estatura e em graça » (Lc 2,52), também a consciência humana do seu mistério
tenha crescido até à expressão plena da sua humanidade glorificada, não há
dúvida de que Jesus, já nos dias da sua existência histórica, tinha consciência
da sua identidade de Filho de Deus. João sublinha-o tanto que chega a afirmar
que, em última análise, foi esse o motivo por que O rejeitaram e condenaram: na
realidade procuravam matá-Lo « não só por violar o sábado, mas também porque
dizia que Deus era seu Pai, fazendo-Se igual a Deus » (Jo 5,18). No cenário do
Getsémani e do Gólgota, a consciência humana de Jesus será submetida a dura
prova; mas nem sequer o drama da sua paixão e morte conseguirá turbar a sua
serena certeza de ser o Filho do Pai celeste.

Rosto doloroso

25. E assim a nossa
contemplação do rosto de Cristo trouxe-nos até ao aspecto mais paradoxal do seu
mistério, que se manifesta na hora extrema – a hora da Cruz. Mistério no
mistério, diante do qual o ser humano pode apenas prostrar-se em adoração.

Passa diante dos nossos
olhos, em toda a sua intensidade, a cena da agonia no Horto das Oliveiras.
Oprimido ao pressentir a prova que O espera, Jesus, sozinho com Deus, invoca-O
com a sua habitual e terna expressão de confidência: « Abba, Pai ». Pede-Lhe
para que, se for possível, afaste d’Ele o cálice do sofrimento (cf. Mc 14,36);
mas, o Pai parece não querer atender a voz do Filho. Para transmitir ao homem o
rosto do Pai, Jesus teve não apenas de assumir o rosto do homem, mas de tomar
inclusivamente o « rosto » do pecado: « Aquele que não havia conhecido pecado,
Deus O fez pecado por nós para que nos tornássemos n’Ele justiça de Deus » (2
Cor 5,21).

Jamais acabaremos de sondar
o abismo deste mistério. Este paradoxo surge, em toda a sua rudeza, no grito de
dor aparentemente desesperado que Jesus eleva na cruz: « Eloí, Eloí, lamá
sabachthani?, que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste? » (Mc 15,34).
Será possível imaginar um tormento maior, uma escuridão mais densa? Na
realidade, aquele « porque », cheio de angústia, dirigido ao Pai com as
palavras iniciais do Salmo 22, apesar de conservar todo o realismo dum
sofrimento inexprimível, é esclarecido pelo sentido geral da oração: o
Salmista, num misto impressionante de sentimentos, une lado a lado o sofrimento
e a confiança. Com efeito, o Salmo prossegue dizendo: « Em Vós confiaram os
nossos pais; confiaram e Vós os livrastes. […] Não Vos afasteis para longe de
mim, porque estou atribulado; não há quem me ajude » (2221,5.12).

26. O grito de Jesus na
cruz, amados irmãos e irmãs, não traduz a angústia dum desesperado, mas a
oração do Filho que, por amor, oferece a sua vida ao Pai pela salvação de
todos. Enquanto Se identifica com o nosso pecado, « abandonado » pelo Pai, Ele
« abandona-Se » nas mãos do Pai. Os seus olhos permanecem fixos no Pai.
Precisamente pelo conhecimento e experiência que só Ele tem de Deus, mesmo
neste momento de obscuridade Jesus vê claramente a gravidade do pecado e isso
mesmo fá-Lo sofrer. Só Ele, que vê o Pai e por isso rejubila plenamente, avalia
até ao fundo o que significa resistir com o pecado ao seu amor. A paixão é sofrimento
atroz na alma, antes de o ser e bem mais intensamente que no corpo. A tradição
teológica não deixou de interrogar-se como pôde Jesus viver simultaneamente a
união profunda com o Pai, por sua natureza fonte de alegria e beatitude, e a
agonia até ao grito do abandono. Na realidade, a presença conjunta destas duas
dimensões, aparentemente inconciliáveis, está radicada na profundidade
insondável da união hipostática.

27. Para penetrarmos neste
mistério, a par da pesquisa teológica pode-nos vir uma ajuda relevante também
daquele grande património que é a « teologia vivida » dos Santos. Estes dão-nos
preciosas indicações que nos permitem acolher mais facilmente a intuição da fé;
e fazem-no mercê das luzes particulares que alguns deles receberam do Espírito Santo,
ou mesmo da experiência que eles próprios tiveram daqueles terríveis estados de
provação que a tradição mística designa por « noite escura ». Não é raro terem
vivido os Santos algo que se assemelha à experiência de Jesus na cruz, num
misto paradoxal de beatitude e dor. Na obra Diálogo da Divina Providência,
temos Deus Pai que mostra a Catarina de Sena como é possível estar presente,
nas almas santas, simultaneamente a felicidade e o sofrimento: « A alma
sente-se feliz e atormentada: atormentada pelos pecados do próximo, feliz pela
união e afecto da caridade que a invadiu. Essas [almas santas] imitam o
Cordeiro imaculado, o meu Filho Unigénito, que na cruz Se sentia feliz e
atormentado ».13 Da mesma forma, Teresa de Lisieux vive a sua agonia em comunhão
com a de Jesus, verificando em si própria precisamente o paradoxo de Jesus
feliz e angustiado: « Nosso Senhor, no Horto das Oliveiras, gozava de todas as
alegrias da Trindade, e todavia a sua agonia não era menos atroz. É um
mistério; mas posso assegurar-lhe – escreve ela à Superiora – que compreendo
alguma coisa desse mistério a partir do que sinto em mim mesma ».14 É um
testemunho esclarecedor! Aliás, esta percepção eclesial da consciência de
Cristo encontra fundamento na própria narração dos Evangelistas, quando referem
que, mesmo no seu abismo de sofrimento, Ele morre implorando perdão para os
seus carrascos (cf. Lc 23,34) e manifestando ao Pai o seu extremo abandono
filial: « Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito » (Lc 23,46).

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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