Carta Apostólica Novo Millenio Ineunte – João Paulo II (Parte 1)

DO SUMO PONTÍFICE JOÃO PAULO II AO EPISCOPADO, AO CLERO E AOS FIÉIS NO TERMO DO GRANDE JUBILEU DO ANO 2000

Aos Irmãos no Episcopado,
aos sacerdotes e diáconos, aos religiosos e religiosas,a todos os fiéis leigos.

1. No início do novo milénio
quando se encerra o Grande Jubileu, em que celebrámos os dois mil anos do
nascimento de Jesus, e um novo percurso de estrada se abre para a Igreja,
ressoam no nosso coração as palavras com que um dia Jesus, depois de ter falado
às multidões a partir da barca de Simão, convidou o Apóstolo a « fazer-se ao
largo » para a pesca: « Duc in altum » (Lc 5,4). Pedro e os primeiros
companheiros confiaram na palavra de Cristo e lançaram as redes. « Assim
fizeram e apanharam uma grande quantidade de peixe » (Lc 5,6).

Duc in altum! Estas palavras
ressoam hoje aos nossos ouvidos, convidando-nos a lembrar com gratidão o
passado, a viver com paixão o presente, abrir-se com confiança ao futuro: «
Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e sempre » (Heb 13, 8).

Ao longo do ano jubilar,
grande foi a alegria da Igreja, que se dedicou a contemplar o rosto do seu
Esposo e Senhor. Ela tornou-se mais intensamente povo peregrino, guiado por
Aquele que é « o grande Pastor das ovelhas » (Heb 13,20). O povo de Deus, com
um dinamismo extraordinário que envolveu muitos dos seus membros, seja aqui em
Roma, seja em Jerusalém e em cada uma das Igrejas locais, passou pela « Porta
Santa » que é Cristo. A Ele, meta da história e único Salvador do mundo, a
Igreja e o Espírito gritaram: « Maranatha – Vem, Senhor Jesus! » (cf. Ap 22,17.20;
1 Cor 16,22).

É impossível medir o sucesso
de graça que, ao longo do ano, tocou as consciências. Mas certamente um « rio
de água viva », o mesmo que jorra incessantemente « do trono de Deus e do
Cordeiro » (Ap 22,1), inundou a Igreja. É a água do Espírito que sacia e renova
(cf. Jo 4,14). É o amor misericordioso do Pai que uma vez mais nos foi
manifestado e oferecido em
Cristo. No termo deste ano, podemos repetir, com renovado
júbilo, aquele antigo refrão de acção de graças: « Louvai o Senhor porque Ele é
bom, porque é eterna a sua misericórdia » (Sal 118117,1).

2. Sinto, por isso, a
necessidade de me dirigir a vós, irmãos muito amados, para partilhar convosco o
cântico de louvor. A este ano santo 2000, tinha eu pensado como uma data
importante, desde o princípio do meu pontificado. Tinha entrevisto esta
celebração como um momento providencial em que, trinta e cinco anos depois do
Concílio Ecuménico Vaticano II, a Igreja seria convidada a interrogar-se sobre
a sua renovação para assumir com novo impulso a sua missão evangelizadora.

O Jubileu terá conseguido
realizar este desígnio? O nosso empenho, com seus generosos esforços e
inevitáveis fragilidades, Deus o conhece. Mas não podemos subtrair-nos ao dever
de agradecer « as maravilhas » que Deus fez por nós. « Misericordias Domini in
aeternum cantabo » (Sal 8988,2).

Ao mesmo tempo, tudo o que
aconteceu sob os nossos olhos merece ser ponderado e de certo modo decifrado,
para ouvir aquilo que, ao longo deste ano tão intenso, o Espírito disse à
Igreja (cf. Ap 2,7.11.17 etc.).

3. Mas sobretudo é nossa
obrigação, amados irmãos e irmãs, lançar-nos para o futuro que nos espera.
Nestes meses, olhámos frequentemente para o novo milénio que começa, vivendo o
Jubileu não só como lembrança do passado, mas também como profecia do futuro.
Agora é preciso guardar o tesouro da graça recebida, traduzindo-a em ardentes
propósitos e directrizes concretas de acção. A esta tarefa, desejo convidar
todas as Igrejas locais. Em cada uma delas, reunida à volta do seu Bispo na
escuta da Palavra, na união fraterna e na « fracção do pão » (cf. Act 2,42), «
está e opera a Igreja de Cristo una, santa, católica e apostólica ».1 É
principalmente na realidade concreta de cada Igreja que o mistério do único
povo de Deus assume aquela configuração particular que o torna aderente aos
diversos contextos e culturas.

Este enraizamento da Igreja
no tempo e no espaço reflecte, em última análise, o movimento mesmo da
encarnação. É hora, pois, de cada Igreja reflectir sobre o que o Espírito disse
ao povo de Deus neste especial ano de graça e também no arco mais amplo de
tempo desde o Concílio Vaticano II até ao Grande Jubileu, medindo o seu fervor
e ganhando novo impulso para os seus compromissos espirituais e pastorais. Com
tal finalidade, desejo oferecer nesta Carta, no encerramento do ano jubilar, o
contributo do meu ministério petrino, para que a Igreja resplandeça cada vez
mais na variedade dos seus dons e na unidade do seu caminho.

I. O ENCONTRO COM CRISTO, LEGADO DO GRANDE JUBILEU

4. « Graças Te damos,
Senhor, Deus Todo-poderoso » (Ap 11,17). Na Bula de proclamação do Jubileu,
fazia votos de que a celebração bimilenária do mistério da encarnação fosse
vivida como « um único e incessante cântico de louvor à Trindade » 2 e, ao
mesmo tempo, « como caminho de reconciliação e como sinal de genuína esperança
para todos os que levantam seu olhar para Cristo e para a sua Igreja ».3 A
experiência do ano jubilar modelou-se precisamente segundo estas dimensões
vitais, atingindo momentos de tal intensidade que nos fizeram quase palpar
sensivelmente a presença misericordiosa de Deus, do Qual provém « toda a boa
dádiva e todo o dom perfeito » (Tg 1,17).

Penso, antes de mais, à dimensão
do louvor. Realmente é daqui que parte toda a autêntica resposta de fé à
revelação de Deus em Cristo.
O cristianismo é graça, é a surpresa de um Deus que, não
satisfeito com criar o mundo e o homem, saiu ao encontro da sua criatura e,
depois de ter falado muitas vezes e de diversos modos pelos profetas, «
falou-nos agora, nestes últimos tempos, pelo Filho » (Heb 1,1-2).

Agora! Sim, o Jubileu
fez-nos sentir que passaram dois mil anos de história sem se atenuar a pujança
daquele « hoje » referido pelos anjos, quando anunciaram aos pastores o
acontecimento maravilhoso do nascimento de Jesus em Belém: « Hoje, na cidade de
David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias, Senhor » (Lc 2,11). Passaram
dois mil anos, mas permanece viva como nunca a proclamação que Jesus fez da sua
missão aos conterrâneos na sinagoga de Nazaré, deixando-os atónitos ao aplicar
a Si próprio a profecia de Isaías: « Cumpriu-se hoje esta passagem da
Escritura, que acabais de ouvir » (Lc 4,21). Passaram dois mil anos, mas volta
sempre, cheio de consolação para os pecadores necessitados de misericórdia – e
quem não o é? -, aquele « hoje » da salvação que, na Cruz, abriu as portas do
Reino de Deus ao ladrão arrependido: « Em verdade te digo: hoje estarás Comigo
no Paraíso » (Lc 23,43).

A plenitude dos tempos

5. A coincidência deste Jubileu com a entrada num novo
milénio favoreceu seguramente, sem cair em fantasias milenaristas, a percepção
do mistério de Cristo no grande horizonte da história da salvação. O
cristianismo é religião entranhada na história. Com efeito, foi no terreno da
história que Deus quis estabelecer com Israel uma aliança e, deste modo,
preparar o nascimento do Filho no ventre de Maria, « na plenitude dos tempos »
(Gal 4,4). Visto no seu mistério divino e humano, Cristo é o fundamento e o
centro, o sentido e a meta última da história. De facto, foi por Ele, Verbo e
imagem do Pai, que « tudo começou a existir » (Jo 1,3; cf. Col 1,15). A sua
encarnação, que culminou no mistério pascal e no dom do Espírito, constitui o
coração pulsátil do tempo, a hora misteriosa em que o Reino de Deus passou a
estar ao nosso alcance (cf. Mc 1,15), antes lançou raízes na nossa história
como semente destinada a ser uma grande árvore (cf. Mc 4,30-32).

« Cristo ontem, Cristo hoje,
Cristo sempre, meu Salvador… »: com este cântico, milhares de vezes repetido,
contemplámos ao longo deste ano Cristo tal como no-Lo apresenta o Apocalipse: «
O Alfa e o Ómega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim » (Ap 22,13). E,
ao mesmo tempo que contemplámos Cristo, adorámos o Pai e o Espírito, a Trindade
única e indivisível, mistério inefável no qual tudo tem a sua origem e
perfeição.

Purificação da memória

6. Para que os nossos olhos
pudessem ficar mais puros para contemplarem o mistério, este ano jubilar
caracterizou-se intensamente pelo pedido de perdão. Isto verificou-se nos
indivíduos, que se interrogaram sobre a sua própria vida para implorar
misericórdia e obter o dom especial da indulgência, mas também com a Igreja
inteira, que quis recordar as infidelidades de muitos dos seus filhos que ao
longo da história obscureceram o seu rosto de Esposa de Cristo.

Há muito que nos
predispúnhamos para este exame de consciência, cientes de que a Igreja,
contendo pecadores no seu seio, é « simultaneamente santa e sempre necessitada
de purificação ».4 Congressos científicos ajudaram-nos a focalizar os aspectos
onde nem sempre brilhou o espírito evangélico, no arco dos primeiros dois
milénios. Como esquecer a comovente Liturgia de 12 de Março de 2000 na basílica
de S. Pedro, durante a qual, com os olhos fixos no Crucifixo, fiz-me porta-voz
da Igreja, pedindo perdão pelo pecado de todos os seus filhos? Esta «
purificação da memória » reforçou os nossos passos no caminho para o futuro,
tornando-nos ao mesmo tempo mais humildes e vigilantes na nossa adesão ao
Evangelho.

As testemunhas da fé

7. A consciência penitencial mais viva não nos impediu,
porém, de dar glória ao Senhor por tudo o que Ele fez ao longo dos séculos, de
modo particular neste último que deixámos para trás, assegurando à sua Igreja
uma longa série de santos e de mártires. Para alguns deles, este ano jubilar
foi o ano da beatificação ou canonização. Quer atribuída a Pontífices bem
conhecidos da história quer a figuras humildes de leigos e religiosos, a
santidade apareceu mais claramente, dum extremo ao outro do globo, como a
dimensão que melhor exprime o mistério da Igreja. Mensagem eloquente que não
precisa de palavras, aquela representa ao vivo o rosto de Cristo.

Muito se fez também, por
ocasião do ano santo, para recolher as memórias preciosas das Testemunhas da fé
do século XX. No dia 7 de Maio de 2000, juntamente com os representantes das
outras Igrejas e Comunidades eclesiais, fizemos a sua comemoração no sugestivo
cenário do Coliseu, símbolo das perseguições antigas. É uma herança que não se
deve perder, mas fazer frutificar num perene dever de gratidão e num renovado
propósito de imitação.

Igreja peregrina

8. Seguindo de algum modo as
pegadas dos Santos, foram-se alternando aqui em Roma, junto do túmulo dos Apóstolos,
inumeráveis filhos da Igreja, desejosos de professar a própria fé, confessar os
seus pecados e receber a misericórdia que salva. Neste ano, o meu olhar não se
deixou impressionar apenas pelas multidões que encheram a Praça de S. Pedro
durante muitas celebrações, pois não era raro deter-me a contemplar também as
longas filas de peregrinos que esperavam pacientemente a sua vez de atravessar
a Porta Santa. Em cada um deles, eu procurava imaginar uma história de vida,
feita de alegrias, ansiedades, sofrimentos; uma história acolhida por Cristo, e
que, no diálogo com Ele, retomava o seu caminho de esperança.

Naquele fluxo contínuo dos
grupos, deparava-se-me quase uma imagem palpável da Igreja peregrina, daquela
Igreja que vive, como diz S. Agostinho, « no meio das perseguições do mundo e
das consolações de Deus ».5 A nós, é-nos concedido apenas observar a face mais
exterior deste acontecimento singular. Quem pode calcular as maravilhas da
graça, que se realizaram nos corações? O melhor é calar e adorar, confiando
humildemente na acção misteriosa de Deus e cantando o seu amor sem fim: « Misericordias
Domini in aeternum cantabo »!

Os jovens

9. Os numerosos encontros
jubilares permitiram congregar-se as mais diversas categorias de pessoas, com
uma participação verdadeiramente impressionante, que às vezes chegou a pôr
duramente à prova os esforços dos organizadores e animadores, tanto eclesiais
como civis. Desejo aproveitar esta Carta para exprimir a todos o meu
agradecimento mais cordial. Mas, para além do número, aquilo que muitas vezes
me tocou foi verificar a seriedade do compromisso de oração, reflexão,
comunhão, que quase sempre se manifestava nestes encontros.

De modo especial, como não
recordar o encontro jubiloso e estimulante dos jovens? Se há uma imagem do
Jubileu do ano 2000 que ficará mais do que outras viva na memória, é
seguramente a daquela multidão oceânica de jovens com quem pude estabelecer uma
espécie de diálogo privilegiado, ditado por uma recíproca simpatia e uma
sintonia profunda. Verificou-se isto logo desde o momento das boas-vindas, que
lhes dei na Praça de S. João de Latrão e na Praça de S. Pedro. Depois vi-os
moverem-se pela cidade, alegres como devem ser os jovens, mas também
pensativos, ávidos de oração, de « sentido », de amizade verdadeira. Tanto para
eles mesmos como para aqueles que os contemplaram, não será fácil apagar da
memória aquela semana em que
Roma se fez « jovem com os jovens ». Não será possível
esquecer a celebração eucarística de Tor Vergata.

Os jovens revelaram-se uma
vez mais, para Roma e para a Igreja, um dom especial do Espírito de Deus. Às
vezes encontra-se na análise que fazem dos jovens, com todos os problemas e
fragilidades que os caracterizam na sociedade contemporânea, uma tendência ao
pessimismo. Ora, o Jubileu dos Jovens fez-nos ver que não é caso disso, ao
deixar a mensagem contrária duma juventude que, não obstante possíveis
ambiguidades, sente um anseio profundo daqueles valores autênticos que têm em
Cristo a sua plenitude. Porventura não é Cristo o segredo da verdadeira
liberdade e da alegria profunda do coração? Não é Cristo o maior amigo e,
simultaneamente, o educador de toda a amizade autêntica? Se Cristo lhes for
apresentado com o seu verdadeiro rosto, os jovens reconhecem-No como resposta
convincente e conseguem acolher a sua mensagem, mesmo se exigente e marcada
pela Cruz. Por isso, vibrando com o seu entusiasmo, não hesitei em pedir-lhes
uma opção radical de fé e de vida, apontando-lhes uma missão estupenda:
fazerem-se « sentinelas da manhã » (cf. Is 21,11-12) nesta aurora do novo
milénio.

Peregrinos das várias
categorias

10. Não posso, por razões
óbvias, concentrar-me detalhadamente sobre os diversos eventos jubilares. Cada
um deles teve o seu carácter próprio e deixou a sua mensagem não só para os
participantes directos, mas também para quantos ouviram falar ou tomaram parte
à distância através dos mass-media. Mas, como não recordar o tom festivo do primeiro
grande encontro, dedicado às crianças? O facto de se começar com elas
significava, de algum modo, acolher a advertência de Jesus: « Deixai vir a Mim
as criancinhas » (Mc 10,14). E significava talvez ainda mais repetir o gesto
praticado por Ele, quando « colocou no meio » um menino e fez dele o próprio
símbolo do comportamento que se tem de assumir, se se quiser entrar no Reino de
Deus (cf. Mt 18,2-4).

Assim, em determinado
sentido, foi seguindo os passos das crianças que vieram pedir a misericórdia
jubilar as mais variadas categorias de adultos: dos idosos aos doentes e
inválidos, dos trabalhadores das fábricas e dos campos aos desportistas, dos
artistas aos docentes universitários, dos Bispos e presbíteros às pessoas de
vida consagrada, dos políticos aos jornalistas e até aos militares, que vieram
reafirmar o sentido da sua missão como um serviço à paz.

Grande significado teve a
concentração dos trabalhadores, realizada no dia tradicional da sua festa – o
primeiro de Maio. Pedi-lhes para viverem a espiritualidade do trabalho,
imitando S. José e o próprio Jesus. Além disso, aquele jubileu deu-me ocasião
para lançar um forte apelo a fim de se sanarem os desequilíbrios económicos e
sociais que existem no mundo do trabalho e pautarem decididamente os processos
da globalização económica em função da solidariedade e do respeito devido a
cada pessoa humana.

As crianças voltaram, com a
sua alegria incontida, no Jubileu das Famílias, tendo-as então apontado ao
mundo como « primavera da família e da sociedade ». Foi verdadeiramente
expressivo este encontro jubilar com tantas famílias das mais diversas regiões
do mundo, que vieram receber, com novo fervor, a luz de Cristo sobre o desígnio
originário de Deus para elas (cf. Mc 10,6-8; Mt 19,4-6). Comprometeram-se a
irradiá-la sobre uma cultura que, de forma sempre mais preocupante, corre o
risco de perder o sentido do matrimónio e da instituição familiar.

Entre os momentos mais
tocantes que tive, conta-se o encontro com os presos do Estabelecimento
Prisional Regina Coli. Nos seus olhos, vi amargura, mas também o arrependimento
e a esperança. Para eles, o Jubileu foi a título absolutamente especial um «
ano de misericórdia ».

Por fim, nos últimos dias do
ano, teve lugar o encontro com o mundo do espectáculo, que tanta simpatia e
encanto desperta no coração das pessoas. A quantos trabalham neste sector,
recordei a grande responsabilidade de propor, através do divertimento jovial,
mensagens positivas, moralmente sãs, capazes de infundir confiança e amor à
vida.

O Congresso Eucarístico
Internacional

11. No desenvolvimento deste
ano jubilar, esperava-se que tivesse um significado qualificante o Congresso
Eucarístico Internacional; e teve-o. Se a Eucaristia é o sacrifício de Cristo
que Se torna presente entre nós, poderia a sua presença real não estar no
centro deste ano santo dedicado à encarnação do Verbo? Por isso mesmo, foi
previsto como ano « intensamente eucarístico » 6 e assim procurámos vivê-lo. Ao
mesmo tempo, como podia faltar a menção da Mãe, ao recordarmos o nascimento do
seu Filho? Maria esteve presente na celebração jubilar mediante oportunos e
qualificados Congressos, mas sobretudo através do grande Acto de Entrega com
que, ladeado por boa parte do Episcopado mundial, confiei à sua solicitude
materna a vida dos homens e mulheres do novo milénio.

A dimensão ecuménica

12. É compreensível que me
venha mais espontâneo falar do Jubileu visto da Sede de Pedro. Todavia não
esqueço que fui eu mesmo a desejar que a sua celebração se realizasse, a pleno
título, também nas Igrejas particulares; e foi lá que a maior parte dos fiéis
pôde obter as graças especiais conexas com o ano jubilar, e de modo particular
a indulgência. Mas não deixa de ser significativo que muitas dioceses tenham
sentido o desejo de fazer-se presente, com grupos numerosos de fiéis, também
aqui em Roma. Assim,
a Cidade Eterna manifestou uma vez mais o seu papel providencial de lugar onde
as riquezas e os dons de cada Igreja, e mesmo de cada nação e cultura, se
harmonizam na « catolicidade », para que a única Igreja de Cristo revele de
modo cada vez mais eloquente o seu mistério de sacramento de unidade.7

No âmbito do programa do ano
jubilar, tinha pedido que se desse uma atenção especial também à dimensão
ecuménica. Que ocasião mais propícia poderia haver, para encorajar o caminho
para a plena comunhão, do que a celebração comum do nascimento de Cristo?
Muitos esforços se realizaram com tal finalidade, sobressaindo pelo seu
significado o encontro ecuménico na basílica de S. Paulo, no dia 18 de Janeiro
de 2000: pela primeira vez na história, uma Porta Santa foi aberta
conjuntamente pelo Sucessor de Pedro, o Primaz Anglicano e o Metropolita do
Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, na presença de representantes de
Igrejas e Comunidades eclesiais de todo o mundo. Nesta linha, contam-se também
alguns encontros importantes com Patriarcas Ortodoxos e chefes doutras
confissões cristãs; recordo, em particular, a recente visita de Sua Santidade
Karekin II, Patriarca Supremo e Catholicos de todos os Arménios. Houve também
muitos fiéis doutras Igrejas e Comunidades eclesiais que tomaram parte nos
encontros jubilares das diversas categorias. O caminho ecuménico continua
certamente fatigoso, e talvez longo, mas anima-nos a esperança de sermos
guiados pela presença do Ressuscitado e pela força inexaurível do seu Espírito,
capaz de surpresas sempre novas.

A peregrinação na Terra
Santa

13. E como não recordar
ainda o meu Jubileu pessoal pelas estradas da Terra Santa? O meu desejo era
tê-lo iniciado em Ur dos Caldeus para percorrer quase sensivelmente os passos
de Abraão, « nosso pai na fé » (cf. Rom 4,11-16); mas tive de contentar-me com
uma paragem apenas espiritual através da sugestiva « Liturgia da Palavra », que
foi celebrada a 23 de Fevereiro na Aula Paulo VI. Logo a seguir começou a
peregrinação em sentido próprio, seguindo o itinerário da história da salvação.
Tive a alegria de parar no Monte Sinai, no cenário do dom do Decálogo e da
primeira Aliança. Um mês depois retomei o caminho que me levou até ao Monte
Nebo e, em seguida, aos lugares habitados e santificados pelo Redentor. É
difícil exprimir a emoção que senti ao poder venerar os lugares do nascimento e
da vida de Cristo em Belém e Nazaré, ao celebrar a Eucaristia no Cenáculo lugar
da sua instituição, e ao meditar o mistério da Cruz no Gólgota onde Ele deu a
vida por nós. Naqueles lugares, ainda muito atribulados e recentemente
funestados também pela violência, pude experimentar um acolhimento
extraordinário não só dos filhos da Igreja mas também por parte das comunidades
israelita e palestinense. Com intensa emoção, vivi a oração junto do Muro das
Lamentações e a visita ao Mausoléu de Yad Vashem, memorial chocante das vítimas
dos campos de extermínio nazistas. Aquela peregrinação foi um momento de
fraternidade e de paz que me apraz registar como um dos mais belos dons do
evento jubilar. Recordando o clima vivido naqueles dias, não posso deixar de
exprimir sentidos votos duma solução solícita e justa para os problemas ainda
inconclusos naqueles lugares santos, amados simultaneamente por judeus,
cristãos e muçulmanos.

A dívida internacional

14. Além disso, o Jubileu
foi um grande acontecimento de caridade; e não podia ser de outro modo. Já
desde os anos preparatórios, tinha lançado o apelo para uma atenção maior e
mais efectiva aos problemas da pobreza que ainda afligem o mundo. Neste
cenário, assumiu particular significado o problema da dívida internacional dos
países pobres. Um gesto de generosidade para com tais países estava inscrito
logicamente no próprio Jubileu, sabendo nós que este, na sua primordial
configuração bíblica, era precisamente o tempo em que a comunidade se
comprometia a restaurar a justiça e a solidariedade nas relações entre as
pessoas, restituindo-lhes inclusivamente os bens de que tinham sido privadas.
Com satisfação, vejo que recentemente os Parlamentos de muitos dos Estados
credores votaram um substancioso perdão da dívida bilateral que pesava sobre
países mais pobres e endividados. Faço votos de que os respectivos Governos
dêem, em breve, cumprimento a tais decisões parlamentares. Já se apresentou
mais problemática a questão da dívida multilateral, ou seja, a dívida contraída
pelos países mais pobres junto dos organismos financeiros internacionais.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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