Carta Apostólica Mulieris Dignitatem (Parte 7)

Com estas palavras a
Constituição sobre a Igreja no mundo contemporâneo indica-nos o caminho a
seguir na assunção dos empenhos relativos à dignidade da mulher e à sua
vocação, no cenário das transformações significativas para o nosso tempo.
Podemos enfrentar essas transformações de modo correto e adequado somente se
retomarmos o caminho dos fundamentos que se encontram em Cristo, das verdades e
dos valores « imutáveis », dos quais Ele mesmo permanece « testemunha fiel »
(cf. Apoc 1, 5) e Mestre. Um modo diverso de agir conduziria a resultados
duvidosos, e até mesmo errôneos e ilusórios.

A dignidade da mulher e a
ordem do amor

29. A passagem já citada da Carta aos Efésios (5, 21-33),
na qual a relação entre Cristo e a Igreja é apresentada como vínculo entre o
Esposo e a Esposa, faz referência também à instituição do matrimônio segundo as
palavras do Livro do Gênesis (cf. 2, 24). Ela une a verdade sobre o matrimônio
como sacramento primordial com a criação do homem e da mulher à imagem e
semelhança de Deus (cf. Gên 1, 27; 5, 1). Graças ao significativo confronto
presente na Carta aos Efésios, adquire plena clareza aquilo que decide da
dignidade da mulher, quer aos olhos de Deus, Criador e Redentor, quer aos olhos
do homem: do homem e da mulher. No fundamento do desígnio eterno de Deus, a
mulher é aquela na qual a ordem do amor no mundo criado das pessoas encontra um
terreno para deitar a sua primeira raiz. A ordem do amor pertence à vida íntima
do próprio Deus, à vida trinitária. Na vida íntima de Deus, o Espírito Santo é
a hipóstase pessoal do amor. Mediante o Espírito, Dom incriado, o amor se torna
um dom para as pessoas criadas. O amor, que vem de Deus, comunica-se às
criaturas: « O amor de Deus é derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo
que nos foi dado » (cf. Rom 5, 5).

O chamamento da mulher à
existência junto ao homem (« um auxiliar que lhe seja semelhante »: cf. Gên 2,
18) na « unidade dos dois » oferece, no mundo visível das criaturas, condições
particulares a fim de que « o amor de Deus seja derramado nos corações » dos
seres criados à sua imagem. Se o autor da Carta aos Efésios chama Cristo Esposo
e a Igreja Esposa, ele confirma indiretamente, com tal analogia, a verdade
sobre a mulher como esposa. O Esposo é aquele que ama. A Esposa é amada: é aquela
que recebe o amor para, por sua vez, amar.

A citação do Gênesis –
relida à luz do símbolo esponsal da Carta aos Efésios – permite-nos intuir uma
verdade que parece decidir essencialmente a questão da dignidade da mulher e,
em seguida, também a da sua vocação: a dignidade da mulher é medida pela ordem
do amor, que é essencialmente ordem de justiça e de caridade. (58)

Só a pessoa pode amar e só a
pessoa pode ser amada. Esta é uma afirmação, em primeiro lugar, de natureza
ontológica, da qual emerge depois uma afirmação de natureza ética. O amor é uma
exigência ontológica e ética da pessoa. A pessoa deve ser amada, pois só o amor
corresponde àquilo que é a pessoa. Assim se explica o mandamento do amor,
conhecido já no Antigo Testamento (cf. Dt 6, 5; Lev 19, 18) e colocado por
Cristo no próprio centro do « ethos » evangélico (cf. Mt 22, 36-40; Mc 12,
28-34). Assim se explica também o primado do amor expresso nas palavras de São
Paulo na Carta aos Coríntios: « maior é a caridade » (cf. 1 Cor 13, 13).

Se não se recorre a essa
ordem e a esse primado, não se pode dar uma resposta completa e adequada à
interrogação sobre a dignidade da mulher e sobre a sua vocação. Quando dizemos
que a mulher é aquela que recebe amor para, por sua vez, amar, não entendemos
só ou antes de tudo a relação esponsal específica do matrimônio. Entendemos
algo mais universal, fundado no próprio fato de ser mulher no conjunto das
relações interpessoais, que nas formas mais diversas estruturam a convivência e
a colaboração entre as pessoas, homens e mulheres. Neste contexto, amplo e
diversificado, a mulher representa um valor particular como pessoa humana e, ao
mesmo tempo, como pessoa concreta, pelo fato da sua feminilidade. Isto se
refere a todas as mulheres e a cada uma delas, independentemente do contexto
cultural em que cada uma se encontra e das suas características espirituais,
psíquicas e corporais, como, por exemplo, a idade, a instrução, a saúde, o
trabalho, o fato de ser casada ou solteira.

A citação da Carta aos
Efésios, que consideramos, leva-nos a pensar numa espécie de « profetismo »
particular da mulher na sua feminilidade. A analogia do Esposo e da Esposa fala
do amor com que todo homem é amado por Deus em Cristo, todo homem e toda
mulher. Todavia, no contexto da analogia bíblica e na base da lógica interna do
texto, é precisamente a mulher aquela que manifesta a todos esta verdade: a
esposa. Esta característica « profética » da mulher na sua feminilidade
encontra a sua mais alta expressão na Virgem Mãe de Deus. É em relação a ela que
se coloca em relevo, do modo mais pleno e direto, o elo íntimo que une a ordem
do amor – que entra no âmbito do mundo das pessoas humanas através de uma
Mulher – com o Espírito Santo. Maria escuta na Anunciação: « Virá sobre ti o
Espírito Santo » (Lc 1, 35).

Consciência de uma missão

30. A dignidade da mulher está intimamente ligada com o
amor que ela recebe pelo próprio fato da sua feminilidade e também com o amor
que ela, por sua vez, doa. Confirma-se assim a verdade sobre a pessoa e sobre o
amor. Acerca da verdade da pessoa, deve-se uma vez mais recorrer ao Concílio
Vaticano II: « O homem, a única criatura na terra que Deus quis por si mesma,
não pode se encontrar plenamente senão por um dom sincero de si mesmo ». (59)
Isto se refere a todo homem, como pessoa criada à imagem de Deus, quer homem
quer mulher. A afirmação de natureza ontológica aqui contida está a indicar
também a dimensão ética da vocação da pessoa. A mulher não pode se encontrar a
si mesma senão doando amor aos outros.

Desde o « princípio » a
mulher – como o homem – foi criada e «colocada» por Deus precisamente nesta
ordem de amor. O pecado das origens não anulou esta ordem, não a apagou de modo
irreversível. Provam-no as palavras bíblicas do Proto-Evangelho (cf. Gen 3,
15). Nas presentes reflexões observamos o lugar singular da « mulher » nesse
texto chave da Revelação. Além disso, é preciso observar como a própria mulher,
que chega a ser « paradigma » bíblico, se encontra também na perspectiva
escatológica do mundo e do homem, expressa no Apocalipse. (60) É « uma mulher
vestida de sol », com a lua debaixo dos pés e uma coroa de estrelas sobre a
cabeça (cf. Apoc 12, 1). Pode-se dizer: uma mulher à medida do cosmos, à medida
de toda a obra da criação. Ao mesmo tempo, ela sofre « as dores e o tormento do
parto » (Apoc 12, 2), como Eva « mãe de todos os viventes » (Gen 3, 20). Sofre
também porque, « diante da mulher que está para dar à luz » (cf. Apoc 12, 4),
se põe o « grande dragão, a serpente antiga » (Apoc 12, 9), conhecido já no
Proto-Evangelho: o Maligno, « pai da mentira » e do pecado (cf. Jo 8, 44). De
fato, a « serpente antiga » quer devorar « o filho ». Se vemos neste texto o
reflexo do Evangelho da infância (cf. Mt 2, 13. 16), podemos pensar que no
paradigma bíblico da « mulher » está inscrita, desde o início a até ao fim da
história, a luta contra o mal e contra o Maligno. Esta é também a luta pelo
homem, pelo seu verdadeiro bem, pela sua salvação. Não quererá a Bíblia
dizer-nos que precisamente na « mulher », Eva-Maria, a história registra uma
luta dramática em favor de todo homem, a luta pelo seu fundamental « sim » ou «
não » a Deus e ao seu desígnio eterno sobre o homem?

Se a dignidade da mulher
testemunha o amor que ela recebe para, por sua vez, amar, o paradigma bíblico
da « mulher » parece desvelar também qual seja a verdadeira ordem do amor que
constitui a vocação da mesma mulher. Trata-se aqui da vocação no seu
significado fundamental, pode-se dizer universal, que depois se concretiza e se
exprime nas múltiplas « vocações » da mulher na Igreja e no mundo.

A força moral da mulher, a
sua força espiritual une-se à consciência de que Deus lhe confia de uma maneira
especial o bomem, o ser humano. Naturalmente, Deus confia todo homem a todos e
a cada um. Todavia, este ato de confiar refere-se de modo especial à mulher –
precisamente pelo fato da sua feminilidade – e isso decide particularmente da
sua vocação.

Inspirando-se nesta
consciência e neste ato de confiança, a força moral da mulher exprime-se em
numerosíssimas figuras femininas do Antigo Testamento, do tempo de Cristo, das
épocas sucessivas, até aos nossos dias.

A mulher é forte pela
consciência dessa missão, forte pelo fato de que Deus « lhe confia o homem »,
sempre e em todos os casos, até nas condições de discriminação social em que
ela se possa encontrar. Esta consciência e esta vocação fundamental falam à
mulher da dignidade que ela recebe de Deus mesmo, e isto a torna « forte » e
consolida a sua vocação. Deste modo, a « mulher perfeita » (cf. Prov 31, 10)
torna-se um amparo insubstituível e uma fonte de força espiritual para os
outros, que percebem as grandes energias do seu espírito. A estas « mulheres
perfeitas » muito devem as suas famílias e, por vezes, inteiras Nações.

Na nossa época, os sucessos
da ciência e da técnica consentem alcançar, num grau até agora desconhecido, um
bem-estar material que, enquanto favorece alguns, conduz outros à
marginalização. Desse modo, este progresso unilateral pode comportar também um
gradual desaparecimento da sensibilidade pelo homem, por aquilo que é
essencialmente humano. Neste sentido, sobretudo os nossos dias aguardam a
manifestação daquele « gênio » da mulher que assegure a sensibilidade pelo
homem em toda circunstância: pelo fato de ser homem! E porque a maior é a
caridade » (cf. 1 Cor 13, 13).

Portanto, uma leitura atenta
do paradigma bíblico da « mulher » – desde o Livro do Gênesis até ao Apocalipse
– confirma em que consistem a dignidade e a vocação da mulher e o que nelas é
imutável e não se desatualiza, tendo o seu « fundamento último em Cristo, o
mesmo ontem, hoje e por toda a eternidade ». (61) Se o homem é por Deus
confiado de modo especial à mulher, isto não significará talvez que Cristo
espera dela a realização do « sacerdócio real » (1 Pdr 2, 9), que é a riqueza
que ele deu aos homens? Esta mesma herança Cristo, sumo e único sacerdote da
nova e eterna Aliança e Esposo da Igreja, não cessa de submeter ao Pai,
mediante o Espírito Santo, para que Deus seja « tudo em todos » (1 Cor 15, 28).
(62)

Então chegará ao cumprimento
definitivo a verdade que « maior é a caridade » (cf. 1 Cor 13, 13).

IX. CONCLUSÃO

« Se tu conhecesses o dom de
Deus »

31. « Se tu conhecesses o
dom de Deus » (Jo 4, 10), diz Jesus à Samaritana num daqueles admiráveis
colóquios, nos quais ele mostra quanta estima tem pela dignidade de cada mulher
e pela vocação que lhe consente participar na sua missão de Messias.

As presentes reflexões, que
agora chegam ao fim, são orientadas a reconhecer, no interior do « dom de Deus
», aquilo que Ele, criador e redentor, confia à mulher, a toda mulher. No
Espírito de Cristo, com efeito, ela pode descobrir o significado completo da
sua feminilidade e dispor-se desse modo ao « dom sincero de si mesma » aos
outros, e assim « encontrar-se ».

No Ano Mariano, a Igreja
deseja render graças à Santíssima Trindade pelo « mistério da mulher » – por
toda mulher – e por aquilo que constitui a eterna medida da sua dignidade
feminina, pelas « grandes obras de Deus » que na história das gerações humanas
nela e por seu meio se realizaram. Em última análise, não foi nela e por seu
meio que se operou o que há de maior na história do homem sobre a terra: o
evento pelo qual Deus mesmo se fez homem?

A Igreja, portanto, rende
graças por todas e cada uma das mulheres: pelas mães, pelas irmãs, pelas
esposas; pelas mulheres consagradas a Deus na virgindade; pelas mulheres que se
dedicam a tantos e tantos seres humanos, que esperam o amor gratuito de outra
pessoa; pelas mulheres que cuidam do ser humano na família, que é o sinal
fundamental da sociedade humana; pelas mulheres que trabalham
profissionalmente, mulheres que, às vezes, carregam uma grande responsabilidade
social; pelas mulheres « perfeitas » e pelas mulheres « fracas » – por todas:
tal como saíram do coração de Deus, com toda a beleza e riqueza da sua
feminilidade; tal como foram abraçadas pelo seu amor eterno; tal como,
juntamente com o homem, são peregrinas sobre a terra, que é, no tempo, a «
pátria » dos homens e se transforma, às vezes, num « vale de lágrimas »; tal
como assumem, juntamente com o homem, uma comum responsabilidade pela sorte da
humanidade, segundo as necessidades cotidianas e segundo os destinos
definitivos que a família humana tem no próprio Deus, no seio da inefável
Trindade.

A Igreja agradece todas as
manifestações do « gênio » feminino surgidas no curso da história, no meio de
todos os povos e Nações; agradece todos os carismas que o Espírito Santo
concede às mulheres na história do Povo de Deus, todas as vitórias que deve à
fé, à esperança e caridade das mesmas: agradece todos os frutos de santidade
feminina.

A Igreja pede, ao mesmo
tempo, que estas inestimáveis « manifestações do Espírito » (cf. 1 Cor 12, 4
ss), com grande generosidade concedidas às « filhas » da Jerusalém eterna,
sejam atentamente reconhecidas e valorizadas, para que redundem em vantagem
comum para a Igreja e para a humanidade, especialmente em nosso tempo.
Meditando o mistério bíblico da « mulher », a Igreja reza, a fim de que todas
as mulheres encontrem neste mistério a si mesmas e a sua « suprema vocação ».

Maria, que « precede toda a
Igreja no caminho da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo », (63)
obtenha para todos nós também este « fruto », no Ano que lhe dedicamos, no
limiar do terceiro milênio da vinda de Cristo.

Com estes votos, dou a todos
os fiéis e de maneira especial às mulheres, irmãs em Cristo, a Bênção
Apostólica.
_________________________

Dado em Roma, junto a São
Pedro, no dia 15 de Agosto – Solenidade da Assunção de Maria Santíssima – do
ano de 1988, décimo de Pontificado.

 

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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