Carta Apostólica Mulieris Dignitatem (Parte 2)

No início da Bíblia, não se
ouve ainda dizer isto diretamente. Todo o Antigo Testamento é sobretudo a
revelação da verdade sobre a unicidade e unidade de Deus. Nesta verdade
fundamental sobre Deus o Novo Testamento introduzirá a revelação do mistério
imperscrutável da vida íntima de Deus. Deus, que se dá a conhecer aos homens
por meio de Cristo, é unidade na Trindade: é unidade na comunhão. Desse modo
lança-se uma nova luz também sobre a semelhança e imagem de Deus no homem, de
que fala o Livro do Gênesis. O fato de o homem, criado como homem e mulher, ser
imagem de Deus não significa apenas que cada um deles, individualmente, é
semelhante a Deus, enquanto ser racional e livre; significa também que o homem
e a mulher, criados como « unidade dos dois » na comum humanidade, são chamados
a viver uma comunhão de amor e, desse modo, a refletir no mundo a comunhão de
amor que é própria de Deus, pela qual as três Pessoas se amam no íntimo
mistério da única vida divina. O Pai, o Filho e o Espírito Santo, um só Deus
pela unidade da divindade, existem como pessoas pelas imperscrutáveis relações
divinas. Somente assim se torna compreensível a verdade que Deus em si mesmo é
amor (cf. 1 Jo 4, 16).

A imagem e semelhança de
Deus no homem, criado como homem e mulher (pela analogia que se pode presumir
entre o Criador e a criatura), exprime portanto também a « unidade dos dois »
na comum humanidade. Esta « unidade dos dois », que é sinal da comunhão
interpessoal, indica que na criação do homem foi inscrita também uma certa
semelhança com a comunhão divina (« communio »). Esta semelhança foi inscrita
como qualidade do ser pessoal dos dois, do homem e da mulher, e, conjuntamente,
como uma chamada e um empenho. Na imagem e semelhança de Deus que o gênero
humano traz consigo desde o « princípio », radica-se o fundamento de todo o «
ethos » humano: o Antigo e o Novo Testamento irão desenvolver esse « ethos »,
cujo vértice é o mandamento do amor. (25)

Na « unidade dos dois », o
homem e a mulher são chamados, desde o início, não só a existir « um ao lado do
outro » ou « juntos », mas também a existir reciprocamente « um para outro ».

Assim se explica também o
significado daquele « auxiliar » de que se fala em Gênesis 2, 18-25: «
Dar-lhe-ei um auxiliar que lhe seja semelhante ». O contexto bíblico permite
entendê-lo também no sentido de que a mulher deve « auxiliar » o homem – e que
este, por sua vez, deve ajudar a ela – em primeiro lugar por causa do seu
idêntico « ser pessoa humana »: isto, em certo sentido, permite a ambos
descobrirem sempre de novo e confirmarem o sentido integral da própria
humanidade. É fácil compreender que – neste plano fundamental – se trata de um
« auxiliar » de ambas as partes e de um « auxiliar » recíproco. Humanidade significa
chamada à comunhão interpessoal. O texto de Gênesis 2, 18-25 indica que o
matrimônio é a primeira e, num certo sentido, a fundamental dimensão desta
chamada. Não é, porém, a única. Toda a história do homem sobre a terra
realiza-se no âmbito desta chamada. Na base do princípio do recíproco ser «
para » o outro, na « comunhão » interpessoal, desenvolve-se nesta história a
integração na própria humanidade, querida por Deus, daquilo que é « masculino »
e daquilo que é « feminino ». Os textos bíblicos, começando pelo Gênesis,
permitem-nos reencontrar constantemente o terreno no qual se enraíza a verdade
sobre o homem, um terreno sólido e inviolável em meio a tantas transformações
da existência humana.

Esta verdade refere-se
também à história da salvação. A este respeito, um enunciado do Concílio
Vaticano II é particularmente significativo. No capítulo sobre a « comunidade
dos homens » da Constituição pastoral Gaudium et Spes lemos: « Quando o Senhor
Jesus reza ao Pai que “todos sejam um… como nós somos um” (Jo 17,
21-22), abre perspectivas inacessíveis à razão humana e sugere alguma
semelhança entre a união das Pessoas divinas e a união dos filhos de Deus na
verdade e na caridade. Esta semelhança manifesta que o homem, única criatura na
terra que Deus quis por si mesma, não pode se encontrar plenamente senão por um
dom sincero de si mesmo ». (26)

Com estas palavras o texto
conciliar apresenta sinteticamente o conjunto da verdade sobre o homem e sobre
a mulher – verdade que se delineia já nos primeiros capítulos do Livro do
Gênesis – como a própria estrutura que sustenta a antropologia bíblica e
cristã. O homem – tanto homem como mulher – é o único ser entre as criaturas do
mundo visível que Deus Criador « quis por si mesmo »: é portanto uma pessoa. O
ser pessoa significa tender à própria realização (o texto conciliar diz « se
encontrar »), que não se pode alcançar « senão por um dom sincero de si mesmo
». Modelo de tal interpretação da pessoa é Deus mesmo como Trindade, como
comunhão de Pessoas. Dizer que o homem é criado à imagem e semelhança deste
Deus quer dizer também que o homem é chamado a existir « para » os outros, a
tornar-se um dom.

Isso diz respeito a todo ser
humano, seja homem, seja mulher; estes o atuam na peculiaridade própria a cada
um. No âmbito da presente meditação sobre a dignidade e a vocação da mulher,
esta verdade sobre o ser humano constitui o ponto de partida indispensável. Já
o Livro do Gênesis permite entrever, como num primeiro esboço, este caráter
esponsal da relação entre as pessoas, terreno sobre o qual se desenvolverá, a
seguir, a verdade sobre a maternidade, como também sobre a virgindade, como
duas dimensões particulares da vocação da mulher à luz da Revelação divina.
Estas duas dimenções vão encontrar a sua expressão mais alta no advento da
«plenitude dos tempos» (cf. Gál 4, 4) na figura da « mulher » de Nazaré:
Mãe-Virgem.

O antropomorfismo da
linguagem bíblica

8. A apresentação do homem como « imagem e semelhança de
Deus », logo no início da Sagrada Escritura, reveste-se também de outro
significado. Este fato constitui a chave para compreender a Revelação bíblica
como um discurso de Deus sobre si mesmo. Falando de si, seja « pelos profetas,
seja por meio do Filho » (cf. Hbr 1, 1-2) feito homem, Deus fala com linguagem
humana, faz uso de conceitos e imagens humanas. Se este modo de exprimir-se é
caracterizado por um certo antropomorfismo, a razão está no fato de que o homem
é « semelhante » a Deus: criado à sua imagem e semelhança. E então também Deus
é, de algum modo, « semelhante ao homem » e, precisamente com base nesta
semelhança, ele pode ser conhecido pelos homens. Ao mesmo tempo a linguagem da
Bíblia é suficientemente precisa para indicar os limites da « semelhança », os
limites da « analogia ». Com efeito, a revelação bíblica afirma que, se é
verdadeira a « semelhança » do homem com Deus, é essencialmente mais verdadeira
ainda a « não-semelhança », (27) que separa do Criador toda a criação. Em
última análise, para o homem criado à semelhança de Deus, Deus não cessa de ser
« aquele que habita numa luz inacessível » ( 1 Tim 6, 16): é o « Diverso » por
essência, o « totalmente Outro ».

Esta observação sobre os
limites da analogia – limites da semelhança do homem com Deus na linguagem
bíblica – deve ser levada em consideração também quando,em diversas passagens
da Sagrada Escritura (especialmente no Antigo Testamento), encontramos
comparações que atribuem a Deus qualidades « masculinas » ou « femininas ».
Encontramos nessas comparações a confirmação indireta da verdade de que ambos,
tanto o homem como a mulher, foram criados à imagem e semelhança de Deus. Se
existe semelhança entre o Criador e as criaturas, é compreensível que a Bíblia
tenha usado, a esse respeito, expressões que lhe atribuem qualidades quer «
masculinas » quer « femininas ».

Lembramos aqui algumas
passagens características do profeta Isaías: « Dissera Sião: “Javé
abandonou-me, o Senhor esqueceu-se de mim “. Pode, acaso, uma mãe esquecer
o próprio filhinho, não se enternecer pelo fruto das suas entranhas? Pois bem;
ainda que tais mulheres dele se esqueçam, eu, porém, não me esquecerei de ti »
(49, 14-15). E noutra passagem: « Como alguém que é consolado pela própria mãe,
assim eu vos consolarei; e em Jerusalém recebereis conforto » (Is 66, 13).
Também nos Salmos Deus é comparado a uma mãe pressurosa: « Como a criança
desmamada no regaço da mãe, como uma criança desmamada está minh’alma. Espera,
Israel, no Senhor » (Sl 131, 2-3). Em diversos trechos o amor de Deus, solícito
para com o seu povo, é apresentado como semelhante ao amor de uma mãe: tal como
uma mãe, Deus «carregou » a humanidade e, particularmente, o seu povo escolhido
no próprio seio, deu-o à luz na dor, nutriu-o e consolou-o (cf. Is 42, 14; 46,
3-4). O amor de Deus é apresentado em muitos trechos como amor « masculino » de
esposo e pai (cf. Os 11, 1-4; Jer 3, 4-19), mas, às vezes, também como amor a
feminino » de mãe.

Esta característica da
linguagem bíblica, o seu modo antropomórfico de falar de Deus, indica também
indiretamente o mistério do eterno « gerar », que pertence à vida íntima de
Deus. Todavia, este « gerar » em si mesmo não possui qualidades « masculinas »
nem « femininas ». É de natureza totalmente divina. É espiritual do modo mais
perfeito, pois « Deus é espírito » (Jo 4, 24) e não possui nenhuma propriedade
típica do corpo, nem « feminina » nem « masculina ». Por conseguinte, também a
« paternidade » em Deus é totalmente divina, livre da característica corporal «
masculina », que é própria da paternidade humana. Neste sentido, o Antigo Testamento
falava de Deus como de um Pai e se dirigia a ele como a um Pai. Jesus Cristo,
que pôs esta verdade no próprio centro do seu Evangelho como norma da oração
cristã, e que sedirigia a Deus chamando-lhe: « Abá – Pai » (Mc 14, 36), como
Filho unigênito e consubstancial, indicava a paternidade neste sentido
ultra-corporal, sobre-humano, totalmente divino. Falava como Filho, unido ao
Pai pelo mistério eterno do gerar divino, e o fazia sendo ao mesmo tempo. Filho
autenticamente humano da sua Mãe Virgem.

Se à geração eterna do Verbo
de Deus não se podem atribuir qualidades humanas, nem a paternidade divina
possui caracteres « masculinos » em sentido físico, contudo o modelo absoluto
de toda « geração » dos seres humanos no mundo deve ser procurado em Deus. Nesse sentido –
parece – lemos na Carta aos Efésios: « dobro os joelhos diante do Pai, de quem
recebe o nome toda a paternidade quer nos céus, quer na terra » (3, 14-15).
Todo « gerar » na dimensão das criaturas encontra o seu primeiro modelo no
gerar que em Deus é de modo completamente divino, isto é, espiritual. A este
modelo absoluto, não-criado, é assimilado todo « gerar » no mundo criado. Por
isso, tudo quanto no gerar humano é próprio do homem, como também tudo quanto é
próprio da mulher, isto é, a « paternidade » e a « maternidade » humanas,
trazem em si a semelhança, ou seja, a analogia com o « gerar » divino e com a «
paternidade » que em Deus é « totalmente diversa »: completamente espiritual e
divina por essência. Na ordem humana, ao invés, o gerar é próprio da « unidade
dos dois »: um e outro são « genitores », tanto o homem como a mulher.

IV. EVA – MARIA

O « princípio » e o pecado

9. « Constituído por Deus em
estado de justiça, o homem, porém, tentado pelo Maligno, desde o início da
história abusou de sua liberdade. Levanta-se contra Deus desejando atingir o
seu fim fora dele ». (28) Com estas palavras, o ensinamento do último Concílio
recorda a doutrina revelada sobre o pecado e, em particular, sobre o primeiro
pecado que é o pecado original. O « princípio » bíblico – a criação do mundo e
do homem no mundo – contém, ao mesmo tempo, a verdade sobre este pecado, que
pode ser chamado também o pecado do « princípio » do homem sobre a terra.
Embora o que está escrito no Livro do Gênesis venha expresso em forma de
narração simbólica, como no caso da descrição da criação do homem como homem e
mulher (cf. Gên 2, 18-25), mesmo assim revela aquilo a que é preciso chamar « o
mistério do pecado » e, mais plenamente ainda, « o mistério do mal » existente
no mundo criado por Deus.

Não é possível ler « o
mistério do pecado » sem fazer referência a toda a verdade sobre a « imagem e
semelhança » com Deus, que está na base da antropologia bíblica. Esta verdade
apresenta a criação do homem como uma doação especial por parte do Criador, na
qual estão contidos não só o fundamento e a fonte da dignidade essencial do ser
humano – homem e mulher – no mundo criado, mas também o início do chamamento
dos dois a participarem da vida íntima do próprio Deus. A luz da Revelação, criação
significa ao mesmo tempo início da história da salvação. Exatamente neste
inicio o pecado se inscreve e se configura como contraste e negação.

Pode-se dizer paradoxalmente
que o pecado, apresentado em Gênesis (c. 3), é a confirmação da verdade sobre a
imagem e semelhança de Deus no homem, se esta verdade significa a liberdade,
isto é, o livre arbítrio, com o uso da qual o homem pode escolher o bem, mas
pode também abusar escolhendo, contra a vontade de Deus, o mal. No seu
significado essencial, todavia, o pecado é a negação daquilo que Deus é-como
Criador-em relação ao homem, e daquilo que Deus quer, desde o início e para
sempre, para o homem. Criando o homem e a mulher à sua imagem e semelhança,
Deus quer para eles a plenitude do bem, ou seja a felicidade sobrenatural, que
deriva da participação na sua própria vida. Cometendo o pecado, o homem rejeita
este dom e, ao mesmo tempo, quer tornar-se « como Deus, conhecendo o bem e o
mal » (Gên 3, 5), isto é, decidindo do bem e do mal independentemente de Deus, seu
Criador. O pecado das origens tem a sua « medida » humana, a sua dimensão
interior na vontade livre do homem e juntamente traz em si uma certa
característica « diabólica », (29) como é claramente posto em relevo no Livro
do Gênesis (3, 1-5). O pecado opera a ruptura da unidade originária, da qual o
homem gozava no estado de justiça original: a união com Deus como fonte da
unidade no interior do próprio « eu », na relação recíproca do homem e da
mulher (« communio personarum ») e, enfim, face ao mundo exterior e à natureza.

A descrição bíblica do
pecado original em Gênesis (c. 3) de certo modo « distribui os papéis » que
nele desempenharam a mulher e o homem. A isto farão referência ainda mais tarde
algumas passagens da Bíblia, como, por exemplo, a Carta de São Paulo a Timóteo:
« Adão foi formado primeiro e depois Eva. E não foi Adão o seduzido; mas a
mulher ». (1 Tim 2, 13-14). Não há dúvida, porém, que, independentemente desta
« distribuição das partes » na descrição bíblica, esse primeiro pecado é o pecado
do homem, criado por Deus homem e mulher. Esse é também o pecado dos «
primeiros pais », ao qual se prende o seu caráter hereditário. Neste sentido
chamamo-lo «pecado original».

Esse pecado, como já foi
dito, não pode ser entendido adequadamente se não se referir ao mistério da
criação do ser humano – homem e mulher – à imagem e semelhança de Deus. Através
dessa referência se pode entender também o mistério da « não-semelhança » com
Deus, na qual consiste o pecado, e que se manifesta no mal presente na história
do mundo; da « não-semelhança » com Deus, o único que é bom (cf. Mt 19, 17) e
que é a plenitude do bem. Se esta « não-semelhança » do pecado com Deus, a
própria Santidade, pressupõe a « semelhança » no campo da liberdade, do livre
arbítrio, pode-se dizer então que, precisamente por esta razão, a «
não-semelhança » contida no pecado é tanto mais dramática e tanto mais
dolorosa. É preciso também admitir que Deus, como Criador e Pai, é aqui
atingido, « ofendido » e, obviamente, ofendido no coração mesmo da doação que
faz parte do desígnio eterno de Deus sobre o homem.

Ao mesmo tempo, porém,
também o ser humano – homem e mulher – é atingido pelo mal do pecado, do qual é
autor. O texto bíblico de Gênesis (c. 3) mostra-o com as palavras que descrevem
claramente a nova situação do homem no mundo criado. Ele mostra a perspectiva
da « fadiga » com que o homem há de procurar os meios para viver (cf. Gên 3,
17-19), bem como a das grandes « dores » em meio às quais a mulher dará à luz
seus filhos (cf. Gên 3, 16). Tudo isto, depois, é marcado pela necessidade da
morte, que constitui o termo da vida humana sobre a terra. Deste modo o homem,
como pó, « voltará à terra, porque dela foi tirado »: « porque és pó, e em pó
te hás de tornar » (cf. Gên 3, 19).

Estas palavras confirmam-se
de geração em geração.
Elas não significam que a imagem e a semelhança de Deus no
ser humano, quer mulher quer homem, foi destruída pelo pecado; significam, ao
invés, que foi « ofuscada » (30) e, em certo sentido, « diminuída ». Na verdade,
o pecado « diminui » o homem, como recorda também o Concílio Vaticano II. (31)
Se o homem, já pela sua própria natureza de pessoa, é imagem e semelhança de
Deus, então a sua grandeza e dignidade se realizam na aliança com Deus, na
união com ele, no fato de procurar a unidade fundamental que pertence à «
lógica » interior do mistério próprio da criação. Essa unidade corresponde à
verdade profunda de todas as criaturas dotadas de inteligência e, em
particular, do homem, o qual, entre as criaturas do mundo visível, desde o
início foi elevado, mediante a eleição eterna por parte de Deus em Jesus: « Em
Cristo … ele nos elegeu antes da criação do mundo (…). Por puro amor ele nos
predestinou a sermos por ele adotados por filhos, por intermédio de Jesus

Cristo, segundo o
beneplácito da sua vontade (cf. Ef 1,4-6). O ensinamento bíblico, no seu
conjunto, consente-nos dizer que a predestinação diz respeito a todas as
pessoas humanas, a homens e mulheres, a cada um e cada uma, sem exceção.

« Ele te dominará »

10. A descrição bíblica do Livro do Gênesis delineia a
verdade sobre as consequências do pecado do homem, como indica também a
perturbação da relação original entre o homem e a mulher que corresponde à
dignidade pessoal de cada um deles. O ser humano, tanto homem como mulher, é
uma pessoa e, por conseguinte, « a única criatura na terra que Deus quis por si
mesma »; e, ao mesmo tempo, precisamente esta criatura única e irrepetível «
não pode se encontrar plenamente senão por um dom sincero de si mesma ». (32) Daqui
se origina a relação de « comunhão », na qual se exprimem a « unidade dos dois
» e a dignidade pessoal tanto do homem como da mulher. Quando lemos, pois, na
descrição bíblica, as palavras dirigidas à mulher: « sentir-te-ás atraída para
o teu marido, e ele te dominará » (Gên 3, 16), descobrimos uma ruptura e uma
constante ameaça precisamente a respeito desta « unidade dos dois », que
corresponde à dignidade da imagem e da semelhança de Deus em ambos. Tal ameaça
resulta, porém, mais grave para a mulher. Com efeito, ao ser um dom sincero, e
por isso ao viver « para » o outro, sucede o domínio: « ele te dominará ». Este
« domínio » indica a perturbação e a perda da estabilidade da igualdade
fundamental, que na « unidade dos dois » possuem o homem e a mulher: e isto vem
sobretudo em desfavor da mulher, porquanto somente a igualdade, resultante da
dignidade de ambos como pessoas, pode dar às relações recíprocas o caráter de
uma autêntica « communio personarum » (comunhão de pessoas). Se a violação
desta igualdade, que é conjuntamente dom e direito que derivam do próprio Deus
Criador, comporta um elemento em desfavor da mulher, ao mesmo tempo tal
violação diminui também a verdadeira dignidade do homem. Tocamos aqui um ponto
extremamente sensível na dimensão do « ethos » inscrito originariamente pelo
Criador, já no fato mesmo da criação de ambos à sua imagem e semelhança.

Esta afirmação de Gênesis 3,
16 tem um grande e significativo alcance. Ela implica uma referência à relação
recíproca entre o homem e a mulher no matrimônio. Trata-se do desejo nascido no
clima do amor esponsal, que faz com que « o dom sincero de si mesmo » da parte
da mulher encontre resposta e complemento num « dom » análogo da parte do
marido. Somente apoiados neste princípio podem os dois, e em particular a
mulher, « encontrar-se » como verdadeira « unidade dos dois » segundo a
dignidade da pessoa. A união matrimonial exige o respeito e o aperfeiçoamento
da verdadeira subjetividade pessoal dos dois. A mulher não pode tornar-se «
objeto » de « domínio » e de « posse » do homem. Mas as palavras do texto
bíblico referem-se diretamente ao pecado original e às suas consequências
duradouras no homem e na mulher. Onerados pela pecaminosidade hereditária,
carregam em si a constante « causa do pecado », ou seja a tendência a ferir a
ordem moral, que corresponde à própria natureza racional e à dignidade do ser
humano como pessoa. Esta tendência exprime-se na tríplice concupiscência, que o
texto apostólico precisa como concupiscência dos olhos, concupiscência da carne
e fausto da vida (cf. 1 Jo 2, 16). As palavras do Gênesis, acima citadas (3,
16), indicam de que modo esta tríplice concupiscência, como « causa do pecado
», pesará sobre a relação recíproca entre homem e mulher.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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