Carta Apostólica Mane Nobiscum Domine de João Paulo II – Parte 1

DO SUMO PONTÍFICE JOÃO PAULO II AO EPISCOPADO, AO CLERO E AOS FIÉIS

PARA O ANO DA EUCARISTIA OUTUBRO 2004 – OUTUBRO 2005

INTRODUÇÃO

1. “Permanece conosco, Senhor, pois cai a tarde e o dia já
declina” (cf. Lc 24,29). Foi este o convite aflito que os dois discípulos que
caminhavam para Emaús na tarde do mesmo dia da ressurreição dirigiram ao
Caminhante que se havia unido a eles ao longo do caminho. Repletos de tristes
pensamentos, não imaginavam que aquele desconhecido fosse justamente seu
Mestre, agora ressurgido. Experimentavam, porém, um íntimo “ardor” (cf. ivi,
32), enquanto Ele falava com eles, “explicando” as Escrituras. A luz da Palavra
desfazia a dureza de seu coração e “lhes abria os olhos” (cf. ivi, 31). Entre as
sombras do dia em declínio e a escuridão que ameaçava o ânimo, aquele
Caminhante era um raio de luz que despertava a esperança e abria suas almas ao
desejo da luz plena. “Permanece conosco”, suplicaram-lhe. E ele aceitou. Dentro
em pouco, o rosto de Jesus desapareceria, mas o Mestre “permaneceria” sob os
véus do “pão partido”, diante do qual seus olhos se haviam aberto.

2. O ícone dos discípulos de Emaús bem serve para orientar
um Ano que verá a Igreja particularmente empenhada em viver o mistério da Santa
Eucaristia. Na estrada de nossas dúvidas e de nossas inquietações, às vezes de
nossas ardentes desilusões, o divino Caminhante continua a fazer-se nosso
companheiro para nos introduzir, com a interpretação das Escrituras, na
compreensão dos mistérios de Deus. Quando o encontro se torna pleno, à luz da
Palavra surge aquela que brota do “Pão de vida”, com o qual Cristo cumpre de
modo máximo sua promessa de “estar conosco todos os dias até o fim do mundo”
(cf. Mt 28,20).

3. A “fração do pão” – como, no início, era chamada a
Eucaristia – está desde sempre no centro da vida da Igreja. Por meio dela,
Cristo torna presente, no transcorrer do tempo, o seu mistério de morte e de
ressurreição. Nela Ele em pessoa é recebido como “pão vivo descido do céu” (Jo
6,51) e com Ele nos é dado o penhor da vida eterna, graças ao qual se antegoza
o eterno banquete da Jerusalém celeste. Muitas vezes, e mais recentemente na
Encíclica Ecclesia de Eucharistia, colocando-me na esteira do ensinamento dos
Padres, dos Concílios Ecumênicos e de meus próprios Predecessores, convidei a
Igreja a refletir sobre a Eucaristia. Não pretendo, pois, neste escrito,
repropor o ensinamento já oferecido, ao qual remeto para que seja aprofundado e
assimilado. Julguei, porém, que, justamente para tal propósito, poderia ser de
grande ajuda um Ano inteiramente dedicado a este admirável Sacramento.

4. Como sabido, o Ano da Eucaristia ocorrerá de outubro de
2004 a outubro de 2005. A ocasião propícia para tal iniciativa me foi ofertada
por dois eventos, que marcam oportunamente seu início e seu fim: o Congresso
Eucarístico Internacional, programado para de 10 a 17 de outubro de 2004 em
Guadalajara (México), e a Assembléia Ordinária do Sínodo dos Bispos, que
ocorrerá no Vaticano de 2 a 29 de outubro de 2005 sobre o tema: “A Eucaristia,
fonte e cume da vida e da missão da Igreja”. Orientando-me neste passo não
faltou, depois, uma outra consideração: ocorre neste ano a Jornada Mundial da
Juventude, que se desenvolverá em Colônia de 16 a 21 de agosto de 2005. A Eucaristia
é o centro vital entorno do qual desejo que os jovens se reúnam para alimentar
sua fé e seu entusiasmo. O pensamento de tal iniciativa eucarística já estava
há tempos em minha alma: ela constitui, de fato, o natural desenvolvimento da
direção pastoral que desejei imprimir à Igreja, especialmente a partir dos anos
de preparação do Jubileu, e que depois retomei naqueles que se lhe seguiram.

5. Na presente Carta apostólica, me proponho sublinhar esta
continuidade de direção, para que se torne mais fácil a todos colher seu
alcance espiritual. Quanto à realização concreta do Ano da Eucaristia, conto
com a pessoal solicitude dos Pastores das Igrejas particulares, aos quais a
devoção para com tão grande Mistério não deixará de sugerir as oportunas
intervenções. Aos meus Irmãos Bispos, além disto, não será difícil perceber
como a iniciativa, que segue a pouca distância a conclusão do Ano do Rosário,
se coloca em um nível espiritual tão profundo que não vem dificultar de modo
algum os programas pastorais das Igrejas particulares. Ela, ao contrário, pode
eficazmente iluminá-los, fundando-os, por assim dizer, no Mistério que
constitui a raiz e o segredo da vida espiritual dos fiéis como também de toda
iniciativa da Igreja local. Não peço, pois, que se interrompam os “caminhos”
pastorais que as Igrejas particulares vão fazendo, mas que se acentuem neles a
dimensão eucarística, que é própria de toda a vida cristã. De minha parte, com
esta Carta quero oferecer algumas orientações de fundo, na confiança de que o
Povo de Deus, em seus diversos componentes, queira acolher minha proposta com
pronta docilidade e férvido amor.

I

NA ESTEIRA DO CONCÍLIO E DO JUBILEU

Com o olhar dirigido a Cristo

6. Há dez anos, com a Tertio millennio adveniente (10 de
novembro de 1994), tive a alegria de indicar à Igreja o caminho de preparação
ao Grande Jubileu do Ano 2000. Sentia que esta ocasião histórica se delineava
no horizonte como uma grande graça. Não me iludia, certamente, que uma simples
passagem cronológica, ainda que sugestiva, pudesse por si mesma comportar
grandes mudanças. Os fatos, infelizmente, se encarregaram de pôr em evidência,
depois do início do Milênio, uma espécie de crua continuidade com os
acontecimentos precedente e, freqüentemente, com os piores entre estes. Veio, assim,
se delineando um cenário que, ao lado de perspectivas confortantes, deixa
entrever profundas sombras de violência e de sangue que não cessam de nos
entristecer. Mas, convidando a Igreja a celebrar o Jubileu dos dois mil anos da
Encarnação, estava bem convencido – e estou ainda mais que nunca! – de
trabalhar para o “longo tempo” da humanidade.

Cristo, de fato, está no centro não apenas da história da
Igreja, mas também da história da humanidade. Nele tudo se recapitula (cf. Ef
1,10; Col 1,15-20). Como não recordar o impulso com o qual o Concílio Ecumênico
Vaticano II, citando o Papa Paulo VI, confessou que Cristo “é o fim da história
humana, o ponto focal dos desejos da história e da civilização, o centro do
gênero humano, a alegria de cada coração, a plenitude de suas aspirações”[1][1][1]?
O ensinamento do Concílio trouxe novos aprofundamentos ao conhecimento da
natureza da Igreja, abrindo as almas dos fiéis a uma compreensão mais atenta
dos mistérios da fé e das próprias realidades terrestres à luz de Cristo. Nele,
Verbo feito carne, é, de fato, revelado não apenas o mistério de Deus, mas o
próprio mistério do homem.[2][2][2]
Nele o homem encontra redenção e plenitude.

7. Na Encíclica Redemptor hominis, no início de meu
Pontificado, desenvolvi amplamente esta temática, que depois retomei em várias
outras circunstâncias. O Jubileu foi o momento propício para convergir a
atenção dos fiéis sobre esta verdade fundamental. A preparação do grande evento
foi toda trinitária e cristocêntrica. Nesta elaboração, não podia, certamente,
ser esquecida a Eucaristia. Se hoje caminhamos para celebrar um Ano da
Eucaristia, recordo com prazer que já na Tertio millennio adveniente escrevia:
“O ano 2000 será um ano intensamente eucarístico: no sacramento da Eucaristia o
Salvador, encarnado no seio de Maria há vinte séculos, continua a se oferecer à
humanidade como fonte de vida divina”.[3][3][3]
O Congresso Eucarístico Internacional, celebrado em Roma, deu concretude a esta
conotação do Grande Jubileu. Deve-se recordar também que, em plena preparação
do Jubileu, na Carta apostólica Dies Domini propus à meditação dos fiéis o tema
do “Domingo” como dia do Senhor ressurgido e dia especial da Igreja. Naquela
ocasião, convidei todos a redescobrir a Celebração eucarística como coração do domingo.[4][4][4]

Contemplar com Maria o rosto de Cristo

8. A herança do Grande Jubileu foi de algum modo recolhida
na Carta apostólica Novo millennio ineunte. Neste documento de caráter
programático, sugeria uma perspectiva de empenho pastoral fundado na contemplação
do rosto de Cristo, no interior de uma pedagogia eclesial capaz de conduzir à
“alta medida” da santidade, perseguida especialmente através da arte da oração.[5][5][5]
E como poderia faltar, nesta perspectiva, o empenho litúrgico e, de modo
particular, a atenção à vida eucarística? Escrevi então: “No século XX,
especialmente a partir do Concílio, muito cresceu a comunidade cristã no modo
de celebrar os Sacramentos e sobretudo a Eucaristia. É preciso insistir nesta
direção, dando particular destaque à Eucaristia dominical e ao próprio domingo,
sentido como dia especial da fé, dia do Senhor ressurgido e do dom do Espírito,
verdadeira Páscoa semanal”.[6][6][6]
No contexto da educação para a oração, convidava depois a cultivar a Liturgia
das Horas, mediante a qual a Igreja santifica as diversas horas do dia e a
elevação do tempo na articulação própria do ano litúrgico.

9. Sucessivamente, com a indicação do Ano do Rosário e com a
publicação da Carta apostólica Rosarium Virginis Mariae, retomei o discurso da contemplação
do rosto de Cristo a partir da perspectiva mariana, através da reproposta do
Rosário. Efetivamente, esta oração tradicional, tanto recomendada pelo
Magistério e tão querida ao Povo de Deus, tem uma fisionomia tipicamente
bíblica e evangélica, prevalentemente centrada no nome e no rosto de Jesus,
fixado na contemplação dos mistérios e no repetir-se da Ave Maria. Seu
andamento repetitivo constitui uma espécie de pedagogia do amor, feita para
inflamar a alma com o próprio amor que Maria nutre para com seu Filho. Por
isso, conduzindo a ulterior maturação um itinerário plurissecular, quis que
esta forma privilegiada de contemplação completasse suas feições de verdadeiro
“compêndio do Evangelho”, acrescentando os mistérios da luz.[7][7][7] E
como não colocar, no vértice dos mistérios da luz, a Santa Eucaristia?

Do Ano do Rosário ao Ano da Eucaristia

10. Exatamente no coração do Ano do Rosário promulguei a
Carta encíclica Ecclesia de Eucharistia, com a qual quis ilustrar o mistério da
Eucaristia em sua relação inseparável e vital com a Igreja. Chamei todos a
celebrar o Sacrifício eucarístico com o empenho que ele merece, prestando a
Jesus presente na Eucaristia, mesmo fora da Missa, um culto de adoração digno
de tão grande Mistério. Sobretudo, repropus a exigência de uma espiritualidade
eucarística, apontando como modelo Maria, como “mulher eucarística”.[8][8][8]

O Ano da Eucaristia coloca-se então sobre um fundo que
foi se enriquecendo ano a ano, mesmo permanecendo sempre bem enraizado no tema
de Cristo e da contemplação do seu Rosto. Em certo sentido, este se propõe como
um ano de síntese, uma espécie de vértice de todo o caminho percorrido. Tantas
coisas poderiam ser ditas para viver bem este Ano. Eu me limitarei a indicar
algumas perspectivas que possam ajudar todos a convergir para atitudes
iluminadas e fecundas.

II

A EUCARISTIA, MISTÉRIO DE LUZ

“Explicou-lhes em todas as Escrituras o que a Ele dizia
respeito” (Lc 24,27)

11. A narrativa da aparição de Jesus ressurgido aos dois
discípulos de Emaús nos ajuda a focalizar um primeiro aspecto do mistério
eucarístico, que deve sempre estar presente na devoção do Povo de Deus: a
Eucaristia mistério de luz! Em que sentido pode-se dizer isto e quais são as
implicações que daí derivam para a espiritualidade e para a vida cristã?

Jesus qualificou a si mesmo como “luz do mundo” (Jo 8,12) e
esta sua propriedade é bem posta em evidência por aqueles momentos de sua vida,
como a Transfiguração e a Ressurreição, nos quais sua glória divina claramente
refulge. Na Eucaristia, ao contrário, a glória de Cristo está velada. O
Sacramento eucarístico é “mysterium fidei” por excelência. No entanto,
justamente através do mistério de seu total ocultamento, Cristo se faz mistério
de luz, graças ao qual o fiel é introduzido na profundidade da vida divina. Não
é sem uma feliz intuição que o célebre ícone da Trindade de Rublëv coloca de
modo significativo a Eucaristia no centro da vida trinitária.

12. A Eucaristia é luz antes de tudo porque em cada Missa a
liturgia da Palavra de Deus precede a liturgia eucarística, na unidade das duas
“mesas”, a da Palavra e a do Pão. Esta continuidade emerge no discurso
eucarístico do Evangelho de João, onde o anúncio de Jesus passa da apresentação
fundamental de seu mistério à ilustração da dimensão propriamente eucarística:
“A minha carne é verdadeira comida e o meu sangue, verdadeira bebida” (Jo 6,55).
Sabemos que isto pôs em crise grande parte dos ouvintes, levando Pedro a
fazer-se porta-voz da fé dos outros Apóstolos e da Igreja de todos os tempos:
“Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68). Na
narrativa dos discípulos de Emaús, Cristo mesmo intervém para mostrar,
“começando por Moisés e por todos os profetas”, como “todas as Escrituras”
levavam ao mistério da sua pessoa (cf. Lc 24, 27). Suas palavras fazem “arder”
os corações dos discípulos, tiram-nos da escuridão da tristeza e do desespero,
suscitam neles o desejo de permanecer com Ele: “Permanece conosco, Senhor” (cf.
Lc 24,29).

13. Os Padres do Concílio Vaticano II, na Constituição
Sacrosanctum Concilium, quiseram que a “mesa da Palavra” abrisse abundantemente
aos fiéis os tesouros da Escritura.[9][9][9]
Por isso, consentiram que, na Celebração litúrgica, especialmente as leituras
bíblicas fossem oferecidas na língua por todos compreendida. É Cristo que fala
quando, na Igreja, se lê a Sagrada Escritura.[10][10][10]
Ao mesmo tempo, recomendaram ao celebrante a homilia como parte da mesma
Liturgia, destinada a ilustrar a Palavra de Deus e a atualizá-la para a vida
cristã.[11][11][11]
Quarenta anos depois do Concílio, o Ano da Eucaristia pode constituir uma
importante ocasião para que as comunidades cristãs façam uma verificação sobre
este ponto. Não basta, de fato, que as passagens bíblicas sejam proclamadas em
uma língua compreensível, se a proclamação não ocorre com aquele cuidado,
aquela preparação prévia, aquela escuta devota, aquele silêncio meditativo, que
são necessários para que a Palavra de Deus toque a vida e a ilumine.

“Reconheceram-no na fração do pão” (Lc 24,35)

14. É significativo que os dois discípulos de Emaús,
convenientemente preparados pela palavra do Senhor, o tenham reconhecido
enquanto estavam à mesa no gesto simples da “fração do pão”. Uma vez que as
mentes sejam iluminadas e os corações aquecidos, os sinais “falam”. A Eucaristia
se desenvolve toda no contexto dinâmico de sinais que trazem em si uma densa e
luminosa mensagem. É através dos sinais que o mistério, de algum modo, se abre
aos olhos do fiel.

Como sublinhei na Encíclica Ecclesia de Eucharistia, é
importante que nenhuma dimensão deste Sacramento seja descuidada. De fato, está
sempre presente no homem a tentação de reduzir a Eucaristia às próprias
dimensões, enquanto, na verdade, é ele que deve abrir-se à dimensão do Mistério.
“A Eucaristia é um dom muito grande para suportar ambigüidades e reduções”.[12][12][12]

15. Não há dúvida de que a dimensão mais evidente da
Eucaristia seja a do banquete. A Eucaristia nasceu, na noite da Quinta-feira
Santa, no contexto da ceia pascal. Ela, portanto, traz inscrito na sua estrutura
do sentido do convívio: “Tomai e comei. Depois pegou o cálice e. o deu a eles,
dizendo: Bebei todos.” (Mt 26, 26.27). Este aspecto bem exprime a relação de
comunhão que Deus quis estabelecer conosco e que nós mesmos devemos desenvolver
mutuamente.

Não se pode, porém, esquecer que o banquete eucarístico tem
também um sentido profunda e primariamente sacrifical.[13][13][13]
Nele Cristo nos reapresenta o sacrifício realizado uma vez por todas no Gólgota.
Mesmo estando presente nele ressurgido, Ele traz os sinais de sua paixão, da
qual cada Santa Missa é “memorial”, como a Liturgia nos recorda com a aclamação
depois da consagração: “Anunciamos vossa morte, Senhor, proclamamos vossa
ressurreição.” Ao mesmo tempo, enquanto atualiza o passado, a Eucaristia nos
projeta rumo ao futuro da última vinda de Cristo, no fim da história. Este
aspecto “escatológico” dá ao Sacramento eucarístico um dinamismo comprometedor,
que infunde no caminho cristão o passo da esperança.

“Estou convosco todos os dias.” (Mt 28,20)

16. Todas estas dimensões da Eucaristia se encontram em um
aspecto que, mais que todos, põe à prova nossa fé: é o mistério da presença
“real”. Com toda a tradição da Igreja, nos acreditamos que, sob as espécies
eucarísticas, está realmente presente Jesus. Uma presença – como explicou
eficazmente o Papa Paulo VI – que é dita “real” não por exclusão, quase come se
as outras formas de presença não fossem reais, mas por antonomásia, porque, por
força dela, Cristo todo inteiro se faz substancialmente presente na realidade
do seu corpo e do seu sangue.[14][14][14] Por
isso, a fé nos pede que estejamos diante da Eucaristia com a consciência de
estarmos diante do próprio Cristo. Exatamente a sua presença dá às outras
dimensões – de banquete, de memorial da Páscoa, de antecipação escatológica –
um significado que ultrapassa em muito um mero simbolismo. A Eucaristia é
mistério de presença, por meio do qual se realiza de modo absoluto a promessa
de Jesus e permanecer conosco até o fim do mundo.

Celebrar, adorar, contemplar

17. Grande mistério, a Eucaristia! Mistério que deve, antes
de tudo, ser bem celebrado. É preciso que a Santa Missa seja posta no centro da
vida cristã e que em cada comunidade se faça de tudo para celebrá-la com
decoro, segundo as normas estabelecidas, com a participação do povo,
servindo-se dos diversos ministros no exercício das tarefas para eles
previstas, e com uma séria atenção também aos aspectos de sacralidade que deve
caracterizar o canto e a música litúrgica. Um empenho concreto deste Ano da
Eucaristia poderia ser o de estudar a fundo, em cada comunidade paroquial, os Princípios
e normas para uso do Missal Romano. A via privilegiada para ser introduzidos no
mistério da salvação realizada nos santos “sinais” permanece, pois, aquela de
seguir com fidelidade o desenrolar do Ano litúrgico. Os Pastores se empenhem
naquela catequese “mistagógica”, tão cara aos Padres da Igreja, que ajuda a
descobrir o valor dos gestos e das palavras da Liturgia, ajudando os fiéis a
passar dos sinais ao mistério e a comprometer nele sua existência inteira.

18. É preciso, em particular, cultivar, quer na celebração
da Missa, quer no culto eucarístico fora da Missa, a viva consciência da
presença real de Cristo, tendo o cuidado de testemunhá-la com o tom da voz, com
os gestos, com os movimentos, com todo o conjunto do comportamento. A este
propósito, as normas recordam – e o mesmo tive ocasião recentemente de recordar[15][15][15]
– o destaque que deve ser dado aos momentos de silencia, seja na celebração,
seja na adoração eucarística. É necessário, em uma palavra, que todo o modo de
tratar a Eucaristia por parte dos ministros e dos fiéis seja marcado por um
extremo respeito.[16][16][16] A
presença de Jesus no tabernáculo deve constituir como que um pólo de atração para
um número sempre maior de almas apaixonadas por Ele, capazes de ficar longo
tempo escutando a voz e quase que sentindo o palpitar do coração. “Provai e
vede como o Senhor é bom!” (Sal 33 [34],9).

A adoração eucarística fora da Missa se torne, durante
este ano, um empenho especial para cada comunidade paroquial e religiosa.
Permaneçamos longamente prostrados diante de Jesus presente na Eucaristia,
reparando com nossa fé e nosso amor os descuidos, os esquecimentos e até os
ultrajes que nossa Salvador deve sofrer em tantas partes do mundo. Aprofundemos
na adoração a nossa contemplação pessoal e comunitária, servindo-nos também de
subsídios de oração sempre marcados pela Palavra de Deus e pela experiência de
tantos místicos antigos e recentes. O próprio Rosário, compreendido em seu sentido
profundo, bíblico e cristocêntrico, que recomendei na Carta apostólica Rosarium
Virginis Mariae, poderá ser uma via particularmente adaptada à contemplação
eucarística, realizada na companhia e na escola de Maria.[17][17][17]

Viva-se, neste ano, com particular fervor a solenidade do Corpus
Domini com a tradicional procissão. A fé no Deus que, encarnando-se, se fez
nosso companheiro de viagem seja proclamada em todo lugar e particularmente em
nossas ruas e entre nossas casas, como expressão do nosso grato amor e fonte de
inexaurível benção.

III

[1][1] Const.
past. Sobre a Igreja no
mundo contemporâneo Gaudium et spes, 45.

[2][2] Cf. ibid.,
22.

[3][3] N. 55: AAS
87 (1995), 38.

[4][4] Cf. n. 32-34:
AAS 90 (1998), 732-734.

[5][5] Cf. n. 30-32:
AAS 93 (2001), 287-289.

[6][6] Ibid.,
35, l.c., 290-291.

[7][7] Cf. Carta ap. Rosarium Virginis
Mariae (16 de outubro de 2002), 19.21: AAS 95 (2003), 18-20.

[8][8] Carta enc. Ecclesia de
Eucharistia (17 de abril de 2003), 53: AAS 95 (2003), 469.

[9][9] Cf. n.51.

[10][10] Cf. ibid.,
7.

[11][11] Cf. ibid.,
52.

[12][12] Carta enc. Ecclesia de
Eucharistia (17 de abril de 2003), 10: AAS 95 (2003), 439.

[13][13] Cf. João Paulo II, Carta enc. Ecclesia
de Eucharistia (17 de abril de 2003), 10: AAS 95 (2003), 439; Congr.
para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Instr. Redemptionis
Sacramentum sobre algumas coisas que se devem observar e evitar a respeito
da Santíssima Eucaristia (25 de março de 2004), 38: L’Osservatore Romano,
24 de abril de 2004, supl., p.3.

[14][14] Cf. Carta enc. Mysterium fidei
(3 de setembro de 1965), 39: AAS 57 (1965), 764; S. Congr. dos Ritos,
Instr. Eucharisticum mysterium sobre o culto do Mistério eucarístico (25
de maio de 1967), 9: AAS 59 (1967), 547.

[15][15] Cf. Mensagem Spiritus et Sponsa,
no XL aniversário da Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada
Liturgia (4 de dezembro de 2003), 13: AAS 96 (2004), 425.

[16][16] Cf. Congr. para o Culto Divino e a
Disciplina dos Sacramentos, Instr. Redemptionis Sacramentum sobre
algumas coisas que se devem observar e evitar a respeito da Santíssima
Eucaristia (25 de março de 2004): L’Osservatore Romano, 24 de abril de
2004, supl.

[17][17] Cf. ibid. 137, l.c.,
p.7.

Compartilhe!

    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
    Adicionar a favoritos link permanente.