Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre a colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo – Parte 1

INTRODUÇÃO

1. Perita em
humanidade, a Igreja está sempre interessada por tudo o que diz respeito ao
homem e à mulher. Nestes últimos tempos, tem-se refletido muito sobre a
dignidade da mulher, sobre os seus direitos e deveres nos diversos âmbitos da
comunidade civil e eclesial. Havendo contribuído para o aprofundamento desta
temática fundamental, sobretudo com o ensinamento de João Paulo II,1 a Igreja
sente-se hoje interpelada por algumas correntes de pensamento, cujas teses
muitas vezes não coincidem com as finalidades genuínas da promoção da mulher.

O presente
documento, depois de uma breve apresentação e apreciação crítica de certas
concepções antropológicas hodiernas, entende propor algumas reflexões
inspiradas pelos dados doutrinais da antropologia bíblica – aliás indispensáveis
para a salvaguarda da identidade da pessoa humana – sobre alguns pressupostos
em ordem a uma reta compreensão da colaboração ativa do homem e da mulher na
Igreja e no mundo, a partir dessa sua mesma diferença. Pretendem estas
reflexões, ao mesmo tempo, propor-se como ponto de partida para um caminho de
aprofundamento no seio da Igreja e para instaurar um diálogo com todos os
homens e mulheres de boa vontade, na busca sincera da verdade e no esforço
comum de promover relações cada vez mais autênticas.

 I. O
PROBLEMA

2. Nestes
últimos anos têm-se delineado novas tendências na abordagem do tema da mulher.
Uma primeira tendência sublinha fortemente a condição de subordinação da
mulher, procurando criar uma atitude de contestação. A mulher, para ser ela mesma,
apresenta-se como antagônica do homem. Aos abusos de poder, responde com uma
estratégia de busca do poder. Um tal processo leva a uma rivalidade entre os
sexos, onde a identidade e o papel de um são assumidos em prejuízo do outro,
com a consequência de introduzir na antropologia uma perniciosa confusão, que
tem o seu revés mais imediato e nefasto na estrutura da família.

Uma segunda
tendência emerge no sulco da primeira. Para evitar qualquer supremacia de um ou
de outro sexo, tende-se a eliminar as suas diferenças, considerando-as simples
efeitos de um condicionamento histórico-cultural. Neste nivelamento, a
diferença corpórea, chamada sexo, é minimizada, ao passo que a dimensão
estritamente cultural, chamada gênero, é sublinhada ao máximo e considerada
primária. O obscurecimento da diferença ou dualidade dos sexos é grávido de
enormes consequências a diversos níveis. Uma tal antropologia, que entendia
favorecer perspectivas igualitárias para a mulher, libertando-a de todo o
determinismo biológico, acabou de fato por inspirar ideologias que promovem,
por exemplo, o questionamento da família, por sua índole natural bi-parental,
ou seja, composta de pai e de mãe, a equiparação da homossexualidade à
heterossexualidade, um novo modelo de sexualidade polimórfica.

3. A raiz imediata da sobredita
tendência coloca-se no contexto da questão da mulher, mas a sua motivação mais
profunda deve procurar-se na tentativa da pessoa humana de libertar-se dos
próprios condicionamentos biológicos.2 De acordo com tal perspectiva
antropológica, a natureza humana não teria em si mesma características que se
imporiam de forma absoluta: cada pessoa poderia e deveria modelar-se a seu
gosto, uma vez que estaria livre de toda a predeterminação ligada à sua
constituição essencial.

Muitas são
as consequências de uma tal perspectiva. Antes de mais, consolida-se a idéia de
que a libertação da mulher comporta uma crítica à Sagrada Escritura, que
transmitiria uma concepção patriarcal de Deus, alimentada por uma cultura
essencialmente machista. Em segundo lugar, semelhante tendência consideraria
sem importância e sem influência o fato de o Filho de Deus ter assumido a
natureza humana na sua forma masculina.

4. Perante
tais correntes de pensamento, a Igreja, iluminada pela fé em Jesus Cristo, fala ao
invés de colaboração ativa, precisamente no reconhecimento da própria diferença
entre homem e mulher.

Para melhor
compreender o fundamento, o sentido e as consequências desta resposta, convém
voltar, ainda que brevemente, à Sagrada Escritura, que é rica também de
sabedoria humana, e onde esta resposta se manifestou progressivamente, graças à
intervenção de Deus em favor da humanidade.3

II. OS
DADOS FUNDAMENTAIS DA
ANTROPOLOGIA BÍBLICA

5. Uma
primeira série de textos bíblicos a examinar são os primeiros três capítulos do
Gênesis. Colocam-nos eles «no contexto do “princípio” bíblico, no qual a
verdade revelada sobre o homem como “imagem e semelhança de Deus” constitui a base
imutável de toda a antropologia cristã».4

No primeiro
texto (Gen 1,1-2,4) descreve-se o poder criador da Palavra de Deus que
estabelece distinções no caos primigênio. Aparecem a luz e as trevas, o mar e a
terra firme, o dia e a noite, as ervas e as árvores, os peixes e as aves, todos
«segundo a própria espécie». Nasce um mundo ordenado a partir de diferenças
que, por sua vez, são outras tantas promessas de relações. Eis, assim, esboçado
o quadro geral em que se coloca a criação da humanidade. «Disse Deus: Façamos o
homem à nossa imagem e semelhança… Deus criou o ser humano à sua imagem;
criou-o à imagem de Deus; criou-o homem e mulher» (Gen 1, 26-27). A humanidade
aqui é descrita como articulada, desde a sua primeira origem, na relação do
masculino e do feminino. É esta humanidade sexuada que é explicitamente
declarada «imagem de Deus».

6. O
segundo relato da criação (Gen 2,4-25) confirma inequivocavelmente a
importância da diferença sexual. Uma vez plasmado por Deus e colocado no
jardim, de que recebe a gestão, aquele que é designado ainda com o termo
genérico de Adam sente uma solidão que a presença dos animais não consegue
preencher. Precisa de uma ajuda que lhe seja correspondente. O termo indica,
aqui, não um papel subalterno, mas uma ajuda vital.5 A finalidade é,
efetivamente, a de permitir que a vida de Adam não se afunde num confronto
estéril, e por fim mortal, apenas consigo mesmo. É necessário que entre em
relação com um outro ser que esteja ao seu nível. Só a mulher, criada da mesma
«carne» e envolvida no mesmo mistério, dá um futuro à vida do homem. Isso dá-se
a nível ontológico, no sentido que a criação da mulher da parte de Deus
caracteriza a humanidade como realidade relacional. Neste encontro brota também
a palavra que abre, pela primeira vez, a boca do homem numa expressão de
maravilha: «Esta é realmente carne da minha carne e osso dos meus ossos» (Gen2,23).

«A mulher –
escreveu o Santo Padre em referência a este texto do Gênesis – é um outro “eu”
na comum humanidade. Desde o início, [o homem e a mulher] aparecem como
“unidade dos dois”, e isto significa a superação da solidão originária, na qual
o homem não encontra “um auxiliar que lhe seja semelhante” (Gen2,20).
Tratar-se-á aqui do “auxiliar” só na ação, no “dominar a terra”? (cfr Gen
1,28). Certamente se trata da companheira da vida, com a qual o homem pode unir-se
como se une com a esposa, tornando-se com ela “uma só carne” e abandonando, por
isso, o “seu pai e a sua mãe” (cfr Gen 2,24)».6

A diferença
vital é orientada à comunhão e é vivida de forma pacífica, expressa no tema da
nudez: «Ora ambos andavam nus, o homem e a sua mulher, e não sentiam vergonha»
(Gen 2,25). Assim, o corpo humano, marcado pelo selo da masculinidade ou da
feminilidade, «comporta “desde o princípio” o atributo “esponsal”, ou seja a
capacidade de exprimir o amor: aquele amor precisamente no qual o homem-pessoa
se torna dom e – mediante esse dom – realiza o próprio sentido do seu ser e
existir».7 Ainda comentando estes versículos do Gênesis, o Santo Padre
continua: «Nesta sua particularidade, o corpo é a expressão do espírito, e é
chamado, no próprio mistério da criação, a existir na comunhão das pessoas, “à
imagem de Deus”».8

Na mesma
perspectiva esponsal, compreende-se em que sentido o antigo relato do Gênesis
dê a entender como a mulher, no seu ser mais profundo e originário, exista «para
o outro» (cfr 1Cor 11,9): é uma afirmação que, bem longe de evocar alienação,
exprime um aspecto fundamental da semelhança com a Santíssima Trindade, cujas
Pessoas, com a vinda de Cristo, revelam estar em comunhão de amor, umas para as
outras. «Na “unidade dos dois”, o homem e a mulher são chamados, desde o
início, não só a existir “um ao lado do outro” ou “juntos”, mas também a
existir reciprocamente “um para o outro”… O texto de Gênesis 2,18-25 indica
que o matrimônio é a primeira e, num certo sentido, a fundamental dimensão
desta chamada. Não é, porém, a única. Toda a história do homem sobre a terra
realiza-se no âmbito desta chamada. Na base do princípio do recíproco ser
“para” o outro, na “comunhão” interpessoal, desenvolve-se nesta história a integração
na própria humanidade, querida por Deus, daquilo que é “masculino” e daquilo
que é “feminino”».9

A visão
pacífica com que termina o segundo relato da criação ecoa no «muito bom» que,
no primeiro relato, encerrava a criação do primeiro casal humano. É aqui que se
encontra o coração do plano originário de Deus e da verdade mais profunda do
homem e da mulher, como Deus os quis e criou. Por mais perturbadas e
obscurecidas que sejam pelo pecado, tais disposições originárias do Criador
jamais poderão ser anuladas.

7. O pecado
original altera a maneira como o homem e a mulher acolhem e vivem a Palavra de
Deus e a sua relação com o Criador. Logo a seguir à entrega do dom do jardim,
Deus dá um mandamento positivo (cfr Gen 2,16), seguido de outro negativo (cfr Gen
2,17), em que implicitamente se afirma a diferença essencial entre Deus e a
humanidade. Sob a insinuação da Serpente, essa diferença é contestada pelo
homem e pela mulher. Em consequência, é também alterada a maneira de viver a
sua diferença sexual. O relato do Gênesis estabelece assim uma relação de causa
e efeito entre as duas diferenças: quando a humanidade considera Deus como seu
inimigo, a própria relação do homem e da mulher é pervertida. Quando esta
última relação se deteriora, o acesso ao rosto de Deus corre, por sua vez, o
perigo de ficar comprometido.

Nas
palavras que Deus dirige à mulher a seguir ao pecado, é expressa de forma
lapidar, mas não menos impressionante, o tipo de relações que passarão a
instaurar-se entre o homem e a mulher: «Sentir-te-ás atraída para o teu marido
e ele te dominará» (Gen 3,16). Será uma relação em que frequentemente se
desnaturará o amor na mera busca de si mesmo, numa relação que ignora e mata o
amor, substituindo-o com o jogo do domínio de um sexo sobre o outro. A história
da humanidade reproduz de fato tais situações, em que se exprime claramente a
tríplice concupiscência que São João recorda, ao falar da concupiscência da
carne, da concupiscência dos olhos e da soberba da vida (cfr 1Jo 2,16). Nesta
trágica situação, perdem-se a igualdade, o respeito e o amor, que no plano
originário de Deus a relação do homem e da mulher exige.

8. Repassar
estes textos fundamentais permite reafirmar alguns dados capitais da
antropologia bíblica.

Antes de
mais, há que sublinhar o caráter pessoal do ser humano. «O homem é uma pessoa,
em igual medida o homem e a mulher: os dois, na verdade, foram criados à imagem
e semelhança do Deus pessoal».10 A igual dignidade das pessoas realiza-se como
complementaridade física, psicológica e ontológica, dando lugar a uma
harmoniosa «unidualidade» relacional, que só o pecado e as “estruturas do
pecado” inscritas na cultura tornaram potencialmente conflituosa. A
antropologia bíblica convida a enfrentar com uma atitude relacional, não
concorrencial nem de desforra, os problemas que, a nível público ou privado,
envolvem a diferença de sexo.

Há que
salientar, por outro lado, a importância e o sentido da diferença dos sexos
como realidade profundamente inscrita no homem e na mulher: «a sexualidade
caracteriza o homem e a mulher, não apenas no plano físico, mas também no
psicológico e espiritual, marcando todas as suas expressões».11 Não se pode
reduzi-la a puro e insignificante dado biológico, mas é «uma componente
fundamental da personalidade, uma sua maneira de ser, de se manifestar, de
comunicar com os outros, de sentir, exprimir e viver o amor humano».12 Esta
capacidade de amar, reflexo e imagem de Deus Amor, tem uma sua expressão no
caráter esponsal do corpo, em que se inscreve a masculinidade e a feminilidade
da pessoa.

A dimensão
antropológica da sexualidade é inseparável da teológica. A criatura humana, na
sua unidade de alma e corpo, é desde o princípio qualificada pela relação com o
outro-de-si. É uma relação que se apresenta sempre boa e, ao mesmo tempo,
alterada. É boa, de uma bondade originária declarada por Deus desde o primeiro
momento da criação; mas é também alterada pela desarmonia entre Deus e a
humanidade provocada pelo pecado. Esta alteração não corresponde, porém, nem ao
projeto inicial de Deus sobre o homem e sobre a mulher, nem à verdade da
relação dos sexos. Daí que, portanto, esta relação boa, mas ferida, precise de
ser curada.

Quais podem
ser os caminhos dessa cura? Considerar e analisar os problemas inerentes à
relação dos sexos, só a partir de uma situação marcada pelo pecado, levaria
necessariamente o pensamento a regredir aos erros acima acenados. Há portanto
que romper esta lógica de pecado e procurar uma saída que permita extirpá-la do
coração do homem pecador. Uma orientação clara nesse sentido encontra-se na
promessa divina de um Salvador, em que aparecem empenhadas a «mulher» e a sua
«descendência» (cfr Gen 3,15). É uma promessa que, antes de se cumprir, terá
uma longa preparação na história.

9. Uma
primeira vitória sobre o mal está representada na história de Noé, homem justo,
que, guiado por Deus, escapa ao dilúvio com a sua família e com as diversas
espécies de animais (cfr Gen 6-9). Mas é sobretudo na escolha divina de Abraão
e da sua descendência (cfr Gen 12,1ss) que a esperança de salvação se confirma.
Deus começa assim a revelar o seu rosto, para que, através do povo escolhido, a
humanidade aprenda a estrada da semelhança divina, ou seja, da santidade e, por
conseguinte, da mudança do coração. Entre as muitas maneiras com que Deus se
revela ao seu povo (cfr Heb 1,1), segundo uma longa e paciente pedagogia,
encontra-se também a referência ao tema comum da aliança do homem e da mulher.
É paradoxal, se se considera o drama evocado pelo Gênesis e a sua réplica muito
concreta no tempo dos profetas, bem como a mistura entre o sagrado e a
sexualidade presente nas religiões que circundam Israel. Mesmo assim, tal
simbolismo afigura-se indispensável para se compreender o modo com que Deus ama
o seu povo: Deus faz-se conhecer como Esposo que ama Israel, sua Esposa.

Se nesta
relação Deus é descrito como «Deus ciumento» (cfr Ex 20,5; Naum 1,2) e Israel
denunciado como Esposa «adúltera» ou «prostituta» (cfr Os 2,4-15; Ez 16,15-34),
é porque a esperança, reforçada pela palavra dos profetas, está precisamente em
ver a nova Jerusalém tornar-se a esposa perfeita: «tal como o jovem desposa uma
virgem, o teu Construtor te desposará; e como a esposa é a alegria do marido,
tu serás a alegria do teu Deus» (Is 62,5). Recriada «na justiça e no direito,
na benevolência e no amor» (Os 2,21), aquela que se afastara para procurar a
vida e a felicidade entre os falsos deuses há-de voltar, e Àquele que lhe
falará ao coração «cantará como nos dias da sua juventude» (Os 2,17); e
ouvi-lo-á declarar: «o teu esposo é o teu criador» (Is 54,5). Substancialmente,
é o mesmo dado que se afirma, quando, paralelamente ao mistério da obra que
Deus realiza através da figura masculina do Servo sofredor, o livro de Isaías
evoca a figura feminina de Sião, ornada de uma transcendência e de uma
santidade que prefiguram o dom da salvação destinada a Israel.

O Cântico
dos Cânticos representa, sem dúvida, um momento privilegiado no uso desta
modalidade de revelação. Nas palavras de um amor muito humano que celebra a
beleza dos corpos e a felicidade do procurar-se um ao outro, exprime-se também
o amor de Deus para com o seu povo. A Igreja, portanto, não se enganou, quando,
usando as mesmas expressões, descobriu na audaciosa união do que há de mais
humano com o que há de mais divino, o mistério da sua relação com Cristo.
Ao longo de
todo o Antigo Testamento, configura-se uma história de salvação que joga
simultaneamente com a participação do masculino e do feminino. Os termos esposo
e esposa, e também aliança, com que se caracteriza a dinâmica da salvação,
embora possuindo uma evidente dimensão metafórica, são muito mais que simples
metáforas. Tal vocabulário nupcial atinge a própria natureza da relação que
Deus estabelece com o seu povo, mesmo se essa relação é mais vasta do que se
possa provar na experiência nupcial humana. Igualmente, as mesmas condições
concretas da redenção estão em jogo, na forma como oráculos, do tipo dos de
Isaías, associam papéis masculinos e femininos no anúncio e na prefiguração da
obra de salvação que Deus está para realizar. Tal salvação orienta o leitor,
tanto para a figura masculina do Servo sofredor, como para a figura feminina de
Sião. Os oráculos de Isaías, de fato, alternam esta figura com a do Servo de
Deus, antes de culminar, no fim do livro, com a visão misteriosa de Jerusalém
que dá à luz um povo num só dia (cfr Is 66,7-14), profecia da grande novidade
que Deus está para realizar (cfr Is 48,6-8).

10. No Novo
Testamento, todas estas prefigurações encontram a sua realização. Por um lado,
Maria, como filha eleita de Sião, na sua feminilidade, recapitula e transfigura
a condição de Israel/Esposa à espera do dia da sua salvação. Por outro, a
masculinidade do Filho permite reconhecer como Jesus assume na sua pessoa tudo
o que o simbolismo veterotestamentário aplicou ao amor de Deus para com o seu
povo, descrito como o amor de um esposo para com a sua esposa. As figuras de
Jesus e de Maria, sua Mãe, não só asseguram a continuidade do Antigo Testamento
com o Novo, mas superam-no, a partir do momento que, com Jesus Cristo, aparece
– como diz Santo Ireneu – «a novidade toda».13

Tal aspecto
é posto em particular evidência pelo Evangelho de João. Na cena das núpcias de
Caná, por exemplo, Jesus é solicitado pela mãe, chamada “mulher”, a dar como
sinal o vinho novo das futuras núpcias com a humanidade (cfr Jo 2,1-12). Tais
núpcias messiânicas realizar-se-ão sobre a cruz, onde, ainda na presença da
mãe, indicada como “mulher”, brotará do coração aberto do Crucificado o
sangue/vinho da Nova Aliança (cfr Jo 19,25-27.34).14 Nada surpreende, portanto,
se João Batista, interrogado sobre a sua identidade, se apresenta como «o amigo
do esposo», que se alegra ao ouvir a voz do esposo e que deve eclipsar-se à sua
chegada: «Quem tem a esposa é o esposo; e o amigo do esposo, que o acompanha e
escuta, sente muita alegria ao ouvir a sua voz. Essa é a minha alegria, que
agora é completa: Ele deve crescer e eu diminuir» (Jo3,29-30).15

Na sua
atividade apostólica, Paulo desenvolve todo o sentido nupcial da redenção,
concebendo a vida cristã como um mistério nupcial. Escreve à Igreja de Corinto,
por ele fundada: «Sinto por vós um ciúme semelhante ao ciúme de Deus, porque
vos desposei com um só esposo, que é Cristo, a quem devo apresentar-vos como
virgem pura» (2Cor 11,2).

Na Carta
aos Efésios, a relação esponsal entre Cristo e a Igreja é retomada e amplamente
aprofundada. Na Nova Aliança, a Esposa amada é a Igreja, e – como ensina o
Santo Padre na Carta às famílias – «esta esposa, de que fala a Carta aos
Efésios, faz-se presente em cada batizado e é como uma pessoa em quem o olhar
do seu Esposo se compraz: “Amou a Igreja e por ela Se entregou… para a
apresentar a Si mesmo como Igreja gloriosa sem mancha nem ruga, nem qualquer
coisa semelhante, mas santa e imaculada” (Ef 5,25-27)».16

Meditando,
portanto, sobre a união do homem e da mulher, como é descrita no momento da
criação do mundo (cfr Gen 2,24), o Apóstolo exclama: «É grande este mistério,
digo-o em relação a Cristo e à Igreja!» (Ef 5,32). O amor do homem e da mulher,
vivido na força da vida batismal, passa a ser sacramento do amor de Cristo e da
Igreja, testemunho dado ao mistério de fidelidade e de unidade, donde nasce a
«nova Eva», e de que esta vive na sua peregrinação sobre a terra à espera da
plenitude das núpcias eternas.

11.
Inseridos no mistério pascal e tornados sinais vivos do amor de Cristo e da
Igreja, os esposos cristãos são renovados no seu coração, podendo evitar as
relações marcadas pela concupiscência e pela tendência a subjugar, que a
ruptura com Deus por causa do pecado havia introduzido no casal primitivo. Para
eles, a bondade do amor, de que o desejo humano ferido sentia saudade,
revela-se com novas acentuações e possibilidades. É nesta luz que Jesus,
perante a pergunta sobre o divórcio (cfr Mt 19,3-9), pode recordar as
exigências da aliança entre o homem e a mulher, como Deus as quisera nas
origens, ou seja, antes da aparição do pecado que justificaria as sucessivas
acomodações da lei de Moisés. Longe de ser a imposição de uma ordem dura e
intransigente, essa palavra de Jesus é, na verdade, o anúncio de uma «boa
nova»: a da fidelidade mais forte que o pecado. Na força da ressurreição,
torna-se possível a vitória da fidelidade sobre as fraquezas, sobre as feridas
recebidas e sobre os pecados do casal. Na graça de Cristo que renova o seu
coração, o homem e a mulher tornam-se capazes de se libertar do pecado e de
conhecer a alegria do dom recíproco.

12. «Vós
que fostes batizados em Cristo fostes revestidos de Cristo… não há mais homem
nem mulher» – escreve São Paulo aos Gálatas (3,27-28). O Apóstolo não declara
aqui que deixou de existir a distinção homem-mulher, distinção que alhures diz
pertencer ao projeto de Deus. O que, ao invés, quer dizer é o seguinte: em
Cristo, a rivalidade, a inimizade e a violência, que desfiguravam a relação do
homem e da mulher, são superáveis e estão superadas. Neste sentido, mais do que
nunca é reafirmada a distinção do homem e da mulher, que aliás acompanha até ao
fim a revelação bíblica. Na hora final da história presente, quando se
vislumbram no Apocalipse de João «um novo céu» e «uma nova terra» (Ap 21,1), é
apresentada em visão uma Jerusalém feminina «bela como noiva adornada para o
seu esposo» (Ap 21,2). A própria revelação termina com a palavra da Esposa e do
Espírito que imploram a vinda do Esposo: «Vem, Senhor Jesus» (Ap 22,20).

O masculino
e o feminino são, portanto, revelados como pertencentes ontologicamente à
criação e, por conseguinte, destinados a perdurar além do tempo presente,
evidentemente numa forma transfigurada. Desse modo caracterizam o amor que «não
terá fim» (1Cor 13,8), embora se torne caduca a expressão temporal e terrena da
sexualidade, ordenada para um regime de vida marcado pela geração e pela morte.
Dessa forma de existência futura do masculino e feminino, o celibato pelo Reino
quer ser profecia. Para os que o vivem, antecipa a realidade de uma vida que,
embora permanecendo a de um homem e de uma mulher, deixará de estar sujeita às
limitações presentes da relação conjugal (cfr Mt 22,30). Para os que vivem a
vida conjugal, também o seu estado constitui referência e profecia da perfeição
que a sua relação encontrará no encontro face a face com Deus.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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