Canonização dos santos e apoteose pagã – EB

Revista : “PERGUNTE E
RESPONDEREMOS”

D. Estevão Bettencourt, osb

Nº 336 – Ano : 1990 – p.
235

 

Em síntese: Há
historiadores que pretendem identificar a praxe católica de canonizar Santos
com o costume pagão da apoteose (endeusamento) de heróis.  Ora tal proposição carece de todo fundamento,
pois 1) os cristãos nunca tencionaram endeusar uma criatura, mas apenas veneram
os justos falecidos como sendo expressões da vitória de Cristo sobre o pecado e
a morte (o culto dos Santos é todo relativo a Jesus Cristo e a Deus Pai);  2) os pagãos endeusavam apenas membros de
famílias nobres, os cristãos canonizavam qualquer fiel que se tenha distinguido
pela prática das virtudes heróicas, comprovada por sinais da parte de Deus.

Por canonização (=
consignação no cânon ou no catálogo) entende-se a sentença definitiva pela qual
o Sumo Pontífice declara estar algum servo de Deus na glória celeste e permite
que lhe seja consequentemente prestada pública veneração.

Da canonização distingue-se
a beatificação, ato pelo qual o Sumo Pontífice permite seja tributado culto
público a um servo de Deus em certa região ou certa família religiosa
(excepcionalmente na Igreja universal).

Os fiéis falecidos em fama
de santidade sempre foram objeto de particular estima por parte dos
cristãos.  Esse apreço nada tem que ver
com o que os pagãos tributavam aos seus mortos nas famosas apoteoses.

a) Os pagãos costumavam
celebrar atos públicos nos quais um homem (um rei, no Egito; um herói, na
Grécia; um Imperador, em Roma) era declarado deus ou semi-deus.  Em Roma, a cerimônia baseava-se na crença
oriental de que a alma, sendo produto de emanação da substância divina do Sol,
voltava a esta ou ao seio do fogo divino após a morte do indivíduo: costumava-se
então preparar em praça pública uma fogueira, sobre a qual era colocado o
cadáver do Imperador; enquanto este ardia juntamente com perfumes e ervas
aromáticas, soltava-se, espantada pelo calor, uma águia que até aquele momento
se achava oculta junto à fogueira; essa águia (ave divina por excelência),
diziam, levava a alma do Divus Imperator (ou do Imperador Divino) aos céus (cf.
Suetônio, Augusto 100, Herodiano IV 2).

Ora é claro que os cristãos
de modo nenhum entendiam (ou entendem) elevar os justos à categoria de
deuses.  Apenas afirmam que os santos são
frutos consumados da Redenção de Cristo, criaturas nas quais se exprimem de
maneira grandiosa a sabedoria e o amor de Deus, essas criaturas tornam-se assim
motivo para que seus irmãos louvem e adorem o Pai do Céu.  Os santos são também, conforme a concepção
cristã, os grandes amigos de Deus, aos quais os viandantes da terra se dirigem
para pedir sua intercessão junto ao Todo-Poderoso.  Assim se vê que o culto dos santos é todo
referente a Deus.

b) Os pagãos tributavam a
apoteose exclusivamente aos Imperadores, aos membros e favoritos da família
imperial; não se tem notícia de que endeusassem um homem do povo.  Os cristãos, ao contrário, reconhecem como
santos tanto os reis e pontífices como os irmãos de categoria humana mais
modesta.

c) O critério pagão para
endeusar alguém era unicamente a classe social da pessoa, de sorte que no
Olímpio se colocavam homens de costumes depravados.  Assim Nero (+ 68) divinizou sua concubina
impudica Popéia, depois de lhe ter tirado a vida mediante um ponta-pé.  O Imperador Caracala (+ 217) endeusou seu
irmão Geta, que ele matara, porque o tinha na conta de rival. Observou então
ironicamente: “Sit divus, dummodo non sit vivus! – Seja divino, contanto que
não seja vivo!”  (cf. Tácito, Annal. XIII
45; XV 23; XVI 6; Suetônio, Nero 25).  Em
conseqüência, as apoteoses eram às vezes ridicularizadas pelos próprios
escritores pagãos; foi o que Sêneca fez diante do endeusamento do Imperador
Cláudio.

Quanto aos cristãos, está
claro que só estimam santos aqueles que hajam praticado as virtudes em grau
comprovadamente heróico ou fora do comum.

Não será preciso insistir no
contraste vigente entre o culto dos santos e as apoteoses pagãs (por isto é que
tanto os cristãos como os judeus sempre resistiram ao culto dos Imperadores e às
apoteoses em geral).  A canonização dos
santos se inspira, antes, em costumes bíblicos o autor do Eclesiástico escreveu
o “Louvor dos Pais (Enoque, Noé, Abraão, Isque, os justos..!”, redigindo
desta forma o primeiro catálogo ou cânon dos santos de Israel (cf. Eclo 44-51).

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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