Cada criatura humana é irrepetível – EB

Em síntese: Os gametas masculinos e femininos, ainda que provenham da mesma pessoa, diferem algum tanto entre si (tenha-se em vista o caso dos gêmeos univitelinos). Dado que são muito numerosas as possibilidades de combinação do espermatozóide com o óvulo, depreende-se que tal  configuração individual de um embrião supõe tantos acontecimentos contingentes que, praticamente, é irrepetível. Em consequência deve-se dizer que a existência de cada pessoa humana, única e singular como é, se deve a um benévolo desígnio de Deus, que não se reitera e suscita no cristão a alegria e a gratidão por viver assim estimado.

O Dr. Hélio Begliomini, amigo e colaborador  de PR, enviou a esta revista o artigo que vai, a seguir, publicado. Trata-se de um trabalho científico sério, posto ao alcance de grande círculo de leitores, que perceberão a mensagem dos números vertiginosos que entram em cena.  A Redação de PR agradece ao Dr. Hélio Begliomini a valiosa cooperação.

O Imperscrutável dom da Vida

“A vida tem uma longa história, mas cada um de nós tem um início muito preciso, que é o momento da concepção”.

(Jérôme Lejeune, eminente geneticista e descobridor da trissomia do cromossoma 21).

A fecundação é um fenômeno muito falado e conhecido hoje em dia. Os alunos de primeiro e segundo graus aprendem rotineiramente no curriculum escolar os aspectos básicos. Ademais, a ampla divulgação dos meios de fecundação assistida disponíveis pelas modernas técnicas aduzidas pela ciência contemporânea tem tornado, por vezes, mecânicos ou mesmo banais, os primórdios da vida humana. A geração de vários seres começa a ser mais do que nunca artificial e desprovida do contexto sexual-afetivo, assumindo em algumas clínicas e centros de referência uma escala industrial, motivada também pela boa rentabilidade auferida.

O toque divino na procriação parece Ter perdido o seu mistério e o seu encanto. As palavras de Roger Garaudy “o homem foi criado criador” podem assumir, neste contexto, não somente um controle quase que total da manipulação da vida em seus estágios iniciais, como até sugere que o homem prescinda ou mesmo se coloque no lugar do próprio Criador.

Mas haveria algo a mais no processo primevo da  fecundação além da união de um óvulo com um espermatozóide? Talvez, do ponto de vista biológico, pouco coisa poder-se-ia acrescentar, além de refinados conhecimentos bioquímicos e genéticos inerentes ao desdobramento do fenômeno em si.

Entretanto, considerações metafísicas, porém perfeitamente tangíveis ao raciocínio, estão subjacentes ao singelo e quiescente ato da fecundação, como por exemplo: Qual é a probabilidade de um ser humano existir? Ou seja, de passar da inexistência à existência… da condição de nada ao ser… do inanimado ao animado (…)?

Um homem normal elimina a cada ejaculação de 20 a 80 ou mais, milhões de espermatozóides por mililitro (ml) cúbico. Considerando-se que seu sêmen contém em média um volume de 2 a 4 ml, tem-se reunido ao material 40 a 300 ou mais milhões de células germinativas masculinas.

Por sua vez, a mulher tem uma reserva, ao nascer, de cerca de 400.000 folículos primários que na adolescência, após a menarca, ou seja, primeira menstruação, começarão parcimoniosamente a desenvolver folículos em crescimento e a amadurecer em cada ciclo menstrual folículos em crescimento e a amadurecer em cada ciclo menstrual folículos maduros ou de Graaf; geralmente, apenas um deles a cada ciclo menstrual libera um ovócito (óvulo) que se torna apto para a fecundação. A maioria dos folículos ovarianos quer primários, quer em crescimento, quer maduros sofrerá processo degenerativo desaparecendo. Essa regressão folicular ocorre durante toda a vida, terminando na menopausa, quando os últimos folículos desaparecem.

Considerando-se que uma mulher consiga ter de 30 a 40 anos de vida biologicamente reprodutiva ou fértil, terá nesse período aproximadamente 45o ciclos menstruais com igual liberação de ovócitos. Levando-se em consideração que em cada processo ovulatório normalmente há o desenvolvimento de um grupo de 100 a 150 folículos ovarianos, mas  que apenas um deles eliminará um ovócito através do fenômeno da ovulação e que os demais sofrerão involução e atrofia, depreende-se que, em 40 anos de fertilidade, a mulher consumirá exageradamente 75.000 óvulos, número esse, bem aquém de sua reserva ao nascer.

Fato digno de nota é observar que, embora os espermatozóides e os óvulos (gametas), respectivamente de um mesmo homem ou de uma mesma mulher, possuam características genéticas similares e pertinentes ao patrimônio genômico de seus produtores, os gametas não são idênticos, ou mesmo clonados. Isso permite inferior que a cada óvulo  e a cada espermatozóide unidos, corresponderá um conjunto de características genéticas peculiares. Isso é facilmente compreensível numa gravides de gêmeos… trigêmeos… quadrigêmeos (…) etc., não univitelinos, ou seja, não oriundos de um mesmo ovo. Nestas circunstâncias, serão formados dois ou mais seres diversos até mesmo no aspecto sexual, que foram gerados por espermatozóides e óvulos diferentes, provando claramente que as características do novo ser estão na dependência da união particular de cada gameta masculino com o feminino.

Mesmo no caso de gravidez gemelar univitelina (gêmeos idênticos), cada ser originado, embora seja fisicamente um clone natural do outro, há, em ambos, eus ou personalidades diversas, autônomas ou independentes uma da outra. Assim, cada combinação de um óvulo com um espermatozóide predisporá um ser ímpar, sui generis ou único. E num só ato fecundativo há teoricamente trilhões de possíveis combinações, ou seja, possibilidade de trilhões de seres diferentes.

Assim, se numa determinada fecundação houvesse outros óvulos ou outros espermatozóides em cena, ou mesmo se qualquer um dos milhões de espermatozóides circunjacentes penetrasse no óvulo, haveria outro(s) ser(es) formado(s). Ainda que com características parecidas às dos seus progenitores, seriam diversos deles, como também diversos dos trilhões de combinações factíveis. Como exemplo mais palpável, deve-se considerar que, se no momento da fecundação em que eu, ou você foi concebido, houvesse outro óvulo ou outro espermatozóide, não seria eu ou você que teria nascido, mas um outro ser que poderia ter sexo feminino ou masculino.

A maravilha e o mistério do fenômeno biológico fecundativo consistem em que uma ciclópica diversidade de trilhões de combinações, até mesmo inimagináveis, venha a se tornar possível. Assim, em cada fecundação, embora o fenômeno biológico seja o mesmo, o produto dela resultante, ou o novo ser concebido se torna único e irrepetível em toda a história do universo. Isso significa que eu e você tivemos um único instante para entrarmos pela porta da existência em toda a amplidão da história do universo. Jamais houve ou haverá outro eu ou você na saga humana.

Matematicamente, a chance de alguém ter tido o privilégio de passar do nada ao ser é praticamente nula. Considerando-se como 100 milhões o número médio de espermatozóides numa ejaculação e que não exista algum espermatozóide ou óvulo com conteúdo genético idêntico; a probabilidade de eu ou você ser numa só ejaculação seria de 1/100.000.000 (espermatozóides) x 1/400.000 (óvulos) ou seja 4 x 10-13, ou 0,0000000000004, ou ainda de 1 em cada 40.000.000.000.000 (um em cada quarenta trilhões de possibilidades!).

Por sua vez, cada gameta, quer masculino quer feminino, traz em sua herança  genômica características de seus progenitores e de  toda a árvore genealógica de seus ancestrais, que sofreram mudanças a cada ato fecundativo.

Se considerarmos como sendo de 200.000 anos a existência do homo sapiens na terra e de 50 anos em média a sua expectativa de vida ao longo desse tempo, teriam ocorrido 4.000 gerações. Para que eu ou você existisse, seria necessário que as combinações genéticas em cadeia que determinaram eu ou você, representadas por aquela probabilidade acima de 4 x 10-13 de um único evento, ocorressem em 4.000 gerações, ou seja, 0,0000000000004 x 0,0000000000004 x 0,0000000000004…..x….. 4.000 vezes!!!

Em termos de comparação, a grosso modo, poder-se-ia dizer que, esse número é tão infinitamente pequeno quanto a infinita grandeza do universo, ou mesmo que ele é inimaginável e incompreensível.

A título de ilustração dessa astronômica equação, deve-se levar em consideração que o evento que propiciou a minha e a sua concepção foi único, irrepetível ao longo de toda a história da humanidade e teve que contar com o nascimento pregresso de parentes e antepassados, os quais, por sua vez, concorreram para a existência com chances idênticas em fenômenos sucessivos e coincidentes. Portanto, foram necessárias coincidências e coincidências (…), genéticas em milhares de eventos que, por sua vez, apresentaram chances  infinitamente baixas de acontecerem.

Jamais existiram, existem ou existirão prêmios que possam ser ganhos em quaisquer loterias comparáveis em termos de dificuldade e  valor ao inefável dom da vida.

Com isso, a probabilidade de cada ser humano  ter tido acesso à vida é um número tão infinitamente pequeno que, do ponto de vista prático, equivalente a zero; com efeito, dependeu de  diversos fenômenos demandantes de múltiplas variáveis, que, por sua vez, ocorreram numa probabilidade ínfima em eventos subseqüentes, interdependentes, e simultâneos. Não esqueçamos que cada ser fecundado dependeu de dois progenitores, que, por sua vez, possuíam árvores genealógicas diversas.

Guardadas as devidas proporções, a compreensão da probabilidade de eu ou você vir a existir na história da humanidade é tão intrigante e desconcertante quanto a compreensão do tamanho infinito do firmamento. Qual a dimensão do universo? Se ele tem seus limites, que se esperaria encontrar além-fronteiras? Nessas e noutras questões, talvez falte muita massa cinzenta ao cérebro humano para a devida abstração e entendimento.

Este é um dos limites da ciência. Ela não poderá explicar porque eu e você fomos escolhidos para a vida numa única, precisa e diminutíssima fração de tempo ao largo de toda história da humanidade e, por conseguinte, do universo. Por sua vez, a metafísica e a teologia contribuem para esclarecer com sobeja propriedade que o dom da vida que cada um recebeu, deve-se exclusivamente à vontade e a um gesto magnânimo do Criador, o qual não se furtou a contar com os fenômenos biológicos existentes na natureza, que Ele mesmo determinou.

Aos adeptos do acaso para explicar por que tivemos o privilégio imerecido e incompreensível de receber o dom da vida, nada melhor do que recordar a singular máxima do Padre Sertillanges, notável filósofo neotomista: “O acaso também é filho de Deus”. Anatole France dissera o mesmo de forma mais erudita: “O acaso é, talvez, o pseudônimo de Deus, quando Ele não quer assinar o seu nome”.

A intelecção biológica e, sobretudo, a meditação do singelo fenômeno da fecundação além das fronteiras da ciência, contribuem para aceitar que a vida é de  valor exponencialmente inestimável e se constitui irretorquivelmente no maior  patrimônio que qualquer ser humano possa ter recebido; nem  mesmo a saúde imperfeita ou deficiências físicas ou psíquicas podem ofuscar ou diminuir seu quilate. Portanto, a vida pertence exclusivamente a Deus, competindo ao homem tão somente a preciosa tarefa de bem administrá-la em retribuição ao imensurável e imprescrutável milagre de existir.

Agradecimento: Agradeço ao amigo engenheiro José Alberto de Matos a supervisão oferecida no raciocínio matemático deste artigo.
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por Dr. Hélio Begliomini¹

¹ Médico Assistente do Serviço de Urologia do Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo, Hospital Francisco Morato de Oliveira (HSPE-FMO) e do Instituto de Medicina Humanae Vitae (IMUVI). Pertence a várias entidades científicas  e culturais do Brasil e do exterior.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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