Bullying: formação moral é melhor meio de enfrentá-lo

Entrevista com Luciene Tognetta, doutora em Psicologia Escolar pela USP

Por Aline Banchieri

SÃO PAULO, quinta-feira, 23 de junho de 2011 (ZENIT.org) – O bullying, forma de violência cada vez mais presente em nossa sociedade, é explorado nesta entrevista concedida a ZENIT por Luciene Regina Paulino Tognetta, doutora em Psicologia Escolar pela USP e coordenadora da Linha de Pesquisa “Virtudes e Afetividade” pelo GEPEM – Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral – da Unesp/Unicamp.

ZENIT: O que é o bullying? Em que contextos ele se apresenta de maneira mais explícita?

Dra. Luciene R. P. Togneta: O bullying é diferente de uma simples brincadeira entre alunos, pois o que o caracteriza é a intencionalidade do autor em causar um sofrimento à vítima. As agressões se repetem sempre com o mesmo alvo, acontecem por um longo período de tempo e há um desequilíbrio de poder, tornando possível a intimidação da vítima. Portanto, há uma violência sentida por quem é vitimizado e, sobretudo, essa violência acontece cotidianamente fazendo a vida dessa criança ou adolescente parecer um inferno a seus olhos. O que torna o bullying algo tão terrível é o fato de ser uma forma de violência repetida e entre pares, ou seja, entre sujeitos que estão em pesos de autoridade iguais. E é na escola que essa relação entre pares é intensificada.

ZENIT: O bullying é um fenômeno isolado ou talvez mais um dos “sintomas” do mundo pós-moderno? A que se deve esse conjunto – sempre crescente – de fenômenos relacionados à violência em nossa sociedade?

Dra. Luciene R. P. Togneta: O bullying é uma forma de violência não necessariamente dessa geração, já que sempre existiu. Contudo, é verdade que, em um momento pós-moderno, em que os tempos são “líquidos”, como diria Zygmunt Bauman, são acentuadas as necessidades de sermos vistos pelos outros como o “garanhão”, como o “jovem”, como o “famoso”, já que tal liquidez dos tempos parece assegurar a necessidade, no presente, da força física, da fama rápida.

ZENIT: Qual é a situação do bullying no Brasil hoje? Estão sendo realizadas pesquisas nesta área? Você poderia nos contar um pouco sobre os resultados mais significativos?

Dra. Luciene R. P. Togneta: Sim, nós fazemos parte de um grupo de estudo e pesquisas, o GEPEM, da Unicamp/Unesp, que estuda e pesquisa temas relacionados à violência nas escolas e à agressividade do ponto de vista da Psicologia Moral. Existe também um curso de pós-graduação da UNIFRAN, chamado “As relações interpessoais na escola e a construção da autonomia moral”, que trabalha com seus alunos, entre outros temas, a violência, o bullying, como formar personalidades éticas etc.

Do ponto de vista da Psicologia Moral, nossos resultados têm apontado para o fato de que o bullyingé um problema moral, já que se remete às relações entre as pessoas e atinge aquilo a que mais se busca – sua dignidade diante de si e dos outros.

ZENIT: E do ponto de vista da educação, que dados chamam mais a atenção?

Dra. Luciene R. P. Togneta: Numa investigação com 150 adolescentes do nono ano de Ensino Fundamental II e primeiro ano do Ensino Médio de escolas públicas da região metropolitana de Campinas (Tognetta et all), encontramos números que assim descrevem essa forma de violência entre pares: 16% de nossa amostra foi considerada entre autores convictos, cujas ações de bullying são reveladas na frequência contínua de seus ataques; 29,3% são aqueles autores que eventualmente se colocam, muitas vezes como forma de proteção e revanche, como autores esporádicos de uma forma de violência que se pareceria com aquelas consideradas bullying. Quando questionamos sobre a possibilidade de já terem sido ou serem alvos de bullying, 60% dos alunos afirmaram já terem passado por processos de vitimização. Finalmente, ao questionarmos sobre o fato de saberem e terem visto quaisquer dessas formas de violência entre os colegas, 92% nos disseram já terem assistido a alguma situação de bullying na escola.

Vejamos: quase que a totalidade dos alunos já testemunhou cenas desse tipo de violência na escola; já foram, portanto, “público”. É ele, o público, quem dá a atenção e, assim, permite a promoção do autor. Bullying é um fenômeno escondido aos olhos dos professores, os quais estão mais atentos a situações que os afetam diretamente, mas não é escondido aos olhos dos alunos. O autor fará os colegas – ou até a classe inteira – saber que chamou um colega de um apelido que ele não gosta, porque é essa a maior recompensa de um autor de bullying: ver a dor do outro com seu sucesso diante dos outros. Quanto mais souberem daquilo que ele é capaz de provocar em alguém, mais satisfeito ele se sente.

ZENIT: O autor dessa humilhação pode ser também um professor?

Dra. Luciene R. P. Togneta: Em 2004 e 2005, conduzimos investigações nas quais perguntamos a cerca de 800 crianças e adolescentes de escolas públicas e particulares da região de Campinas: “Você já foi humilhado, diminuído, desprezado ou caçoado por algum de seus professores?”. Para nossa surpresa, o grande problema que encontramos foi, além do bullying, o fato de que crianças e adolescentes indicavam terem sido humilhados, desprezados, diminuídos pelos próprios professores. Numa das amostras, do 4º ano do Ensino Fundamental ao 2º ano do Ensino Médio, encontramos um número razoável de respostas que indicaram já terem sido menosprezados, ameaçados, zombados por aquele que chamamos de “autoridade” na escola. Por certo, tais ações são veladas e muitas vezes até não entendidas como formas de humilhação por aqueles que a recebem. Foi interessante notar que há um aumento nas respostas que consideram os menosprezos por parte da autoridade como natural entre os alunos: quanto menores, mais heterônomos, a ponto de validar muitas vezes as formas autoritárias pelas quais são tratados.

ZENIT: Mas, quando se trata de maus-tratos advindos de uma autoridade, de um professor, estamos também falando de bullying?

Dra. Luciene R. P. Togneta: Não exatamente, mas as formas de atuação de um professor também podem levar crianças e adolescentes a serem alvos e autores de bullying, ainda que indiretamente. Isso porque, imaginemos a seguinte situação: em determinada escola conhecida por nós e em que conduzimos as pesquisas de 2004 e 2005 na região de Campinas, os pais de dez principais alunos que eram considerados “terríveis” pela escola são convocados para uma reunião em que os filhos estão presentes. Coletivamente, a professora vai apontando os defeitos de cada um desses alunos na frente de todos. Seus pais, sentindo-se ridicularizados, culpados… É dessa forma velada, não intencional, que também a escola expõe suas violências: expõe publicamente o que deveria ser particular e permite que aqueles que já pouco atribuem a si um valor, o façam menos ainda.

Infelizmente, um dos grandes equívocos da escola é que trabalhamos o que é público como particular e o que é particular como público: quando temos uma “briga de galo” – aqueles momentos em que há espectadores que se rejubilam com a briga de outros dois -, como resolvemos? Encaminhamos os “brigões” para a direção e pedimos ao grupo que se aglomera que se disperse. O problema era público e não particular. Todos estavam, de alguma forma, envolvidos, ainda que pela ausência de indignação frente a essa situação de injustiça. Todos deveriam ser questionados: e se fosse com você? O que vocês poderiam ter feito para impedir que essa briga acontecesse? Tudo isso para que aqueles que são indiferentes se sintam implicados a tomar uma posição, para que se indignem com as injustiças na escola.

ZENIT: É comum que uma criança ou adolescente não se manifeste ao presenciar situações como esta?

Dra. Luciene R. P. Togneta: Há, de fato, uma explicação para que crianças e adolescentes cada vez mais se distanciem de pensar no coletivo da escola, como vimos numa investigação realizada com outros 150 estudantes de escolas públicas e particulares do Estado de São Paulo, em 2009. Quando questionamos esses adolescentes do nono ano sobre as ações que uma pessoa pode ter e que lhes cause indignação (ou raiva), 35,33% desses jovens pensam numa espécie justiça apenas autorreferenciada, sem se implicar com os outros, enquanto que somente 24% deles são capazes de indignar-se por qualquer pessoa que sofra a falta de um conteúdo moral, como a justiça, a honestidade, o respeito, entre outros (Tognetta, Vinha 2009).

ZENIT: Como evitar essas humilhações na escola, tanto entre colegas como entre professores e alunos?

Dra. Luciene R. P. Togneta: Quando até a autoridade é citada pelos alunos como agindo com humilhações e intimidações, temos de ter um olhar mais amplo para os problemas da escola. Háuma questão muito maior, quanto ao tipo de ambiente sócio-moral que é constituído nas relações entre os alunos e seus professores. Como pesquisadora do desenvolvimento moral, acredito queuma intervenção de qualidade ao problema da violência chamada bullying começa impreterivelmente pelo diagnóstico do ambiente sócio-moral constituído por aqueles que dele participam. Na verdade, é a qualidade do ambiente sócio-moral uma das questões mais necessárias para se levar em conta num processo de implantação de uma proposta anti-bullying.
ZENIT: Alguns falam de “agressor” e “vítima”, enquanto outros consideram “autor” e “alvo” como termos mais adequados. Qual é a diferença?

Dra. Luciene R. P. Togneta: A atual literatura sobre o fenômeno aconselha que utilizemos as expressões “alvos de bullying” e “autor de bullying” à vítima e agressor, respectivamente, na tentativa de evitar preconceitos por parte dos agentes que trabalham com situações problemas em que haja essa forma de violência. Professores como o espanhol José Maria Avilés Martinez, que estará conosco durante o II COPPEM, é um dos que têm se esforçado para adequar tais expressões. No Brasil, os pesquisadores do GEPEM já aderiram a essa nova nomenclatura, a partir de nossos estudos publicados em 2008 por nós, Luciene Tognetta e Telma Vinha.

ZENIT: Autor e alvo são os únicos envolvidos na “cena” do bullying?

Dra. Luciene R. P. Togneta: Não. Há também aqueles que chamamos de espectadores. São eles que promovem o autor e permitem declinar o alvo. Sem público não há espetáculo. Os atos de bullying são escondidos aos olhos da autoridade, mas dos pares não; o autor de bullying precisa que todos saibam o que fez com a vítima. Os espectadores, muitas vezes, ficam do lado dos mais fortes ou são indiferentes, por medo de se tornarem a próxima vítima. Falta-lhes o sentimento de indignação.

ZENIT: É possível que um alvo se torne autor e vice-versa? Como e por que se dá isso?

Dra. Luciene R. P. Togneta: Pelo lado do agressor, ele tem a intenção de ferir, ele precisa menosprezar o outro para se sentir melhor, mas nem sempre ele é uma ex-vítima. Ele pode ser, na verdade, uma criança ou adolescente que simplesmente carece de sensibilidade moral, a ponto de não conseguir se colocar no lugar do outro. Mas pode ser que tenha se sentido vitimado em alguma circunstância, por seus pais, por seus iguais e tenha aprendido que a única forma de “ficar bem na fita” seja também provocando os outros. O valor que ele vê em si mesmo pode ser tão pequeno que, para se sentir melhor, ele invista sobre os outros.

ZENIT: Como se pode trabalhar a inclusão social do autor do bullying? E do alvo?

Dra. Luciene R. P. Togneta: Estigmatizados, estão com certeza todos os diferentes que não aprendem na escola que não se renova e nem se preocupa em criar formas de se adaptar às suas necessidades especiais. O professor pode estar voltado ao quadro, e não a quem aprende. Até porque, infelizmente, perpassa pela cabeça de muitos professores que o problema de bullying é uma brincadeira própria da idade. Ou então, para outros, um problema que não é da escola. Mas convenhamos: ética não é um conteúdo da escola? Se sim, como afirmado pelos parâmetros curriculares, é trabalho imprescindível do professor tratar deste conteúdo em suas aulas. Se concordarmos com Ricoeur (1993) em que “ética é a busca de uma vida boa com e para o outro em instituições justas”, trabalhar com o tema da ética é trabalhar com as relações entre as pessoas. É ajudá-las a buscar a “vida boa” como sinônimo de dignidade. É possibilitar que meninos e meninas se vejam com valor, para então valorizarem os outros.

ZENIT: Segundo sua experiência nesta área, quais são os principais meios para se evitar o bullying, a curto e longo prazo?

Dra. Luciene R. P. Togneta: Primeiramente, os educadores precisam compreender as particularidades desse tipo de violência para depois pensar em propostas de intervenção. De acordo com estudos e pesquisas realizadas na área de Psicologia Moral, o autor de bullying é um sujeito que possui uma escala de valores invertida, em que respeito, generosidade, solidariedade não são valores centrais para esses meninos. Por isso, é importante destacar que ele também precisa de ajuda, pois são sujeitos que carecem do que chamamos de “sensibilidade moral”, ou seja, não enxergam no outro um sujeito digno de respeito e por isso não consegue se sensibilizar com a dor alheia.

Ao contrário do que as escolas têm feito quando identificam os autores, que é aplicar castigos ou punições, o que podemos fazer é aplicar sanções por reciprocidade, que estejam relacionadas com as ações do sujeito; encorajá-los a pedir desculpas e incentivá-los a reparar o mal causado ao outro, para que possam refletir sobre o que fizeram. Por sua vez, os alvos de bullyingnão têm forças para lutar contra seus algozes porque se veem como diferentes; é preciso ajudá-los a se ver com valor, a se respeitarem para que possam sair do “estado” de vítima. Mas a escola precisa trabalhar também com os espectadores, como já dissemos, são eles que promovem o autor; portanto, precisamos trabalhar com os sentimentos desses sujeitos que não conseguem se indignar, precisamos questioná-los: como vocês se sentiriam se isso acontecesse com vocês? O que vocês poderiam fazer para que isso não acontecesse mais? Para isso, é preciso construir espaços que abarquem a formação ética dos nossos alunos. Pouco adianta puni-los, julgá-los, denunciá-los à polícia. O que precisamos é formar cidadãos que aspirem a uma personalidade que tenha valores morais.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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