Bíblia: Uma tradução irreverente – EB

Revista:  PERGUNTE E RESPONDEREMOS

D. Estevão
Bettencourt, osb

Nº  515 Ano:  2005  p. 
231

 

Em síntese:
O arcebispo anglicano de Cantuária (Inglaterra) aprovou uma tradução
irreverente da Bíblia intitulada “Boa como se fosse nova – Uma releitura
radical das Escrituras”; suscitando celeuma. A linguagem da nova tradução é
provocadora; especialmente no setor da sexualidade é chocante, pois, ao invés
do que ensina São Paulo, insinua equiparação de homossexualismo e
heterossexualismo.

Foi
publicada na Inglaterra uma irreverente tradução inglesa da Bíblia, devida ao
ex-pastor batista John Henson, que assim trabalhou para One for Christian
Exploration (Unidade para a Exploração Cristã), uma organização de cristãos
radicais.

A celeuma
suscitada pela publicação dessa obra foi agravada pelo fato de que o arcebispo
anglicano Dr. Rowan Williams de Cantuária (sede primacial) deu pleno apoio a
tal tradução. Isto lhe valeu a oposição de muitos fiéis, que já o haviam contestação
por causa de apoio prestado a práticas homossexuais.

A revista
protestante ECLESIA, edição de junho 2004, pp. 52-56 apresenta os tópicos mais
salientes do texto em pauta, como se pode ver nas passagens abaixo transcritas:

Uma
esquisitíssima tradução da Palavra de Deus que, entre outras pérolas, chama o
apóstolo Pedro de “Rochinha”, Maria Madalena de “Maggie” e Barrabás de
“Barrinha”. Já Adão, que segundo o Gênesis foi o primeiro ser humano criado por
Deus, é chamado simplesmente de “Ron”. Além disso, outras expressões
importantes são alteradas, aparentemente por opções “politicamente correta”:
possessão demoníaca é apenas “doença mental”; Filho do homem – expressão usada
por Jesus para referir-se a si mesmo – torna-se “pessoa completa” e o ato de batizar
vira simplesmente “mergulhar”. Não por outro motivo, João Batista é chamado,
acredite, de “João, o Mergulhador”.

Williams
não apenas festeja o lançamento, como assina o prefácio e recomenda a obra. O
resultado é mais constrangimento para seus liderados e para qualquer cristão
minimamente reverente com os assuntos escriturísticos. Afinal, qual o crente
que não teria arrepios ao ler numa Bíblia que a salvação da alma é um mero
“aperfeiçoamento” e que o céu eterno, maior esperança dos cristãos, é um vago
“mundo além do tempo e do espaço”?

Ruth
Ghadhill, a editora, diz que “a notória condenação de São Paulo para o sexo gay
foi deletada e aos cristão é dito que saiam e tenham mais sexo”.

A linguagem
adotada é ainda mais chocante em certos trechos. Em Marcos 1,4, ela traz:
“João, apelidado “O Mergulhador”, era “A Voz”. Ele estava no deserto,
convidando pessoas para serem mergulhadas, para mostrar que elas estavam
decididas a mudar seus caminhos e que queriam ser perdoadas”. A repreensão do
Senhor aos escribas e fariseus, narrada em Mateus 23, 25, ficou assim: “Caiam
foram, santarrões, fraudadores!” O trecho da negação de Pedro, em Mateus 26,
ganhou esta redação: “Enquanto isso, Rochinha estava ainda sentado no pátio.
Uma mulher veio a ele e disse: “Eu não vi você com Jesus, o herói Galileu?”
Rochinha balançou a cabeça negando e disse: “Eu não sei sobre que inferno você
está falando!” Mais jocoso é o trecho referente ao batismo de Jesus e à descida
do Espírito Santo sobre ele. O evento, relatado na Bíblia como um momento
sublime em que Deus Pai, o Filho e o Espírito Santo se manifestam, é narrado
nestes termos: “Enquanto ele estava escalando o barranco novamente, o sol
brilhou através de uma fenda nas nuvens. Ao mesmo tempo um pombo voou para
baixo e empoleirou-se sobre ele. Jesus tomou isso como um sinal de que o
espírito de Deus estava com ele. Uma voz de cima foi ouvida dizendo: “Este é
meu garoto! Você vai indo muito bem!”

Mas é em
passagens relativas à moral que a contemporização da Good as new Bible tem
gerado mais incômodo. A orientação de Paulo e I Coríntios 7 – capítulo
inteiramente dedicado a orientações do apóstolo sobre o casamento e à relação
entre a vida conjugal e a espiritualidade – pode, na nova versão, perfeitamente
ser utilizada para qualquer tipo de relacionamento, homo ou heterossexual. Do
jeito como ficou, favorece interpretações dúbias tanto no âmbito do casamento
como do adultério: “Alguns de vocês pensam que a melhor maneira para lidar com
o sexo é homens e mulheres conservarem-se longe um do outro. Mas é mais
provável que isso leve a ofensas sexuais. Meu conselho é que cada um tenha um
parceiro regular.” O versículo 9 não resulta muito melhor: “Se você sabe que
tem fortes necessidades, consiga você mesmo um parceiro. Isto é melhor do que
ficar frustrado.”

REFLETINDO…

Em suma
reflexão digamos que o autor da tradução procurou criar nos leitores modernos
uma sensação de impacto que a Bíblia suscitou nos primeiros leitores. Todavia
não soube ser bem sucedido, pois ele não fez uma simples e esmerada tradução;
realizou, sim, uma obra literária que vem a ser autêntico deboche e vilipêndio
da mensagem cristã. Aliás, se tem verificado que os ensaios de atualizar o texto
sagrado, muitas vezes obedecem a critérios subjetivos e pessoais que suscitam
divisões e agitação no povo de Deus. Ao propor tais observações, não podemos
esquecer que existem boas e fiéis traduções da Bíblia em linguagem clara
publicadas pelas editoras católicas.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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