Bíblia e Homossexualismo – EB

homossexualismo-homossexualidade-para-1500x675Em síntese: A imprensa tem publicado artigos que insinuam seja o homossexualismo aceitável, visto que o rei Davi e outros personagens bíblicos o teriam praticado. – A propósito registramos: 1) o homossexualismo é formalmente condenado pelo texto sagrado em Lv 18,22; 20,13; Rm 1, 26s; 1Cor 6,9s; 1Tm 1,9-11, pois é prática antinatural; 2) há episódios em que grupos homossexuais são mencionados na Bíblia, mas os seus costumes são condenados pelos autores sagrados (cf. Gn 19,1-29); 3) não se pode afirmar que Davi tenha sido amizade homossexual com Jônatas, filho do rei Saul (cf. 1Sm, 19,1-7; 20, 1-42); ao contrário, sabe-se que David teve várias esposas (concubinas) e cometeu adultério com Betsabéia, esposa do general Urias (cf. 2Sm 11, 2-17); 4) nem todos os personagens que desempenharam  as suas façanhas com realismo, sem dissimular o pecado, para que o leitor avalie melhor a miséria humana sobre a qual se debruçou a misericórdia divina.

O jornalista Janer Cristaldo, da FOLHA DE SÃO PAULO, diz-se ateu e vem escrevendo artigos sobre a interpretação da Bíblia que têm causado estranheza. Vêm ao caso especialmente dois dos mesmos, datados respectivamente de 17/3/1992 (“Bíblia relata vários casos de amor entre homens”) e 5/4/1992 (“Dogmáticos se julgam únicos donos da Bíblia”), em que atribui ao rei Davi relacionamento homossexual com Jônatas e sugere que a recusa de homossexualismo é “anacronismo do Terceiro Mundo, ao lado do socialismo e da inflação”

Examinaremos, pois, os casos citados por J. Cristaldo na sua tentativa de julgar normal o homossexualismo.

A História de Ló

Destruição de Sodoma

O fato (Gn 19, 1-29)

Sabe-se que o Senhor Deus houve por bem punir a cidade de Sodoma, profundamente poluída pelo pecado de seus habitantes (cf. Gn 18, 16-33). Foram então dois anjos emissários de Deus a Sodoma, onde habitava Ló, sobrinho de Abraão; iam inspecionar a cidade antes da sua destruição. Tais visitantes foram recebidos por Ló em sua casa. Eis, porém, que os sodomitas insistiram com Ló para que lhes entregasse os dois hóspedes que iam pernoitar na casa desse sobrinho de Abraão. Ló, porém, ciente de que tinham intenções perversas, ofereceu-lhes suas duas filhas virgens, em vez dos dois visitantes. Estes, porém, afastaram os homens que queriam tomar de assalto a casa de Ló, ferindo-os de cegueira. A seguir, Ló e sua família receberam a ordem de deixar Sodoma imediatamente, e o castigo se desencadeou sobre a cidade iníqua. Cf. Gn 19,1-29.

2) Que dizer?

a) Evidentemente os sodomitas eram homossexuais; daí o nome de sodomia, que caracteriza essa tendência.

b) O fato de se mencionarem homossexualismo e outros graves pecados na Bíblia está longe de significar que o Livro Sagrado os aprova. Ao contrário, o homossexualismo é abominável segundo a Lei de Moisés e punido com a morte. Ver

Lv 18,22: “Não te deitarás com um homem como te deitas com uma mulher. É uma abominação”.

Lv 20,13: “O homem que se deita com outro homem como se fosse uma mulher, ambos cometem uma abominação, deverão morrer, e o sangue cairá sobre eles”.

A prática homossexual, porém, era difundida em torno de Israel. Ver Lv 20,23; Jz 19,22s.

c) Nem tudo o que a Bíblia relata, é modelo edificante. O texto sagrado descreve, sim, sem dissimulações, a miséria, para que melhor sobressaia a misericórdia de Deus. Precisamente misericórdia é a atitude de quem tem um coração (cor, cordis) voltado para a miséria, a fim de saná-la. É nesta perspectiva que se devem ler e interpretar as passagens “escabrosas” da Bíblia Sagrada. – Em consequência, o leitor avisado não se surpreende com o fato de haver perversão sexual em Sodoma, mas também não julga que esteja aí proposto um paradigma para o comportamento dos pósteros.

d) A atitude de Ló que prefere entregar suas filhas virgens a entregar os dois hóspedes, evidencia o repúdio ao homossexualismo. Mas também não é modelo de conduta, pois se trataria de concessão à paixão mórbida dos sodomitas. Explica-se, mas não se justifica, pelo fato de que a honra de uma mulher, nos tempos recuados do século XIX a.C., era menos considerada do que o dever sagrado da hospitalidade; as categorias da Moral foram aos poucos e lentamente desabrochando na consciência das gerações do povo israelita.

Ló e suas Filhas (Gn 19,30-38)

Tendo Ló procurado abrigo numa montanha perto de Segor com suas duas filhas, estas quiseram ter relações sexuais com seu pai, por medo de que não encontrassem outro homem com quem pudessem perpetuar a sua estirpe. O episódio é narrado friamente pelo texto bíblico: as jovens embriagaram seu pai em duas noites sucessivas; tiveram numa noite uma, e em outra noite a outra, relações com seu pai; deste consórcio nasceram respectivamente Moab, o patriarca dos moabitas, e Bem-Amon, o patriarca dos amonitas.

Este trecho bíblico, pouco edificante como é, pode ser entendido de duas maneiras:

a) interpretação literal. Mais uma vez, a miséria humana estaria relatada na Bíblia para que o leitor compreenda em que degradação moral o amor de Deus encontrou a humanidade que ele vinha resgatar na plenitude dos tempos. – Não se trata, pois, de aprovação ao incesto.

b) narração etiológica: bons exegetas admitem que o texto de Gn 19, 30-38 possa ser uma “narrativa etiológica”1 cujo significado seria o seguinte: os moabitas e os amonitas eram povos vizinhos que, tendo-se oposto aos hebreus por ocasião do êxodo, haviam incorrido no ódio e no desprezo destes (cf. Dt 23, 3-7; Jr 48, 26; Ez 25, 1-11). Ora, para exprimir a animosidade, ter-se-ia formado em Israel uma narrativa fictícia: “Moab” (mê-ab) podia, conforme a etimologia, significar “Ele é do meu pai”; “Amon” (bem-ammi) seria “Filho do meu povo” ou, segundo um termo paralelo árabe, também “Filho do meu pai”. Pois bem, estes nomes no decorrer do tempo haveriam sido apresentados pela tradição israelita com os sinais de atos pecaminosos que teriam dado origem aos dois povos: duas filhas haveriam, sim, concebidos de seu pai Ló e gerado os homens a quem teriam imposto os nomes adequados “Ele é do meu pai” (Moab), “Filho do meu pai” (Amon).2 Destes varões eram ditas proceder as duas nações inimigas ferrenhas de Israel, as quais assim ficavam bem caracterizadas como oriundas do pecado, impuras, gente com a qual não se podia ter amizade.3 A narrativa, portanto, exprimia uma “história” imaginada para depreciar amonitas e moabitas. Eis comoo Pe. Lagrange resume as razões que o levam a adotar esta explicação:

“O autor certamente não acreditava na historicidade do episódio, (…) quando narrava a origem incestuosa de Moab e Amon. A ironia é tão acerba, os trocadilhos tão artificiosos e cruéis que a tradição sabia muito bem como os devia entender; S. Jerônimo dizia dos rabinos do seu tempo, sem contra eles protestar: “Assinalam o trecho com pontinhos, para indicar que não merece fé”. Abstração feita da finalidade do pontilhado, o sentido exegético é muito exato: uma sátira não é história”.4

A interpretação assim concebida não é incompatível com a inspiração do texto sagrado. Com efeito, o hagiógrafo pode ter consignado no livro do Gênesis tradições populares, cujo significado era conhecido entre os judeus; inserindo o episódio de Gn 19,30-38, o autor não fazia senão exprimir, nos termos mesmos em que isto se costumava fazer em Israel, a animosidade existente entre o seu povo e os adversários do seu povo. Não queria de modo nenhum apresentar como históricos os traços que não eram tidos como tais pela gente que os referia.

Davi e Jônatas

O relato

Diz o texto sagrado que Davi nutria profunda amizade para com Jônatas, filho de Saul; cf. 1Sm 18,1-7; 20, 1-42. Morto Jônatas, Davi cantou a elegia da qual se destaca a seguinte passagem: “Tu me eras imensamente querido; a tua amizade me era mais cara do que o amor das mulheres” (2Sm 1,26).

O significado

Significa isto que Davi e Jônatas era homossexuais?

1) Tal interpretação é destituída de fundamento, como se verá adiante. Mas, ainda que o vício existisse entre Davi e Jônatas, não seria modelo aprovado pela Bíblia para legitimar o homossexualismo.

2) Na verdade, Davi parece ter nutrido para com Jônatas a amizade de dois bons companheiros de luta, interessados em apaziguar os ânimos do rei Saul. Davi era o perseguido e Jônatas o protetor de Davi. Esta atitude de Jônatas basta para explicar a profunda gratidão e amizade de Davi para com Jônatas.

Notemos, aliás, que Davi teve muitas mulheres – o que não se dá com os homossexuais. Seja citado o texto de 2Sm 5, 13-16:

“À sua chegada de Hebron, tomou  Davi ainda concubinas e mulheres em Jerusalém, e nasceram-lhe filhos e filhas. Estes são os nomes dos filhos que lhe nasceram em Jerusalém: Samua, Sobab, Natã, Salomão, Jebaar, Elisua, Nafeg, Jáfia, Elisama, Baalida, Elifalet”.

Considerem-se também os dizeres de 2SM 16,21s, que falam repetidamente das “concubinas de Davi”.

Ademais é muito significativo o caso de Davi, que se apoderou da mulher Betsabéia, do general Urias, e, por isto, mandou matar Urias expondo-o na frente de batalha às invectivas do inimigo; Cf. 2Sm 11, 2-17. O texto sagrado dá a entender que Davi se apaixonou por tal mulher e dela teve um filho, que morreu, e outro que foi o rei Salomão. Ora tais coisas não costumam acontecer aos homossexuais. Donde se vê que é gratuita a hipótese de ter sido Davi um homossexual. Como dito, mesmo que o tivesse sido, daí não se poderia depreender argumento nenhum em favor do homossexualismo.

A doutrina do Novo Testamento

O Novo Testamento, como também o Antigo, é muito explícito na condenação do homossexualismo. Tenham-se em vista os seguintes textos:

Rm 1,26s: “Deus os (pagãos) entregou-se a paixões aviltantes: suas mulheres mudaram as relações naturais por relações contra a natureza; igualmente os homens, deixando a relação natural com a mulher, arderam em desejo uns para com os outros, praticando torpezas homens com homens e recebendo em si mesmos a paga da sua aberração”.

1Cor 6,9s: “Não sabeis que os injustos não herdarão o Reino de Deus? Não vos iludais! Nem os impudicos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os depravados, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os injuriosos herdarão o Reino de Deus”.

1 Tm 1,9-11: “Sabemos que a Lei não é destinada aos justos, mas aos iníquos e rebeldes, ímpios e pecadores, sacrílegos e profanadores, parricidas e matricidas, homicidas, impudicos, pederastas, mercadores de escravos, mentirosos, perjuros e para tudo o que se oponha à sã doutrina, segundo o Evangelho da glória do Deus bendito, que me foi confiado”.

Já os filósofos estóicos, antes dos cristãos, haviam condenado o homossexualismo. Isto bem mostra que o repúdio a tal prática não procede unicamente da fé cristã, mas deriva-se da própria razão humana. Esta verifica que o homossexualismo é antinatural e, por isto, uma aberração. Todavia é de notar que nem todo indivíduo homossexual é culpado: a Moral Católica distingue entre a inclinação homossexual e a prática homossexual. Esta, sim, é pecaminosa, ao passo que aquela, se não é alimentada voluntariamente (por pensamentos, desejos ou atos) pela pessoa, não constitui pecado.

Eis o que convinha observar à margem dos comentários da imprensa relativos ao homossexualismo na Bíblia. Registra-se mais uma vez o fato de que a Bíblia hoje em dia é dilacerada pelos seus leitores segundo as mais diversas tendências do pensamento moderno.

O tema “homossexualismo” é abordado de maneira sistemática em PR 288/1986, pp. 233-240.

***1 Em grego, aitia = causa; lógos = discurso. Etiologia = discurso que revela a causa.

2 Note-se como por três vezes é inculcado que as filhas de Lo conceberam de seu pai (w. 32.34.36). Esta insistência se explica bem pela intenção de dar uma interpretação pejorativa aos dois nomes.

3 Os hebreus abominavam o ato incestuoso que atribuíam às filhas de Ló (cf. Dt 27,20,23; Lv 18,6-8).

4 La méthode historique, 207. Com Lagrange concordam Clamer, La Sainte Bible, l (Paris, 1953), 297; J. Chaine, Le livre de la Genèse (Paris, 1949), 253.

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 365 – Ano 1992 – p. 456

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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