Beleza, verdade e vida

BELO HORIZONTE, sexta-feira, 24 de junho de 2011 (ZENIT.org) – O cuidado com o coração de cada pessoa, sua consciência moral, é prioridade fundamental da existência humana. Demanda que precisa ser atendida sob pena de prejuízos irreversíveis e de rumo para a sociedade, deteriorando valores culturais e impedindo alcançar o verdadeiro sentido da vida. As discussões políticas e as prioridades governamentais no âmbito de infraestrutura, ou na edificação da sociedade na justiça e na paz, requerem atenção especial e investimentos de vários tipos; de modo que ecoe no coração de cada pessoa um chamamento ao amor do bem e à fuga do mal. Se não ressoar, com permanência, na intimidade do coração de cada um, será inevitável o comprometimento da dignidade humana e a incapacidade de desempenhar papel cidadão, insubstituível, na construção de uma nova sociedade.

A vida, é simples concluir, embora desafiador o alcance, se sustenta na verdade e na beleza. Não basta equalizar funcionamentos da economia para garantir lugares privilegiados em rankings mundiais. As articulações políticas não hospedam tudo o que é necessário para que a compreensão antropológica da sociedade esteja alargada de modo a priorizar, por exemplo, a superação da miséria e da fome. Também, a vergonhosa exclusão social que ainda atormenta sociedades. Não menos, a sociedade brasileira – o que é lamentável – apesar do muito dinheiro que se dispõe para isso em diversos setores, ante o desafio de escolher o que primeiro é necessário. Esse atravancamento se localiza nas incapacidades de se reger, em condutas e ações, pelo esplendor da verdade e por sua força educativa e transformadora.

Beleza e verdade são indispensáveis para que todo juízo – como operação mais perfeita da inteligência em diferentes circunstâncias, do cotidiano familiar às complexas decisões que constroem a sociedade – possa ser emitido com força necessária para fazer da sociedade lugar da justiça, da solidariedade e da paz. Bandeira mais importante no conjunto das nações e da vida no planeta, que evoca a importância de elementos que estão no bojo da ecologia, da espiritualidade, da sustentabilidade, da economia, da ciência, da tecnologia e da política. A verdade constitui a perfeição da inteligência e o bem a da vontade. A verdade é o caminho para o bem. O amor à verdade é garantia para alcançar o bem que há de ser o coração da consciência moral. Esta não pode ser desarticulada e seu estrangulamento faz com que culturas, povos e nações paguem preços históricos pesados, com prejuízos para a vida de todos, pesando, em especial, sobre os mais pobres.

Cuidados e investimentos na consciência moral são indispensáveis ao se avaliar a extensão e a importância dessa consciência nos atos concretos das pessoas. Considerando-se sua condição insubstituível ao tomar decisões que configuram o comportamento e a conduta – garantia de ordenamento adequado da vida pessoal e social. Esse fenômeno da consciência, pensando a vida, seu sustento e direcionamentos, tem tudo a ver com a esfera psicológica e afetiva. Também com os múltiplos influxos do ambiente social e cultural para cada pessoa e para a sociedade na qual está inserida. O santuário, que é cada pessoa, não pode prescindir do amor à verdade, bem como de sua procura. É necessário estimular e proporcionar, em todos os âmbitos e oportunidades, o desejo dessa procura, sob pena de perder o que conta mais e, embora não tão palpável como outras tantas coisas, tem força de sustento e de equilíbrio.

Oportuno é recordar o que narram os evangelistas. Mateus, no capítulo 19, traz o diálogo de Jesus com um jovem que expressou intenso desejo ao perguntar: “Mestre, que devo fazer de bom para alcançar a vida eterna?” Esta pergunta revela profundo e genuíno desejo do coração humano e a razão de seu viver. Perder essa referência é um risco e grande ameaça à vida. É preciso percorrer caminhos e oferecer influxos e condições que permitam o aflorar desse desejo, seu cultivo e efetivação. O amor à verdade, necessário e desafiante para o desejo de procura, tem na beleza um caminho educativo indispensável. É preciso ser funcional em tudo. É isso que a vida contemporânea exige, pela dinâmica de suas demandas e funcionamentos marcados por rapidez, multiplicidade, utilidade.

Toda experiência estética proporciona iluminação interior, dando ensejo ao caminho para o amor à verdade. A beleza, como realização excepcional de ideias, é campo de ofertas para artistas em poesias, esculturas, melodias, ritmos, monumentos. Proporciona a reposição de conceitos em imagens privilegiadas, favorece encontros, gera intuições educativas indispensáveis. Isso revela o quanto é necessário presentear a sociedade com a beleza que desperta o amor à verdade e sustenta a vida.

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Por Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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