Autenticidade dos Evangelhos – EB

Revista: “PERGUNTE E
RESPONDEREMOS”

D. Estevão Bettencourt, osb

Nº 7 – Ano 1958 – p. 280

Manso (Rio de Janeiro)
“Quisera ter provas da
veracidade e da autenticidade dos Evangelhos”.

Para proceder com método,
distingamos entre autenticidade literária (ou do texto) e autenticidade
histórico-doutrinária (ou do conteúdo) dos Evangelhos.

1. Autenticidade literária

A questão da autenticidade
do texto dos Evangelhos que hoje possuímos, não provoca grandes dúvidas entre
os estudiosos.

Embora se tenham perdido os
autógrafos (pois o frágil material usado pelos escritores antigos não era apto
a resistir à ação do tempo), possuímos 2.300 manuscritos do texto grego dos
Evangelhos e 1500 lecionários (antologias) que contem a maior parte dos quatro
livros. Existem, além disto, quinze traduções antigas que, em caso de necessidade,
podem auxiliar a reconstituir o texto original. O material, portanto, é
copioso.

Os mais antigos desses
documentos são os papiros e, entre estes, o primeiro por sua idade é o de nº
52, que data do início do séc. II e apresenta o texto de Jo 18, 31-33.37 f (note-se que o
Evangelho de São João foi escrito nos últimos anos do séc. I). Acha-se guardado
em Manchester, na John Rylands Library. Este manuscrito, descoberto em 1945 no
Egito, dá a ver que, poucos decênios (os que correspondem aproximadamente à duração
de uma geração humana) após a redação de Jo na Ásia Menor, este livro já era
lido no Egito.

O valor de tais testemunhas
ainda se torna mais evidente se se considera o estado de conservação das obras
dos autores clássicos. Destas se possui às vezes um só manuscrito (ao passo que
dos Evangelhos existem mais de dois milhares). Ademais o autor que melhor se
pode conhecer é Virgílio ( + 19
a. C.); ora há um intervalo de 350 anos entre a morte
deste poeta e o mais antigo manuscrito do mesmo hoje conservado. Para Tito
Lívio ( + 17 d. C.), o intervalo corresponde é de 500 anos; para Horácio ( + 18 a. C.), é de 900 anos; para
Júlio César ( + 44 a.
C.) e Cornélio Nepos ( + 32 a.
C.), 1200 anos; para Platão ( + 347
a. C.) e Tucídides ( + 395 a. C.), 1300 anos; para
Eurípides ( + 407/6 a. C.), 1600 anos!

Os diversos códices dos
Evangelhos apresentam, sem dúvida, notável número de variantes; poucas, porém,
afetam o sentido do texto sagrado, sendo a maioria referente à ortografia, à
posição dos vocábulos na frase, ao emprego de partículas, à omissão do artigo,
etc.

Sendo assim, não há quem
seriamente ouse negar que o texto dos Santos Evangelhos, como hoje o possuímos,
seja fidedigno transmissor do pensamento dos autores sagrados.

Feita esta verificação,
pode-se abordar a questão muito mais importante da

2. Autenticidade
histórico-doutrinária dos Evangelhos

Pode-se dizer que até o séc.
XVIII não se punha o problema da fidelidade histórica dos Evangelistas. No séc.
XVIII, porém, teve surto a onda moderna de crítica aos livros sagrados,
sustentada por diversos sistemas filosóficos (iluminismo, deísmo, kantismo,
hegelianismo…).

1. As diversas sentenças
arquitetadas para explicar de maneira nova a origem dos Evangelhos, diminuindo
ou negando a veracidade dos mesmos, podem-se reduzir a dois tipos principais:

a) a teoria do personagem
histórico aureolado em mito ou endeusado,

b) a teoria do mito
projetado na história (no primeiro caso, passa-se da história real para uma idéia
falsa; no segundo, de uma mera idéia para uma história falsa).

Examinemos sucessivamente
essas duas teorias.

a) A primeira tendência dos
críticos foi a de eliminar dos Evangelhos tudo que lhes parecia sobrenatural ou
milagroso (pois de ante-mão consideravam estes elementos impossíveis). Jesus, por
conseguinte, teria sido personagem realmente histórico, mas mero homem…
Alguns autores conceberam o Nazareno como famoso agitador popular, o qual
tentou contra os romanos uma revolução malograda, mas não obstante foi tido por
seu discípulos como herói (tese de H. S. Reimarus, + 1768). Outros O tiveram na
conta de taumaturgo popular, que, utilizando forças e segredos meramente
naturais, fazia curas aparentemente extraordinárias, parecia caminhar sobre as
águas, multiplicar pães, etc. (H. E. G. Paulus, + 1851). Um terceiro grupo
considerava Jesus como profeta, que se julgava Messias, Salvador do povo ou
“Filho de Deus”; sua doutrina, a princípio inspirada por fontes judaicas, teria
sido pelas gerações seguintes mesclada com “dogmas helenistas” (A. v. Harnack,
+ 1930). Uma sentença afim a esta é a dos “Escatologistas”: Jesus haverá sido
empolgado por extraordinário sentimento religioso, crendo erroneamente que em
breve o mundo se renovaria pela irrupção estrondosa do “Reino de Deus”, de que
ele seria o arauto e herói (Loisy, + 1940. Guignebert, + 1939; Goguel).

Entre os negadores da
Divindade de Jesus convém citar em menção especial Ernesto Renan (+ 1892),
autor de famosa “Vida de Jesus” (1863). Em estilo artístico e sedutor, um tanto
dado à poesia, apresentou Jesus como “doce profeta”, ou “encantador” (charmeur)
de massas, cujo ambiente geográfico e histórico Renan procurou reconstituir
minuciosamente. O livro, que conseguiu extraordinário sucesso em sua época, é
hoje tido como obra de diletantismo literário mais que de espírito científico e
crítico; já não pode ser levado a sério pelo estudioso sincero.

O fato – dizem todos os
fautores dessa idéias é que o homem Jesus, depois de morto, foi paulatinamente
endeusado pela crendice de seus discípulos, vindo a ser considerado como Deus
feito homem. Os Evangelhos seriam, antes do mais, a expressão das aspirações
místicas das primeiras gerações cristãs, deixando muito longínqua e pálida a
figura real de Jesus.

Uma das modalidades mais
recentes da teoria do eudesamento ainda se poderia assinalar: é o chamado
“Método da história das formas” (formgeschichtliche Methode), que procura
distinguir nos Evangelhos “paradigmas, novelas e legendas” acumuladas em torno
de tênue núcleo histórico. Um dos seus propugnadores mais famosos, o
protestante Bultmann, chega a falar da necessidade da Entmythologisterung  ou “demitologização” do Evangelho!

b) As Teses dos críticos
acima expostas foram por sua vez criticadas. A maneira como eliminavam o
sobrenatural ou o milagroso das narrativas evangélicas, não podia deixar de
parecer  arbitrária; a figura histórica
de Jesus que após esses cancelamentos os mencionados críticos ainda queriam
admitir, era uma figura manca, inconsciente ou até mesmo monstruosa, uma figura
tal que jamais sobre ela se teria podido construir a religião cristã animada
pela fé tenaz dos primeiros discípulos e de vinte séculos subseqüentes.

Por isto, visando ser mais
lógica, outra corrente de críticos preferiu negar por completo a existência
histórica de Jesus. Aliás, A. v. Harnack, racionalista liberal, já predizia que
se daria com os críticos dos Evangelhos o que acontece com uma criança que se
põe a arrancar as folhas de um bulbo, julgando finalmente encontrar um cerne ou
o essencial no seu íntimo; verifica, porém, que, após lançar fora a última
folha, nada mais conserva nas mãos.

Depois dos ensaios ainda
conciliadores de D. F. Strauss (1835/6) e outros autores, apareceu finalmente
em 1924 o do médico francês P. L. Couchoud. Este, rejeitando compromissos mais
ou menos arbitrários, escrevia: “Jesus não é um homem que tenha vivido e haja
desaparecido no seio da morte. É apenas um grande sonho dos homens, sonho
constantemente vivo (…) – em suma, um ser divino cujo conhecimento foi
lentamente elaborado pela consciência cristã”. O mito (ou a ficção religiosa)
do “Deus que morrer e ressuscita”, mito muito antigo nas concepções da
humanidade, terá sido finalmente, no início da nossa era, concretizado de
maneira muito aparatosa por algumas coletividades judaico-cristãs: estas,
recorrendo a elementos religiosos do Antigo Testamento, terão imaginado a
realização desse mito na figura de um pretenso Jesus de Nazaré; foi essa
imaginação, dizem, que inspirou os Evangelhos, os quais nada tem a ver com a
realidade histórica. Couchoud chegava a profetizar em 1924: “Creio que por
volta de 1940 Jesus terá passado inteiramente do plano dos fatos materiais para
o das representações coletivas de ordem mental” (isto é, será reconhecido como
mero produto da imaginação) (!).

2. Procuremos agora formular
um juízo sobre os resultados da crítica moderna.

Parece que não há mais
nenhuma hipótese a tentar para explicar os Evangelhos como livros cuja
fidelidade histórica deva ser parcial ou totalmente negada. A crítica,
criticando-se a si mesma, esgotou paulatinamente todos os alvitres: para não
afirmar, com toda a Tradição cristã, que Jesus foi verdadeiro Deus feito
verdadeiro homem, ou se admite que tenha sido mero homem endeusado ou se diz
que Jesus não é mais do que a cristalização literária de lendário vulto
“divino”.

Pois bem; uma e outra destas
duas hipóteses se mostram vãs a mais de um título:

a) razão de ordem geral:
ambas as explicações acima supõem ou mentira fraudulenta ou engano simplório
por parte das primeiras gerações cristãs, mentira ou engano que teriam dado
origem a este fenômeno “Cristianismo”, o qual já dura há vinte séculos. Ora um
tal fundamento se apresenta insuficiente para explicar o Cristianismo, mormente
se se tem em vista as perseguições de que foram objeto os cristãos até 313. Não
faltaram aos discípulos de Jesus ocasiões para desistir de sua crença na
Divindade do Senhor; tê-la-iam de fato abandonado se não lhes fosse
evidentemente imposta pela realidade ou se lhes fosse sugerida pela mentira ou
por uma alucinação coletiva.

b) em particular, à tese do
endeusamento de um mero homem, Jesus de Nazaré, deve-se lembrar que este
fenômeno só teria sido possível dentro de considerável espaço de tempo; é
geralmente à distância que os homens e os acontecimentos vão perdendo seus
aspectos sombrios e tomando colorido puramente idílico. Ora, de um lado, Jesus
nos Evangelhos aparece nitidamente como Filho de Deus, igual ao Pai (cf., p.
ex., Mt 11, 27; Jo 8,51-58); de outro lado, hoje em dia já não há quem não
reconheça que os Evangelhos sinóticos (Mt, Mc e Lc) foram escritos antes da
destruição de Jerusalém ou, mais precisamente, entre 50 e 63 da nossa era; e
foram escritos na base de documentos já redigidos anteriormente (passou-se a
época em que os críticos admitiam um intervalo de 100, 150 ou 200 anos entre a
morte de Cristo e a redação dos Evangelhos). Ora, ao passo que um ou dois
séculos constituíam o prazo oportuno para explicar o endeusamento de mero
homem, dois ou três decênios já não são suficientes para isto. Os Evangelhos se
apresentam, antes, como a reprodução de um ensinamento oral concebido pelos
Apóstolos; por isto eram outrora chamados “Memórias dos Apóstolos” (cf. São
Justino, + 165, Apol. 1,66; Dial. 103,8); se afirmam a Divindade de Jesus,
fazem-no porque esta pôde ser observada e pareceu comprovada àqueles que
acompanham a Cristo na terra. Aos Apóstolos e aos primeiros discípulos não
ficava margem para inventarem algo ao referirem a vida de Cristo; se houvessem
recorrido a este expediente, teriam sido prontamente denunciados como
embusteiros, pois não faltavam testemunhas da vida de Cristo que, hostis a
Jesus e a seus discípulos, estavam prontos a rebater qualquer tentativa de
mistificação; esta jamais teria passado impune… Também é de crer que uma
pregação falsa, baseada na mentira, nunca teria conseguido abalar a população
cética e comodista do Império greco-romano, induzindo-a a abraçar uma religião
de moral tão exigente como era o Cristianismo.

A teoria do eudeusamento
ainda se choca com outros obstáculos, quais sejam:

a idéia de que Jesus pudesse
ser Filho de Deus, igual a Deus, era alheia às concepções de Israel, que
inculcavam a unicidade do Senhor (Javé) nos termos mais rígidos possíveis;

a tese da encarnação de Deus
era como que um contra-senso para a mentalidade judaica; os Rabinos tendiam
mais e mais a sublinhar a distância entre o Altíssimo e Eterno, de um lado, e
este mundo, do outro;

a noção de um Messias ou
Salvador padecente na cruz era muito estranha tanto aos judeus como aos pagãos
antigos (“escândalo e loucura,” diz São Paulo em 1 Cor 1,23); por conseguinte,
jamais terá surgido das concepções dos homens do início da era cristã.

São estas as principais
razões que levam a rejeitar a hipótese de que a antiga comunidade cristã tenha
criado a figura de “Jesus-Deus”.

c) quanto à hipótese do mito
do “Deus que morre e ressuscita”, mito concretizado no vulto puramente
literário de Jesus, ela também luta com dificuldade dirimentes, como sejam:

O quadro histórico em que Jesus é colocado
pelos Evangelhistas, apresenta pormenores muito condizentes com o que se sabe
por fontes da história da civilização. Ora os muito conhecidos pela história
das religiões costumam ser enquadrados dentro de épocas muito remotas da
humanidade, épocas cujas características já não podem ser reconstituídas com
precisão por quem os professa. Ao contrário, aqueles que escreveram o que os
críticos chamam “o mito de Jesus”, teriam colocado a figura de seu herói em
época muito próxima aquela em que escreviam, e teriam dado ao quadro histórico
dessa época traços e coloridos demasiado minuciosos e realistas para poderem
ser o acompanhamento de uma mentira, traços e coloridos bem sujeitos a controle
e, por isto, comprometedores para a subsistência do mito.

Tais pormenores são, por
exemplo, as alusões dos Evangelistas às autoridades civis do Império Romano
(cf. Lc 2,1s; 3,1), à vida econômica e social dos judeus, até mesmo à maneira
de pagar os operários (cf. Mt 20, 1-8), aos costumes de festas nupciais (cf. Mt
25, 1-12), aos folguedos das crianças nas praças públicas (cf. Mt 11,16s)…;
são também as referências ao ideal religioso e político dos judeus, à
mentalidade dos fariseus, dos saduceus, dos herodianos. Todas estas linhas do
quadro externo da Palestina desapareceram no ano de 70, quando Jerusalém foi
arrasada pelas tropas romanas; não teria sido fácil recompô-las com tanta
vivacidade e coerência em época tardia. É o que leva os críticos a reconhecer
que os sinóticos foram redigidos poucos decênios após a época que eles
assinalam à vida de Jesus (de 4/7 a. C. a 30/33 d. C.) e foram redigidos na
base de observações de uma realidade genuinamente histórica.

De outro lado, as narrativas
evangélicas da vida de Jesus se apresentam geralmente esquemáticas e
despretenciosas para poder ser produto da imaginação de místicos idealistas: os
Evangelhos são muito sóbrios ao se referir à infância e à adolescência do
Senhor, muito comedidos ao descrever os milagres de Jesus e a maneira como Ele
os realizava; às vezes relatam pormenores que parecem contraditórios entre si e
suscitam questões exegéticas (haja vista principalmente o que diz respeito às
aspirações de Jesus ressuscitado). Fazem-nos considerar também Jesus a se
afligir e chorar, Jesus que parece estar fora de si (cf. Mc 3,21). Vê-se que
nos Evangelistas não havia intenção alguma de “idealizar”, ou seja, de pintar
uma figura tão selada pelo maravilhoso que só restaria ao leitor prostrar-se
subjugado diante da sua mensagem; os Evangelistas pareciam crer que possuíam a
verdade, a qual se imporia por si mesma, e que, por conseguinte, não lhes seria
necessário recorrer a artifícios para relatá-la, mas poderiam narrá-la com
espontaneidade simples.

É verdade, não faltaram
escritores dos primeiros séculos que cederam ao desejo de idealizar o Senhor
Jesus, suprindo as lacunas dos Evangelhos canônicos; mas justamente os seus
escritos, chamados “apócrifos”, não foram pela Tradição cristã reconhecidos
como fidedignos.

3. Se inconsistentes se
mostram as hipóteses dos críticos negadores da autenticidade dos Evangelhos, só
resta ao estudioso sincero reconhecer o valor da sentença tradicional, que tem
estes livros por relatos verídicos da vida de Jesus Cristo, Deus verdadeiro
feito verdadeiro homem.

Naturalmente esta tese, é à
primeira vista, árdua, porque pressupõe a possibilidade, ou melhor,  a realização, do sobrenatural no decorrer da
história. Note-se, porém, que as teses dos racionalistas, por sua vez,
pressupõem algo que não provam, isto é, a absoluta impossibilidade do
sobrenatural, da derrogação das leis da natureza por parte do Autor do mundo.
Negando a fé no sobrenatural, professam outro tipo de fé: a fé na
impossibilidade do sobrenatural. – Eis, porém, que o cristão, baseado em sua
crença, se eleva a uma compreensão satisfatória do Cristo e do Cristianismo; o
racionalista, ao contrário, partindo de seu postulado, se vê obrigado a
professar autênticos absurdos, justamente porque rejeita o que na verdade não é
absurdo. Destarte verifica-se que não são propriamente as dificuldades
literárias nem as regras de interpretação dos textos que levam os autores a
negar a veracidade dos Evangelhos (se fossem estes os verdadeiros motivos,
haveria mais unanimidade de conclusões entre os críticos liberais). São muito
mais os princípios deste ou daquele sistema filosófico preconcebido que impelem
tantos estudiosos a rejeitar os livros sagrados.

4. Uma última observação
ainda se opõem: os Evangelistas certamente não intencionaram redigir uma
biografia de Jesus no sentido moderno, completa e sistemática (cf. Jo 20,30;
21,35). Apenas reuniram dados concernentes a Jesus, com o fim de fornecer a
pregadores e discípulos um compendio de catequese. Em vista disto, selecionaram
dentro o material que encontraram, os elementos que melhor se prestavam a
revelar a figura de Jesus. Esses elementos, eles os concatenaram sem se
importar grandemente com as respectivas circunstâncias de tempo e lugar, mas
visando principalmente a ordem sistemática, ou seja, agrupando episódios e
frases de Jesus referentes ao mesmo tema.

Tal finalidade catequética
não exclui a fidelidade à história. Escolher os dados e dispô-los de modo a
fazer sobressair a sua mensagem religiosa não implica alterar a verdade
objetiva. Os Evangelistas fizeram obra semelhante à de historiadores que
estudam, por exemplo, o Imperador Napoleão: um deles se propõe apresentá-lo
principalmente como grande guerreiro e general, herói de campanhas; outro o
mostra como homem político e legislador; um terceiro descreve a vida íntima, os
amores de Napoleão. Embora cada um desses escritores abranja apenas um aspecto,
um lado da figura do Imperador, não deixa de ser historiador no sentido pleno
da palavra…

Os leitores imediatos sabiam
que não deviam procurar nos Evangelhos historiografia como tal; tinham mesmo
consciência de que esta aí servia à comunicação de uma notícia de salvação
eterna; por isto o modo como os Evangelistas narravam a história não os induzia
em erro. Nem,
portanto, ao leitor moderno deve causar embaraço; apenas se pede que este leia
os Evangelhos como os Evangelistas queriam fossem lidos, não como nós, homens
do séc. XX, lemos Crônicas.

Um estudo muito sereno e de
agradável leitura sobre a veracidade dos Evangelhos é a obra de Jean Guitton,
JESUS. Paris 1957 (59º edição em dois anos!).

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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