Astrologia – horóscopo?

A astrologia pretende definir as peripécias da vida humana a partir da posição ocupada pelos astros na ocasião do nascimento da respectiva pessoa. Ora tal “ciência” é falsa por diversos motivos:

– baseia-se na cosmologia geocêntrica de Ptolomeu; conta sete planetas apenas, entre os quais é enumerado o Sol;

– a existência das casas do horóscopo ou dos compartimentos do zodíaco é algo de totalmente arbitrário e irreal;

– os astros existentes no cosmo são quase inumeráveis; conhecem-se interferências dos mesmos no espaço que outrora se ignoravam. É notório também o fato de que os astros modificam incessantemente a sua posição no espaço. Por que então a astrologia leva em conta a influência de uma constelação apenas?

– a astrologia incute mentalidade fatalista e alienante, que deve ser combatida, pois não corresponde aos genuínos conceitos de Deus e do homem.

Comentário: Em todos os tempos, e ainda hoje, está em voga a astrologia ou o horóscopo. Especialmente quando começa o ano civil, as revistas ilustradas pretendem desvendar o futuro na base da astrologia; de resto, todos os dias a imprensa publica o horóscopo, aconselhando ao leitor crédulo o que deva fazer ou evitar. Embora muitas pessoas digam que não acreditam no horóscopo, no seu íntimo não deixam de fazer fé no que lhes é assim recomendado

Eis por que nos voltaremos, nas páginas seguintes, para o fenômeno do horóscopo ou da astrologia, procurando avaliar o seu fundamento e o seu valor.

1. Astrologia ou horóscopo: quanto vale?

1.1. Fundamentos da astrologia

Etimologicamente astrologia significa estudo dos astros. Na linguagem comum designa o estudo na influência dos astros no comportamento dos homens.

Horóscopo (do grego horoskópos) designa a arte de observar (skopein) a posição dos astros por ocasião (hora) do nascimento de uma criança. O momento preciso da natividade e a configuração dos astros são tidos como importantes para descrever-se a futura sorte do indivíduo.

A astrologia e o horóscopo são cultivados desde remotas épocas antes de Cristo, ou seja, desde a civilização dos caldeus da Mesopotâmia, por volta de 2500 a.C. Pode-se explicar o surto dessa “arte” se se leva em conta que a vida humana é cheia de insegurança (nas épocas remotas ainda mais do que em nossos tempos): um dia é feliz e próspero, outro é desgraçado ou sem êxito. Ora essa versatilidade outrora era atribuída a forças superiores que influenciariam a conduta do homem; tais forças eram os astros, que os homens facilmente identificavam com divindades. Destas premissas originou-se o desejo de conhecer de antemão as circunstâncias e ocasiões em que os astros seriam favoráveis ou desfavoráveis ao homem. Conhecendo-as, o homem poderia superar a sua insegurança ou o seu medo, pois se acautelaria contra as más influências dos seres superiores.

Na época em que a astrologia começou a ser cultivada, os estudiosos pouco sabiam a respeito do sistema solar e dos astros em geral; ignoravam as distâncias dos planetas ao Sol ou à Terra; mal conheciam a natureza do Sol, da Lua e dos outros astros. Imaginavam a existência do zodíaco, isto é, de uma faixa ou de um anel que cercaria a Terra; nessa faixa mover-se-iam o Sol, a Lua, os planetas maiores e grande parte dos menores; a circunferência desse anel imaginário (360º) estaria dividida em doze segmentos (cada qual de 30º); em cada um desses segmentos existiria um compartimento chamado “caso do horóscopo”; tais compartimentos teriam um símbolo ou um sinal próprio; os doze símbolos assim concebidos seriam os sinais do zodíaco (do grego zódion, figura de animal ou de vivente), que assim eram (e são) denominados: Carneiro, Touro, Gêmeos (irmãos), Câncer (caranguejo), Leão, Virgem, Balança, Escorpião, Arqueiro (Sagitário), Capricórnio (cabra ou cauda de peixe), Aquário, Peixes. Os sinais do zodíaco, reunidos em grupos de três, correspondem às estações do ano de tal modo que a primavera abrange Carneiro, Touro e Gêmeos…

1.2. A influência real dos astros sobre a Terra

A astronomia é a ciência que trata da constituição e do movimento dos astros sem as conotações filosóficas e religiosas que caracterizam a astrologia. As suas afirmações resultam da observação objetiva e criteriosa dos astros. Ora os astrônomos ensinam que a influência do Sol sobre a Terra é relativamente importante, a da Lua é muito secundária, enquanto a dos planetas é quase nula.

Com efeito. Toda a energia de que dispomos, em última análise, provém do Sol; mesmo o carvão com que se acendem as caldeiras, o petróleo que se consome nos carros e aviões, são produtos fósseis fotoquímicos da energia solar.

Quanto à Lua, é um astro pequeno, cuja massa não ultrapassa 1% do globo terrestre. Não tem luz própria, mas apenas reflete uma parte da luz solar, segundo o albedo 0,073¹. Por causa da sua proximidade em relação à Terra (380.000 km), a Luz provoca o fenômeno das marés (em alto mar, a elevação das águas em alta maré não vai além de 35 cm). Contrariamente ao que pensa o povo, a Lua não exerce influência sensível sobre o tempo e a metereologia.

Os planetas são corpos relativamente frios. O seu brilho resulta unicamente da difusão da luz solar, o seu colorido deve-se às propriedades físico-químicas do respectivo solo ou da sua atmosfera: Marte apresenta-se com a sua coloração de ferrugem porque, através da sua atmosfera muito tênue, percebemos os seus desertos recobertos de poeira avermelhada. Saturno possui uma atmosfera de metano e amoníaco, que absorvem os raios vermelhos da luz solar – o que confere a Saturno uma coloração pálida ou lívida. A energia que provém dos planetas é tão fraca e a distância dos mesmos em relação à Terra é tão grande que a sua influência é praticamente nula¹.

Quanto às estrelas, a energia que a Terra recebe de cada centímetro quadrado de Sirus, a estrela mais clara do céu que vemos, requer 200.000 anos para elevar de um grau Celsius a temperatura de um dedal cheio de água.

Mas não seria possível admitir forças desconhecidas que atuem sobre o planeta Terra?

Sim; é possível. É até mesmo provável que as haja. Todavia é preciso lembrar que as fontes donde podem provir distam da Terra alguns  bilhões de anos-luz (um ano-luz equivale a 9461 x 10 ¹² km); donde se deduz que tais forças – se existem – não podem exercer influência importante sobre a vida humana.

1.3. E os acertos da astrologia?

Dir-se-á: “Pouco importam os cálculos teóricos. O fato é que as predições dos astrólogos muitas vezes se cumpriram”. – Muitas vezes” é expressão hiperbólica; ademais note-se: não poucas predições de astrólogos são vagas e, por isto, sempre parecem realizar-se justamente porque são imprecisas ou flexíveis². Na verdade, o cumprimento de autênticas predições dos astrólogos se explica ou pela aplicação das leis da probabilidade (de acertos) ³ ou porque o astrólogo, sendo bom psicólogo ou bom parapsicólogo, consegue perceber algo dos traços íntimos ou ocultos guardados no inconsciente da pessoa que o consulta.

Registram-se também erros flagrantes de astrólogos. Por exemplo: repetidas vezes os astrólogos predisseram a morte do presidente Eisenhower, dos Estados Unidos, em data precisa, mas foram sempre desmentidos; não se tem notícia, porém, de que hajam predito o assassínio de John Kennedy. Em 1963, poucas horas antes do golpe mortal contra o presidente Kennedy, foi publicado o livro de famoso astrólogo, no qual se lia: “Acaba de convencer-nos a constelação do presidente Kennedy, que goza de grandes probabilidades de ser reeleito em novembro de 1964”. Os Cahiers d’Astrologie (guia dos astrólogos que se dizem científicos) publicaram em seu número de setembro de 1939 a seguinte observação:

“… Este número que aparece nas horas obscuras, pode suscitar paz no leitor, pois a guerra mundial não está inscrita no céu da Europa”.

Ora a segunda guerra mundial começou aos 3 de setembro de 1939!

Outro desmentido famoso foi infligido a Gabriel Trorieux d’Egmonde: no fim de 1939, publicou uma série de previsões sobre a guerra em curso, nas quais afirmava espetacular vitória das forças francesas sobre Adolf Hitler, sólida colaboração de franceses e ingleses na luta contra os alemães, a resistência inabalável das tropas belgas aos inimigos germânicos, o extraordinário valor militar do Estado-Maior francês… Ora a realidade foi exatamente oposta: em junho de 1940 a França caía sob os golpes dos alemães, depois que estes haviam invadido a Bélgica… Aliás, diz-se também que Hitler tomava suas decisões de acordo com o oráculo dos astrólogos – o que lhe valeu precipitar a Alemanha na mais atroz catástrofe da sua história!

À vista de tantos desatinos da astrologia, a Sociedade Americana de Estudos Psicológicos e Sociais publicou a seguinte declaração oficial:

“Os psicólogos não vêem indício de que a astrologia tenha valor como indicação do passado ou do futuro para a vida… de alguém. Por conseguinte, esta Sociedade lamenta a adesão de grande parte do público a uma prática mágica que não consta com o mínimo apoio de fatos científicos”.

Passemos agora a uma

2. Reflexão final

Três são os principais pontos que, no caso, ocorrem à reflexão do estudioso:

1) A astrologia supõe uma mentalidade mitológica e uma realidade cósmica já superada. A sua ordem origem está na época em que os homens se julgavam totalmente dependentes das forças da natureza; personificavam essas forças e as concebiam como deuses e demônios; adoravam o Sol e a Luz. Os predicados legendários dos deuses do Panteon grego, eles os transferiam aos planetas. O planeta mais belo foi identificado como Vênus e considerado benfazejo. A cor de sangue de Marte levou os astrólogos a qualificá-lo como deus da guerra, da peste e da morte. O planeta majestoso que leva doze anos para percorrer a abóbada celeste, é Júpiter. O último dos planetas conhecidos na antiguidade tem aspecto pálido e sinistro; leva trinta anos para percorrer as constelações do zodíaco, por isto foi chamado Saturno; identificaram-no também com Chronos, o deus que devora seus filhos; por isto aquele bloco de rochas e de gases foi tido como maléfico. Ora todos estes elementos derivados de religiosidade primitiva ainda estão na base da astrologia moderna, que diz ser científica!

2) Na verdade, a astrologia é anticientífica. Com efeito:

– Os pressupostos da astrologia e do horóscopo estão todos ultrapassados. Sim; a astrologia baseia-se na cosmologia geocêntrica de Ptolomeu: conhece “sete planetas” apenas, entre os quais é numerado o Sol! Hoje conhecemos mais planetas e nossa visão do grande cosmo se alterou profundamente, pois passamos do geocentrismo para o heliocentrismo.

– A existência das casas do horóscopo ou dos compartimentos do zodíaco é algo de totalmente arbitrário e irreal.

– Os sinais do zodíaco não são unidades cosmológicas, mas são estrelas separadas umas das outras por vastos mundos ou sistemas.

De modo geral, as figuras, os sinais, as casas, os ângulos com que lida a astrologia, só existem como tais na imaginação do homem. O retângulo da “Grande Urso” só existe na retina do homem e não na realidade do espaço; as estrelas que popularmente parecem próximas e relacionadas entre si, muitas vezes não estão no mesmo plano nem à mesma distância de nós.

– Mais ainda: há cerca de dois mil anos a passagem do Sol pelo ponto vernal (início da primavera) coincida com a entrada do Sol no compartimento correspondente à constelação do Carneiro. Mas verifica-se que o ponto vernal retrocede sobre  a eclíptica¹ segundo o ritmo de 50″,26 por ano, ou seja, de 30º (um sinal do zodíaco) em 2.150 anos. Nos tempos atuais quando se inicia a primavera, o Sol já ultrapassou a metade da constelação dos Peixes, mas continua-se a dizer que ele então entra na casa do Carneiro. Existe, pois, uma defasagem entre os nomes das pretensas casas do zodíaco e os nomes das constelações correspondentes. Serão necessários 25.790 anos para se restabelecer a coincidência entre essas pretensas casas e as constelações de que tiram o nome.

Com outras palavras: o sinal do Carneiro corresponde hoje não à constelação do Carneiro, mas à constelação dos Peixes. Por conseguinte, a pessoa a quem os astrólogos dizem: “Você nasceu sob o signo do Carneiro!”, na verdade foi, ao nascer, irradiada pela constelação dos Peixes. Não obstante, dar-se-lhe-á o horóscopo do Carneiro! Esta verificação por si só evidencia quão pouco científica ou quão anticientífica vem a ser a horoscopia.

– Hoje sabe-se que os astros existentes no cosmo são quase inumeráveis: conhecem-se interferências dos mesmos no espaço e nos planetas que outrora se ignoravam. É notório também o fato de que os astros modificam incessantemente a sua posição no espaço. Por que então a astrologia leva em conta a influência de uma constelação apenas?

– Por último, merece atenção a desigualdade de sortes de crianças nascidas no mesmo lugar e no mesmo instante, até mesmo dos gêmeos. Se os astros regem a vida dos homens, como não a regem uniformemente no caso citado?

É por ser anticientífica (dada à fantasia exuberante e primitiva) que a astrologia não encontra aceitação por parte dos astrônomos ou dos homens de ciência. Estes, ao descobrirem mais e mais a existência, a distância, a composição, as transformações e atividades dos planetas e das estrelas, verificam que as afirmações dos astrólogos são arbitrárias ou mesmo falsas.

3) A astrologia supõe e comunica uma mentalidade fatalista:

 – o que é nocivo ao homem e destruidor da personalidade. Concorre para negar a liberdade de arbítrio do homem e a soberana liberdade de Deus; perturbações mentais, depressões nervosas, inimizades, suicídios…, têm sido a conseqüência da adesão à astrologia. Mais: se Deus criou astros que por si são maléficos, Deus é o autor dos seus malefícios. Observa sabiamente S. Agostinho:

“Os astrólogos dizem: a causa inevitável do pecado vem do céu; Saturno e Marte são os responsáveis. Assim isentam o homem de toda falta e atribuem as culpas ao Criador, àquele que rege os céus e os astros” (Confissões, I, IV, c. 3).

Donde se vê que chegou o tempo de se remover da mentalidade dos homens do século XX a superstição que se chama “astrologia” a fim de fazer que o ser humano se encontre melhor consigo mesmo e com o Criador.

À guisa de bibliografia:

FASBENDER, J., Astrologie, em Sacramentum Mundi I. Freiburg im Breisgau 1967, cols. 356-358.

GAUQUELIN, M., Le dossier des influences cosmiques: caractères et tempèraments, Paris 1923.

LECUREUX, BERNADETTE, Pouvons-nous croire à l’astrologie? em Ecclesia 216, mars 1967, pp. 105-115.

OBERSTATTER, A., Pouvons-nous croire à l’astrologie, em Ecclesia 225, décembre 1967, pp. 67-76.

OMEZ, R., L’occultisme devant la science. Paris 1963. IDEM, E

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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