As tribulações do matrimônio

Novos
informes revelam tendências preocupantes

Por padre
John Flynn, L.C. 

ROMA,
terça-feira, 21 de dezembro de 2010 (ZENIT.org) – Um
relatório recém-publicado mostra que a classe média está sofrendo um aumento no
número de divórcios e mães solteiras, e que os problemas matrimoniais não se
limitam às pessoas com níveis mais baixos de educação e renda.

A edição
2010 de The State of Our Unions, “When Marriage Disappears: The Retreat
from Marriage in Middle America” (A situação de nossos casamentos, “quando
desaparece o matrimônio: o afastamento do matrimônio por parte da América do
Norte média”) foi publicada a 29 de novembro. 

O documento
trata-se de um esforço conjunto do National Marriage Project da
Universidade de Virginia e do Center for Marriage and Families del
Institute for American Values.

O informe
revela que o matrimônio só é estável entre as pessoas de uma alta educação e
alta renda e, de fato, o casamento parece ter-se fortalecido entre os mais
ricos.

No informe
se definia o norte-americano médio como alguém que terminou o estudo regular
mas carece de título universitário. Este grupo constitui 58% da população
adulta. Aqueles com formação universitária somam 30%. Os restantes 12%
constituem os que não terminaram o ensino regular.

Entre as
mudanças destacadas, o relatório apresenta:

– No início
dos anos 80, apenas 2% das crianças nascidas fora do casamento eram de mães com
uma educação alta, em comparação com 13% de crianças de mães com uma educação
média e 33% de crianças nascidas de mães com pouco estudo. Neste final de
década, a porcentagem de crianças nascidas fora do matrimônio para as mães com
estudos universitários era de 6%. Os outros dois grupos experimentaram um
aumento, até 44% para as mães com uma educação média, e até 54% para as com
pouco estudo.

– A
porcentagem de adultos em idade de trabalhar com uma educação média que
permaneciam casados em seu primeiro matrimônio caiu de 73% os anos 70 para 45%
nesta década. Isso se deve comparar com a queda de 17 pontos no mesmo período
entre os adultos com estudos universitários e, de 28 pontos, entre os adultos
com pouco estudo. O que chama fortemente a atenção – observa o informe – é que
os norte-americanos com estudo médio e com estudo universitário dos anos 70
muito provavelmente estavam casados; agora, quando se trata das probabilidades
de estar em um matrimônio unido, é mais provável que o norte-americano com
estudo médio se aproxime do que não tem estudo.

– É cada
vez mais provável que os norte-americanos com estudo médio convivam em uma
união de fato em vez de se casar. De 1988 até agora, a porcentagem de mulheres
entre 25 e 44 anos que tinham vivido nessas uniões subiu 29 pontos para as que
tinham estudo médio – ligeiramente acima dos 24 pontos daquelas com ponto
estudo. Durante o mesmo período, as uniões de fato subiram 15 pontos entre as
mulheres que tinham estudos universitários. Quando se trata de uniões de fato,
de novo, o norte-americano com estudo médio se comporta de modo mais parecido
ao norte-americano com pouco estudo.

– O aumento
de divórcios e da educação dos filhos fora do casamento, nas comunidades de
classe baixa e classe média por toda América do Norte, deu como resultado que
cada vez mais crianças em tais situações vivam em lares onde não estão seus
pais biológicos ou acabem vivendo em lares de adoção, sobretudo se forem
comparadas com as crianças de lares com mais renda e educação.

Mudanças
culturais

Segundo o
informe, três mudanças culturais tiveram um papel chave no enfraquecimento do
matrimônio entre os norte-americanos da classe média. A primeira é uma mudança
sobre este tema, ao passar de ser socialmente conservadores, quanto ao
matrimônio, para mais permissivos.

A segunda é
que é mais provável que estes note-americanos adotem comportamentos que
coloquem em perigo suas perspectivas matrimoniais futuras. Isso inclui práticas
como um maior número de parceiros sexuais e mais infidelidade matrimonial.

A terceira
mudança cultural é que os norte-americanos com uma educação média cada vez se
parecem menos com quem tem estudo universitário, na hora de abraçar valores
tradicionais.

O informe
examina depois algumas outras mudanças culturais, como a queda na prática
religiosa e o aumento do desejo de uma “alma gêmea”, o que faz que o nível para
aceitar se casar esteja mais alto que antes. Resumindo o efeito dessas
transformações, os autores concluíam: “Um problema relacionado com este novo
modelo é que se quebrou o nexo normativo entre sexo, paternidade e casamento”.

Por que
deveríamos estar preocupados com essas mudanças no matrimônio, questiona o
informe. “O casamento não é simplesmente um acordo privado entre duas pessoas”.
“É uma instituição social básica, que ajuda a assegurar o bem-estar econômico,
social e emocional de inumeráveis crianças, mulheres e homens desta nação”.

O
afastamento do casamento por parte do norte-americano de estudo médio significa
que a vida das mães se tornou mais dura e que os pais têm-se separado de suas
famílias. O informe acrescenta que também tem como resultados problemas para os
filhos, com um maior número de abandonos na educação secundária e uma perda de
seu caminho na sociedade.

Se o
matrimônio converte-se em algo ao qual só podem aspirar os que já estão acima
na escala sócio-econômica, acontecerá, então, uma divisão social e cultural,
adverte o informe. “O casamento corre o risco de se converter em um bem de
luxo, acessível só a quem tem os meios materiais e culturais para obtê-lo”,
indicam os autores.

“Isso ameaça
a experiência democrática norte-americana e deveria preocupar todo líder cívico
e social de nossa nação”, advertem.

Proteção do
bem comum

Os líderes
religiosos também se mostraram preocupados pelo que está ocorrendo com o
casamento. No dia 6 de dezembro, foi divulgada a carta aberta The
Protection of Marriage: A Shared Commitment (A proteção do matrimônio: um
compromisso compartilhado). Uma nota de imprensa da Conferência Episcopal dos
EUA explicava que os líderes das comunidades anglicana, batista, católica,
evangélica, luterana, mórmon, ortodoxa, pentecostal e sikh nos EUA afirmavam a
importância de preservar o significado único do casamento.

“O amplo
consenso refletido nesta carta das grandes denominações religiosas está claro:
a lei do matrimônio não tenta impor a religião a ninguém, mas proteger o bem
comum de todos”, afirmava o arcebispo de Nova York, Timothy Dolan.

“O
casamento é uma instituição fundamental para o bem-estar de toda sociedade, não
só das comunidades religiosas”, afirma a carta.

A carta é
só o último passo de uma série de medidas da Conferência Episcopal
norte-americana para defender o matrimônio. Respaldar o casamento é o principal
dos cinco objetivos propostos pelos bispos como prioridades pastorais para o
próximo ano.

Uma das formas
de fazer isso é através do site Marriage: Unique for a Reason (http://www.usccb.og/marriageuniqueforareason/).
A página na internet oferece materiais para a educação dos católicos sobre por
que o matrimônio deve se promover e proteger como a união de um homem e uma
mulher. 

Consciência
da sociedade

O Papa
Bento XVI também expressou sua preocupação com a ruptura da família e da vida
matrimonial. “A Igreja vê com preocupação o cada vez maior esforço para
eliminar o conceito cristão do matrimônio e da família da consciência da
sociedade”, afirmava no dia 13 de setembro, ao receber o novo embaixador da
Alemanha na Santa Sé.

Nas semanas
posteriores, o Papa repetiu que se deveria defender a família e o casamento, em
seus discursos aos embaixadores da Costa Rica, Equador, Colômbia e El Salvador.

No dia 2 de
dezembro, ele falou de forma mais taxativa, em seu discurso ao novo embaixador
da Hungria.

“A Europa
não seria já a Europa se a célula básica da construção social desaparecesse ou
se transformasse de modo substancial”, disse, referindo-se ao casamento.

O
matrimônio se deteriora devido à facilidade do divórcio, à coabitação antes do
casamento e a introdução de novos tipos de união que “não têm fundamento algum
na história da cultura e do direito na Europa”, dizia o Papa. Palavras que se
poderiam aplicar não só à Europa, mas também a muitas outras partes do mundo.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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