As Seitas: Desafio Urgente

Os Bispos de Portugal, preocupados com o problemas das seitas em seu país, analisam as causas da expansão das mesmas; as seitas parecem responder à procura de solução rápida para dificuldades e angústias do homem de hoje; oferecem enquadramento comunitário aos deslocados, sem-lar; propõem algo de transcendente ao mundo farto de racionalismo e materialismo… Dito isto, os Bispos propõem medidas pastorais em resposta ao fenômeno: renovar as paróquias, reforçando sua índole de solidariedade entre os fiéis; fomentar a catequese, principalmente no que concerne às fontes da fé (S. Escritura, Liturgia, Tradição cristã) tornar mais viva e vivida a oração, especialmente a Liturgia; promover a nova evangelização, atingindo a cultura do país… O Documento dos Bispos de Portugal é de atualidade também para o Brasil, pois toca em vários pontos que afetam igualmente a vida da Igreja entre nós.

A Conferência dos Bispos de Portugal publicou, aos 27 de abril de 1995, uma Carta Pastoral sobre as novas correntes religiosas que invadem as sociedades contemporâneas na América, na Europa e em outros continentes. O Documento faz rápido inventário das ditas “seitas” atuais; examina as principais causas da sua expansão e propõe diretrizes pastorais sugeridas pelo desafio urgente. O valor de tal Carta ultrapassa as fronteiras de Portugal; tem seu significado também no Brasil, onde o problema é muito vultoso e exige respostas claras e urgentes tanto da parte do clero como da parte dos leigos católicos.

Eis por que, a seguir, publicamos os principais trechos do referido Documento.

O TEXTO DO EPISCOPADO PORTUGUÊS

Sobretudo depois da Guerra de 1939-45, surgiram em Portugal vários grupos ou movimentos religiosos, a que genericamente daremos o nome de seitas, algumas bem merecendo a designação proposta pelo Parlamento Europeu (Resolução de 22.5.1994) de “novas organizações atuando a coberto da liberdade religiosa”.

Por uma certa associação de idéias, é ainda de referir um novo surto de práticas supersticiosas. Vão elas desde os horóscopos e velhas bruxarias às práticas espíritas, mágicas e até demoníacas. Algumas reclamam-se de fundamento científico e alcançam audiência nalguns meios de comunicação social…

AS SEITAS HOJE, POR QUÊ?

A proliferação das seitas é hoje um fenômeno universal. As Igrejas tradicionais foram as primeiras a preocupar-se com ele, vendo as seitas como fatores de desorientação e divisão. Os procedimentos duvidosos, irregulares e até condenáveis de algumas seitas levaram os Estados a intervir, por vezes policialmente…

Também em Portugal as seitas são numerosas e diversificadas. Umas afirmam-se cristãs; outras provêm de diferentes sistemas religiosos ou espirituais, nomeadamente do Oriente; outras ainda baseiam-se em concepções filosóficas ou humanistas. As primeiras são, na perspectiva desta Instrução, as que mais interessa considerar, tanto mais que são aquelas que maior número
dos nossos fiéis atraem. Reclamam-se em geral da Bíblia, lida quase sempre de maneira fundamentalista, não raro acrescida de livros apócrifos e de mensagens dadas como “reveladas” ou “proféticas”.

Vivem muito da personalidade dos seus lideres. Carecem de um corpo de doutrina coerente e minimamente fundamentada. Mais que prestar culto a Deus, cerne da religião, procuram dar resposta às ansiedades dos que a elas acorrem em busca de solução para os seus males. Não faltam as que medem a “fé” dos seus aderentes pelo volume das ofertas recebidas. O acolhimento caloroso e o clima emocional que proporcionam, exercem sobre eles notável atração. O proselitismo e a propaganda, por vezes com o recurso a poderosos meios publicitários, conseguem largas clientelas. Não raro usam técnicas de manipulação psicológica e social.

As seitas atraem, sobretudo, as pessoas traumatizadas por alterações profundas de ordem psicossomática ou sócio-cultural. É o que em geral ocorre em caso de doença ou de desenraizamento familiar, profissional ou geográfico. Por isso têm êxito principalmente nos meios urbano e suburbano e nos tempos de mutação sócio-cultural.

Nestas circunstâncias, as seitas aparecem como salvadoras, oferecendo respostas diretas às ansiedades mais sentidas. E quais são estas ansiedades? Podemos considerar mais comuns as seguintes:

a) Necessidade de enquadramento comunitário, sentida nos sem-lar ou sem-família, nos deslocados, desenraizados ou sós. As seitas aparecem a oferecer-lhes atenção, acolhimento, fraternidade, calor humano, proteção.

b) Procura de resposta a dificuldades e angústias da vida. As seitas aparecem a oferecer soluções simples e pragmáticas, versões simplificadas ou parciais das verdades e dos valores tradicionais, intervenções “sobrenaturais” de salvação, e, se necessário, curas.

c) Desejo de Identidade pessoal e de integração cultural, num mundo volúvel, desconcertante e hostil. As seitas aparecem a oferecer experiências espirituais fortes, que, num aparente respeito pela herança religioso-cultural das pessoas, lhes deixam largo espaço à emoção, à espontaneidade, à participação, conseguindo mesmo a recuperação de situações de marginalidade ou de alienação.

d) Ânsia de afirmação pessoal, num mundo, mesmo eclesial, que dissolve a personalidade no anonimato da massificação e da burocracia. As seitas aparecem a oferecer consideração, oportunidade de expressão e de intervenção, sentido de pertença a um grupo de elite, experiência de compromisso e de responsabilidade.

e) Busca do transcendente, num mundo farto de racionalismo e de materialismo, estranhamente aberto ao misterioso, ao profético, ao escatológico, ao divino. As seitas (de ordem cristã) aparecem com a Bíblia na mão, com o apelo à oração e às mais profundas interrogações humanas, com a oferta de direção espiritual dum mestre.

ATITUDE PASTORAL

As seitas, causa de perturbação espiritual, discórdia e divisão nas comunidades e famílias cristãs, são um mal que Jesus Cristo anunciou como perigo constante na história da igreja. Já nos primórdios do Cristianismo elas foram motivo de grande preocupação para os Apóstolos, como se pode verificar nos escritos de S. João e de S Paulo. Nos tempos fervorosos da Idade Média, elas surgiram com força, tendo sido combatidas por santos pregadores e missionários de renome.

No discurso inaugural da IV Assembléia Geral do Episcopado Latino-Americano (S. Domingos, 12.10.92), João Paulo II deu particular relevo ao problema pastoral das seitas, que associa ao da secularização. “É urgente enfrentar a sua expansão agressiva”, diz o Papa, que a seguir denuncia os apoios financeiros ao seu proselitismo, como “estratégia visando destruir (na América Latina) a unidade católica”…

É obrigação dos sagrados pastores defenderem os fiéis dos perigos que para eles representarem as seitas. Por isso, não basta adverti-los. É necessário proporcionar-lhes uma catequese específica, baseada numa séria formação cristã de base. Essa catequese deve contemplar particularmente os seguintes conteúdos de fé, propostos de maneira clara, acessível e prática:

a) As fontes da fé cristã, concretamente a Bíblia, tida como a Igreja a lê, e o Magistério eclesiástico. Promover a iniciação bíblica do povo e fazer a divulgação criteriosa dos documentos da Igreja são medidas urgentes.

b) Visão da fé cristã sobre Deus, Jesus Cristo, a Igreja e a Graça, de forma a libertar os fiéis da concepção pagã da religião, como relação utilitária com o divino, para lhes dar a visão sobrenatural do projeto de Deus a nosso respeito. As seitas, em geral, oferecem uma visão redutora e mesmo falsa destas realidades transcendentes.

c) As fontes da vida cristã, nomeadamente a oração, a liturgia e os sacramentos, vividas na sua pureza e plenitude, sem expectativas mágicas.

d) O sentido cristão do sofrimento, da doença, da morte e da vida eterna, cuja falta dá origem às ansiedades a que as seitas oferecem respostas geralmente enganosas.

ALGUMAS PROPOSTAS DA IGREJA

Não basta, porém, denunciar as seitas e prevenir os fiéis dos perigos que elas constituem para a sua fé e salvação eterna. É preciso enfrentar o avanço das seitas com medidas pastorais bem pensadas e postas em prática com prudência e determinação. Aliás, reconhece o Papa, “este avanço põe em relevo um vazio pastoral, resultante da falta de formação que mina a identidade cristã das massas católicas, às quais se não tem prestado a devida atenção (…),a que as deixa à mercê do seu ativo proselitismo”.

Podemos perguntar: por que será que as seitas têm tanto poder atrativo, ao contrário do que parece estar a acontecer com a verdadeira Igreja de Cristo? É nisto que elas são um desafio à Igreja. A resposta a este desafio tem de começar a ser dada no âmbito da própria Igreja. Pressupõe uma renovação, ou mesmo uma reconversão pastoral – não será a isto que o Papa chama “nova evangelização”? – que, inspirada no Concílio Vaticano II, se processe principalmente em dois níveis: o da pastoral paroquial e o da cristianização do mundo moderno.

É ao nível da Igreja local, concretizada na paróquia, que a ação evangelizadora e santificadora da Igreja atinge a generalidade dos fiéis. É nela que estes têm direito de encontrar a Palavra de Deus, os sacramentos, a experiência de comunhão fraterna e a iniciação e educação nas práticas da vida cristã. Mas é necessário que a paróquia lhes prodigalize tudo isto de forma adequada às suas situações, necessidades e maneiras de ser, sentir, falar e viver.

Sem esquecer os progressos já conseguidos na renovação da paróquia entre nós, temas de reconhecer que, pelas dificuldades de superar imagens, linguagens e rotinas caducas, muitas paróquias só conseguirão cumprir bem a sua missão depois de um grande esforço de reconversão orgânica e pastoral. Tendo presentes as deficiências mais comuns ou mais relacionadas com o avanço das seitas, atrevemos-nos a propor as seguintes linhas de renovação ou reconversão paroquial:

a) Imprimir na paróquia forte dimensão comunitária, em muitos casos só possível se ela se transformar em comunidade de pequenas comunidades. Que a paróquia se torne comunidade de fé, de amor, de celebração, de missão: comunidade aberta, acolhedora, fraterna, viva, atenta a todos e aos problemas de cada um.

b) Cuidar muito da formação dos fiéis, pela evangelização, catequese, educação cristã, iniciação bíblica, litúrgica, apostólica, ecumênica. Que a formação seja contínua, insculturada, atualizada, de forma a permitir-lhes dar respostas de fé às interrogações da vida e projetar essas respostas nos ambientes e estruturas sociais. Recordamos a este propósito a nossa recente “Instrução Pastoral sobre a Formação Cristã de Base dos Adultos”.

c) Tornar mais vivas e vividas a oração e a liturgia, dando lugar à criatividade, à participação, à alegria, dentro da larga margem de liberdade deixada pelas normas litúrgicas. Que a pregação seja menos teórica e moralizante, e mais bíblica, vital e testemunhada; que a pastoral sacramental se purifique de quanto possa parecer magia.

d) Prestar renovada atenção às expressões da piedade popular, purificando-as dos aspectos espúrios e enriquecendo-as de conteúdos bíblicos, catequéticos e devocionais. Cultive-se uma esclarecida devoção aos santos, e particularmente a Nossa Senhora.

e) Responsabilizar pastoral e apostolicalmente os fiéis, preparando-os e enquadrando-os organicamente para o exercício de ministérios, funções e atividades apostólicas. Dê-se particular atenção à pastoral das vocações, como vertente necessária de todas as expressões da vida eclesial. Criem-se estruturas de diálogo e participação.

f) Renovar a imagem do padre (pároco), de maneira a aparecer sempre como homem de Deus, pastor, sacerdote, educador da fé, missionário. Que seja visto sempre afável, disponível, totalmente entregue ao exercício da sua missão de assegurar a unidade, e o dinamismo apostólico da comunidade paroquial. Desapareçam dele os traços de clericalismo e de autoritarismo, para que só brilhem os de pai, profeta e santo. Complementarmente, que ele e a paróquia se abram ao diaconado permanente, descobrindo a originalidade e a importância deste ministério ordenado.

Mas, como dissemos, não basta atuar ao nível paroquial. É necessário simultaneamente um esforço de cristianização do mundo atual, de modo a superar as disfunções que em grande parte estão na origem do presente êxito das seitas. Isto implica nomeadamente o que se vem chamando evangelização da cultura, segundo o pensamento da Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, entendendo a cultura no sentido que lhe dá a Constituição conciliar Gaudium et Spes (n.53). Desta evangelização depende o clima ambiental favorável à vida equilibrada, honesta, solidária e aberta ao transcendente para a generalidade das pessoas.

Esta evangelização da cultura é um dos aspectos específicos da nova evangelização, preconizada pelo Santo Padre com tanto empenho.

Ela compete a todos na Igreja, mas especialmente aos leigos e às instituições eclesiais mais ligadas à vida do mundo. Têm aqui lugar importante as diversas formas de apostolado laical e, particularmente, a Ação Católica geral e especializada, que urge, portanto, promover e dinamizar.

CONCLUSÃO

Sabemos que esta nossa reflexão carece de ser aprofundada, e que as conclusões e orientações agora propostas precisam ser concretizadas, para que levem à necessária renovação das nossas dioceses e paróquias.

Confiamos esta ingente tarefa aos nossos presbitérios, ao laicado comprometido, aos institutos religiosos e afins, e às instâncias diocesanas e nacionais da Igreja; e recomendamo-la muito particularmente à proteção e intercessão de Nossa Senhora, Mãe de Deus e nossa Mãe, Rainha e Padroeira de Portugal.

 Fátima, 27 de Abril de 1995.

Conferência Episcopal Portuguesa

QUE FAZER?

 O Documento dispensa comentários. É notório que aos 29, 30 e 31 de agosto pp., a convite do Pontifício Conselho para a Família, se reuniram na diocese de Petrópolis (RJ) cerca de quarenta peritos da Europa e da América Latina a fim de estudar o problema das seitas em regiões latino-americanas. Chegaram a conclusões semelhantes às da Conferência Episcopal Portuguesa. Todos percebem que o problema é urgente; não basta refletir sobre o mesmo, mas faz-se mister agir eficazmente a fim de consolidar a fé do povo católico. Todos, clérigos e leigos, devem sentir-se responsáveis pela resposta a dar às seitas, renovando suas instituições e, especialmente o seu testemunho de vida, pois muitas pessoas hoje dão mais valor à sinceridade e coerência de quem prega do que à Verdade anunciada. Deus fala à Igreja também por meio dos que estão fora da Igreja, fazendo ver aos seus fiéis a premente necessidade de assumirem fielmente seu lugar de sal da terra e luz no mundo (cf. Mt 5, 13-16).

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”

D. Estevão Bettencourt, osb

Nº 403 – Ano 1995 – p. 530

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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